O Ontem, o Hoje e a Incerteza

Andasse dentro dos limites
pisando apenas
o chão já pavimentado

E talvez 
não tivesse
os pés arregaçados
de espinhos
e de cacos de vidro,

Mas talvez,
ainda ignorasse
os lugares onde 
já me deslumbrei;

Usasse mais os ouvidos
ouvindo mais
e duvidando menos

E talvez,
a Vida não estapeasse tanto
quanto estapeou,

Mas talvez,
nada soubesse
sobre convidá-la
aos armistícios
e não a prezasse tanto;
 
Fosse menos teimoso
e arrogante, menos descuidado,
menos obstinado e respondão,
fosse menos cínico,
fosse menos tanta coisa

E talvez,
tudo fosse mais tranquilo
e não houvesse tanto
para meu vexame e dor,

Mas talvez,
nada houvesse
com que me orgulhar
e fosse apenas conformação
e não essa conquista
ser quem agora sou.

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Sobre Ferroadas

Chegando à colmeia, que é o passado,
Atrás do mel das boas recordações,
Meti o braço rápido até o ombro,
E mexi e remexi os dedos ávidos,
E, como um pêndulo, balancei a mão ansiosa
E enchi de saliva a boca seca
Adivinhando litros, ou pelo menos gotas,
Do caldo bom do que bom foi.

Mas, em vez, do doce ouro liquefeito
Que adoçaria o amargo daquelas horas,
Aticei um grosso enxame de memórias.
Lembra da fome? Lembra do frio?
Do chute na cara? Da cara no chão?
Do peito em carne viva? Da dor?
Da lágrima? Do soluço? Da angústia?
Do não tem vaga? Do não tem pão?
De não haver futuro? Da vontade de morte?
Do cheiro de morte? Do luto sem morte?
Lembra de morrer?

Que vadias que são, estas memórias zumbidoras
Que não morrem depois do milésimo ferrão.
Que sem futuro este sofrer de coisa já sofrida!
Que falta de vontade de sair para arranjar novas dores,
Mesmo que a coleta inclua gozos,
E toda a desventura seja entremeada por sorrisos.

Da carne à pedra, da pedra à carne

Todos os dias a baldeação de sempre,
a perturbação de sempre dos sentidos,
pessoas que falam ao mesmo tempo,
pessoas que andam ao mesmo tempo,
pessoas que pedem, que cobram,
que perdem, que acham, que mandam,
que obedecem, que desobedecem,
que fazem, que desfazem,
que voltam a fazer e a desfazer,
pessoas que correm, correm, correm,
como fossem a algum lugar.

Movimento, gesto, gestos,
e embora pareça o contrário,
no fundo, tudo ao derredor é nada,
a mesma massa disforme,
sem cor que se defina,
sem som que se reconheça,
a mesma gosma insossa,
mingau de vento.

O cotidiano, a obviedade,
são agentes do embrutecimento;
as conversas de todos os dias,
os movimentos e as luzes e a fumaça,
as preocupações, as tensões,
vão nos tornando cegos,
vão nos tornando surdos,
vão nos incutindo um enorme desejo
de não mais sentir, de nada mais sentir,
senão sossego e silêncio.

É inevitável que tanto de tudo,
cedo ou tarde,
cause-nos anseios pelo nada,
antes, porém, como no embuá que se enrola,
no caramujo que adentra a carapaça,
há uma tentativa de defesa.

Essa tentativa de defesa
no animal humano,
é o embrutecimento dos sentidos,
daí tanta gente viva morta,
zumbizando pelos cantos,
produzindo e consumindo,
enquanto produtos e produtoras,
enquanto consumidas e consumidoras,
cegas e surdas,
comendo a ração sem gosto
que são os dias que se passam
como num roteiro ruim.

Somente o espanto,
diante de cada coisa e de tudo,
é capaz de revelar a vida
escondida pela vida cotidiana,
o sentido oculto pelos sentidos fúteis e mentirosos,
somente o espanto diante do que é porque é
promove o rompimento do ventre multitudinário
e, portanto, o nascimento do indíviduo.

Daí para frente, é questão de coragem.


José Danilo Rangel

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Com foto de Gabriel Ivan, do ensaio Saudades do Madeira, 17º número da EXPRESSõES!

http://www.scribd.com/doc/116176511/EXPRESSoES-n%C2%BA-17

ABAIXO O PROTESTO


Abaixo o Protesto!
João nasceu de um coito entre moitas
Durante o êxtase da liberdade dos pobres
Sangrou feito galinha sorriu pra um mundo que não sorriu de volta:
 O País não conseguiu abortá-lo.

Tentou, porém. Xingou a mãe a música o muro a poesia.
Ruminou para negar-lhe o salário o pão a roupa o livro
João correu: Corre João! Lá vêm as gravatas!
João caiu; se levantou; chorou a dor.
Sorte que só chorou a dele.
Na sua mão não cabe o vizinho a irmã o judeu
Coube a pipa o controle o consolo
Mas não teve nenhum.

João sabe ler? Pega um livro João! 
 Leia a ganância e a glória dos dias
Envolvidas nas lombrigas das fábricas
De mentes enlatadas

A rua com cheiro de peixe e câncer
Alimenta-se da tua indiferença
E do teu sorriso estóico de Bíblia traduzida
Vamos levantar de nossas camas

Úmidas sentar à frente da Televisão
E gozar da felicidade plástica de cada dia
João?
João?
Joãããããããooooo!!!??
Morre João
Sai desse dia
Dessa tarde
Na malícia que não veio
No delírio que te mentiu
No Jornal que não sorriu

Quer viver João?
Então não chora João
Não sente
Não reclama
Durma
Banha na lama
Seja feliz.


(poeta bastardo)

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Com o trabalho de Moisés Costa na capa, a revista EXPRESSõES! em seu 16º número.
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