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Palestra aula sobre Monoteísmo estrito para não judeus.

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PONTO SEM RETORNO(tradução livre de João Alves Correia) 

A Igreja Batista Emmanuel estava crescendo. Nós tínhamos expandido nossos ministérios de evangelismo ao incluirmos programas locais de rádio e televisão. No auge dos programas, eu fazia três de rádio, e um de televisão de trinta minutos diariamente. Eu chamava esses programas de "Do Estúdio do Pastor." Havia muitos pedidos pelos guias de estudo e livros que eu preparava para as nossas sessões. Estes estudos nos levaram a outro ministério, "Ecos de Emmanuel." Poderia haver melhor título, uma vez que o material impresso e as fitas de áudio estavam ‘ecoando’ desde a Igreja Batista Emanuel, e que estava recebendo reputação de ser uma igreja com um ministério mundial? Nosso programa de música era inigualável: O coro juvenil, o coral adulto, os solistas e os duetos. Nenhum programa de música estaria completo em uma igreja batista fundamentalista sem um quarteto. Nosso quarteto era um dos melhores. A ênfase principal, no entanto, mantinha-se no estudo da Bíblia. Estudos bíblicos e reuniões de oração eram parte importante dos nossos programas de senhoras. Os programas educacionais tinham estudos bíblicos regulares e cultos de oração, geralmente na parte da manhã. O povo compartilhava os problemas diários que enfrentavam e lidavam com essas questões com base em seu entendimento da Bíblia. 
Além disso, havia estudos bíblicos comunitários quando todos eram convidados. O assunto era geralmente determinado pelas necessidades específicas que surgiam na vida das pessoas. Muitas vezes, pessoas de fora de nossa congregação participavam. Uma coisa é certa, o nosso povo levava o estudo da Bíblia e a oração muito a sério. James Buchanan foi um dos melhores estudantes da Bíblia que eu tive o privilégio de conhecer. James é metódico em sua pesquisa e apresentação. Durante um de nossos estudos, começamos a tratar sobre o batismo nas águas. Durante várias semanas de discussão, James apresentou alguns pontos pertinentes que revelaram que o que pensávamos era o modo correto e as formas naturais de batismo nas águas não estavam corretas. Ele demonstrou por referências do Novo Testamento, que passagens habitualmente usadas para mostrar identificação com Jesus através do batismo nas águas eram, na verdade, referências a uma imersão espiritual. Este foi o início da descoberta para mim. Se eu estava mesmo errado a respeito deste assunto simples, pensei, o que mais eu poderia ter perdido? Quem era James Buchanan? Ele era um soldador na usina nuclear de Watts Bar, de responsabilidade da Tennessee Valley Authority. Ele não tinha formação educacional para torná-lo uma autoridade sobre a Bíblia. Como ele pode aparecer com este argumento tão convincente? Como poderiam os principais estudiosos da Bíblia não terem percebido algo tão simples? Como foi que eu deixei isso passar despercebido?
É impossível responder todas as perguntas sobre o batismo nesta seção. Nós teríamos que lidar com os conceitos de todas as denominações e grupos. O que nós podemos mesmo fazer, é mostrar os fatos. E quais são eles? Yeshua (Jesus) e os membros da seita messiânica nazarena eram judeus e eles praticavam sua religião como era observada por seu grupo, em seus dias. 

Considerando esta informação, podemos concluir que o batismo foi produto do desenvolvimento histórico da doutrina da Igreja. Não teve suas origens nos ensinos de Yeshua (Jesus) e seus seguidores. É aí que estão os problemas variados que enfrentamos ao lidarmos com assuntos de revelação e batismo
Lá pelos tempos de escola teológica, quando eu inquiria dos meus professores e mentores sobre a questão do batismo, as mesmas respostas vinham, quando eu os colocava numa situação que exigia esclarecimento; as ‘respostas’ vinham na forma de, “filho” e depois, “filhinho”. Por que será que essas pessoas não conseguiam lidar com fatos e alinhar suas práticas com os resultados do estudo? Afinal de contas, segundo o Novo Testamento, deveríamos procurar nos apresentarmos a Deus como pessoas aprovadas, obreiros ‘que não tem de que se envergonhar’ (II Timóteo 2:15). Nós devíamos ter "substância, evidência" para defender a nossa fé. Além disso, nós deveríamos estar sempre “prontos" para dar uma resposta a todo aquele que nos pedisse a razão da esperança que havia em nós (I Pedro 3:15).
Com o passar do tempo, eu disse a James que ele tinha me conduzido até um ponto de onde não mais existia retorno. Eu jamais aceitaria qualquer coisa de novo sem um estudo completo e exato, ou será que sim? Só porque um homem é graduado e detém uma posição como pastor ou professor num instituto de ensino superior, não significa que ele esteja necessariamente em condições de abordar estudo de forma objetiva. 
Eu entrei num acordo com Deus como resultado deste encontro. "Deus, se eu encontrar algo que está errado após um estudo cuidadoso e pesquisa, eu vou mudar, independentemente do custo!" Logo eu iria descobrir o preço da verdade e da integridade. 
O que significa ser cristão? Um cristão é Uma pessoa que aceita Jesus como seu Salvador e da doutrina da denominação específica que ele frequenta. Há vários pontos de crenças que identificam alguém como um cristão: nascimento virginal, deidade de Cristo, sofrimento vicário, morte e ressurreição --- esses são os requisitos mínimos para que alguém seja assim considerado um cristão. Alguns poderiam acrescentar algo mais à lista, outros, tirariam – porém, os itens mencionados constituem-se nas mais simples doutrinas do cristianismo. 
Quando entrei para a Igreja Batista de Lupton Drive, em 1968, eu conhecia a Deus, mas não conhecia Jesus. Depois da minha formação educacional na faculdade teológica de Tennessee Temple e Lupton Drive, eu me tornei um cristão trinitário de pleno direito e de ‘carteirinha’, que acreditava que todos deveriam ser salvos pela morte, sepultamento e ressurreição de Jesus ou então, caso contrário, deveriam ser condenados ao inferno de fogo. As perguntas acerca do que significava ser um cristão me levaram a estudos detalhados dos cultos e da história da igreja. Era setembro de 1981. Eu tinha completado um estudo sobre as seitas. Havia muitas perguntas não respondidas quando eu me aventurei pelo labirinto dos cultos. Nós identificamos vários grupos, e a forma como eles tinham se afastado da posição "ortodoxa". Mas, afinal, o que seria mesmo a posição ortodoxa? Para descobrir, eu e o povo de Emmanuel embarcamos em uma jornada para as trevas da história da igreja. Como a maioria das aventuras, aprendemos coisas que nunca tínhamos imaginado. Entramos no mundo escuro da política, da religião, do medo e da ignorância. Este estudo produziu mais perguntas do que respostas. A busca continuava. O termo ‘ortodoxia’ começou a tomar um novo sentido. Quando você pensa em ser ortodoxo, você acha que o sentido disso está no cumprir um conjunto de dogmas. Logo descobri que isso não era bem o caso. Cada grupo ou subgrupo pensava sobre si mesmo como a verdadeira ‘ortodoxia’. Quem não aceitasse esses seus pontos específicos era visto como ‘não-ortodoxo’. Se eu quisesse mesmo ser um seguidor de Jesus, então eu deveria ‘aceitar’ aquele ponto de vista que esta ou aquela vertente considerava como ‘ortodoxo’. Os estudos sobre a história da igreja só acrescentaram mais combustível à nossa paixão pela descoberta de tantas informações acerca de Jesus quanto fosse possível.
Onde é que Jesus encaixava-se nesse esquema? Estou agora olhando para o último livro que produzimos acerca da vida de Cristo. A capa com letras douradas em fundo preto, lê: “Ecos de Emmanuel", na parte superior, com o endereço da congregação logo abaixo, “Igreja Batista Emmanuel, 1905 Congress Parkway, Athens – Tennessee 37303”. 
