Encontro Retardado.
Todos dias de manhã
Me romas a mente
E vadio sem horizonte
Pra te encontrar
Esquinada no meu caminhar
Ah...ai se perde meu juizo
Na busca incansável do seu olhar distante
E me pergunto o significado
De tanto [ te amar ] amar-te querobim????
E porque te ocultas sem pensar
Na dor desse coração sofrido [ sofredor ].
Todas horas, sua presença
Testa a minha fraqueza desejando
Ligo te, só pra dizer te um " oi "
Com desejo único de perguntar:
" A que hora será o nosso encontro?"
E o vento me responde silenciosamente:
" Até próxima semana".
Me arrependo por ter consultado
O que minha mente já se acustumara.
Todas madrugadas
Me tomas a mente
E viro dependente
Da sua face ausente
E do seu amor orgulhoso.
Me tomas em todos instantes
E me perdes na certeza de buscar-te...
E ai me pergunto:
" Será que todo amor é assim?
Como o seu por mim?
E o meu por ti?
Não quero respostas
Pois outros são felizes
Com e vivendo seus amores
E eu apenas lamentando
Sua maldita ausência LIRHANDRU.
05.08.2014
O Poeta dos Amores.

Post has shared content
DA LINGUAGEM (2)

Pelo que vivi e me pergunto - o que falo? - Reparo  que a linguagem é uma expressão de como sou, dos meus caracteres,  tendências e consciência; não obstante, revela-se pela acção. Esta acção, encerra em si um poder, expresso magnificamente num ditado que diz  “Quem com ferro fere com ferro será ferido”, ou seja, recebemos aquilo que damos.
Mas essa acção faz parte também da consciência, é sujeita e subordinada a causas, condições e mudanças. Daí poder dizer que a consciência que tinha do mundo na adolescência, por exemplo, não é a mesma que, com a experiência que adquiri na vida, tenho  na idade adulta. Por tanto, é visível como a consciência tem uma continuidade, sendo, esta mesma consciência, consequência do instante anterior.
Ainda que haja uma relação fisiológica entre o corpo e essa mesma consciência, há, contudo, uma verdade e uma força impulsionadora por trás. Assim, o corpo é a base material da consciência, mas não a consciência. Do    mesmo modo como o sangue é a base material da energia, porque para o sangue correr nas veias tem de haver energia,  também  a consciência, para se desenvolver, precisa de ter uma base material, que é o corpo. Portanto a relação é  indissolúvel.
Essa qualidade de relações passa-se  connosco a diferentes níveis. Somos seres que nos definimos através de processos de relação. As nossas identidades são impossíveis de descrever por si próprias, mas apenas como forma de relação. A linguagem, no seu sentido mais amplo, é, pois, a forma de nos interrelacionarmos. É  o sistema que usamos para comunicar. A sua função expressa-se pela maneira como cada pessoa organiza conscientemente e inconscientemente a sua emocionalidade e escolhe, através da linguagem, a mensagem que quer transmitir. 
Esta mensagem pode ser expressa de diversos modos, quer por imagens, quer por palavras, por ideias ou conceitos. É, então, num processo de relação que a linguagem deve ser olhada, sendo o conceito (conteúdo da mensagem) a expressão da construção da representação orientada pelas palavras que o constituem. Resumindo, o conceito representa o objecto da representação da linguagem.
O conceito, na sua maior abrangência, quer dizer: tudo o que se concebe. Como tal, deve ser  compreendido como construção mental. Através  da palavra, da ideia, da imagem ou outros transmite as qualidades e as características que o compõem.
 Todavia, quando proferido, escoa-se por si só, quer pelo tempo, quer confrontado com outro conceito. E é esta a sua contradição e a sua brevidade. Contradição, porque é sujeito a reformulações, senão antíteses; brevidade, porque não tem uma causa substancial.   
