Mais um novembro, e os debates sobre a desigualdade social se intensificam em razão deste período representar uma oportunidade simbólica para os movimentos sociais, a academia e amplos espaços da sociedade civil se manifestarem à discussão de um tema sobre o qual a mídia inclui em sua pauta não por uma disposição genuína para enriquecer o debate, mas como um formal cumprimento de agenda.

Essa percepção revigora-se, por exemplo, quando verificamos matérias como a apresentada hoje pela manhã na tv record, a qual destacava a perseguição de um jovem pobre e negro por um promotor de justiça, em razão de acreditar que o rapaz havia roubado sua filha ao sair de uma academia. O indivíduo invadiu o comércio onde o jovem preparava-se pra comer um sanduiche - por sinal a única refeição que faria em 48 horas -, resultado de $4,00 doados pela filha do insigne promotor, o qual, tomado pela sanha justiceira, empreendeu uma caçada por mais de 2 km, a fim de indicar à sociedade que a presunção de inocência seria um princípio aplicável a uma restrita classe social.

Ocorre que o rapaz, antes de solicitar ajuda à jovem, saira de uma entrevista de emprego, para a qual deslocou- se de uma cidade próxima à Ribeirão Preto, e por não possuir dinheiro para se alimentar, recorreu à solidariedade da garota, a qual, ao que parece, teria se assustado com ao rapaz...

O outro tornou-se motivo de susto, assombro; a presença dos invisíveis em novembro realça a falsa noção de que a perversa invisibilidade que os domina desperta a sociedade brasileira para a desigualdade, a perversidade, a exclusão social que, certamente, mantém o "status quo" de parcela social que prefere enxergar o negro como sua anti-imagem e dessemelhanca, para a qual o fosso social, antídoto à inalterabilidade do invisível, permanecerá como a melhor alternativa à manutenção do mito da democracia racial.

Bem, em complemento, dados do Ministério Público, ente no qual o guardião dos direitos indisponíveis, fiscal da lei e ilustríssimo promotor exerce seu trabalho, dão conta de que o servidor, em uma unica viagem para município próximo a Ribeirão Preto, custou ao erário público o mesmo valor que o jovem iria alferir caso conseguisse a vaga parabo emprego que pleiteava, cujo êxito fora obstado pela persecução empreendida pelo promotor, à medida que o mesmo solicitou a um delegado amigo a realização de ocorrência haja vista o delegado plantonista haver indeferido tal solicitação ante a flagrante atipicidade do fato.

O ilustre guardião da lei após desferir um tiro dentro do estabelecimento comercial em que o jovem se encontrava, no qual sequer conseguiu este fazer a refeição para a qual contara com a solidariedade da filha do coronel-promotor, o qual, irresoluto com o indeferimento da ocorrência, diligenciou até conseguir a benevolência de um delegado amigo, o qual solidarizou-se com o promotor-xerife, encarcerando o invisível jovem, cuja projeção, em rede nacional, deve-se a uma "profunda consciência" que parece afetar a mídia brasileira no mês de novembro...

P.S. Vale lembrar que, ao longo de todo o ano, a invisibilidade do negro alcança não apenas o pobre, mas os intelectuais, os quais, em sua trajetória, deixaram um legado extraordinário para o gênio cultural brasileiro.

Alguém conhece Luis Gama, Abdias Nascimento, Milton Santos?...

Vamos refletir!
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