Eu usei tanto esta obra para estudos e pregações que ela se faria em pedaços se por acaso eu a deixasse cair no chão Vejo também o endereço de comunidades judaico-messiânicas escritos nas páginas internas. Jesus era um rabino do período do segundo templo. Ele era o messias e o salvador do mundo. De acordo com o que eu conhecia naquela época em particular, Jesus teria sido um membro da comunidade judaica ortodoxa. Ele era o produto do sistema político-religioso de seus dias. Se eu desejasse saber mais acerca de Jesus, então eu deveria conhecer mais sobre o judaísmo ortodoxo daqueles tempos.
Onde quer que fosse eu falava sobre a condição judaica de Jesus, e os amigos pregadores começaram a referir-se a mim como "Rabi Davis". Eu tomava o título como uma reprovação, pois, como todos sabem, os rabinos não aceitam Jesus como seu Salvador. O estudo dos cultos, da história da igreja, e a busca contínua pelo Jesus histórico estava me causando mais problemas, e produzindo mais perguntas do que respostas. Um dia, o telefone tocou no meu escritório e eu atendi. Era uma senhora do outro lado da linha com um forte sotaque interiorano. "Irmão Davis, o senhor é um pregador ou um professor?" Meu coração bateu lá no meu estômago. Como poderiam me fazer tal pergunta? Todo mundo sabia que eu sou era um pregador. Eu poderia gritar e correr pelo palco com o melhor deles, sendo que a diferença eu pensava, era que um pregador que não ensina, na verdade não diz nada.
"Eu sou um pregador." E a resposta, "Bem, eu ouço suas pregações no rádio há anos, e simplesmente o senhor não pregar mais como antes". Ela concluiu a conversa, assegurando-me de que ela estaria orando por mim. As palavras dela me perturbaram: "o senhor é um pregador ou um professor?" Será que eu tinha mesmo mudado tanto assim? Eu poderia ter mudado tanto sem estar ciente disso? Neste ponto onde me encontrava, eu não podia mais retornar para onde antes estava. Eu tinha que saber mais sobre o Jesus histórico. Era uma obsessão.
Danny Prior posteriormente deixou Lupton Drive para pastorear uma igreja no Texas. Danny não estava nem aí para o Texas e depois de algum tempo, voltou para o Tennessee. 
Continuamos a conversar sobre a Bíblia e as respectivas obras. Um dia estávamos conversando e acabei tocando em temas judaicos novamente. Danny disse: "Já ouvi falar de outro homem louco no Texas, que fala exatamente como você." Outro amigo, Bobby Grubbs, tinha me falado sobre o mesmo homem. Danny disse que tinha algumas fitas de áudio daquele homem e me ofereceu as mesmas para que eu as ouvisse; ele disse que eu poderia acha-las interessantes. Assim, eu e Jack Saunders, um dos meus principais parceiros de estudo, começamos a ouvir o que este homem pretendia ensinar. Era outono de 1983. Isso queria dizer que era temporada de futebol em Tennessee. Nós estávamos sentados na minha sala assistindo futebol enquanto discutíamos algumas das informações sobre o homem das fitas. Aquele homem, ao que parecia, tinha descoberto o que eu estava procurando - o Jesus real, o Jesus do período do Segundo Templo e o Jesus da teologia cristã. Ele tinha um livro chamado, ‘O Verdadeiro Jesus – Por Favor. Apresente-se!”. A capa tinha três imagens de Jesus: o Jesus ‘católico’ com um halo sobre a cabeça; o Jesus ‘protestante’, na figura de um pastor segurando uma ovelha; e um terceiro Jesus, usando uma cobertura para a cabeça, xale de oração, tefilin, e segurando um rolo da Torá, uma figura completamente judaica. A contracapa trazia uma observação: "Se você tiver alguma vaca sagrada em seu curral mental que você não quer sacrificar, por favor, não leia este livro!" 
Que dica excelente! Esse era o tipo de desafio que eu queria. Ali estava um homem que se dispunha a mudar o seu curral mental, caso as peças não mais se encaixassem.
"Jack, há um nome e uma cidade nessas fitas: Vendyl Jones, Tyler, Texas. Eu vou ligar para ele."
Esta não foi a primeira vez que me arrisquei e nem seria a última. Os ‘judeus’ messiânicos não tinham as informações corretas. Eu já tinha ido longe demais discutindo o Jesus histórico com eles. Eles chegaram mais longe do que a maioria das igrejas, mas realmente não conseguiam divisar o personagem histórico. Os professores que eu conhecia, ou não podiam, ou não me conduziriam mais distante nessa busca.
O operador me deu o número. Quantos Vendyl Jones poderia haver em Tyler, Texas? Eu liguei, Vendyl respondeu. Ele era diferente. Parecia saber sobre judaísmo. Ele usou palavras que eu não conhecia. Sua linguagem era estranha, com um forte sotaque do Texas. Era difícil compreender exatamente o que ele dizia.
Lenta mas seguramente eu comecei a aprender um novo vocabulário hebraico. Os livros eram o que eu queria, então eu perguntei a Vendyl como eu poderia obter alguns daqueles que ele mencionara. Ele naquele momento, não conseguiu me fornecer títulos específicos ou os locais onde eu poderia encontra-los. Quando ele mencionava um livro, ou estava geralmente fora de catálogo ou só era disponível em hebraico. Nós conversamos e concordamos em mantermos contato um com o outro. Ele me vendeu outro lote de fitas. Jack e eu estávamos satisfeitos porque tínhamos finalmente encontrado alguém que estava na mesma sintonia espiritual que a nossa. 
Meus serviços ainda eram procurados por alguns pregadores. De certa forma, eu havia me tornado algum tipo de ‘autoridade’ em Novo Testamento e judaísmo. Um pregador de Houston, Texas, me convidou para ir à sua igreja para uma série de palestras. Eu aceitei. Durante essa reunião, nós estávamos discutindo o aspecto judeu do Novo Testamento quando eu perguntei se havia livraria judaica em Houston. Nós verificamos na lista telefônica e com certeza, havia. O pastor me levou até a loja. Eu perguntei ao vendedor se ele tinha algum livro sobre a lei oral. Ele disse: "Você quer dizer Mishná? " - "Se isso é lei oral, sim."
Finalmente, depois de todos esses anos, eu tinha uma cópia da lei oral. Eu me lembro da emoção de segurar o livro em minhas mãos. Minha mente foi inundada por pensamentos sobre como muito do que Jesus ensinou poderia ser encontrado neste livro. Agora eu seria capaz de ler e descobrir o que Jesus realmente quis dizer com aquilo que dizia.
Duas coisas resultaram daquela viagem para Houston. O mais importante foi a localização e a compra da Mishná. Isto viria a ser benéfico para a alma. O segundo item que descobri foi o sorvete Blue Bell. O Blue Bell é o melhor sorvete que já provei. O livro alimentou a alma, e o Blue Bell alimentou a carne. A Mishná, em vez de fornecer respostas, aumentou ainda mais a minha lista de perguntas. Não havia dúvidas: eu já tinha passado do ponto sem retorno! Eu não podia voltar para os ensinamentos da igreja, mas eu ainda estava amarrado a eles, tanto intelectual quanto emocionalmente.
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Uma aula do Sefer Bereshit de março de 2011. Vale a pena ver de novo,

Obrigado por me aceitarem. Que o Eterno nos ilumine.

Shalom!

