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Introdução
 Que todas as orações já oferecidas possam ser respondidas abundantemente e com presteza! Que mais rogos dessa natureza possam seguir à prece em que já nos unimos! A parte mais memorável das conferências passadas tem sido sempre a santa união da oração de fé, e creio que não diminuímos nosso empenho em relação a isso, e sim temos sido mais fervorosos e prevalentes na intercessão. De joelhos, o crente é invencível.

  Já me preocupo com esta mensagem muito antes de proferi-la: com certeza, para mim é o fruto de muitas orações. Desejo ser capaz de falar bem em ocasião tão digna, em que os melhores oradores podem ser convocados, mas, como a oração de nosso irmão já disse, quero estar completamente nas mãos do Senhor nesse assunto como em todos os outros. Estaria disposto a falar de forma balbuciante se assim o propósito de Deus pudesse ser mais completamente alcançado; até ficaria contente de perder todo o poder de fala se, ao ficar faminto de palavras humanas, vocês puderem se alimentar melhor daquela carne espiritual que só nele é encontrada, a Palavra de Deus encarnada.

  Posso dizer-lhes, como oradores, que estou persuadido de que devemos nos preparar com diligência e procurar fazer nosso melhor para servir o Mestre. Creio ter lido que quando um punhado de gregos, como leões, impediu a passagem dos persas, um espião, que veio ver o que estavam fazendo, voltou e disse ao grande rei tratar-se de pobres criaturas, pois estavam ocupados em pentear seus cabelos. O déspota viu as coisas sob uma luz verdadeira quando aprendeu que um povo que podia ajeitar o cabelo antes que a batalha passasse a ser importante para eles, não aceitaria uma morte de covarde.

  Ao ser muito cuidadosos em usar nossa melhor linguagem para proclamar verdades eternas, deixamos nossos adversários concluírem que somos ainda mais cuidadosos em relação às próprias doutrinas. Não podemos ser soldados desmazelados quando uma grande batalha está diante de nós, pois isso poderia parecer desânimo. Na batalha contra a falsa doutrina, e mundanismo, e pecado avançamos sem nenhum temor em relação ao resultado final; portanto, nossa fala não deve ser de áspera paixão, e sim de princípio bem considerado. Não nos é permitido ser desmazelados, uma vez que queremos ser triunfantes.

  Nessa hora, faça bem seu trabalho, para que todos vejam que você não fugirá dele. O persa quando, em outra ocasião, viu um pequeno número de guerreiros avançando em sua direção disse: "Aquele punhado de homens! Certamente não estão dispostos a lutar!". Contudo, alguém, que estava perto, disse: "Sim, estão, porque poliram seus escudos e lustraram suas armaduras". Homem é sinônimo de ocupação, ele depende dela quando não se apressa para a desordem. Entre os gregos, quando tinham um dia sangrento pela frente, preocupavam-se em estar bem apresentáveis para mostrar a firme alegria de guerreiros.

  Irmãos, creio que quando temos uma grande obra para fazer por Cristo, e tencionamos fazê-la, não devemos subir ao púlpito ou plataforma para dizer a primeira coisa que vem à mente. Ao falar por Jesus, devemos fazê-lo da melhor maneira, ainda que homens não sejam mortos pelo brilho de escudos nem pela maciez do cabelo de um guerreiro, mas se faz necessário um poder superior para penetrar as armaduras. Ao Deus dos exércitos, ergo os olhos. Possa ele defender o certo! No entanto, avanço sem nenhum passo descuidado e sem ser possuído por qualquer dúvida. Somos fracos, mas o Senhor nosso Deus é poderoso, e a batalha é do Senhor, não nossa.

  Até certo ponto, tenho apenas um temor: que meu profundo senso de responsabilidade não diminua minha eficiência. Um homem pode sentir que deve fazer algo tão bem e, por isso, pode não conseguir fazê-lo tão bem quanto poderia. Um sentimento excessivo de responsabilidade pode paralisar a pessoa. Certa vez, recomendei um jovem para ser empregado por um banco, e, com razão, seus amigos o instruí-ram para que fosse muito cuidadoso com seus números. Ele ouviu vezes sem-fim esse conselho. Tornou-se tão cuidadoso que ficou inseguro e apesar de que anteriormente fizesse seu trabalho corretamente, a ansiedade o fazia cometer um erro após outro, até que saiu do emprego. É possível ficar tão ansioso em relação ao assunto e ao como falar a ponto de bloquear seu desempenho e esquecer aqueles pontos específicos que pretendia enfatizar.

  Irmãos, eu lhes conto alguns de meus pensamentos particulares porque, como recebemos o mesmo chamado e temos as mesmas experiências, é bom saber que é assim com todos. Nós líderes temos as mesmas fraquezas e dificuldades que vocês, seguidores. Precisamos preparar, mas também confiar naquele sem o qual nada começa, continua nem termina corretamente.

  Tenho esse consolo, mesmo que eu não fale adequada-mente sobre o tema, o tópico fala por si mesmo. Há uma coisa, mesmo no iniciar um assunto apropriado. Se um homem fala bem sobre um assunto que não tem nenhuma importância prática, seria melhor que não tivesse falado. Como disse um dos anciãos: "É fútil falar muito sobre um assunto que não vem ao caso". A pessoa pode esculpir um caroço de cereja com a maior habilidade e por mais que faça, é apenas um caroço de cereja; enquanto um diamante, mesmo que mal lapidado, é uma pedra preciosa. Se o assunto for de peso, mesmo que a fala do homem não esteja à altura do tema, ainda assim, nunca é inútil chamar a atenção para o assunto. Os assuntos que trataremos agora devem ser considerados, e considerados neste momento. Eu escolhi verdades atuais e prementes, e se meditar consigo mesmo sobre elas, esse tempo não é perdido. Oro com muito fervor interior, para que todos possamos aproveitar esse tempo de meditação!

  Felizmente, esses tipos de temas podem ser exemplificados nesta mensagem. Como um ferreiro ensina seu aprendiz enquanto faz uma ferradura; sim, e por meio do fazer uma ferradura; assim nossos sermões podem ser exemplos da doutrina que contêm. Nesse caso, se o Senhor está conosco, podemos praticar o que pregamos. Um professor de culinária ensina seus alunos fazendo suas receitas. Ele prepara um prato diante de seu auditório e enquanto descreve as iguarias e seu preparo, ele mesmo prova a comida, e seus amigos são também agraciados. Ele alcançará êxito ao fazer seus pratos delicados, mesmo que não seja eloqüente. É mais fácil o homem que alimenta ser bem sucedido, do que aquele que apenas toca bem um instrumento e só deixa em seu auditório a lembrança daquele som agradável. Se os assuntos que trazemos à atenção de nosso povo são bons em si mesmos, eles compensarão nossa falta de perícia em apresentá-los. Enquanto nossos hóspedes receberem a carne espiritual, o criado que serve à mesa deve ficar contente em ficar esquecido.

  Meus tópicos têm a ver com a obra de nossa vida, com a cruzada contra o erro e o pecado no qual estamos envolvidos. Espero que cada homem aqui use a cruz rubra em seu coração e esteja comprometido para agir e ousar por Cristo e sua cruz e que não fique satisfeito até que os inimigos de Cristo sejam extirpados, e o próprio Cristo esteja satisfeito. Nossos pais falavam sobre "A Causa de Deus e da Verdade", e é para isso que empunhamos armas, os poucos contra os muitos, os fracos contra os poderosos. Ah, sermos vistos como bons soldados de Jesus Cristo!

  Neste momento, três coisas são de extrema importância, na verdade, sempre estiveram e estarão na fileira de frente para propósitos práticos. A primeira é nosso arsenal, a Palavra inspirada; a segunda, é nosso exército, a igreja do Deus vivo convocada por ele mesmo, a qual devemos liderar sob o comando de nosso Senhor; e a terceira, é nossa força, pela qual vestimos a armadura e brandimos a espada. O Espírito Santo é nosso poder de ser e atuar; de sofrer e servir; de crescer e batalhar; de lutar e vencer. Nosso terceiro tema é de suma importância, e embora esteja como último, o consideramos o primeiro.












Nosso Arsenal
A Palavra Inspirada
  Começaremos com NOSSO ARSENAL. Esse arsenal é para mim--e espero que seja para cada um de vocês--A BÍBLIA. Para nós, a Escritura Sagrada é como "a torre de Davi, construída como arsenal. Nela estão pendurados mil escudos, todos eles escudos de heróicos guerreiros" (Ct 4.4). Se quisermos armas devemos buscá-las na Bíblia, e apenas aqui. Quer procuremos a espada de ofensa quer o escudo de defesa, devemos achá-lo no volume da inspiração. Se outros têm qualquer outra fonte, confesso imediatamente que não tenho nenhuma outra. Nada mais tenho a pregar quando acabar esse livro. Na verdade, não teria mais vontade de pregar se não pudesse falar sobre os assuntos que encontro nessas páginas. O que mais valeria à pena ser pregado? Irmãos, a verdade de Deus é o único tesouro pelo qual procuramos, e a Escritura é o único campo no qual cavamos à sua procura.

Nada mais do que aquilo que Deus achou por bem revelar
  Não precisamos de nada mais do que aquilo que Deus achou por bem revelar. Certos espíritos errantes nunca estão em casa até que estejam viajando pelo exterior: têm fome de algo que nunca encontrarão "no céu, na terra, ou nas águas debaixo da terra" (Êx 20.4) enquanto tiverem o pensamento que têm agora. Nunca descansam, porque não querem ter nada que ver com uma revelação infalível, por isso, eles estão fadados a perambular através do tempo e da eternidade e a não encontrar nenhuma cidade em que possam descansar. Pois, no momento, eles se gloriam como se satisfeitos com seu último brinquedo novo, mas em poucos meses o esporte deles será quebrar em pedaços todas as noções que anteriormente prepararam com cuidado e exibiram com deleite. Sobem um morro apenas para descê-lo de novo. De fato, dizem que a busca da verdade é melhor do que a própria verdade. Gostam de pescar mais do que do peixe; o que pode bem ser verdade, visto que seus peixes são muito pequenos e cheios de ossos.