Mas é na representação do conceito representado que a linguagem encontra as maiores dificuldades, porque, pela sua natureza, a representação também não tem existência própria, mas, antes, uma existência relativa. A representação que, em si, é a expressão do que é já projectado (o conceito), funciona em relação a um ponto de referência externa onde o conceito representado (construção mental) não é mais do que uma projecção daquilo que não é passível de se entender correctamente (consequência da visão dualista). Daqui o facto de ser discriminatório e estar sujeito a ser constantemente aceito ou rejeitado. E este é o paradoxo e o limite do pensamento dualista.
Esse pensamento induz-nos a dissociarmo-nos da nossa emocionalidade ao invés de nos dissociarmos das nossas emoções,  levando-nos à necessidade de estarmos permanentemente a analisar, a validar e a confirmar as nossas razões, para justificar a nossa existência,  criando uma falsa imagem do que tomamos por realidade  e  dando-nos uma versão fragmentada e individualista de nós e do mundo como consequência do não reconhecimento dessa força impulsionadora a que chamamos vida. A linguagem, em sua linearidade, é, pois, a o veículo do pensamento dualista.
 Mas a linguagem vai além da escrita e da fala. Dela faz parte a linguagem não-verbal.
Poderemos dizer que a percepção (que tem como significado: acto ou efeito de perceber; recepção) é a expressão de alguns aspectos da linguagem não-verbal, dos quais destaco dois possíveis de reconhecer por todos nós. 
O 1º como consequência da nossa experiência. O 2º como consequência do poder expresso pela nossa consciência ou pela nossa visão particular.
No 1º caso, o que eu sei e o leitor sabe, pelo que vivemos e porque chegámos a uma mesma conclusão, fruto da nossa experiência, encontrámos a mesma verdade, e por isto nos é comum o seu reconhecimento. Não precisaremos de palavras para descrever. Basta-nos o silêncio quando, nós dois,  simultâneamente, nos deparamos perante essas circunstâncias e situações externas específicas. 
 No 2º caso, não pegamos num ferro em fogo porque sabemos que nos queimamos. Ao depararmo-nos com este facto surge em nós uma neutralidade, até não consciente. Por fracções de segundos, olhando-mos o ferro, ficamos livres de qualquer juízo, sem algum conceito ou emoção, senão em silêncio. 
É um momento de receptividade, nada nos leva a formular qualquer acção. Aceitámos a realidade com que nos confrontámos. 
De idêntica maneira o mesmo acontece-nos no dia-a-dia, e sem nos apercebermos, sem tomar posições de qualquer espécie, num repente, encontramos as coisas que nos preenchem, o êxito numa tarefa, um namorado novo, ou namorada, quando menos o esperamos, o telefone a tocar quando pensamos em alguém. E esse é o acto de criar. Manifesta-se pela satisfação a satisfação interior, a que não está sujeita à satisfação dos sentidos e que os artistas conhecem bem e o público que aprecia as obras de arte reconhece.
A arte é, pois, esta expressão da criação, e a receptividade a característica da percepção. Quanto  mais livre da conceptualidade e das referências externas estiverem os nossos pensamentos e a nossa emocionalidade, mais acessível é o nosso entendimento e compreensão, e maior é a expressão artística.
Daí que, compreender como os dois casos descritos acima, se  interrelacionam indissociáveis no nosso âmago, rececpcionando e interagindo  com o mundo exterior, através da estrutura da linguagem linear e na sua inter-relação com a linguagem não-verbal, permite-nos expressar a elaboração de  conceitos, o desenvolvimento de ideias, as opiniões, a ampliação da  compreensão e do entendimento  que dependem de um só aspecto: o nosso grau de discernimento.

Post has shared content
Os factos por si só não são importantes, reconhecer para onde nos levam é aproximarmo-nos da nossa própria essência - e longo é o caminho.
                                                                                         Paem Eçáré cap. 2

Post has shared content
Os fatos por si só não são importantes, reconhecer para onde nos levam é aproximarmo-nos da nossa própria essência - e longo é o caminho.
                                                                                         Paemaçáré cap. 2