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A REALIDADE DA REVELAÇÃO NO SINAI

O Judaísmo, como visto através dos olhos dos estudiosos do Talmud, tem a sua própria orientação religiosa única. Embora baseando-se em um evento cataclísmico - revelação, o judaísmo/monoteísmo não considera os milagres como a fonte de seu relacionamento íntimo com D’us. A revelação de D’us no Sinai foi uma ocorrência única, que jamais será repetida. Isso está expresso em Deuteronômio 5:19, "uma grande voz que não foi ouvida novamente." (1) Na mente do estudioso do Talmud, D’us continuamente se revela não através de milagres, mas por meio da sabedoria de suas leis. (2) Essas leis se manifestam na Torah - a lei escrita e a lei oral – e também na natureza.
O salmista expressa essa visão de forma muito clara. Ele fala livremente das maravilhas da natureza e do imponente universo como no Salmo 8: 4: "Quando eu olho para os céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que Tu estabeleceste". O Salmo 104, dedicado às maravilhas da natureza, culmina com a exclamação: "Quantas são as tuas obras, ó S’nhor! Tu as fizeste, todas elas, com sabedoria." Em relação a alegria intelectual pura que deriva-se do estudo da Torá, ele afirma: "A Torá do S’nhor é perfeita, e refrigera a alma, o testemunho do S’nhor é fiel, e dá sabedoria às pessoas simples. Os preceitos do S’nhor são retos, e alegram o coração; o mandamento do S’nhor é lúcido, e ilumina os olhos; os estatutos da Torá são verdadeiros, estão todos em total harmonia, são mais desejáveis do que o ouro, ouro fino, e eles são mais doces do que o mel e o favo de mel ".
Quando se fala da busca do homem por D’us o salmista diz: "O S’nhor do céu olhou para os filhos dos homens, para ver se havia algum homem de entendimento e que buscasse a D’us (14: 2)." O homem só descobre seu Criador através da compreensão. Assim, os justos são retratados como estando constantemente envolvidos neste processo de procurar e descobrir a D’us: "Mas só na Torá do S’nhor está o seu desejo, e em Sua Torá ele medita de dia e de noite" (Salmo 1: 2). Maimônides critica severamente aqueles que se consideram religiosos e que no entanto, buscam a D’us através de ‘milagres’. "Diga-se a uma pessoa que acredita-se ser um dos sábios de Israel que o Todo-Poderoso envia o Seu anjo para entrar no ventre de uma mulher e formar lá o feto [sic], e ele ficará satisfeito com o relato, ele vai acreditar nisso e até mesmo encontrará nele uma descrição da grandeza, do poder e da sabedoria de D’us, e embora ele acredite que o anjo consiste de fogo que queima e que é tão grande como uma terceira parte do Universo, ele considera que é possível, como um milagre divino. Mas, experimente dizer-lhe que D’us deu à semente um poder formativo que produz e modela os membros, e ele vai se afastar porque não pode compreender a verdadeira grandeza e o poder de se produzir forças ativas em algo que não pode ser percebido pelos sentidos existência. "(3)
Ainda que o judaísmo esteja baseado em um evento sobrenatural, o mesmo não é orientado para o sobrenatural. A essência do judaísmo não se realiza através de fervor religioso pelos ‘milagres’, mas através de uma valorização da sabedoria de D’us revelada, tanto na Torah como no mundo natural. Um milagre, sendo uma brecha na lei de D’us, não contribui para essa valorização. Essa distinção é fundamental uma vez que dá ao judaísmo sua singularidade metafísica. 
I
O fundamento da nossa fé é a crença de que D’us se revelou ao povo de Israel há pouco mais de três mil anos. A revelação consistiu de certos fenômenos visuais e sonoros. Elementos como fogo, nuvens, pilares de fumaça, e o som do shofar estavam presentes. D’us produziu uma voz audível de grande proporção que Ele usou para falar com Moisés e, em seguida, para o povo. A voz transmitiu leis inteligíveis de grande importância filosófica. O evento não deixou nenhuma dúvida na mente de todos os presentes que tinham testemunhado um ato de D’us. A Torá descreve os detalhes do evento em dois lugares, primeiro em Êxodo 19 e, em seguida, em Deuteronômio 4, onde Moisés narra o evento para as pessoas antes de seu falecimento. Qual foi o objetivo do evento? Em ambos os lugares, a Torá nos diz muito claramente a finalidade da revelação. A afirmação feita por D’us a Moisés e que antecede o evento, tem o seguinte teor:
"Eu virei a ti em uma nuvem espessa, para que todas as pessoas ouçam quando eu falar contigo. Eles também crerão em ti para sempre." (Êxodo 19: 9)
Quando Moisés narra o evento para as pessoas que ele diz,
"Ensinai os seus filhos e os filhos de seus filhos sobre o dia em que eu estive em pé diante de D’us o seu S’nhor em Horebe. Foi então que D’us me disse: ‘Reuni as pessoas para mim, e eu vos anunciarei as minhas palavras. Isso vai ensiná-los a ter temor de mim enquanto eles viverem na terra, e também ensinarão a seus filhos’" (Deuteronômio 4: 9-10)
Deus pretendia claramente que o evento fosse uma demonstração que serviria tanto para o presente quanto para todas as gerações futuras. Nachmanides e outros consideram que é um dos 613 mandamentos ensinar a demonstração do evento no Sinai a cada geração. Estamos, portanto, obrigados a compreender a natureza dessa demonstração e como isso deveria ser válido para as gerações futuras. Uma compreensão das bases de um sistema oferece insights sobre o caráter e meio filosófico desse sistema. A compreensão da Torah desde o Sinai fornece as abordagens mais rudimentares para toda a Weltanschauung [visão de mundo] da Torah.
II
O próprio conceito de uma prova ou evidência para a ocorrência do evento no Sinai pressupõe certas premissas. Ele define o sistema da Torah para além do credo religioso comum. O verdadeiro religioso, não precisa de evidência alguma de sua crença. Sua crença deriva de algo profundo dentro de si mesmo. Na verdade, ele ainda sente que a idéia de evidências para a sua crença não passa de uma faca de dois gumes, ou por assim dizer, uma espécie de aliado estranho. Esse tipo de pessoa não gosta de fazer uso da realidade. O judaísmo, por outro lado, não só permite provas – antes, as exige. Se fossemos dizer que acreditamos na Torá do Sinai e de que não precisamos de quaisquer provas, não estaríamos em conformidade com a própria Torá. A Torá exige que a convicção que nos foi dada por D’us baseie-se na fórmula específica de demonstração que Ele mesmo criou para nós. Nachmanides afirma ainda que se não fosse pelo evento no Sinai não saberíamos que devemos rejeitar um falso profeta, um que faz ‘milagres’ e nos orienta a abandonar uma das leis ou os caminhos da Torá. Está escrito em Deuteronômio 18:20 que não devemos seguir tal profeta. Mas, continua Nachmanides, se não fosse pela demonstração no Sinai, estaríamos sob um dilema total, sendo incapazes de saber se devíamos seguir a Torá baseada nos eventos extraordinários que ocorreram no Egito ou se deveríamos seguir o tal ‘profeta’ tendo com base seus ‘milagres’. (4) O evento no Sinai resolve este dilema. Após o evento no Sinai, o judeu (e obviamente o monoteísta noahide) não se deve deixar impressionar nem mesmo pelos milagres que levariam uma pessoa comum a concluir que as palavras do falso profeta são verdadeiras. Voltaremos a este ponto mais tarde.