  Esses homens são tão profícuos em destruir suas teorias, como certos indigentes em esfarrapar suas roupas. Mais uma vez começam de novo, vezes sem conta; sua casa está sempre com os alicerces expostos. Devem ser bons em inícios, pois desde que os conhecemos sempre estão começando. São como aquilo que roda no redemoinho, ou "como o mar agitado, incapaz de sossegar e cujas águas expelem lama e lodo" (Is 57.20). Embora sua nuvem não seja aquela que indica a presença divina, contudo está sempre andando à frente deles e suas tendas nem estão bem armadas e já é tempo de levantar de novo as estacas. Esses homens nem mesmo procuram certeza; seu céu é evitar toda verdade fixa e seguir toda quimera de especulação; estão sempre aprendendo, mas nunca chegam ao conhecimento da verdade.

  Quanto a nós, lançamos âncora no abrigo da Palavra de Deus. Eis aí nossa paz, nossa força, nossa vida, nosso motivo, nossa esperança, nossa felicidade. A Palavra de Deus é nosso ultimato. Aqui nós o temos. Nosso entendimento clama: "Encontrei"; nossa consciência afirma que aqui está a verdade; e nosso coração encontra aqui um suporte ao qual toda sua afeição pode se agarrar e, por isso, descansamos contentes.
 
A revelação de Deus é suficiente para nossa fé
  O que poderíamos acrescentar se a revelação de Deus não fosse suficiente para nossa fé? Quem pode responder essa pergunta? O que qualquer pessoa proporia acrescentar à Palavra sagrada? Um momento de reflexão nos levaria a escarnecer das mais atraentes palavras de homens, se fosse proposto acrescentá-las à Palavra de Deus. O tecido não estaria em uma peça única. Você adicionaria remendos a uma veste real? Você guardaria a sujeira das ruas no tesouro do rei? Você juntaria as pedrinhas da praia aos diamantes preciosos da antiga Golconda? Qualquer coisa que não seja a Palavra de Deus posta diante de nós para que creiamos e preguemos como se fosse a vida do homem nos parece totalmente absurda, contudo, enfrentamos uma geração de homens que sempre querem descobrir uma nova força motriz e um novo evangelho para suas igrejas. A manta de sua cama parece não ser suficientemente longa, e eles querem pegar emprestado um metro ou dois de tecido misto e incongruente dos unitaristas, agnósticos ou mesmo dos ateístas.

  Bem, se existe qualquer força espiritual ou poder dirigido aos céus, além daquele relatado nesse Livro, acho que podemos passar sem ele. Na verdade, deve ser uma falsificação tão grande que estamos melhor sem ela. As Escrituras em sua própria esfera são como Deus no universo--Todo-suficiente. Nelas estão reveladas toda a luz e poder que a mente do homem pode precisar em relação às coisas espirituais. Ouvimos falar de outra força motriz além daquela encontrada nas Escrituras, mas cremos que tal força é um nada muito pretensioso. Um trem está descarrilado, ou incapaz de prosseguir por outro motivo, quando chega a turma do conserto. Trazem locomotivas para tirar o grande impedimento. A princípio parece que nada se mexe: a força da locomotiva não é suficiente. Escutem! Um garotinho tem uma idéia. Ele grita: "Pai, se eles não têm força suficiente, eu empresto meu cavalo de balanço para ajudá-los". Ultimamente, recebemos a oferta de um considerável número de cavalos de balanço. Pelo que vejo, eles não têm conseguido muito, mas prometeram bastante. Temo que o efeito disso tenha sido mais maléfico que benéfico: eles já levaram pessoas a zombar e as retiraram dos lugares de culto que antes gostavam de freqüentar. Os novos brinquedos foram exibidos, e as pessoas, depois de olhá-los um pouco, foram adiante, à procura de outras lojas de brinquedos. Esses belos e novos nadas não lhes fizeram bem nenhum e nunca farão enquanto o mundo existir.

  A Palavra de Deus é suficiente para atrair e abençoar a alma do homem ao longo dos tempos; mas as novidades logo fracassam. Alguém pode bradar: "Certamente, precisamos acrescentar nossos pensamentos a isso". Meu irmão, pense o que quiser, mas os pensamentos de Deus são melhores do que os seus. Você pode ter lindos pensamentos, como as árvores no outono soltam suas folhas, mas há alguém que sabe mais sobre seus pensamentos do que você e os julga de pouco valor. Não é verdade que está escrito: "O Senhor conhece os pensa-mentos do homem, e sabe como são fúteis?" (Sl 94.11). Comparar nossos pensamentos aos grandes pensamentos de Deus, seria total absurdo. Você traria sua vela para mostrá-la ao sol? O seu nada para reabastecer o todo eterno? É melhor calar diante do Senhor, do que sonhar em complementar o que ele falou. A Palavra do Senhor está para a concepção dos homens como um pequeno jardim, para o deserto. Mantenha-se no escopo do livro sagrado e estará na terra que mana leite e mel; por que tentar lhe acrescentar as areias do deserto?
 
Não jogar fora nada do livro perfeito
  Tente não jogar fora nada do livro perfeito. O que você encontra nele permita que ali fique, e o faça seu para pregar conforme a analogia e o tamanho da fé. Aquilo que é digno de ser revelado por Deus é digno de nossa pregação--isso é o mínimo que posso dizer a respeito. "Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus" (Mt 4.4; Dt 8.3). "Cada palavra de Deus é compro-vadamente pura; ele é um escudo para quem nele se refugia" (Pv 30.5). Permita que cada verdade revelada seja apre-sentada a seu tempo. Não procure assunto em qualquer outro lugar, pois com tal infinitude de temas diante de você não há necessidade de assim fazer; com tão gloriosa verdade para pregar seria uma audaciosa crueldade fazer isso.

Já testamos a adoção de toda essa provisão para nossa guerra
  Já testamos a adoção de toda essa provisão para nossa guerra: as armas de nosso arsenal são as mais excelentes; pois já as experimentamos e sabemos que são. Alguns de vocês, irmãos mais jovens, até agora só testaram um pouco a Escritura; mas outros de nós, já de cabelos prateados, podemos assegurar que já testamos a Palavra, como a prata é testada em uma fornalha de terra, e ela passou em todos os testes, até setenta vezes sete. A Palavra sagrada suportou mais crítica do que a mais bem aceita forma de filosofia ou ciência e sobreviveu a toda prova. Como disse um clérigo abençoado: "Quando os atuais críticos da Bíblia morrerem, os sermões funerais deles serão pregados com esse Livro--sem se omitir um só versículo--da primeira página de Gênesis à última página de Apocalipse". Alguns de nós, por muitos anos, temos vivido em conflito diário, sempre pondo à prova a Palavra de Deus e, com honestidade, podemos garantir que dá resultado em qualquer emergência. Depois de usar essa espada de dois gumes contra vestes de malha de metal e escudos de bronze, não encontramos nenhuma fenda nela. Não está quebrada nem perdeu o gume nos embates. Cortaria o próprio demônio do topo da cabeça à sola do pé, e mesmo assim não apresentaria nem um sinal qualquer de falha.

  Hoje ainda é a mesma poderosa Palavra de Deus que foi nas mãos do Senhor Jesus. Como ela nos fortalece quando lembramos as muitas almas conquistadas com essa espada do Espírito! Será que algum de vocês já conheceu ou ouviu falar de conversão operada por qualquer outra doutrina que não aquela que está na Palavra? Gostaria de ter um catálogo das conversões realizadas pelas teologias modernas. Compraria um exemplar de tal obra. Não digo o que faria com ela depois que a tivesse lido; mas pelo menos aumentaria as vendas em um exemplar, só para ver o que a doutrina da divindade progressista diz ter feito. Conversões por meio da doutrina de restituição universal! Conversões feitas por doutrinas de inspiração duvidosa! Conversões ao amor de Deus e à fé em seu Cristo ao ouvir que a morte do Salvador foi apenas a consumação de um grandioso exemplo, mas não um sacrifício vicário! Conversões por meio de um evangelho do qual todo o evangelho foi drenado! Eles dizem: "As maravilhas nunca cessarão"; mas tais maravilhas nunca começaram.

  Que eles relatem a mudança de coração operada desse modo, e nos dêem oportunidade para testá-la, talvez assim possamos considerar se vale nosso tempo deixar aquela Palavra que experimentamos em centenas e em alguns de nós, em milhares e milhares de casos, e que sempre tem sido eficaz para a salvação. Sabemos por que eles zombam das conversões. Estas são as uvas que tais raposas não podem alcançar, portanto, dizem que estão verdes. Como cremos no novo nascimento e esperamos vê-lo em milhares de casos, nos apegamos àquela Palavra de verdade pela qual o Espírito Santo opera a regeneração. Em suma, em nossa guerra ficaremos com a velha arma da espada do Espírito, até que encontremos uma melhor. Hoje, nosso veredicto é: "Não há nada como ela, e eu a quero para mim".

  Quantas vezes já vimos a Palavra ser eficaz para consolar! Como um irmão expressou em oração, é difícil tratar de corações partidos. Tenho me sentido tão tolo quando tento tirar um prisioneiro do Castelo do Desespero Gigante! Como é difícil persuadir o próprio desconsolo a ter esperança! Tenho tentado muito capturar minha presa, empregando toda arte que conheço, mas quando quase consigo tê-lo em minha mão, a criatura já cavou outro buraco! Já o tirara de vinte buracos, mas depois tenho que começar de novo. O pecador convicto usa todo tipo de argumento para provar que não pode ser salvo. As invenções do desespero são tantas quanto os estrata-gemas da autoconfiança.

  Não há como deixar a luz entrar no porão escuro da dúvida, a não ser pela janela da Palavra de Deus. Nas Escrituras há um bálsamo para cada ferida, um ungüento para cada machucado. Ah, o poder maravilhoso da Bíblia para criar uma alma de esperança nas costelas do desespero e levar luz eterna para as trevas que fizeram uma longa noite no íntimo da alma! Com freqüência, experimentamos a Palavra do Senhor como "cálice da consolação" (Jr 16.7), e ela nunca deixou de alegrar o desconsolado. Sabemos sobre o que falamos, pois testemu-nhamos os fatos abençoados: as Escrituras da verdade, aplicadas pelo Espírito Santo, têm trazido paz e alegria àqueles que se sentavam no escuro e no vale da sombra da morte.