Post has attachment

REGIÃO LETERÁRIA
Uma região literária poderá ser aquilo que caracteriza o que um determinado grupo tem de comum e, mais do que qualquer espaço físico, estamos a falar sobre uma origem cultural e  sobre um denominador comum. Portugal, malgrado o preconceito provinciano ou o temor de uma perda de identidade, poderia estar mais próximo, nos dias atuais, da literatura latino-americana e dos países de expressão portuguesa, porque nesta ainda existe uma genuinidade e uma vivacidade.
Mas toda a opção não passa de uma escolha e todo o caráter vinculativo é transitório pelo simples facto de que um dia também acaba. Não há em nada disto algo de absoluto ou eterno. Aliás, não creio existir algum modelo latino-americano, antes percebo haver  tendências, talvez estéticas; todavia serão os leitores a determinar a sua permanência. E para não falar do que não sei, prefiro dizer o que gosto na probabilidade de, antes demais, estar bem com o meu coração e com o que escrevo.
A condição humana é com certeza o meu tema preferido. Talvez pelo momento que atravessamos o aspecto emocional  que é o que, no meu entender, melhor caracteriza a nossa natureza,  também é a nossa maior dificuldade. E por muito que se fale das emoções, é difícil compreender e aceitar  como qualquer emoção é instável e vazia de conteúdo; elas fazem parte da nossa natureza, mas não o são de facto. Reconhecer a sua transitoriedade em consequência das circunstancias e das situações  com que nos deparamos no quotidiano, é, quem sabe, um dos nossos maiores desafios. Por tudo isto, e porque também sou gente, qualquer coisa que escreva é sempre uma viagem através das emoções, dos sentimentos e das sensações.
A beleza de um texto está, acredito, no sentimento que desperta e na mensagem que transmite. Provavelmente  sou um chato, mas não me interessam mensagens muito bonitas ausentes de um conteúdo vivenciado; prefiro as que nos levem a pensar, a fazer até uma introspeção - que nos abanem e nos retirem dos pontos de conforto sedentários e preguiçosos.
Mas a beleza está também na estética. Sempre gostei de uma pontuação clássica.  Por gosto pessoal agradam-me textos curtos, dinâmicos e diretos;  narrativas fragmentadas, descritivas  e com um estilo de escrita livre na construção, mas sintética, que em meia dúzia de palavras consiga transmitir ou narrar algo.

A IMPROVÁVEL CRÓNICA DE UM MANUSCRITO



      Há histórias que não têm história nenhuma. Fantásticas, omniscientes e subtis, outras, nem tanto. Algumas são verdadeiras, vividas, intensas. Outras, uma metáfora, uma figura de estilo. A que vou contar, deixo ao vosso cuidado e percepção pô-la em prática.
     
      O episódio é actual, difere dos outros pela improbabilidade, mas convém reconhecer que há coisas na vida que, estando tão há frente de nossos olhos, também é improvável vê-las. 
     
      Aconteceu em Setembro último, talvez em Março. Não sei. Um amigo acabara de viver uma experiência única outrora, mas comum no futuro, sugeria o manuscrito. A descoberta deixara-o surpreso e sem qualquer coincidência ou obra do acaso. 
      
      No espólio de um poeta e escritor, tinha sido encontrado um pergaminho sem data definida e origem desconhecida. Nunca foi mencionado por ninguém ou a ele se referiu. O poeta há muito tinha morrido. A letra era cuidadosamente desenhada, o papiro, de excelente qualidade. O que chamava a atenção, quando me foi mostrado, era a sua atemporalidade; por meu lado, a expressão “psicologicamente amadurecido”, pela primeira vez, na vida, ganhou sentido.
     
      Estava em português actual, quem sabe para que não houvesse erros de interpretação. Na época, falou-se à boca fechada, que um antropólogo de origem espanhola, veio de Madagáscar, onde residia, conhecer um documento pelo seu inestimável valor. De Eugéne, era assim que se chamava o antropólogo, nunca mais ninguém falou. Posteriormente, soube que o lera, chegando mesmo a comentar o excelente francês em que estava redigido. 
     
      Na ocasião, esse meu amigo confidenciou-me que o texto foi encontrado entre as páginas rascunhadas de um poema messiânico de inspiração celta. Talvez por esse motivo tenha passado despercebido ou tivesse o poder de ficar guardado até que as mãos certas o encontrassem. Aludiram ainda a algo sobre uma mensagem, mas não tomei atenção.

      Numa linguagem muito simples o manuscrito descrevia a diferença entre encontrar um caminho espiritual e permanecer nele. Se por um lado, sem devoção, não parece ser possível encontrar o caminho, sem a prática da meditação, no contexto a que o texto referencia, é pequena a probabilidade de permanecer nele. E chamava atenção, também, para que, sem devoção não há possibilidade de levar a meditação a bom porto. 