Claramente então, a base sobre a qual as convicções religiosas de uma pessoa são construídas diferem nos casos de um ‘religioso’ estrito e de uma pessoa que pauta-se pela Torá. A diferença pode ser declarada da seguinte maneira: O religioso acredita primeiramente em D’us e depois em sua mente e sentidos, enquanto que a pessoa que pauta-se pela Torá, que baseia-se em evidências, aceita a sua mente e os seus sentidos e então começa a reconhecer a D’us e à Sua Torá por meio dessas ferramentas. Somente a pessoa que pauta-se pela Torá percebe D’us como uma realidade, posto que suas idéias a respeito do Criador registram-se na mesma parte de sua mente em que todas as idéias sobre a realidade são registradas. (5)
Vamos prosseguir com a demonstração de que teve lugar no Sinai. Devemos entender não só como este evento serviria como prova para aqueles que o presenciaram imediatamente, mas também para as gerações futuras, assim como é afirmado em Deuteronômio "e também ensinarás os teus filhos." Devemos definir desde o início o que entendemos por prova. O termo “prova” como é comumente usado, tem um significado subjetivo. Queremos com isso dizer que a ‘prova’ serve para a satisfação de um determinado indivíduo. Como tal, isso é objeto de uma vasta gama de definições e critérios. Há aqueles para quem até mesmo o mundo da percepção sensorial é algo duvidoso. A fim de não se perder no mar de epistemologia permitam-me afirmar que a Torá aceita um quadro semelhante ao que é empregado pelo cientista. Ela aceita o mundo da percepção dos sentidos e da mente humana. Os eventos que ocorreram no Sinai são, de acordo com a Torá, provas válidas a partir da qual uma pessoa racional conclui que a) Existe uma divindade, b) Essa divindade está preocupada com o homem, e c) Essa divindade confiou a Moisés a tarefa de transmitir o seu sistema de leis para o povo. Quanto àqueles que sustentam que mesmo se tivessem estado no Sinai ainda assim não se convenceriam, a Torá tem pouco a dizer.
A Torá se dirige a uma mente racional. Deve ser lembrado que todo sistema epistemológico que é defensável do ponto de vista lógico, não é necessariamente racional. A razão exige mais do que consistência lógica; ela requer clara intuição intelectual. Pode-se argumentar, por exemplo, que não possuímos nenhum conhecimento real do átomo. Pode-se afirmar que todos os elétrons e prótons conspiraram para agir de uma determinada forma, quando eles estavam sendo observados. Pode ser difícil refutar tal hipótese, mas é fácil ver que ela não apela de forma inata para a mente humana. (6) Nosso intelecto intuitivo a rejeita. (7)
III
Passemos agora para a questão de como os eventos no Sinai, que ocorreram há mais de três mil anos, deveriam servir como prova para todas as gerações que se sucederam. Podemos começar perguntando que tipo de evento, se for o caso, poderia ser qualificado como prova muito depois do mesmo ter ocorrido? Quais critérios poderemos estabelecer para que esta exigência seja satisfeita? Vamos analisar como nós, seres humanos adquirimos conhecimento. Quais métodos estão disponíveis para nós? Parece que existem dois métodos que usamos para obter conhecimento. O primeiro é através da observação direta. Este método parece bastante simples e para o nosso propósito, requer pouca análise. Muito pouco do nosso conhecimento, no entanto, é obtido através da observação direta. Saberíamos muito pouco ou quase nada da história do mundo se nós nos limitássemos apenas à observação direta. Mesmo a ciência obteria pouco ou nenhum progresso caso estivesse limitada à observação direta. Nós não poderíamos confiar nos livros didáticos ou nas informações que nos foram dadas por outros. Em vez disso, cada observador científico teria que realizar ou testemunhar toda a evidência experimental passada como se fosse de primeira mão. O conhecimento em nossas vidas pessoais seria igualmente restrito. Quando nos colocamos na mesa de operação para a cirurgia, temos muito pouco conhecimento de primeira mão sobre a nossa condição física ou mesmo se o praticante é de fato um médico. Nós colocamos nossas próprias vidas em risco com quase nenhuma evidência diretamente observada ou de primeira mão.
Por que fazemos isso? Existem critérios que usamos os quais podem justificar racionalmente nossas ações? Aqui chegamos à segunda classe de conhecimento disponível para nós - o conhecimento de segunda mão. O conhecimento de segunda mão nos parece bastante razoável, desde que sejam cumpridos certos critérios estabelecidos. Quando o conhecimento de segunda mão chega até nós, somos imediatamente confrontados com a pergunta: Esta informação é verdadeira ou falsa? Não podemos saber diretamente se é ou não é verdade, pois não testemunhamos diretamente; podemos, no entanto, saber se é verdade por meio de inferência. Se pudermos remover todas as causas de falsidade, podemos inferir que tal informação é mesmo verdadeira. Como podemos remover todas as causas de falsidade? A lógica é simples. Se a informação que os outros nos transmitem é falsa, isso será assim por uma de duas razões. Ou o informante é ignorante e equivocou-se com o que nos disse, ou a declaração dele é uma invenção. Se pudermos descartar essas duas possibilidades, então não existe motivo para que a informação seja falsa. Consideramos, então, que ela é verdadeira.
Como podemos eliminar essas duas possibilidades? Em relação ao primeiro caso, a ignorância, só precisamos determinar se o indivíduo que nos transmitiu a informação é intelectualmente capaz. Lidamos aqui com uma relação direta. Se a informação é simples, podemos confiar em uma pessoa mediana. Se porém, é complexa ou profunda, só poderemos confiar em alguém capaz de compreender essas questões. Quanto mais complexa a matéria, mais qualificada deverá ser a pessoa que a transmite; quanto mais simples a questão, tanto menos qualificado um indivíduo precisa ser. Se uma pessoa comum nos dissesse que estava chovendo, estaríamos inclinados a partir da primeira consideração, a acreditar nele. Se ele porém, nos falasse sobre padrões climáticos complexos, iríamos duvidar de sua informação. Se, no entanto, um meteorologista eminente descrevesse tais padrões para nós, a tendência seria de acreditarmos nele. Quando o presidente Kennedy foi assassinado, a notícia se espalhou quase que instantaneamente. Este relato permaneceu preciso, embora tenha passado por muitas mãos. Os detalhes sobre como ou onde ele foi baleado, porém, estavam confusos. Os disparos de arma de fogo que mataram o presidente foram fatos simples, capazes então de serem transmitidos adequadamente, mesmo por muitas pessoas simples. Porém, os detalhes de como isso aconteceu eram complexos demais para que pessoas comuns pudessem transmití-los adequadamente.
Às vezes, nossos critérios são preenchidos em conjunto com os outros. Podemos acreditar no testemunho de um leigo que um outro indivíduo é um médico bem qualificado e, em seguida, seguir o conselho do médico. Em outro caso, podemos aceitar a afirmação de um leigo que um texto é o trabalho de cientistas notáveis. Nós, então, tenderíamos a aceitar idéias apresentadas neste texto como verdadeiras, apesar de parecerem estranhas para nós. Nós não aceitaríamos essas mesmas idéias caso elas tivessem origem na pessoa simples que nos transmitiu. Nossa aceitação das informações encontradas em livros didáticos é sempre com base neste processo.
Agora consieremos a hipótese de falsificação ou fraude. Aqui, novamente, atuamos por meio de inferências. Podemos descartar a falsificação ou a fraude quando nós entendemos que o indivíduo não teria motivos para mentir. Se não conhecemos o indivíduo, nós trabalhamos com um segundo critério. Aceitamos as informações se muitas pessoas as estiverem transmitindo, e duvidamos quando a fonte é apenas um indivíduo. O raciocínio é baseado na suposição de que um indivíduo pode ter um motivo para mentir, mas é pouco provável que um grupo de pessoas tenham tal motivação. Se nós encontramos alguém que nos disse que o trem das 8:30 para Montreal descarrilou, podemos a princípio ter dúvidas quanto ao fato, mas se vários passageiros falam a mesma coisa, tenderíamos a acatar aquilo como verdadeiro. Consideramos que não é razoável presumir uma “conspiração universal”. Nossa aceitação da autoria de livros que trazem o nome de seus autores nas capas é baseada nesta premissa. No momento em que ouvimos certa informação, nossas mentes voltam-se automaticamente a estes dois factores. Nós nos perguntamos se o informante é capaz de apreender a informação que ele está transmitindo e se há qualquer razão para supor tratar-se de uma fraude. Se nós pudermos responder afirmativamente quanto à primeira questão e negativamente quanto à segunda, nós aceitamos a informação como verdadeira.