  Também observamos a excelência da Palavra na edificação de crentes e na produção de justiça, santidade e benefício. Hoje, sempre nos falam sobre o lado "ético" do evangelho. Tenho pena daqueles para quem isso é novidade. Não descobriram isso antes? Sempre estivemos lidando com a ética do evangelho; na verdade, ele é inteiramente ético. Não há doutrina verdadeira que não tenha sido abundante em boas obras. Payson, com sabedoria, disse: "Se há um fato, uma doutrina ou promessa na Bíblia que não produziu nenhum efeito prático em seu temperamento ou conduta, tenha certeza de que você não creu sinceramente". Todo ensino bíblico tem um objetivo e um resultado prático; e o que temos a dizer, não como matéria de descoberta, mas como assunto de simples senso comum, é o seguinte: se temos tido menos frutos do que desejaríamos com a árvore, suspeitamos que não haverá nenhum fruto quando a árvore não estiver mais ali e as raízes já tiverem sido arrancadas. A própria raiz da santidade está no evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, e removê-la, visando mais frutos, seria a maior insensatez.

  Já vimos as doutrinas da graça produzirem excelente moralidade, séria integridade, delicada pureza, e, mais ainda, devota santidade. Vemos consagração na vida, calma resignação na hora do sofrimento, alegre confiança no que se refere à morte, e todas essas coisas, não em poucos casos, em geral, são resultado da fé inteligente nos ensinos das Escrituras. Maravilhamo-nos mesmo com os sagrados efeitos do velho evangelho. Embora acostumados a ver isso com freqüência, isso nunca perde seu encanto. Já vimos pobres homens e mulheres se entregando a Cristo e vivendo por ele de uma forma que faz nosso coração se curvar em adoração ao Deus da graça. E dizemos: "Apenas o evangelho verdadeiro este que pode produzir vidas como essas". Se não falamos tanto em ética como alguns, lembramos um velho conceito do povo do campo: "Vá a tal lugar para ouvir falar de boas obras, mas vá a outro lugar para vê-las". Muita fala, poucas obras. Muito barulho é sinal de pouca lã.

  Alguns têm pregado boas obras até que dificilmente sobre uma pessoa decente na igreja, enquanto outros pregam a graça e amor vicário de tal modo que pecadores se tornam santos, e santos se tornam galhos carregados de frutos para o louvor e a glória de Deus. Em vista da colheita que vem de nossa semente não vamos mudá-la de acordo com os ditames desta era cheia de caprichos.

  Vimos e testamos a eficácia da Palavra de Deus, em especial, quando estamos junto ao leito de doentes. Há poucos dias, estive ao lado de um de nossos presbíteros que parecia estar morrendo e conversar com ele foi como estar no céu aqui na terra. Nunca vi tanta alegria em um casamento como vi naquele calmo aposento. Ele esperava estar logo com Jesus e estava cheio de alegria com a expectativa. Ele disse: "Não tenho nenhuma dúvida, nenhuma sombra, nenhuma dificuldade, nenhuma falta; não, nem mesmo tenho nenhum desejo. A doutrina que você me ensinou serviu para eu viver de acordo com ela e agora, para morrer de acordo com ela. Descanso no precioso sangue de Cristo e isso é um firme fundamento". E acrescentou: "Como me parecem tolas agora todas aquelas palavras contra o evangelho! Li algumas delas e vi os ataques contra a velha fé, mas elas me parecem bastante absurdas agora que estou à beira da eternidade. O que a nova doutrina poderia fazer por mim agora?"

  Terminei minha entrevista bastante fortalecido e alegre pelo testemunho do bom homem, fiquei pessoalmente mais confortado, porque foi a Palavra que eu mesmo pregara constantemente que trouxera tão grande bênção para meu amigo. Senti que a Palavra em si devia ser mesmo boa já que Deus a reconhecera, mesmo vindo de tão pobre instrumento. Não fico tão feliz em meio a gritos de jovens se divertindo como no dia em que ouvi o testemunho moribundo de quem descansa no evangelho eterno da graça de Deus. O resultado final, como se vê em um leito de morte, é um teste verdadeiro e inevitável. Preguem o que pode capacitar os homens para enfrentar a morte sem medo e pregarão apenas o velho evangelho. Irmãos, vestiremos o que Deus nos supriu no arsenal da Escritura inspirada, porque testou-se e comprovou-se de muitas formas cada arma dela e nunca qualquer parte de nossa panóplia nos falhou.

  Além disso, sempre nos conservaremos perto da Palavra de Deus, porque temos a experiência de seu poder em nós mesmos. Não faz tanto tempo a ponto de você se ter esquecido o modo que, como martelo, a Palavra de Deus quebrou seu coração duro, empedernido e derrubou sua vontade obstinada. Pela Palavra do Senhor, você foi trazido à cruz e consolado pela expiação. Essa Palavra soprou em você uma nova vida e quando, pela primeira vez, reconheceu ser filho de Deus, você sentiu o poder enobrecedor do evangelho recebido pela fé. O Espírito Santo operou sua salvação por meio da Santa Escritura. Tenho certeza que você traça sua conversão até a Palavra do Senhor; pois só ela é "perfeita, e revigora a alma".

  Não importa quem foi o homem que falou ou o livro em que leu, não foi a palavra nem o pensamento do homem a respeito da Palavra de Deus, mas a Palavra em si fez com que você conhecesse a salvação no Senhor Jesus. Não foi lógica humana, nem força de eloqüência, nem poder de persuasão moral, e sim a onipotência do Espírito, aplicando a Palavra em você que lhe deu descanso, e paz, e alegria em crer. Nós mesmos somos troféus do poder da espada do Espírito; e ele nos dirige, os cativos voluntários de sua graça, em triunfo em todo lugar. Que nenhum homem se admire por nos atermos a ela.

  Quantas vezes, desde sua conversão, a Escritura Sagrada tem sido tudo para você! Imagino que você teve seus ataques de desânimo: você não foi restaurado pelo precioso alimento da promessa do Deus Fiel? Um texto da Escritura acolhido no coração rapidamente desperta o débil coração. Os homens falam de líquidos que reavivam os espíritos, e de tônicos que fortificam o físico; mas, vezes sem-fim, a Palavra de Deus tem sido mais do que isso para nós. A Palavra do Senhor nos preserva em meio a cruciantes e fortes tentações e ferozes e amargas provações. Em meio a desalentos, que diminuem nossa esperança, e desapontamentos, que ferem nosso coração, sentimo-nos fortes para fazer e suportar, porque as garantias de socorro que encontramos na Bíblia nos nutrem com energia secreta, invencível.

  Irmãos, temos tido experiência da elevação que a Palavra de Deus pode dar--elevação em direção a Deus e ao céu. Se você estuda livros que se opõe àquele inspirado, será que não está consciente de que isso leva ao declínio? Conheci algumas pessoas para as quais tal leitura tem sido como um vapor pestilento, cercando-os com o frio da morte. Além disso, acrescente-se que deixar de ler a Bíblia, mesmo para fazer um estudo minucioso de bons livros, em pouco tempo acarreta um abatimento consciente da alma. Você ainda não descobriu que mesmos livros agradáveis podem ser como uma planície sobre a qual olha para baixo, em vez de aspirar ao cume? Há muito tempo você ultrapassou o nível deles e ao lê-los não chegará mais alto: é inútil gastar um tempo precioso debruçado sobre eles. Será que foi sempre assim com você e o Livro de Deus? Alguma vez, você se levantou acima do mais simples ensinamento dele, e sentiu que ele tinha a tendência de levá-lo ao declínio? Nunca! À medida que sua mente se torna saturada com a Santa Escritura, você fica consciente de ser imediatamente elevado e conduzido para cima, como se estivesse sobre asas de águias.

  Poucas vezes você desce de uma leitura solitária da Bíblia sem sentir que se aproximou de Deus. Digo solitária, pois o perigo de ler com outras pessoas é que os comentários sem interesse possam ser como moscas no pote de ungüento. O estudo da Palavra com oração não é apenas um meio de instrução, mas também um ato de devoção no qual o poder transformador da graça é muitas vezes exercido, nos mudando à imagem daquele em quem a Palavra é espelhada. Por fim, será que há algo que seja como a Palavra de Deus quando livros abertos encontram corações abertos? Quando leio sobre as vidas de homens tais como Baxter, Brainerd, McCheyne e muitos outros, eu me sinto como alguém que se banhou em algum riacho fresco depois de ter feito uma viagem através de um campo árido que o deixou empoeirado e deprimido; e isso é resultado do fato de que tais homens incorporaram a Bíblia em suas vidas e a ilustraram em sua experiência.

  O lavar-se pela Palavra foi o que eles tiveram, e é o que nós precisamos. Precisamos obter isso no lugar em que eles o encontraram. Ver os efeitos da verdade de Deus nas vidas de homens santos confirma a fé e estimula a aspiração santa. Não há outras influências que nos ajudem a chegar a tão sublime ideal de consagração. Se você ler os livros babilônicos de hoje, alcançará o espírito deles, e é um espírito estranho que o desviará do Senhor seu Deus. Você também pode sofrer grande dano com sacerdotes que têm a pretensão de falar o dialeto de Jerusalém, mas metade de sua mensagem é de Asdode: eles confundirão sua mente e profanarão sua fé. Pode acontecer que um livro que em seu todo seja excelente, com poucas máculas, possa lhe fazer mais mal do que um completamente mau. Cuide-se, obras dessa natureza são lançadas como nuvens de gafanhotos.

  Quase não se pode achar nesses dias um livro que seja inteiramente isento do levedo moderno, e a menor partícula dele fermenta até produzir o erro mais insano. Ao ler livros da nova ordem, embora possa não aparecer nenhuma mentira palpável, você fica consciente de estar recebendo uma distorção e um declínio no tom de seu espírito, portanto, esteja alerta. Mas com a Bíblia você sempre pode estar descansado; ali todo sopro de cada direção traz vida e saúde. Se você se conserva próximo do livro inspirado, não sofrerá mal algum; ao contrário, estará no manancial de todo bem moral e espiritual. Isso é alimento adequado para homens de Deus: é o pão que nutre a vida mais elevada.