      De algum modo me revi, comentei mais tarde. Não estou certo que tenha escolhido o caminho. É uma questão de preserverança. Mas também é certo que ainda não estão criadas as condições. Então, aguardo.

      E enquanto espero não descanso. Voltei a recordar a Lama, do que me escreveu e me disse. À medida que lia o manuscrito as palavras dela faziam eco em minha cabeça. Como pessoa, tem a sua personalidade e age como qualquer outra. 

      Eu já tinha reflectido sobre a personalidade do Mestre e aceito como ela, ainda que nem minha professora seja, vivendo aqui e agora, não pode libertar-se dessas particularidades, porque elas fazem parte dos nossos caracteres humanos. Em contrapartida, posso-me libertar de tomar os caracteres da personalidade como reais e absolutas. 

      O documento fazia, neste capítulo, uma descrição maravilhosa, não só reforçou a minha preposição, mas deu a saber, com uma maior clareza, como nos poderemos libertar de permanentes conceitos e pré-juizos que fazemos de nós, dos outros e de tudo o que está à nossa volta. Deixando de olhar, por exemplo, para as características de personalidade da Lama e ver apenas a mensagem que ela transmite, o ser espiritual que existe. 

      Aos meus olhos ela é a manifestação de Aria Tara, a forma feminina de Buda. Não porque o seja, mas porque é essa a imagem que tenho, obviamente efémera e transitória. Não tendo de ser verdadeira ou falsa, ela é sagrada. 

      A esse propósito, no texto podia-se ler: “ … A reflexão sugere a inspiração criadora” … “Dá-nos um sólido sentido e perspectiva a libertação” … “Compreender a devoção, é entender o modo como nos proporciona uma total abertura para o auto conhecimento – uma total devoção dá-nos a possibilidade de uma completa transformação espiritual e a oportunidade de viver em compaixão – … e a esperança na realização.” 

       Ao ser tocado pela singeleza daquelas palavras escritas a cuidado, recordei-me de um momento que me impressionou. Foi quando senti no coração a expressão sagrada da existência e a urgência na realização.
 
Em consequência do que tenho aprendido através da observação e da reflexão, recordo quando perguntei à Lama sobre a natureza absoluta e a natureza relativa. Foi com a receptividade de uma criança que recebia sua correspondência:

Caro  MJ. 
Eu sugiro que vá ao encontro de nosso grupo de BH e na medida do possível  participe das práticas junto com eles, aquelas das quais você possa participar, já que algumas requerem iniciações que talvez você não tenha.  Que ouça os ensinamentos dos Lamas que vierem para BH. Porque é necessário ter o acompanhamento de um professor.
Meus melhores votos
SL

      Compreender a relação entre a realidade absoluta e a relativa é fundamental. Apreender como nós somos, o que é o nosso carater, o que é a imagem que temos de nós proprios, é relativo. Ou seja, tudo aquilo que a partir de nossa concepção e percepção temos como real é de facto relativo sem uma consistência e natureza própria. Nem as coisas que construímos, a casa, a fábrica, a empresa são eternas, razão porque podemos dizer que é uma realidade relativa. É relativa a concepção que se tem do dinheiro, da bolsa de valores, do capital, e até dos pensamentos, emoções e sensações. Então perguntar-se-á qualquer pessoa, “se tudo é relativo, o que é absoluto e real?” É real enquanto temos de  viver para aprender o de facto é transitório. Tem uma época e uma duração, seja pela erosão do tempo, seja pelo que fôr, um dia acaba. O segredo é não tornar uma realidade relativa em uma realidade absoluta, mas entender a diferença, e essa diferença só pode ser entendida de uma forma simples quando sabemos que existe algo dentro de nós que é permanente, sagrado, indissociável.. 

       Então perguntar-se-á se não é verdadeiro: “como vivemos e em que acreditamos?”  O manuscrito refere esta passagem deste modo: “ … Vivemos  pensando de uma maneira diferente, porque sempre vivemos até hoje pensando no momento passado ou no instante futuro … é deixar ir e vir os pensamentos sem os prender no passado nem os projectar no futuro... nem ficamos agarrados a qualquer emoção de alegria ou de tristeza, nem dando importância às boas e às más situações e circunstâncias da vida.