Estes são os critérios que orientam nossas vidas. Eles determinam as escolhas que fazemos tanto em nossas decisões mais triviais, quanto nas mais graves. Com este modus operandi concluímos que fulano de tal é um médico altamente qualificado. Se suspeitarmos de sua integridade ou de suas capacidades, consultaremos um segundo, ou mesmo um terceiro médico. Se todos eles concordarem a respeito da idoneidade do tal médico, nós nos submeteríamos mesmo a uma séria cirurgia sob a sua supervisão, pois entenderíamos que a ideia de uma ‘conspiração’ seria absurda.
Nossa aceitação de todos os dados históricos tem como base as considerações anteriores. Ficamos satisfeitos com a verossimilhança de certos eventos históricos e insatisfeitos com os outros, dependendo de se os nossos critérios de confiabilidade foram cumpridos ou não. Temos bastante certeza de fatos simples conhecidos. Por exemplo, ninguém discutiria a alegação de que a Primeira Guerra Mundial ocorreu. Mais uma vez, estamos bastante certos de que George Washington existiu, mas não temos tanta certeza do tamanho de sapato que ele usava. Fatos simples facilmente observáveis por muitos indivíduos são aceitos como verdade. Dos detalhes, porém, quase sempre duvidamos, pois tais informações por serem mais complexas, exigem que sejam transmitidas por indivíduos qualificados. Ao eliminarmos a possibilidade de fraude, aceitamos as informações disponíveis como verdade. Por causa do nosso jeito de ser e de pensar, muitas vezes as coisas ficam obscuras quando nossos critérios não são devidamente cumpridos. Na medida em que esses critérios não são satisfeitos, acabamos imersos na dúvida e na incerteza.
Estamos agora em condições de determinar se algum evento poderia ocorrer e ainda manter sua validade para as gerações futuras. Tendo em vista que as gerações futuras não poderiam observá-lo diretamente, o mesmo teria de ser um evento que exclui em seu processo de comunicação as causas da dúvida, devido ao desconhecimento dos comunicadores ou devido a hipótese de fraude. Um evento simples facilmente compreendido pelos sentidos que ocorre diante de uma massa de pessoas que mais tarde atestariam a sua realidade, cumpriria esses requisitos. Tal evento teria toda a credibilidade de um fato histórico bem aceito. Se tivermos dúvidas de um simples evento atestado por uma massa de pessoas ou de um evento complexo atestado por indivíduos qualificados, teríamos ipso facto dúvida de quase todo o conhecimento que adquirimos em todas as áreas científicas, em todas as ciências humanas, e em todos os diferentes tipos de disciplinas existentes hoje em dia. Além disso, teríamos de desistir de consultar médicos, dentistas e advogados, de usarmos os serviços dos mecânicos, encanadores, eletricistas, ou de especialistas de qualquer área de atuação que trabalham a partir de um corpo de conhecimento aceito.
O evento no Sinai preenche os requisitos acima. Os eventos testemunhados como descritos na Torá, eram de natureza perceptiva tão simples que até mesmo as pessoas comuns puderam apreendê-las. O evento no Sinai foi estruturado com os mesmos componentes internos que nos levam a aceitar qualquer fato histórico ou qualquer tipo de conhecimento de segunda mão. O próprio Moisés, salienta este ponto (Deuteronômio 4:9-13,32-36). Moisés observa que esses eventos que ocorreram 
"A vós foi mostrado, de modo que saibais que o Eterno é o Ser Supremo e não há outro além dele. Do céu, Ele permite que possais ouvir a Sua voz, vos admoestando, e na terra Ele mostrou-lhe seu grande fogo, de modo que ouvistes Suas palavras do meio do fogo. "
Alguém poderia perguntar como sabemos que esses eventos descritos na Torá foram mesmo claramente visíveis, e que os mesmos ocorreram diante de toda a nação. Não poderia ser tudo isso só mais uma invenção? A resposta a esta pergunta é óbvia. Aceitamos um simples fato atestado por numerosos observadores porque consideramos algo como ‘conspiração em massa’ simplesmente absurdo. Pela mesma razão, nenhum evento público pode ser fabricado, pois teríamos que presumir uma conspiração de silencio em massa com relação à não ocorrência do que se alega. Se nos dissesse que uma bomba atômica foi detonada sobre Nova York 50 anos atrás, nós não aceitaríamos isso como verdade, porque podemos supor que teríamos certamente ouvido falar sobre isso caso tivesse mesmo acontecido. Os mesmos fatores que nos obrigam a aceitar como verdade um relato sobre um evento de proporções públicas nos protegem contra a falsificação de um evento como esse. (8) Se assim não fosse, toda a História da humanidade poderia ter sido ‘fabricada’. Caso o evento no Sinai não tivesse ocorrido, e se alguém tivesse simplesmente ‘fabricado’ tudo aquilo, a qualquer momento o relato poderia ser confrontado com uma rígida refutação da parte de muitas pessoas, que poderiam alegar: “Se um evento de massa dessa proporção tivesse ocorrido de fato, nós com certeza já teríamos ouvido falar sobre ele". A fabricação de um evento de proporções públicas não se insere no âmbito da credibilidade.
A História corrobora com este ponto. Apesar do forte instinto religioso do homem, nenhuma religião moderna em mais de dois mil anos tem sido capaz de basear-se na revelação pública. A religião moderna exige algum tipo de ocorrência verificável, a fim de ser aceita. Por esta razão, as duas principais religiões ocidentais, o cristianismo e o islamismo recorrem à revelação no Sinai. Se não fosse por essa necessidade e pela impossibilidade da fabricação de tais evidências, eles certamente não baseariam suas religiões na revelação de uma outra religião.
IV
Enfrentamos agora uma pergunta. Pode-se argumentar que devemos aceitar a Torá tanto quanto se poderia aceitar qualquer grande evento histórico, e que podemos colocar nossas vidas em risco baseados em nenhuma evidência mais forte, mas será que a religião não demanda uma certeza de natureza diferente? Aqui não estamos à procura de certeza com base em uma fórmula, a qual somos forçados a empregar em nossas vidas diárias, mas certeza, algo que nos dê a convicção de natureza absoluta e definitiva.
Para responder a esta pergunta, devemos prosseguir com o exame dos princípios envolvidos na instituição de Torah desde o Sinai, ao que nos dedicamos no restante deste artigo. Maimônides declara que a nação de Israel não acreditou em Moisés simplesmente por causa dos milagres que ele realizou. (9) Moisés realizou estes milagres por simples necessidade. Eles precisavam fugir do Egito, então ele abriu o mar; eles precisavam de comida, então ele trouxe o maná. A única razão pela qual as pessoas passaram realmente a acreditar em Moisés e, portanto, em D’us e na Torá foi por causa do evento no Sinai onde ouviram uma voz que D’us produziu ao falar com Moisés, instruindo-o a ensinar o povo. Mas poderíamos perguntar, não foram os milagres no Egito o suficiente para convencer o povo da autenticidade de Moisés? Será que eles não iriam segui-lo para fora do Egito com base no que observaram à partir dos milagres promovidos por D’us? E não é a própria Torá que afirma que quando da abertura do mar (Êxodo 14:31) ...
"Os israelitas viram o grande poder que D’us tinha desencadeado contra o Egito, e as pessoas temeram a D’us. Eles acreditavam em D’us e em Moisés, seu servo."