  Depois de pregar o evangelho durante quarenta anos, e imprimir os sermões que preguei durante mais de trinta e seis anos, chegando agora a 2200 sermões, feitos em semanas sucessivas, ganhei o direito de falar sobre a superabundância e riqueza da Bíblia como o livro do pastor. Irmãos, ela é inesgotável. Se permanecermos junto ao livro sagrado não teremos nenhum problema de frescor nos textos. Não há dificuldade alguma para encontrar temas totalmente distintos daqueles que tratamos antes; a variedade é tão infinita quanto a plenitude. Uma longa vida será suficiente apenas para margear as costas desse imenso continente de luz. Em meus quarenta anos de ministério só toquei a orla da veste da verdade divina, mas quanta verdade fluiu dela! A Palavra é como seu Autor, infinita, imensurável, sem-fim. Se você fosse ordenado para ser pregador ao longo da eternidade, teria diante de si um tema à altura das demandas eternas.

  Irmãos, será que em alguma parte entre os corpos celestes cada um de nós terá um púlpito? Teremos uma igreja de milhões de léguas? Teremos vozes tão fortalecidas a ponto de alcançar constelações atentas? Seremos testemunhas para o Senhor da graça a miríades de mundos que ficarão atônitos e maravilhados ao ouvir sobre o Deus encarnado? Estaremos rodeados por inteligências puras perguntando sobre o mistério do Deus manifesto na carne e tentando entendê-lo? Os mundos não caídos desejarão ser instruídos no glorioso evangelho do Deus abençoado? E cada um de nós terá uma história pessoal para narrar nossa experiência de amor infinito? Acho que sim, visto que o Senhor nos salvou para "que agora, mediante a igreja, a multiforme sabedoria de Deus se tornasse conhecida dos poderes e autoridades nas regiões celestiais" (Ef 3.10). Se tal é o caso, nossas Bíblias serão suficientes ao longo de eras futuras para prover novos temas a cada manhã, e cantos e mensagens novas por eras sem-fim.

  Estamos resolvidos, portanto, visto que temos esse arsenal vindo do Senhor e que não queremos nenhum outro, a usar somente a Palavra de Deus, e usá-la com grande energia. Estamos resolvidos--e espero que não haja discordância entre nós--a conhecer melhor nossas Bíblias. Será que conhecemos o volume sagrado tão bem, pelo menos metade de como deveríamos conhecer? Temos trabalhado para ter um conheci-mento tão completo da Palavra de Deus, como muitos críticos têm conseguido de seu escritor clássico favorito? É possível que ainda nos deparemos com passagens da Bíblia que são novas para nós? Isso devia acontecer? Há qualquer passagem do que o Senhor escreveu que você nunca leu? Foi interessante a observação do meu irmão, Archibald Brown. Ele se impressionou com a constatação de que a não ser que lesse toda a Bíblia, de ponta a ponta, poderia haver ensinos inspirados que nunca conheceria, portanto, resolveu ler os livros na ordem em que são apresentados; e, depois de ler uma vez, ele continuou com o hábito. Será que qualquer um de nós deixou de fazer isso? Vamos começar imediatamente.

  Amo ver com que prontidão alguns de nossos irmãos apresentam uma passagem apropriada, depois citam outra semelhante e coroam tudo com uma terceira. Parecem conhecer exatamente o texto que acerta em cheio. Eles têm suas Bíblias, não só em seus corações, mas na ponta dos dedos. Esse é um conhecimento muito valioso para o ministro. Um bom textualista é um bom teólogo. Alguns outros, que estimo por outras coisas, ainda são fracos nesse ponto e raramente citam um texto da Escritura corretamente; na verdade, fazem alterações que ferem o ouvido do leitor da Bíblia. Infelizmente, é comum que ministros acrescentem ou suprimam uma palavra da passagem, ou de alguma forma desvalorizem a linguagem do relato sagrado. Ouço, com freqüência, irmãos falarem sobre garantir "seu chamado e salvação"! Provavelmente, não se deleitaram tanto quanto nós com a palavra calvinista "eleição" e, por essa razão, deduzem seu significado; mais ainda, em alguns casos o contradizem.

  Nossa reverência pelo grande Autor das Escrituras deveria proibir qualquer dilaceração de suas palavras. Nenhuma alteração da Escritura pode de forma alguma melhorá-la. Os crentes, em relação à inspiração, devem ser muito cuidadosos para ser verbalmente corretos. Os senhores que vêem erros na Escritura podem se achar competentes para consertar a linguagem do Senhor dos exércitos, mas nós que cremos em Deus e aceitamos as palavras específicas que ele usa, não podemos ousar fazer isso. Citemos as palavras como estão em sua melhor versão, melhor ainda seria saber o original e corrigir quando nossa versão não dá o sentido correto. Quanto dano poderá surgir da alteração acidental da Palavra! Abençoados aqueles que estão de acordo com o ensino divino e recebem seu sentido verdadeiro, conforme o Espírito Santo os ensina! Ah, que possamos conhecer totalmente o Espírito da Santa Bíblia, bebendo-o até que estejamos impregnados dele! Essa é a bênção que queremos alcançar.

Crer mais intensamente na Palavra de Deus
  Pela graça de Deus firmamos o propósito de crer mais intensamente na Palavra de Deus. Há crença, e crenças. Você crê em todos seus irmãos aqui reunidos, mas em alguns deles tem uma confiança real visto que em uma hora de dificuldade, eles o ajudaram e provaram ser irmãos nascidos para a adversidade. Você tem certeza absoluta que pode confiar nestes, pois os testou pessoalmente. Você tinha fé antes, mas agora sente uma confiança superior, mais firme, mais segura. Creia no livro que foi inspirado do início ao fim. Creia em todo ele, completamente, com todas as forças de seu ser. Deixe que as verdades da Escritura se tornem os principais elementos de sua vida, as principais forças operantes em sua ação. Que os grandes relatos da história do evangelho sejam fatos tão reais e práticos como qualquer outro que encontra no ambiente doméstico ou no mundo lá fora, verdades tão vívidas quanto seu corpo presente, com suas dores e sofrimentos, seus apetites e alegrias. Se pudermos deixar a esfera de ficção e imaginação e entrar no mundo real, encontraremos um veio de poder que nos trará um grande tesouro de fortaleza. Assim, tornar-se "poderoso na Escritura" significa se tornar "poderoso por meio de Deus".
 

Citar mais a Bíblia Sagrada
  Também devemos decidir que vamos citar mais a Bíblia Sagrada. Os sermões devem estar cheios da Bíblia; adoçados, fortalecidos e santificados com a essência da Bíblia. A espécie de sermões que as pessoas precisam ouvir são os que brotam da Bíblia. Se não gostam de ouvi-los, essa é mais uma razão pela qual devem ser pregados para eles. O evangelho tem a singular faculdade de criar o gosto por ele. As pessoas que ouvem a Bíblia de verdade tornam-se amantes da Bíblia. A mera apresentação de textos em conjunto é uma maneira infeliz de fazer sermões; embora alguns o tenham tentado, e não duvido que Deus os tenha abençoado, uma vez que fizeram seu melhor. É muito melhor apresentar os textos, do que despejar os medíocres pensamentos pessoais em uma torrente estéril. Pelo menos, haverá algo sobre o que se pensar e para lembrar se a Palavra Santa for citada; caso contrário, pode não haver nada.

  Contudo, os textos bíblicos não precisam ser apresentados em conjunto, eles devem ser apresentados de maneira adequada para trazer agudeza e sentido à mensagem. Eles são a força do sermão. Nossas palavras são meras bolinhas de papel se comparadas com o tiro de canhão da Palavra. A Escritura é a conclusão de tudo. Não há argumento depois que sabemos que "está escrito". Para a maioria dos ouvintes, no coração e na consciência, o debate está terminado quando o Senhor fala. "Assim diz o SENHOR" é o fim de qualquer discussão para os cristãos; mesmo os iníquos não podem resistir à Escritura sem resistir ao Espírito que a escreveu. Para ser convincentes devemos falar biblicamente.

Pregar apenas a Palavra de Deus
  Também estamos resolvidos a pregar apenas a Palavra de Deus. Em grande parte, a alienação das massas ao ouvir o evangelho se explica pelo triste fato de que nem sempre é o evangelho que ouvem quando se dirigem aos lugares de culto, e tudo o mais fracassa em fornecer o que suas almas precisam. Será que você nunca ouviu falar de um rei que fez uma série de grandes banquetes e convidou muitas pessoas, semana após semana? Ele tinha um bom número de servos encarregados de servir sua mesa; e, nos dias marcados, estes saíram e falaram com as pessoas. Mas, de alguma forma, depois de um tempo a maior parte das pessoas não vinha às festas. O número de convidados que comparecia era decrescente; a grande massa de cidadãos dava as costas aos banquetes. O rei indagou e descobriu que o alimento providenciado não parecia satisfazer os homens que vinham olhar os banquetes e, por isso, não vinham mais. Ele resolveu examinar pessoalmente as mesas e os alimentos servidos. Viu muita coisa fina e muitas peças expostas que não eram de seus armazéns. Olhou a comida e disse: "Mas o que é isso? Como esses pratos chegaram aqui? Não são do meu suprimento. Meus bois cevados foram mortos, mas não vejo carne de animais engordados, e sim carne dura de gado magro e faminto. Os ossos estão aqui, onde está a gordura e o tutano? O pão também é de má qualidade, onde está o meu que é feito do melhor trigo? O vinho está misturado com água, e a água não é de um poço limpo".

  Um dos presentes respondeu: "Ó rei, achamos que o povo estaria farto de tutano e gordura, assim lhes demos osso e cartilagem para pôr seus dentes à prova. Achamos também que estariam cansados do melhor pão branco, por isso assamos uns poucos em nossas casas, nos quais deixamos o farelo e a casca dos cereais. É opinião dos doutos que nosso alimento é mais adequado a esses tempos do que aquele que vossa majestade prescreveu há tanto tempo. Em relação aos vinhos com borra, o gosto dos homens não é esse na época atual; além disso, um líquido tão transparente como a água pura é uma bebida leve demais para homens que estão acostumados a beber do rio do Egito, cujo gosto é do barro que vem das montanhas da Lua".