      Hoje uma pessoa simples virou-se para mim e disse:
      - Eu acredito na justiça de Deus. 
      Ao que respondi: 
      - Prefiro pensar que essa justiça está no nosso coração. Mais não quis dizer, e ele entendeu a sua maneira:
      - Não conheço nenhum que não as tenha pago nesta vida.

       O seu comentário fez-me voltar ao instante que fiz o inventário dos meus comportamentos. Interpretar as emoções negativas subjacentes parecia-me uma tarefa infindável, interminável inconsequente, perpétua; às vezes inútil, mas não desisti. O segredo foi não olhar para o que me aconteceu ao longo da vida, mas para o que sentia, sem factos exteriores. Para o que sentia, como sentia, quando sentia e porque o sentia. 

      Foi assim que apreendi como eu não sou quem me vejo ser, mas uma construção mental e uma projecção de minha percepção, onde cada problema que tenho, como se pode ler no manuscrito: “ … se dá referindo a causa e as condições. Quando as causas e as condições mudam, o problema muda ou desaparece”.

      Ao reflectir sobre causas e condições, o texto dizia: “… Sem um Mestre nenhum homem atingiu a realização… A percepção comum não permite a realização ”. 

     O mundo da psicologia parecia-me demasiado pequeno para dar a resposta. A observação que fiz levava-me a ganhar uma prespectiva diferente. 
Vislumbrar as possibilidades que tinha, deixara-me entusiasmado e necessitado de seguir em frente. Era uma urgência. O texto chamava também a atenção para esse pormenor, e quando acontecia. 

     Passadas umas semanas, contava-me aquele meu amigo, que o manuscrito desapareceu. 
     - Juro que li o que estou te dizendo – inflectiu ele –. O texto falava que o modelo descrito era propriedade dos homens, a “realidade absoluta” podia-se apresentar aos olhos das culturas com diferentes nomes, para uns era Deus, para outros Brahma e ainda para outros de Natureza da Mente...

     Outro dia estava com um jornal aberto. Uma pequena notícia chamou-me a atenção: No México foi encontrado, num “pueblo”, um manuscrito com características idênticas. Era um pergaminho sem data definida e origem desconhecida. A letra era cuidadosamente desenhada, o papiro, de excelente qualidade. O que chamava a atenção era a sua atemporalidade.

INVICTA


    Invicta, cidade adormecida, cidade a que cheguei um dia. Nela, uma infância e uma adolescência; enfim, um passado que a vida não esquece em sua memória e último adeus.
    Sim, vou partir. Quebrar talvez os laços que me ligam, numa comunhão de outrora, a esta terra repleta de memórias e inscrições que, sob a globalidade da paisagem ou através de cada rua, pessoa ou árvore, transporto numa labuta constante dia após dia.
   Minha vida é como se um rigoroso inverno tombasse sobre a alma. A lucidez que possuía esgotou-se. Tão pouco sei o que sinto e meu pensamento é desordenado. Estou perdido. Aquilo que fora regozijo é agora um secreto sentimento de caos, da dor dos dias de uma limitada permanência e solidão, transportando de angústia a amargura. Esqueci, de um insondável mistério, a ânsia do desvendar de uma serra / cidade que vive em mim – sua excelência esvaiu-se, seu significado perdeu-se. Como testemunho, restitui-me ao desassossego de ser e ao desconforto de estar – devolvi-me à morte e, quem sabe, se à vida. 
    A coisa alguma de conhecido pertenço, e aqui não mais procuro do que aproveitar a oportunidade de viver. Meu pai não é meu pai nem minha mãe a verdadeira mãe. Se a mulher que me depôs sobre a terra não me pôde deter impreterivelmente em seu ventre, como poderá Invicta me deter hora ante hora em seu seio?
    Porque distante das fronteiras que me prendem e segregam, como à beira de um rio, foi construída uma ponte ligando ambas as margens; portanto, acredito na vida, creio nas sempre possibilidades existentes no decurso dos seres. 
    De tempo resta-me a aventura ou a possibilidade de ir mais além; o espaço que perdura esgotou-se e, em algum lugar, antecipadamente alguém apela por mim se ao destino só o destino compete realizar-se.
    Para trás deixo apenas um olhar e o expirar dos últimos momentos. Chegou a hora de viajar para que, na morte de um passado, veja como a vida é eterna. 