Mas Maimonides tem completo apoio da própria Torá uma vez que após este mesmo comunicado, após a abertura do mar, D’us diz a Moisés (Êxodo 19: 9),
"Eu virei a ti em uma nuvem espessa, para que todas as pessoas ouçam quando eu falar com você. E então, eles também acreditarão em ti para sempre."
É claro, como Maimônides conclui, que havia algo que faltava na crença anterior da parte do povo em relação a Moisés - pois se fosse completa, o próprio motivo para a revelação, como afirmado claramente na Torá, estaria deficitário.
A crença incutida por meio de milagres, até milagres de proporções cataclísmicas previstos com antecedência e que ocorrem exatamente quando necessário é algo deficiente, de acordo com Maimônides. Tais coisas não trazem convicção total ao ser humano. Trata-se, nas palavras de Maimonides, "de uma crença que tem depois dela contemplação e reflexão tardia." Isso pode impactar a pessoa por causa da profunda improbabilidade de coincidência, mas não é algo intelectualmente satisfatório. A mente continua ‘voltando’ até o evento, e continua a refletir sobre ele. D’us desejou que a Torá fosse fundamentada na evidência daquilo que satisfaz totalmente a mente humana - Tzelem Elokim - que Ele criou. Ele desejou que o judaísmo se baseasse em uma sustentação sólida de conhecimentos, algo que iria satisfazer o intelecto do homem completamente. Milagres podem apontar para alguma coisa. Podemos ficar convencidos de que a coincidência nesses casos, é improvável, mas tais conclusões são assombradas por reflexões tardias. Quando a voz produzida por D’us foi ouvida por todos ali no Sinai, não houve mais necessidade de reflexão tardia. Era uma questão de evidência direta. Só então pôde-se dizer que as pessoas sabiam que existe um D’us e que Moisés era seu servo de confiança. Os requisitos exigidos pelo conhecimento estavam completos.
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Referências:
1. Maimonides, O Guia dos Perplexos Traduzido por M. Friedlander. (London: 1951 Routledge & Kegan Paul Ltd) pág. 161.
2. Tanto Maimonides quanto Nachmanides concordam sobre este ponto, bem como sobre o significado claro da própria Torá que diz respeito ao objetivo da revelação, é claro que o Judaísmo não dar crédito à existência de uma voz interior religiosa autêntica. Se isso fosse o caso, não haveria necessidade de uma demonstração no Sinai a fim de desacreditar o falso profeta (Deuteronômio 8: 2-6). Pelo contrário, este seria o exato teste que falamos, para ver se alguém seria fiel a essa voz interior. Para o Judaísmo, essa voz interior não é diferente dos sentimentos subjetivos internos que todas as pessoas têm em suas crenças religiosas e outras injustificadas. Ela decorre do lado primitivo da natureza do homem e é de fato a fonte da idolatria. Isto é claramente afirmado em Deuteronômio 29:17, 18:
"Hoje, não deve haver entre vós qualquer homem, mulher, família ou tribo, cujo coração se aparte de D’us, e que passe a servir os deuses daquelas nações. Quando [essa pessoa] ouvir as palavras desta maldição terrível, ele poderá racionalizar e dizer: Eu vou ter paz, mesmo que eu faça o que eu achar melhor”
Por que a Torá aqui como em nenhum outro lugar nos apresenta a racionalização do pecador? A Torá está descrevendo a forte sensação de segurança que esses sentimentos primitivos muitas vezes confere aos seus detentores e alerta para as consequências trágicas que se seguirão, se eles não os desarraigarem.
3. É imperativo que o leitor examine as passagens da Torah para que entenda esta noção. (Êxodo 19: 4, Deuteronômio 4: 3,9,34,35 e 36).
4. Como um exemplo clássico, o solipsismo metafísico pode ser logicamente irrefutável, mas é absurdo para a mente humana.
5. Podemos até ser capazes de descobrir por que rejeitamos isso, digamos, devido a navalha de Occam, a máxima de que os premissas usadas para explicarmos algo devem ser as mínimas possíveis, mas a nossa rejeição não é devido a um conhecimento da navalha de Occam, mas sim a navalha de Occam é baseada em nossa rejeição. Faz parte da lógica inata do nosso sistema mental. A navalha de Occam, uma fórmula maravilhosa, não depende da lógica dedutiva. Ela mostra que o mundo natural de alguma forma está de acordo com o nosso mundo mental. A ideia mais simples é a mais atraente para a mente humana e é normalmente a mais correta. O mundo está em conformidade com a mente. Nas palavras de Albert Einstein, "A coisa mais incompreensível sobre o mundo é que ele é compreensível."
6. Deve-se entender que a mera alegação de que um evento foi público e sua consequente aceitação pelas pessoas não qualifica o mesmo como tendo cumprido os nossos requisitos; é apenas viável se as pessoas que aceitam as informações estão em condições de rejeitá-la. Se uma pessoa da África diz para as pessoas da Sardenha que um evento público ocorreu na África, a aceitação por parte dos sardos não traz nenhuma indicação de confiabilidade visto que eles não estão em condições de confirmar ou negar o evento. Só poderá ter credibilidade caso a reivindicação tenha sido feita por pessoas que estavam em condições de observar o evento. As alegações dos primeiros cristãos sobre os milagres públicos do Nazareno não se qualificam, porque as ‘multidões’ de judeus diante do qual eles foram supostamente praticados não atestam aos mesmos. E isso é igualmente verdadeiro em relação às reivindicações feitas por outras religiões (embora, como veremos, depois do evento no Sinai, os milagres não trazem em si valor de credibilidade).
7. Maimonides, Mishne Torá, Cap. VIII, Yesodot HaTorá
8. Ibid. Cap. VIII.
9. Este ponto é crucial. Contradiz a opinião popular. O judeu permanece sem se impressionar com milagres. Isso não forma a essência do que acreditam, e eles não entram no quadro mental de seu credo. Embora o profeta mais justo possa realizá-los, milagres não instilam por si mesmos nenhum tipo de confiança. A credibilidade do profeta repousa e é remetida a uma única fonte – a revelação do Sinai.

Maimônides conclui: "segue-se daí que todos os profetas que surgem depois de Moisés nosso mestre, não acreditamos neles por causa do sinal que eles dão a fim de que possamos dizer que vamos prestar atenção no que ele diz, mas sim por causa do mandamento que Moisés deu na Torá e declarou: "Se ele lhes der um sinal a fim de que vocês prestem atenção nele", assim como ele nos mandou julgar com base no depoimento de duas testemunhas, embora não saibamos em sentido absoluto se eles testemunharam a verdade ou a falsidade. Assim também é um mandamento para ouvir este profeta, mesmo que nós não saibamos se o sinal é verdadeiro. Portanto, se um profeta se levantar e realizar grandes maravilhas e procurar repudiar a profecia de nosso mestre Moisés, nós não prestamos atenção a ele. E ao que isso se assemelha? À duas testemunhas que depuseram a alguém sobre algo que ele mesmo viu com seus próprios olhos, e que negam que o que ele viu com seus próprios olhos é a realidade. Essa pessoa certamente não dará ouvidos à essas testemunhas, pois sabe por certo que são falsas testemunhas. Portanto, a Torá afirma que ainda que o sinal ou prodígio desse profeta venha a acontecer, não deveremos atentar para as palavras deste profeta, porque esta (pessoa) vem até você com um ‘sinal’ e quer fazer com que você repudie o que viu com seus próprios olhos e por isso não devemos acreditar em sinais, mas só nos mandamentos que Moisés nos deu. Como podemos aceitar por meio de um sinal esta (pessoa) que veio a repudiar a profecia de Moisés, aquilo que vimos e ouvimos?". (10) O judeu está, portanto, completa e exclusivamente ligado ao evento no Sinai, que foi formulado para satisfazer totalmente a mente humana. (11)
Isso explica a ideia principal do capítulo do falso profeta dada pela Torá em Deuteronômio 13: 2-6.