  Assim, o rei entendeu porque as pessoas não vinham aos banquetes. Será que esse é o motivo pelo qual a casa de Deus tem se tornado tão desagradável para uma grande parcela da população? Creio que sim. Será que os servos do Senhor têm picado seus restos de miscelâneas e pequenas máculas para com isso fazer uma carne cozida para os milhões de fiéis, e, por isso, estes se afastam? Ouça o resto da minha parábola. O rei indignado exclamou: "Esvaziem as mesas! Joguem todo esse lixo para os cães. Tragam os barões da carne, mostrem minha comida real. Tirem essas bugigangas do salão e aquele pão adulterado da mesa e lancem fora a água do rio barrento". Eles fizeram como o rei mandou, e se minha parábola estiver certa, logo houve um rumor pelas ruas de que verdadeiras delícias reais eram oferecidas ali, o povo encheu o palácio e o nome do rei tornou-se de grande excelência por toda terra. Vamos experimentar esse plano. Quem sabe logo estaremos nos regozijando em ver o banquete do Mestre cheio de hóspedes.

A certeza de sua inspiração
  Portanto, estamos resolvidos a usar mais plenamente o que Deus providenciou para nós neste Livro, pois temos certeza de sua inspiração. Deixe-me repetir. TEMOS CERTEZA DE SUA INSPIRAÇÃO. Note que, com freqüência, os ataques são contra sua inspiração verbal. A forma escolhida é mero pretexto. Inspiração verbal é a forma verbal do assalto, mas o ataque está realmente apontado à própria inspiração. Você não tem de ler muito do ensaio antes de descobrir que a pessoa que começou a contestar a teoria de inspiração, nunca aceita por nenhum de nós, por fim revela as cartas que tem na mão, e essas cartas travam guerra contra a própria inspiração. Aí está o verdadeiro ponto. Não damos muita importância para qualquer teoria de inspiração: na verdade, não temos nenhuma. Para nós, a plena inspiração verbal da Santa Escritura é fato, não hipótese. É uma pena teorizar sobre um assunto que é profundamente misterioso e exige fé, não imaginação. Creia na inspiração da Escritura, e creia da maneira mais intensa. Você não crerá em uma inspiração mais verdadeira e mais plena do que a que existe de fato. Ninguém pode errar nessa direção, mesmo que haja possibilidade de erro. Se você adotar teorias que tiram um pedacinho aqui, negam autoridade a uma passagem ali, no fim não restará nenhuma inspiração merecedora desse nome.

Esse Livro é infalível
  Se esse livro não for infalível, onde vamos encontrar infalibilidade? Já desistimos do Papa, pois ele já errou muitas vezes e de maneira terrível; mas em seu lugar não estabeleceremos um bando de papazinhos saídos há pouco da universidade. Esses revisores das Escrituras são infalíveis? É certo dizer que nossas Bíblias não estão corretas, mas que seus críticos estão? A prata antiga deve ser depreciada, mas a prata alemã que a substitui deve ser aceita a preço de ouro. Moleques que acabam de ler o último romance lançado querem corrigir os conceitos de seus pais, homens de peso e caráter. Doutrinas que produziram a geração mais piedosa que viveu na face da terra são refutadas e desprezadas como pura tolice.

  Nada é tão odioso para essas criaturas como o que cheira a puritanismo. O narizinho de cada um desses homens se empina celestialmente ao ouvir o som da palavra "puritano", embora seja verdade que se os puritanos estivessem aqui de novo, eles não ousariam tratá-los arrogantemente; pois quando estes lutavam, logo ficavam conhecidos como Ironsides, e seu líder dificilmente poderia ser chamado de tolo, mesmo por aqueles que o estigmatizavam como "tirano". Cromwell e seu seguidores não eram pessoas de mente fraca, não é mesmo? Estranho que tenham sido louvados às alturas pelos mesmos homens que menosprezam seus verdadeiros sucessores, crentes na mesma fé. Mas onde se encontra a infalibilidade? "O abismo diz: 'Em mim não está'" (Jó 28.14), contudo aqueles que não têm nenhuma profundidade querem que imaginemos que está neles ou esperam encontrá-la por meio da mudança perpétua.

  Devemos crer agora que os eruditos possuem a infalibilidade? Ora, fazendeiro Smith, amanhã cedo, depois de ler sua Bíblia e se deleitar com suas promessas preciosas, você deve descer a rua para perguntar ao homem de erudição, lá na casa pastoral, se essa porção da Bíblia pertence à parte inspirada da Palavra ou se é de fonte duvidosa. É bom você saber se foi escrita pelo Isaías original ou pelo segundo dos "dois Obadias". Toda possibilidade de certeza é transferida do homem espiritual para uma classe de pessoas cuja erudição é pretensiosa e nem mesmo simula espiritualidade.

  Aos poucos ficamos tão cheios de dúvidas e críticas, que apenas uns poucos, mais profundos, saberão o que é ou não Bíblia e determinarão todo o resto para nós. Não tenho fé na misericórdia deles nem em sua precisão teórica: eles nos tirarão tudo que estimamos como mais precioso e orgulhar-se-ão desse ato cruel. Não suportaremos esse reinado de terror, pois ainda cremos que Deus se revela a inocentes bebês mais do que aos doutos e prudentes, além de estarmos plenamente confiantes de que nossa versão das Escrituras é suficiente para homens simples em todos os propósitos de vida, e de salvação e de religiosidade. Não desprezamos o saber, mas nunca diremos sobre a cultura ou a crítica: "Eis aí os seus deuses, ó Israel!" (Êx 32.4).

  Você percebe por que os homens querem diminuir o grau de inspiração da Escritura Sagrada a uma quantidade infinitesimal? Porque para eles a verdade de Deus deve ser suplantada. Se você for a uma loja à noite para comprar alguns itens que dependem da cor e da textura, não seria melhor julgá-las à luz do dia? E, quando você entrar, se o comerciante diminui o lume ou tira o lampião, e depois lhe mostra a mercadoria, você fica desconfiado e conclui que ele quer lhe vender um artigo inferior. Tenho mais do que suspeita de que esse é o joguinho dos depreciadores da inspiração bíblica. Sempre que uma pessoa começa a baixar a visão que você tem sobre a inspiração, ela tem uma segunda intenção, um truque que não pode ser feito na claridade. Ele alega ser uma sessão de espíritos maus e pede: "Diminuam a luz". Nós, irmãos, estamos dispostos a atribuir à Palavra de Deus toda a inspiração que lhe possa ser atribuída e, corajosamente, dizemos que se nossa pregação não está de acordo com essa Palavra é por que não há luz nenhuma em nossa pregação. Queremos ser experimentados e testados por isso de todas as maneiras e contamos com os mais nobres de nossos ouvintes, aqueles que examinam as Escrituras diariamente, para ver se as coisas são assim, mas não nos sujeitamos nem por um momento àqueles que depreciam a inspiração.
 
  Ouço alguém dizer: "Mas você precisa se sujeitar às conclusões da ciência, não é?". Ninguém está mais pronto do que nós para aceitar os fatos evidentes da ciência. Mas o que você quer dizer com ciência? Essa coisa chamada "ciência" é infalível? Será que o nome ciência não é utilizado de forma enganosa? A história da ignorância humana que se denomina a si mesma "filosofia" é absolutamente idêntica à história dos tolos, exceto quando se desvia para loucura. Se outro Erasmo surgisse e escrevesse a história da tolice, ele deveria dedicar vários capítulos à filosofia e à ciência, e esses capítulos seriam mais reveladores do que quaisquer outros. Eu mesmo não ouso dizer que, no geral, os filósofos e cientistas são tolos; mas permitiria que falassem uns dos outros, e no fim eu diria: "Senhores, vocês são menos elogiosos um em relação ao outro do que eu teria sido".
 
  Deixaria os sábios de cada geração falarem da geração que os antecedeu, ou hoje cada metade de uma geração poderia falar da meia-geração anterior, pois pouca teoria da ciência de hoje sobreviverá por vinte anos e menos ainda verá o século XX. Agora viajamos em tão rápida velocidade que passamos por conjuntos de hipóteses científicas tão depressa como passamos por postes de telégrafo quando viajamos em um trem expresso. Tudo de que estamos certos hoje é o seguinte: aquilo de que os doutos tinham certeza há poucos anos está agora jogado no limbo do esquecimento de erros descartados. Eu creio na ciência, mas não naquilo que é chamado "ciência". Nenhum fato provado na natureza é oposto à revelação. Não podemos reconciliar com a Bíblia as bonitas especulações dos pretensiosos, e não o faríamos se pudéssemos.

  Sinto-me como o homem que disse: "Posso entender em algum grau como esses grandes homens descobriram o peso das estrelas, a distância que têm uma da outra e até como, pelo espectroscópio, descobriram de que materiais são compostas; mas não posso adivinhar como descobriram seus nomes". Apenas isso. A parte fantasiosa da ciência, tão valorizada por tantos, é o que não aceitamos. Essa é a parte importante para muitos--aquela parte que é mera adivinhação, pela qual lutam com unhas e dentes. A mitologia da ciência é tão falsa como a dos pagãos, mas é assim que se faz um deus. Repito, os fatos da ciência nunca estão em conflito com as verdades da Sagrada Escritura, mas as deduções extraídas desses fatos e as invenções classificadas como fatos são opostas à Escritura, e isso por que necessariamente o que é mentira não concorda com a verdade.

  Dois tipos de indivíduos têm forjado grande dano, contudo, nenhum desses deve ser considerado como juiz no assunto: ambos são desqualificados. É essencial que um juiz conheça os dois lados da questão, e nenhum destes tem esse conhecimento. O primeiro é o cientista sem religião. O que ele sabe sobre religião? O que pode saber? Ele está fora de lugar quando a pergunta é: a ciência concorda com a religião? Obviamente, aquele que pode responder essa pergunta precisa conhecer os dois lados da questão. O segundo é um homem melhor, mas capaz de causar mais dano ainda. Refiro-me ao cristão não-cientista que se preocupará em conciliar a Bíblia com a ciência. É melhor que ele deixe isso de lado e não comece seu conserto. O erro foi cometido por homens que ao tentar resolver uma dificuldade distorceram a Bíblia ou a ciência. Essa solução logo foi considerada errônea, e depois ouvimos os clamores de que a Escritura foi derrotada.