    Foi deste modo, soube, que se despediu. 
    Conheci-o sem acaso nem por coincidência tempos atrás. Na trivialidade de outra cidade, em outro momento, em alguma probabilidade.
    Eu tinha desembarcado recentemente naquele lugar. As perspectivas de uma cidade que há anos não visitava permitiram-me vaguear pelas ruas, observar as pessoas, percorrer os bares.
    Vivia-se numa madrugada de sábado e respirava-se entre o hálito da cerveja e o fumo dos cigarros espalhado pelos cinzeiros. As vozes entrelaçam-se por intermédio dos sorrisos, das gargalhadas, das discussões. Numa música de fundo ouvia-se Led Zeppelin.
    A fúria de um universo intacto estava ali mesmo a meu lado. A animada conversa e as bebidas depressa me levaram ao influxo desse mundo ileso.
   Acabara de conhecê-lo – aquele que de Invicta caminhara errante.

    De pessoa para pessoa, de característica para característica, este homem ocultava a indomesticada emoção da sede de viver, do gosto de comunicar e dos pequenos prazeres que dão sentido à vida.
    Por isso ele estava ali, no meio dos homens. Gostava de falar com eles, senti-los. Atrás de si, Azara, cujos olhos perscrutavam a cada instante os seus, absorvendo, cheia de atenção, qualquer palavra ou gesto que ele proferisse. E assim perdiam-se os dois, loucamente, num mútuo encontro.
    A noite galopava para a divergência lunar. O pub fechara e os charros  sucediam-se através da paisagem corrida à velocidade do automóvel.
    Às primeiras horas da manhã resolvi viajar, abandonar a cidade que me havia dado, numa noite maravilhosa, o conhecimento de novas gentes e a esperança de um jovem escritor.
    Passara-se desde então um ano. Na hora em que regressei àquela outra cidade o sol escondia-se no meio das nuvens. Estava diferente ou pensava eu vê-la diferente. As pessoas e os carros, tudo se movia na agitação dos grandes centros urbanos, como da última vez, quando um carro parou defronte a uma estação dos Caminhos-de-ferro.
    Também como na antecedente visita atravessei os quarteirões principais vendo as montras, o tráfego, o compacto humano da vida quotidiana. Porém, neste revisitar da cidade o mar existia na recordação duradoura da órbita terrestre, o que me levou ao desejo de o rever. Para isso apanhei o elétrico e desci próximo a um café onde costumava lanchar. Como por um hábito, ou falta de imaginação, lembrei-me de pedir um café. O dia estava frio apesar das nuvens se terem dissipado.
    Por sobre o ombro descobri alguém familiar quando tentava avistar o oceano. Fixei-o de perfil e reparei como ele conquistara um não sei quê de grave, acompanhando-o a indiferença dos homens que sofreram bastante. Nada parecia interessar-lhe ou querer ver. Antes pelo contrário, pressupunha um sustentar de tudo quanto é permitido gozar. O rosto era sereno e uma quietude presumia, às vezes, emanar de si. Afigurava-se não ter pressa de nada ou possuir fosse o que fosse.
    Consoante as bocas revelaram posteriormente, acerca deste homem, os dias seguiram-se a outras tantas noites e as portas do quarto fecharam-se. Raramente saía. O desespero apoderou-se de seu ser consciente e, por uma fresta, esgueirava-se ainda uma inocência, uma esperança – continuava a acreditar na vida.
    Atrás da porta do quarto permanecia horas¬ num tom sinistro, conquanto de demasiado humano, olhando a penumbra do corpo que a luz mortiça de um candeeiro desenhava diante do espelho. Jamais se soube de cujo pensamento fluía.
    Das poucas vezes que vinha à rua – uma mulher dizia-me há semanas – o ambiente circundante tinha para ele a dor, a derradeira dor de uma repulsa, de uma existência que o limitava, mas na qual acreditava, transparecendo-lhe em todo o ser um comportamento quebradiço perante o frágil, imprevisível e terrífico que é o mundo. 
    Falava a ninguém, unicamente observava as pessoas com a ansiedade de quem espera algo delas ou lhes dirige o olhar num pedido de quem quer falar e não pode.