"Se levantar-se no meio de ti um profeta ou sonhador de sonhos e ele lhes der um sinal ou prodígio, e o sinal ou prodígio de que ele vos deu vier a acontecer, e disser: ‘Vamos após outros deuses que não conheceis, para que os sirvamos’, não dê ouvidos às palavras daquele profeta ou sonhador. D’us o Eterno, está vos testando para ver se sois realmente capazes de amar a D’us, vosso Senhor de todo o vosso coração, e de toda a vossa alma."
Mas que teste é este? O teste é para ver se o seu amor (12) por D’us é baseado no verdadeiro conhecimento, o que Ele nos ensinou a seguir e a abraçar, ou se você está sendo vítima de emoções doentias primitivas de momento, que originam-se da fonte instintiva da natureza do homem. O conhecimento de um judeu/monoteísta nunca deve ser abalada por sonhadores ou milagreiros. Nós não prestamos atenção neles. Com base na demonstração racional satisfatória do Sinai, nos mantemos fiéis a D’us através da Sua sabedoria e conhecimento. (13) A nossa crença é que a Sua lei é eterna e imutável. Quando nós nos aperfeiçoamos desta maneira, podemos dizer que nós realmente amamos a D’us de todo o coração e de toda a nossa alma. Nós, então, servimos a D’us através da mais elevada parte da nossa natureza, o elemento divino que Ele colocou na nossa alma.
V
Temos até agora tratado da realidade do evento no Sinai e da natureza deste evento. Temos agora de nos preocupar com o propósito deste evento. Quando os judeus receberam a Torá no Sinai, eles proferiram duas palavras, “naaseh v'nishma” – isto é, "nós faremos e ouviremos", o último significado, ‘vamos aprender, entender e compreender’. O compromisso não era apenas de ação ou desempenho, mas também de busca pelo conhecimento da Torá. O R. Jonah de Gerundi pergunta (14), Como é que se pode fazer se não se entende? A prática de uma pessoa racional requer como algum conhecimento como pré-requisito de desempenho. O próprio R. Jonah responde: O evento no Sinai serviu de verificação da verdade da Torá. A Torá criou um sistema de erudição sobre seus temas, sistema esse pelo qual suas ideias são confiadas. "Nós vamos fazer" significa que vamos aceitar a autoridade dos estudiosos da Torá sobre o desempenho adequado até que possamos entender por nós mesmos por meio do conhecimento, porque esse desempenho está correto. O compromisso de Naassê (ação) é preliminar, até chegarmos ao Nishma, (audição), ou seja, a nossa própria compreensão. Nosso objetivo final é a plena compreensão deste corpo de conhecimento conhecido como Torá. Ganhamos conhecimento da Torá, aplicando nossos intelectos ao seu estudo e investigação. O estudo da Torá e da compreensão de seus princípios é um processo puramente racional e cognitivo. Todas as decisões haláchicas estão embasadas apenas e tão somente na razão humana.
Até muito recentemente, as maiores mentes do povo judeu dedicaram-se ao estudo da Torá. Desde que a sua tradição perdeu popularidade, os grandes recursos intelectuais do judeu têm sido direcionados para a ciência, matemática, psicologia e outras áreas seculares de onde eminentes pensadores surgiram. Em anos anteriores, os recursos intelectuais dos judeus produziram grandes intelectos da Torá como Maimonides, Rabbeinu Tam, e Nachmanides. Em tempos modernos, esses mesmos recursos produziram gigantes seculares eminentes como Albert Einstein, Niels Bohr, e Sigmund Freud. Dizemos isto para que o leigo possa ter alguma compreensão do nível intelectual dos nossos estudiosos, pois assim como é impossível apreciar a inteligência de um Einstein a menos que se tenha grande conhecimento da física, é impossível de se apreciar as grandes mentes da Torá a menos que se tenha atingido um alto nível de conhecimento acerca dela.
Os maiores pensadores da ciência, todos eles, compartilham uma experiência comum de profunda humildade intelectual. Isaac Newton disse que se sentia como um menino brincando à beira-mar, enquanto o "vasto oceano da verdade" rolava diante dele. Albert Einstein disse: "Uma coisa que eu aprendi em uma longa vida: que toda a nossa ciência medida contra a realidade é primitiva e infantil - e, no entanto, é a coisa mais preciosa que temos." A mente humana não pode apenas determinar o que sabe; ela pode avaliar a extensão e enormidade do que ainda não sabe. A grande mente pode sentir a profundidade do que está investigando. Na Torá pode-se encontrar a mesma experiência. As maiores mentes da Torá ao longo dos séculos, têm tido a percepção de que eles são apenas arranhando a superfície de um corpo vasto e infinito de conhecimento. Na medida do que o universo é para o físico, a Torá é para o talmudista. Assim como o físico que ao formular suas equações pode sentir a sua crueza contra a grande realidade que ele está tentando penetrar, assim também o talmudista na formulação de suas abstrações tem em vista o mundo infinito do pensamento da Halachá. Como o Midrash declara: "É muito maior do que a Terra e mais largo do que o mar, e aumenta infinitamente." A razão para as duas experiências é a mesma. Ambas as formas derivam de conhecimento infinito de D’us.
Permitam que elaboraremos mais sobre este ponto. Quando o cientista pondera sobre os fenômenos da natureza e começa a desvendá-los, ele acha que com a resolução de cada problema, novos mundos se abrem para ele. As perguntas e as aparentes contradições que observa na natureza são portais que o orientam para uma maior compreensão, forçando-o a estabelecer novas teorias, que, se estiverem corretas, lançam luz sobre uma gama ainda maior de fenômenos. Novas verdades científicas são descobertas. A alegria do sucesso é no entanto, de curta duração, pois novos problemas, muitas vezes ainda maior imensidão, surgem no horizonte da investigação. Ele porém não é dissuadido por esta situação, pois considera sua nova visão valiosa e aguarda com maior expectativa os ganhos futuros de conhecimento. O cientista é impelido pela sua fé de que a natureza não está em desacordo consigo mesma, que o mundo faz sentido, e que todos os problemas, não importa quão formidáveis na aparência, devem finalmente ceder a um sistema inteligível subjacente, que é capaz de ser apreendido pela mente humana. Sua fé é amplamente recompensada por meio de cada sucesso que traz novas e ainda mais surpreendentes descobertas. Ele prossegue em sua tarefa infinita.
Ao estudar sistemas feitos pelo homem, tais como o Direito Constitucional dos Estados Unidos ou o Direito Comum do Reino Unido, sabemos não ser este o caso. O investigador aqui não está envolvido em uma busca infinita. Ou ele atinge o final de sua investigação, ou ele se depara com problemas que não se prestam a uma análise mais aprofundada. Isso é atribuível às deficiências dos designers do sistema. Os sistemas feitos pelo homem não apresentam profundidade além do intelecto de seus designers. Ao contrário da ciência, problemas reais nesses sistemas não servem como pontos de partida para novas perspectivas teóricas, mas em vez disso levam a becos sem saída.
Aqueles que estão familiarizados com o estudo da Torá sabem que o talmudista encontra-se na mesma situação que o investigador científico. Aqui dificuldades não levam a becos sem saída; pelo contrário, com uma análise cuidadosa, aparentes contradições dão lugar a novas idéias, à abertura de novas estradas do pensamento intelectual. Gamas mais amplas de fenômenos halachicos tornam-se unificados enquanto novos problemas vêm à luz. O processo é infinito. As maiores mentes humanas tiveram esta experiência ao ponderar sobre o Talmud; de fato, quanto maior for a mente, tanto maior será a experiência. Estamos lidando com um corpo de conhecimento muito além da compreensão final do homem mortal. É esta experiência, este conhecimento de primeira mão da Torá que tem sido a fonte mais íntima de fé para os estudiosos da Torá ao longo dos tempos.