  Nada disso; de forma alguma. Isso não passa de um comentário inútil que foi removido como um verniz inútil. Eis aí, um bom irmão escreve um tremendo livro para provar que os seis dias da criação representam seis grandes períodos geológicos e mostra como as camadas geológicas, e os organismos delas, seguem a ordem da história da criação de Gênesis. Pode ser assim ou não, mas se depois de pouco tempo qualquer pessoa mostrar que as camadas não estão em tal ordem, qual seria minha resposta? Eu diria que a Bíblia nunca ensinou que estão nessa ordem. A Bíblia diz: "No princípio Deus criou os céus e a terra" (Gn 1.1). Isso deixa qualquer espaço de tempo para as eras de fogo e períodos de gelo e tudo isso antes do estabelecimento da presente era do homem.

  Depois, chegamos aos seis dias em que o Senhor fez os céus e a terra e descansou no sétimo. Nada é dito sobre longos períodos de tempo, ao contrário, "a tarde e a manhã; esse foi o primeiro dia" (Gn 1.5), e "a tarde e a manhã; esse foi o segundo dia" (Gn 1.8); e assim por diante. Não apresento nenhuma teoria, simplesmente digo que se o grande livro de nosso amigo é todo lorota, a Bíblia não é responsável por isso. É verdade que sua teoria parece ter suporte no paralelismo que descobre entre a vida orgânica das eras e aquela dos sete dias, mas isso pode ser explicado pelo fato de que Deus geralmente segue uma certa ordem, quer opere em longos quer em curtos períodos. Não sei e não me importo tanto com a questão; mas devo dizer, se você derruba uma explicação não pode imaginar que prejudicou a verdade bíblica, que lhe pareceu exigir uma explicação: você só queimou as estacas de madeira, com as quais homens bem intencionados pensavam proteger um forte invencível que não precisava de tal defesa.

  No geral, é melhor deixarmos a dificuldade como está, em vez de criar outra dificuldade com nossa teoria. Por que fazer um segundo furo na chaleira para remendar o primeiro? Especialmente, quando o primeiro furo não está lá e não precisa de nenhum remendo. Creia, não há muita coisa provada na ciência. Não precisa temer que sua fé seja sobrecarregada. Assim, creia em tudo que está dito claramente na Palavra de Deus, quer seja provada por evidência exterior quer não. Nenhuma prova é necessária quando Deus fala. Se ele o disse, isso é prova suficiente.

  Mas nos ensinam que devemos desistir de parte de nossa teologia antiquada para salvar o restante. Viajamos em uma carruagem pelas estepes da Rússia. Os cavalos são impulsionados furiosamente, mas os lobos se aproximam! Você não vê seus olhos de fogo? O perigo é iminente. O que fazer? Propõe-se que joguemos uma criança ou duas. Até que comam a criança, já teremos ganhado um pouco de distância, mas o que faremos se nos alcançarem de novo? Ora, bravo homem, jogue fora sua esposa! 'O homem dará tudo que tem por sua vida'; lance fora quase toda a verdade na esperança de salvar uma. Jogue fora a inspiração, e deixe que os críticos a devorem. Jogue fora a eleição e todo o velho calvinismo; faremos uma festa caprichada para os lobos, e os senhores que sagazmente nos aconselharam ficarão felizes ao ver as doutrinas da graça arrancadas uma por uma. Lance fora a depravação natural, o castigo eterno e a eficácia da oração. A carruagem ficou bem leve. Agora, mais uma coisa para jogar fora. Imole o grande sacrifício! Acabe com a expiação!

  Irmãos, esse conselho é vil, assassino; escaparemos desses lobos com tudo ou estaremos perdidos com tudo. Deve ser "a verdade, toda a verdade e nada além da verdade", ou nada. Nunca tentaremos salvar metade da verdade, lançando fora qualquer parte dela. O "sábio" conselho que nos foi dado envolve trair Deus e desapontar a nós mesmos. Ficaremos firmes, ou tudo ou nada. Dizem que se desistirmos de alguma coisa, os adversários também desistirão de algo, mas não nos importa o que eles farão, pois não temos nem um pouco de medo deles. Eles não são os conquistadores imperiais que pensam ser. Não exigimos clemência pela insignificância deles.

  Temos o pensamento do guerreiro a quem ofereceram presentes para comprá-lo e a quem disseram que se aceitasse tanto ouro ou território, ele poderia voltar para casa em triunfo e se gloriar no ganho fácil. Mas ele disse: "Os gregos não dão valor a concessões. Encontram glória não em presentes, mas em espólio". Com a espada do Espírito manteremos toda a verdade como nossa e não aceitaremos parte dela como concessão dos inimigos de Deus. Manteremos a verdade de Deus como a verdade de Deus, e não a reteremos por que a mente filosófica permite fazer isso. Se os cientistas concordam que creiamos em uma parte da Bíblia, não os agradeceremos por nada: já cremos nela quer queiram quer não. O consentimento deles não tem mais conseqüência para nossa fé que a permissão de um francês para que um inglês defenda Londres, ou que o consentimento da toupeira para que a águia tenha uma visão perspicaz. Deus estando conosco, não cessaremos esse gloriar, manteremos toda a verdade revelada até o fim.

  Mas agora, irmãos, apesar de manter essa primeira parte de meu tema, talvez longa demais, eu lhes digo que crendo nisso, aceitamos a obrigação de pregar tudo que está na Palavra de Deus até onde vemos. Não queremos esquecer voluntaria-mente qualquer porção da revelação de Deus, pois queremos poder dizer no final: "Não deixamos de lhes transmitir todo conselho de Deus". Que mal pode haver em se deixar de fora qualquer porção da verdade ou acrescentar um elemento alheio a ela! Todos os homens bons concordarão quando digo que a adição do batismo infantil à Palavra de Deus-, pois certamente não está lá-é um perigo. Regeneração batismal anda nos ombros do pedobatismo. Agora falo do que conheço.

  Tenho recebido cartas de missionários, não-batistas, mas weslianos e congregacionais que me têm dito: "Depois que estive aqui (não mencionarei as localidades para não pôr os bons homens em dificuldades) encontramos um grupo de pessoas, filhos de ex-convertidos, que foram batizados e, por isso, são chamados de cristãos; mas não são nem um pouquinho melhores do que os pagãos a sua volta. Parecem pensar que são cristãos por causa de seu batismo, mas, ao mesmo tempo, sendo considerados cristãos pelos pagãos, sua vida má é escândalo perpétuo e uma terrível pedra de tropeço". Em muitos casos, isso deve ser verdade. Uso o fato apenas como ilustração.

  Mas supondo que seja algum outro erro inventado ou alguma grande verdade negligenciada, acabará por produzir o mal. No caso das terríveis verdades que conhecemos como "o terror do SENHOR" (2Cr 14.14), sua omissão produz os mais tristes resultados. Um homem bom que não aceitamos que esteja ministrando exatamente a verdade sobre esse assunto sério, não obstante, tem muito fielmente escrito para os jornais repetidas vezes, dizendo que a grande fraqueza do púlpito moderno é ignorar a justiça de Deus e o castigo do pecado. Seu testemunho é verdadeiro, e o mal que ele aponta é incalculavelmente grande. Não se pode omitir essa parte da verdade que é tão obscura e solene, sem enfraquecer a força de todas as outras verdades que pregamos. Você rouba o brilho e a importância premente das verdades que tratam da salvação da ira vindoura.

  Irmãos, não omitam nada. Tenham ousadia suficiente para pregar a verdade indigesta e impopular. O mal que fazemos acrescentando ou tirando da Palavra do Senhor pode não acontecer em nossos dias; mas se chegar à maturidade em outra geração seremos igualmente culpados. Não duvido que, mais tarde, a omissão de certas verdades pela igreja primitiva levou a sério erro, enquanto certas adições na forma de ritos e cerimônias, que pareceram bastante inocentes em si, levaram ao ritualismo e depois à grande apostasia do romanismo! Tenham muito cuidado. Não passem uma polegada além da linha da Escritura, e não fiquem uma polegada aquém dela.

  Conservem-se na linha reta da Palavra de Deus, até onde o Espírito Santo lhe ensinou e não retenham nada que ele lhe tenha revelado. Não seja tão ousado a ponto de abolir as duas ordenanças que o Senhor Jesus estabeleceu, embora alguns tenham se aventurado nessa grave presunção; nem exagere aquelas ordenanças em canais inevitáveis de graça, como supersticiosamente outros têm feito. Mantenha-se na revelação do Espírito. Lembre-se, você terá que prestar contas e não será com alegria se tiver brincado falsamente com a verdade de Deus. Lembre a história de Gilipo, a quem Lisandro confiou sacos de ouro para levar às autoridades da cidade. Os sacos estavam amarrados e lacrados, Gilipo achou que se cortasse a parte de baixo dos sacos poderia tirar uma parte das moedas, depois costurar o fundo de novo, assim os lacres não seriam quebrados e ninguém suspeitaria que o ouro fora tirado. Para seu horror e surpresa, havia um papel em cada saco declarando quanto deveria conter, e assim ele foi descoberto.

  A Palavra de Deus tem cláusulas auto-verificadoras, de modo que você não pode sumir com uma parte dela, sem que o restante do texto o acuse e sentencie. Como você responderá "naquele dia" se tiver acrescentado ou tirado da Palavra do Senhor? Não estou aqui para decidir o que você deve considerar ser a verdade de Deus; mas seja o que você julgar que seja, pregue-a toda, definitiva e claramente. Se formos igualmente honestos, diretos, e tementes a Deus, não devemos discordar em muita coisa. O caminho para alcançar a paz não é o da ocultação de convicções, e sim o da expressão honesta delas no poder do Espírito Santo.

