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Bom dia, poetas velhos
Bom dia, poetas velhos.
Me deixem na boca
o gosto de versos
mais fortes que não farei.

Dia vai vir que os saiba
tão bem que vos cite
como quem tê-los
um tanto feito também,
acredite.
– Paulo Leminski, do livro “Caprichos e relaxos”. 1983.
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Leia mais: https://goo.gl/ssyXwo

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Lições
Não aprendi a colher a flor
sem esfacelar as pétalas.
Falta-me o dedo menino
de quem costura desfiladeiros.

Criança, eu sabia
suspender o tempo,
soterrar abismos
e nomear as estrelas.
Cresci,
perdi pontes,
esqueci sortilégios.

Careço da habilidade da onda,
hei-de aprender a carícia da brisa.

Trêmula, a haste
me pede
o adiar da noite.

Em véspera da dádiva,
a faca me recorda, no gume do beijo,
a aresta do adeus.

Não, não aprenderei
nunca a decepar flores.

Quem sabe, um dia,
eu, em mim, colha um jardim?
– Mia Couto, em “Idades cidades divindades”. Lisboa: Editorial Caminho, 2007.
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Leia outros poemas: https://goo.gl/VDgwsy

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"O senhor não pode estabelecer em sua ideia a minha tristeza quinhoã. Até os pássaros, consoante os lugares, vão sendo muito diferentes. Ou são os tempos, travessia da gente?"
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- João Guimarães Rosa, em 'Grande Sertão: Veredas'. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
https://goo.gl/KtISQx

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A mudança
Mudo todas as horas.
E o tempo, sem demora,
muda mais do que fia.

Mudo mas permaneço
bem longe das mudanças.
Como uma flor, floresço.
Sou pétala e esperança.

Mudo e sou sempre o mesmo,
igual a um tiro a esmo.
Como um rio que corre.

Sem sair de onde estou,
de tanto mudar sou
o que vive e o que morre.
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- Lêdo Ivo, in "Plenilúnio", 2004.
https://goo.gl/pBZVqr

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11 - FRAGMENTO DE CANÇÕES E POEMAS
Aqui: ardo e maduro.
Compreendo as azinheiras.
Compreendo a terra podre e fermentada
De raízes mortas.

Compreendo a presciência do fruto
Na carne intocada.

E assisto crescerem
Frescos, nessa carne, os teus dedos.

Compreendo esse garfo na terra
A germinar ferrugens
Sob laranjais…

E o grão que semearam na pedra.
E mais: os troncos rugosos
Pendendo suas bocas para as águas.
- Manoel de Barros, no livro "Poesia" (1947), em 'Poesia completa: Manoel de Barros'. São Paulo: Editora Leya, 2010.
https://goo.gl/kvI0aJ

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www.palavradehermilo.net.br/ebooks-palmares-e-o-coracao/

PALMARES E O CORAÇÃO (Crônicas)
- de Hermilo Borba Filho
(Panamerica Nordestal Editora, Recife, PE, 2013, 2a. edição, póstuma)

ACESSE. BAIXE O ARQUIVO. O EBOOK É TODO SEU !


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http://www.facebook.com/JuareizCorreya

SEMANA HERMILO 2017 EM PALMARES

"Hermilo Borba Filho - 100 Anos (1917 - 2017)"

- Nesta página, acesse as informações sobre a sua realização,
de 17 a 29 de julho, na Biblioteca Pública Fenelon Barreto, Estação
Cultural dos Palmares / Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba
Filho, Escolas Estaduais e em Praças Públicas da cidade onde o
escritor centenário nasceu.
___________________________________________________________
Realização :
GOVERNO DO ESTADO DE PERNAMBUCO / PREFEITURA DO RECIFE - CENTRO APOLO-HERMILO / PREFEITURA MUNICIPAL DOS PALMARES - FUNDAÇÃO
CASA DA CULTURA HERMILO BORBA FILHO

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"Brasil...
Mastigado na gostosura quente do amendoim...
Falado numa língua curumim
De palavras incertas num remeleixo
melado melancólico...
Saem lentas frescas trituradas
Pelos meus dentes bons...
Molham meus beiços que dão beijos
Alastrados"
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- Mário de Andrade, fragmento do poema "O poeta come amendoim”. em: Clã do jabuti, 1927.
https://goo.gl/e1U8kF

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Hoje é o centenário do poeta Manoel de Barros!
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Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem. Quando eu era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba. Mas não havia vizinho. Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto.
Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação.
Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era o menino e as árvores.
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- Manoel de Barros, em "Memórias Inventadas para crianças". São Paulo: Planeta do Brasil, 2006.

https://goo.gl/bjLsJd

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"O senhor vê: o remôo do vento nas palmas dos buritis todos, quando é ameaço de tempestade. Alguém esquece isso? O vento é verde. Aí, no intervalo, o senhor pega o silêncio põe no colo."
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- João Guimarães Rosa, em "Grande Sertão: Veredas". Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1994.
https://goo.gl/ukcB9F
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