A convicção definitiva de que a Torá é a palavra de Deus deriva de uma fonte intrínseca, o conhecimento da própria Torá. É claro que esta fonte de convicção está disponível apenas para o estudioso da Torá. Mas D’us deseja que todos nós sejamos estudiosos. Isso só é possível se fizermos o “nishma”, o objetivo final da entrega da Torá no Monte Sinai.
A revelação no Sinai, enquanto cuidadosamente estruturada pelo Criador para apelar ao princípio racional do homem, para movê-lo por meio de seu Tzelem Elokim, é apenas um prelúdio para a realização direta e pessoal final da Torá como sendo a obra do Todo-Poderoso. A revelação no Sinai foi necessária para criar o ‘Naassê’, que é a ponte para o ‘Nishma’ onde qualquer pessoa pode adquirir conhecimento de primeira mão da Torá e da verdade que ela contém. Como o R. Soloveitchick disse uma vez, o estudo da Torá é um "encontro com o Todo-Poderoso". Quando começamos a compreender a filosofia da Torá, também podemos começar a apreciar como a revelação no Sinai foi estruturada por D’us no único caminho possível para alcançar as metas da Torá - criar uma forma de serviço divino para sempre seguro, por meio da qual o homem serve o seu Criador através do elemento mais alto da sua natureza.
Pós-Escrito
Uma declaração de Nachmanides merece inclusão aqui. Nachmanides diz que podemos inferir a verdade da Torá à partir do princípio de que uma pessoa não legaria uma falsidade para seus filhos. À primeira vista, isso parece inexplicável. A idolatria também poderia valer-se do mesmo argumento. Devemos, obviamente, dizer que o princípio, para que possa ser verdadeiro, deve ser alterado para que se leia da seguinte forma: uma pessoa não iria transmitir intencionalmente uma falsidade para seus filhos. Como, então isso poderia demonstrar que o evento do Sinai é verdade? Todas as pessoas religiosas acreditam que sua forma de culto é verdadeira e que eles estão dando a maior bênção sobre seus filhos, transmitindo-lhes as suas crenças mais queridas.
As palavras de Nachmanides tornam-se claras quando percebemos que sua inferência é baseada em um certo nível de conhecimento da Torá. Ou as emoções ou o intelecto gera uma crença. Mas a Torá é um vasto sistema de conhecimento com conceitos, postulados e axiomas. Se um sistema tão complexo assim tivesse sido fabricado, teria de ter sido feito de modo intencional. Portanto, Nachmanides afirma em sua proposição que pessoa alguma poderia legar aos seus filhos uma falsidade deliberadamente criada para enganar.
Para que se possa entender a inferência de Nachmanides, a pessoa deve atingir pelo menos uma familiaridade básica com a Torá. O reconhecimento final da Torá como uma ciência teria a necessidade de exigir um maior grau de conhecimento. A prova de Nachmanides é parcialmente intrínseca, ao passo que a demonstração da Torá desde o Sinai é totalmente extrínseca. Há, então, três níveis de conhecimento da Torá desde o Sinai: a demonstração, a verificação intrínseca através do conhecimento, e o que é derivado de Nachmanides.
EPÍLOGO
A Torá satisfaz completamente as necessidades do Tzelem Elokim na natureza do homem. Todas as mentes humanas anseiam pela Torá. O homem foi criado para isto (veja Tratado Sanhedrin 99b). Seguindo o exemplo de Maimonides, que disse: "Ouça a verdade seja de quem quer que a disse” (Introdução à Avot), e seu filho Reb Avraham, que aprovou o estudo de Aristóteles nas áreas em que ele não discordava da Torá. (15 ) Tomamos assim a liberdade de citar Bertrand Russell: "O mundo tem a necessidade de uma filosofia ou uma religião que irá promover a vida. Mas, a fim de promover a vida, é necessário valorizar algo que não seja meramente a vida. A vida dedicada apenas à vida é animal, sem qualquer valor humano real, incapaz de preservar os homens permanentemente do cansaço e da sensação de que tudo é vaidade”
Se a vida deve ser plenamente humana, a mesma deve servir para algum fim, o que parece, em certo sentido, fora da vida humana - algum fim que seja impessoal e acima da humanidade, como D’us, ou a verdade ou a beleza. Aqueles que melhor promovem a vida não tem a vida como seu propósito. Eles visam sim com o que parece ser uma encarnação gradual, a entrada em nossa existência humana de algo eterno, algo que aparenta à imaginação viver em um paraíso distante da luta, do fracasso e as mandíbulas devoradoras do tempo. O contato com o mundo eterno - mesmo que seja só um mundo da nossa imaginação nos traz força e paz, fundamentos que não podem ser totalmente destruídos pelas lutas e fracassos aparentes de nossa vida temporal "(16)
A Torá faz com que a nossa vida valha a pena. Ela nos dá o contato com o mundo eterno de D’us, da verdade e da beleza de suas idéias. Ao contrário de Russell o agnóstico, não temos de nos satisfazer com um mundo de "nossa imaginação", mas com o mundo da realidade - a criação de D’us. Como somos felizes e quão significativas são as palavras que recitamos a cada dia "para eles [a Torá e as mitsvot] serão as suas vidas e o prolongamento dos seus dias"
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NOTAS:
10. Maimonides, Mishne Torá, Cap. VIII, Yesodot HaTorá Cap. VIII.
11. Este ponto é crucial. Contradiz a opinião popular. O judeu permanece sem se impressionar com milagres. Isso não forma a essência do que acreditam, e eles não entram no quadro mental de seu credo. Embora o profeta mais justo possa realizá-los, milagres não instilam por si mesmos nenhum tipo de confiança. A credibilidade do profeta repousa e é remetida a uma única fonte – a revelação do Sinai.
12. Veja o conceito do amor de D’us, como descrito pelo Código de Leis das Fundações da Torá Capítulo II 1,2 de Maimonides.
13. Ao visitar o Instituto Médico Rockefeller, Albert Einstein encontrou-se com o Dr. Alexis Carrel, cujos interesses extracurriculares eram espiritismo e percepção extra-sensorial. Observando que, Einstein não se impressionou. Carrel disse: "Mas doutor o que você diria se você observasse este fenômeno por si si mesmo?" ao que Einstein respondeu: "Eu ainda não acredito nisso." (Clark, Ronald W. Einstein: The Life and Times (New York:. 1971, a Avon Books) p 642.). Por que o grande cientista não capitularia até mesmo diante da evidência? É uma questão do próprio quadro total. O verdadeiro homem de ciência que vê o conhecimento que permeia todo o universo a partir da menor partícula até as maiores galáxias não será abalado a partir de seu ponto de vista por alguns fatos insignificantes mesmo que ele não possa ser capaz de explicá-los. Só os ignorantes são movidos por tais "provas". De uma maneira similar milagres não afetam um homem que estuda a Torá que está enraizada no Sinai e em seu D’us, a sabedoria infinita. Seu credo é o seu cogito.
14. Rebbeinu Yonah Avos III 9.
15. No que diz respeito livros que são proscritos, este segue o precedente do Talmud [Sanhedrin 110b], mili mealyesah deis baih darshinon – “as coisas verdadeiras que há neles, nós estudamos”
16. Schlipp, Paul R. The Philosophy of Bertrand Russell. (LaSalle: 1989, Open Court Publishing). p.533.

Fonte: mesorah.org - Tradução e adaptação: Esh
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