Pregar tudo que está na Palavra de Deus, de modo definido e distinto
  Mais uma palavra. Aceitamos a obrigação de pregar tudo que está na Palavra de Deus, de modo definido e distinto. Será que não há muitas pessoas que pregam sem significado claro, manuseando a Palavra de Deus de maneira enganosa? Você freqüenta o ministério deles durante anos e não sabe no que crêem. Ouvi falar de certo pastor cauteloso, a quem um ouvinte perguntou: "Qual é sua visão da expiação?". E ele respondeu: "Meu caro senhor, justamente isso, eu nunca contei a ninguém, e não vou dizer agora". Essa é uma estranha condição moral para a mente de um pregador do evangelho. Temo que ele não seja o único que tem esse tipo de relutância. Dizem que eles consomem sua própria fumaça, isto é, guardam suas dúvidas para o consumo caseiro. Muitos não ousam dizer no púlpito o que dizem sub rosâ (em particular) em uma reunião particular de pastores. Isso é honesto?

  Temo que aconteça com alguns o mesmo que se deu com um professor de uma cidade do sul dos Estados Unidos. Um grande professor negro antigo, Jasper, ensinara seus alunos que o mundo é plano como uma panqueca, e que o sol o circula todos os dias. Não tivemos essa parte de seu ensino, mas certas pessoas sim, e um deles foi com seu filho até o professor e perguntou: "Você ensina às crianças que o mundo é redondo ou plano?". O professor cautelosamente respondeu: "Sim". O indagador ficou confuso, mas pediu uma resposta mais clara: "Você ensina seus alunos que o mundo é redondo ou que é plano?". A resposta do professor estado-unidense foi: "Isso depende da opinião dos pais". Desconfio que mesmo na Grã-Bretanha, em alguns poucos casos, muito depende da tendência do diácono principal, ou do contribuinte principal ou do jovem de ouro da congregação. Se isso acontece, o crime é repugnante.

  Mas se por essa ou qualquer outra razão ensinamos com língua dissimulada, o resultado é extremamente prejudicial. Ouso citar aqui uma história que ouvi de um amado irmão. Um pedinte bateu à porta da casa de um pastor para conseguir dinheiro com ele. O bom homem não gostou muito da aparência do pedinte e lhe disse: "Eu não me interesso por seu caso e não vejo nenhuma razão especial por que você deva vir a mim". O pedinte respondeu: "Estou certo que você me ajudaria se soubesse que grande benefício tenho recebido de seu ministério abençoado". O pastor retrucou: "E qual foi?". O pedinte respondeu: "Ora, senhor, quando eu primeiro vim ouvi-lo não ligava nem para Deus nem para demônio, mas agora, sob seu abençoado ministério, passei a amar os dois". Que maravilha se por causa da fala volúvel de alguns homens, as pessoas viessem a amar tanto a verdade como a mentira! As pessoas dirão: "Gostamos dessa doutrina e da outra também". O fato é que gostariam de qualquer coisa caso um enganador esperto pusesse isso plausivelmente diante deles. Admirariam Moisés e Aarão, mas não diriam uma palavra contra Janes e Jambres.

  Não nos uniremos à confederação que parece visar tal compreensão. Precisamos pregar o evangelho de modo tão distinto que as pessoas saibam o que estamos pregando. "Se a trombeta não emitir um som claro, quem se preparará para a batalha?" (1Co 14.8). Não confunda seu povo com falas duvidosas. Alguém disse: "Bem, eu tive uma idéia nova um dia desses. Não a expandi; joguei-a fora!". Essa é uma coisa boa para fazer com a maioria de suas idéias novas. Lance-as fora, sim, de qualquer maneira, mas veja onde você está quando o faz; porque se você lançá-las do púlpito, podem acertar alguém e ferir a fé da pessoa. Lance fora suas idéias, mas primeiro navegue sozinho em um barco por mais de um quilômetro mar adentro. Depois que você tiver jogado ali suas cruas bagatelas, deixe-as com os peixes.

  Hoje, temos a nossa volta uma classe de homens que pregam Cristo e até o evangelho, mas depois eles pregam muitas outras coisas que não são verdade e assim destroem todo o bem que entregam e levam os homens ao erro. Eles querem ser classificados como "evangélicos" e, na verdade, são antievangélicos. Olhe bem para esses senhores. Ouvi dizer que uma raposa, quando acossada de perto pelos cães sabe fingir que é um deles e corre com a matilha. Isso é o que certos homens visam hoje: as raposas querem passar por cães. Mas no caso da raposa, seu cheiro forte a trai, e os cães logo a descobrem, do mesmo modo, o cheiro da doutrina falsa não é facilmente ocultado, e a presa não a segue por muito tempo. Há ministros que é difícil saber se são cães ou raposas; mas todos os homens devem saber de que espécie somos ao longo de nossa vida e não ter dúvida em relação àquilo que cremos e ensinamos. Não hesitemos em falar nas palavras mais robustas que possamos encontrar e nas sentenças mais claras que pudermos formar aquilo que mantemos como verdade fundamental.

  Assim, disse tudo isso e ainda estou no primeiro tema, portanto, os outros dois precisam ocupar menos tempo, embora eu julgue que sejam de primeira importância.

Nosso Exército

A Igreja do Deus Vivo
 
Agora precisamos passar em revista nosso exército.

  Que podem fazer os homens individuais em uma grande cruzada? Estamos associados com todo o povo do Senhor. Precisamos ter os membros de nossas igrejas como camaradas; eles precisam sair e ganhar almas para Cristo. Precisamos da cooperação de todos os irmãos e irmãs. O que poderemos realizar, a não ser que os salvos saiam, todos eles, em prol da salvação de outros? Mas agora propomos a questão: deve mesmo haver uma igreja? Haverá um exército distinto de santos ou devemos incluir ateus? Você já ouviu falar "da igreja do futuro" que devemos ter em vez da igreja de Jesus Cristo. Como as correntes extremas receberão ateus, podemos esperar que também incluirão espíritos maus. Por certo, será uma igreja maravilhosa quando a virmos! Será qualquer outra coisa que você quiser, exceto uma igreja. Quando os soldados de Cristo tiverem incluído em suas fileiras toda a bandidagem do adversário, será que haverá qualquer exército para Cristo? E isso não significa claramente uma capitulação, uma rendição logo no início da guerra? Acho que sim.

  Não só precisamos crer na igreja de Deus, mas também reconhecê-la de maneira muito clara. Algumas denominações valorizam mais tudo e qualquer coisa que a igreja. Uma reunião da igreja é algo desconhecido. Em algumas denominações "a igreja" significa os ministros ou o clero; mas, na verdade, deve significar todo o corpo de fiéis, além de dar oportunidade para que estes se encontrem e atuem como igreja. Creio que o certo é a igreja de Deus continuar exercendo a obra de Deus na terra. O poder e direção finais são do nosso Senhor Jesus e devem ficar com ele, não com alguns poucos escolhidos por delegação ou patronagem, mas com todo o corpo de crentes. Precisamos mais e mais validar a igreja que Deus confiou aos nossos cuidados e, ao fazer isso, evocaremos uma força que de outra forma permanecerá dormente. Se a igreja é reconhecida por Jesus Cristo, é digna de ser reconhecida por nós; pois somos os servos da igreja.

  Sim, cremos que deve haver uma igreja. Mas igrejas desapontam muitas pessoas. Todo pastor de uma igreja grande confessa isso em sua alma. Não sei se as igrejas de hoje são piores ou melhores do que costumavam ser no tempo de Paulo. As igrejas em Corinto e Laodicéia e outras cidades exibiam faltas graves, não nos admiremos de haver faltas nas nossas, porém devemos nos afligir sobre tais coisas e trabalhar para alcançar um padrão superior. Embora os membros de nossa igreja não sejam tudo que deveriam ser, nós também não somos. No entanto, se fosse a qualquer lugar para procurar companhia, com certeza procuraria os membros de minha igreja.

Esta é a companhia em que permaneço:
São os melhores amigos que eu conheço.

  Ó Jerusalém, com todos seus defeitos, ainda o amo! As pessoas de Deus ainda são a aristocracia da raça: Deus as abençoe! Sim, nosso propósito é ter uma igreja.

Essa igreja é real ou fruto da estatística?
  Bem, essa igreja é real ou fruto da estatística? Isso depende muito de vocês, caros irmãos. Insto-os para que resolvam não ter nenhuma igreja a não ser que seja uma igreja real. O fato é que vezes demais as estatísticas eclesiásticas são chocantemente falsas. Como sabemos, cozinhar tais relatórios não é uma arte desconhecida em certos lugares. Soube de um caso, um dia desses, em que foi relatado um aumento de quatro crentes no rol de membros; mas se este fosse atualizado deveria haver um decréscimo de vinte e cinco. Não é falsidade manipular os números? Há como manipular os números. Nunca faça isso. Não deixemos nomes em nossos livros de registros quando são apenas nomes.

  Certos indivíduos, dentre os bons e velhos membros, gostam de conservá-los ali e não suportam que sejam removidos, mas quando você não sabe onde as pessoas estão nem o que são, como pode contá-las? Foram para os Estados Unidos, Austrália ou para o céu, mas ainda estão na sua lista. Isso é certo? Pode ser possível que ela não esteja absolutamente correta, mas visemos isso. Devemos enxergar isso sob um aspecto muito sério e nos livrar do vício do falso relatório, pois o próprio Deus não abençoa meros nomes. Não é de seu feitio trabalhar com aqueles que desempenham um falso papel. Se não há uma pessoa real para cada nome, refaça a lista. Mantenha sua igreja real e eficaz ou não faça nenhum relatório. Uma igreja meramente nominal é uma mentira. Que ela seja o que professa ser. Podemos não nos gloriar em estatísticas; mas devemos conhecer os fatos.

Essa igreja vai aumentar ou morrer?
  Mas essa igreja vai aumentar ou morrer? Ela fará uma coisa ou outra. Veremos nossos amigos indo para o céu e se não há homens e mulheres jovens convertidos, e trazidos, e acrescentados a nós, a igreja na terra terá emigrado para a igreja triunfante do alto; e o que será feito em prol da causa e do reino do Mestre aqui embaixo? Devemos clamar, orar e rogar para que a igreja possa crescer continuamente. Devemos pregar, visitar, orar, e trabalhar para esse fim. Possa o Senhor, diariamente, acrescentar a nós aqueles que são salvos! Se não há nenhuma colheita, a semente pode ser verdadeira? Pregamos doutrina apostólica se nunca vemos resultados apostólicos? Ó meus irmãos, nossos corações deveriam estar prontos a se partir se não há nenhum aumento nos rebanhos que cuidamos. Ó Senhor, nós te imploramos, manda prosperidade já!