    Tais eram suas noites, entretanto que deambulava pelos bares. À parte isto, as feições inclinavam-se sobre a cerveja e a decoração dos estabelecimentos, enquanto que, em seus olhos, mantinha- se a indiferença do desespero que faz conforto na angústia e na incomunicabilidade que o acompanhavam.
    O mar elevara-se finalmente e as pupilas espraiavam-se no deslumbre. Em redor, essa pessoa que eu conheci, era agora dissemelhante. Fez-me desviar novamente a atenção do mar, olhando-nos. O seu olhar era profundo. Senti-o como uma enorme emoção de poder para a qual nada me era permitido esconder, tornara-me nu e indefeso na sua presença, vendo-me como um boneco de trapos à sua inteira disposição. Não sabia como me comportar e, enquanto travava este conflito absurdo, ele dizia-me:
    - Sim, reconheci-o.
    O cumprimento continha uma frieza que me havia deixado estupefato. Sequer me estendeu a mão para me cumprimentar. Da tão consternante deprimência soltarasse-me um “Como está?” nervosamente atenuado com um golo de café. Terminado este, para surpresa, fui convidado, num gesto, a abandonar o local.
    Caminhamos à beira-mar no dizer do oceano. No tom divagador de suas frases solenes e metricamente compassadas, disse-me por fim: 
    - O mar é como um sonho… de suas entranhas… – e mudando subitamente de acentuação. – Sabe? Vivi muito tempo em contato com a terra.
    As suas palavras encerravam a descrição de uma existência. E continuou:
    - A beleza… – e mudando de tom novamente – É muito importante escolher a paisagem de que necessitamos. Ela educa-nos. Eu mesmo escolhi a minha. Acredita?
    Quis responder, mas ele falava com se nada tivesse perguntado.
     - A paisagem exerce um fascínio próprio sobre cada homem, contudo, o seu significado espaçasse-nos. Ela exercita-nos e depois persegue-nos como se…
      A voz ficara suspensa e o mar escondia-se agora à nossa frente. Da tonalidade e limpidez das águas disfarçava-se um mistério, um segredo que da vida submergia nas profundidades dos continentes sem memória, despontando da espuma que dormitava volátil virada para o céu. Ao longe, o mar galgava as rochas, terrífico, avassalador.
    - Conhece a morte?
    - O quê?
    O espanto causado pela pergunta traíra uma vez mais a minha ignorância; não obstante ele falava como se coisa alguma tivesse ouvido.
    - Digamos; essa beleza que discernimos e nos toca o íntimo, essa sensação estética que nos fascina e com o qual comungamos através da paisagem é a lembrança de um além senão a própria chamada para a morte. Por isso desfrutamos a beleza e chamamos-lhe vida.
    Ele fez um silêncio enquanto observava, de olhos flamejantes, o sol poente.
    - Cheguei a esta cidade há muito tempo. Tive projetos, tive sonhos. Conheci gente. Muita gente mesmo. Depois… Depois já nada me prende a esta terra. Costumo vir até aqui. O mar atrai-me. Sinto-me como se fosse o próprio ou vivesse numa cidade longínqua entre a terra e o céu, o sol e o nevoeiro, as árvores e as casas antigas.
    Novamente se fez um silêncio. Ele olhava no mar distante não sei o quê. Como fez em todo o percurso, eu sabia que ele ainda não tinha falado comigo uma só vez ou tão pouco travava qualquer monólogo. As suas palavras dirigiam-se, lá longe, a alguém ausente e, de olhos presos na terra, quanto no mar, prosseguiu:
    - Quando era mais novo – e a voz vibrava-lhe, – dos longos monólogos absorvidos de idéias, conjecturas e certezas via, pungente, a dor e a morte de uma juventude. Hoje, ah! Aceitar cada qual seu destino não é resignação, mas um ato de contentamento perante a vida.
    Do dia restava a penumbra, a silhueta das coisas e o mar. Os pés pisavam ainda a areia úmida quando uma voz cortou o ar:
- Ah! Se pudéssemos, ao menos, avistar o lado obscuro da lua!
Wait while more posts are being loaded