Treiná-la na arte santa da oração
  Se uma igreja vai cumprir os propósitos de Deus, devemos treiná-la na arte santa da oração. Infelizmente, são muito comuns as igrejas sem reuniões de oração. Mesmo que haja apenas uma assim, devemos chorar por ela. Em muitas igrejas a reunião de oração é apenas o esqueleto da reunião: a forma é preservada, mas as pessoas não vêm. Não há nenhum interesse, nenhum poder ligado à reunião. Ah, meus irmãos, que não seja assim com vocês! Treinem as pessoas para se reunir continuamente em oração. Acorde-os com súplicas incessantes. Há uma arte santa nisso. Estudem para se apresentar diante Deus aprovados pela devoção de seu povo. Se você mesmo ora, há de querer que orem consigo, e quando começam a orar com você, e por você, e pelo trabalho do Senhor, eles mesmos desejarão mais oração, e o apetite crescerá. Creia-me, se uma igreja não ora, ela está morta. Em vez de pôr a reunião de oração em último lugar, ponha-a em primeiro. Tudo depende do poder de oração na igreja.

Ocupar nossas igrejas para Deus
  Devemos ter nossas igrejas todas ocupadas para Deus. Qual é a utilidade de uma igreja que simplesmente se reúne para ouvir sermões, assim como uma família se reúne para fazer suas refeições? Insisto, o que ela aproveita se não faz nenhum trabalho? Não há mesmo muitos professores tristemente negligentes no trabalho do Senhor, embora bastante diligentes em seu próprio? Por causa do ócio cristão ouvimos falar na necessidade de entretenimentos e todo tipo de bobagem. Se eles estivessem ocupados para o Senhor Jesus, não ouviríamos falar nisso. Uma boa senhora disse a uma dona de casa: "Dona Fulana, como você consegue se divertir?". Ela respondeu: "Ora, minha querida, como você pode ver, há tantas crianças e trabalho a ser feito em minha casa". Ao que a outra retrucou: "Sim, eu vejo isso. Vejo que há muito trabalho a ser feito em sua casa; mas como nunca está feito, queria saber como você se divertia".

  Muito precisa ser feito por uma igreja cristã dentro de seus próprios limites e para a vizinhança, e para os pobres e caídos, e para o mundo pagão, etc.; e se isso for bem feito, as mentes, e corações, e mãos, e línguas serão ocupadas e não procurarão divertimentos. Deixem que o ócio e aquele espírito que governa as pessoas preguiçosas dominem, e surgirá o desejo de diversão. E que divertimentos! Se a religião não for uma farsa em algumas congregações, as pessoas, de forma alguma, compareceriam mais para se unir em oração do que para ver uma farsa. Eu não entendo isso. O homem que está entusiasmado com o amor a Jesus não tem necessidade de passatempo. Ele não tem tempo para frivolidades. Está sinceramente interessado em salvar almas, e estabelecer a verdade, e ampliar o reino de seu Senhor.

  Sempre me sinto pressionado por alguma necessidade para a causa de Deus; e depois que resolvo aquela, tem outra, e outra, e mais outra, e meu esforço tem sido para achar oportunidade de fazer o trabalho que deve ser feito, assim não tenho tido tempo para ir atrás de frivolidades. Ah, conse-guir uma igreja que trabalha! As igrejas alemãs, quando nosso querido amigo, sr. Oncken, estava vivo, sempre seguiam a regra de perguntar a cada crente: "O quê você vai fazer por Cristo?", e eles escreviam a resposta em um livro. Era exigido de cada membro que ele continuasse a fazer alguma coisa para o Salvador. Se ele parasse de fazer alguma coisa era assunto para disciplina da igreja, porque ele era um professor ocioso, e não era permitido permanecer na igreja como um zangão em uma colméia de abelhas trabalhadoras. Ele precisava fazer algo ou sair. Ó, um vinhedo sem uma só figueira estéril para atravancar o terreno! Atualmente, a maior parte de nossa guerra sagrada é levada adiante por um pequeno corpo de pessoas sinceras que vivem intensamente, os demais ou estão em hospitais ou são meros seguidores. Somos agradecidos por aqueles poucos consagrados, mas ansiamos por ver o fogo do altar consumir tudo que professamente está sobre o altar.

Igrejas que produzem santos
  Irmãos, também queremos igrejas que produzem santos; homens de fé poderosa e oração prevalecente; homens de vida santa, de ofertas consagradas, cheios do Espírito Santo. Precisamos ter esses santos como ricos cachos, ou, por certo, não somos ramos da verdadeira videira. Desejo ver em toda igreja uma Maria sentada aos pés de Jesus, uma Marta servindo Jesus, um Pedro e um João; mas o melhor nome para uma igreja é "Todos os Santos". Todos os crentes devem ser santos, e todos podem ser santos. Não temos nenhuma ligação com "os santos dos últimos dias", mas amamos os santos de todos os dias. Ai, que haja mais deles! Se Deus nos ajudar para que assim toda a companhia de fiéis, cada um individualmente, chegue à plenitude da estatura de um homem em Cristo Jesus, então veremos coisas maiores do que essas. Tempos gloriosos virão, quando os crentes tiverem caráter glorioso.

Igrejas que conheçam a verdade, bem instruídas nas coisas de Deus
 Queremos também igrejas que conheçam a verdade e sejam bem instruídas nas coisas de Deus. O que é que algumas pessoas cristãs conhecem? Elas vêm e ouvem, e, na plenitude de sua sabedoria, você os instrui, mas quão pouco recebem para armazenar para a edificação! Irmãos, em parte a falta é nossa, e em parte deles mesmos. Se ensinássemos melhor, eles aprenderiam melhor. Veja quão pouco muitos professores sabem, não o suficiente para lhes dar discernimento entre verdade viva e erro mortal. Os crentes de antigamente podiam lhe dizer o capítulo e versículo para o que eles criam, mas restam poucos desses! Nossos veneráveis avós estavam à vontade, sentiam-se confortáveis quando conversavam sobre "as alianças". Amo homens que amam a aliança da graça, e baseiam nela sua teologia: a doutrina das alianças é a chave da teologia. Aqueles que temiam ao Senhor falavam muito um com o outro.

  Costumavam falar da vida eterna e de tudo que vem dela. Eles tinham um bom argumento para essa crença e uma excelente razão para aquela outra doutrina; tentar abalá-los não era de modo algum tarefa que trouxesse esperança de sucesso: era tão passível de esperança como sacudir os pilares do universo, porque eles eram firmes e não podiam ser levados levianamente por todo vento de doutrina. Sabiam o que conheciam, sabiam seguramente aquilo que tinham aprendido. O que vai acontecer com nosso país, com a atual chuva forte de romanismo despejando-se sobre nós por meio do partido ritualista, a não ser que nossas igrejas tenham abundância de crentes firmes que possam discernir entre a regeneração do Espírito Santo e seu substituto cerimonial? O que acontecerá com nossas igrejas nesses dias de ceticismo quando se aponta toda verdade fixada com o dedo da dúvida, a não ser que nosso povo tenha as verdades do evangelho escritas em seus corações? Ah, por uma igreja de crentes absolutos, impenetráveis à dúvida que destrói a alma, que se derrama abundantemente sobre nós!

Uma igreja de natureza missionária
  Mas nem isso alcançaria nosso ideal. Queremos uma igreja de natureza missionária que sairá para reunir o povo para Deus em todas as partes do mundo. A igreja é uma companhia de salvar almas ou não é nada. Se o sal não exerce influência preservadora sobre aquilo que o rodeia, qual é a utilidade dele? Contudo, alguns recuam de qualquer esforço em sua vizinhança imediata por causa da pobreza e vício do povo. Lembro-me de um pastor já morto, sob muitos aspectos era um homem muito bom, mas deixou-me muito surpreso com a resposta que deu a uma pergunta minha. Ao comentar que ele tinha uma vizinhança feia em redor de sua capela, disse: "Será que você pode fazer muita coisa por eles?".

  Ele respondeu: "Não, sinto-me quase contente por ficarmos afastados deles; pois veja, se alguns deles fossem convertidos, seria um terrível peso sobre nós". Eu sabia que ele era o próprio espírito de cautela e prudência, mas essa resposta me assustou e busquei uma explicação. Ele disse: "Bem, nós teríamos que mantê-los, em sua maioria são ladrões e meretrizes que se forem convertidos não têm meios para viver, somos um povo pobre e não poderíamos sustentá-los"! Ele era um homem devoto com quem era proveitoso conversar, ainda assim era dessa forma que encarava os fatos. Seu povo tinha dificuldade em cobrir as despesas do culto, assim a fria penúria reprimiu um zelo gracioso e congelou a corrente amável de sua alma. Houve bastante bom senso no que disse, mas ainda assim era uma coisa terrível dizê-lo. Queremos um povo que não cante para sempre,

Somos um jardim cercado,
Uma terra escolhida e especial;
Um pequeno ponto de graça,
Neste mundo deserto e solitário.

  Pode ser um verso para se cantar ocasionalmente, mas não quando quer dizer: "Somos muito poucos e desejamos ser assim". Não, não, irmãos! somos um destacamento dos soldados do Rei, detidos em um país estrangeiro, em serviço de guarda; contudo, não tencionamos apenas guardar o forte, mas acrescentar território ao domínio de nosso Senhor. Não estamos aqui para ser expulsos; ao contrário, vamos expulsar os cananeus, pois essa terra nos pertence, foi-nos dada pelo Senhor, e a conquistaremos. Possamos estar animados pelo espírito de descobridores e conquistadores e que nunca descansemos enquanto ainda houver uma classe para ser salva, uma região para ser evangelizada!

  Como homens em um salva-vida remamos em um mar bravio e nos apressamos em direção ao naufrágio ali adiante, onde homens estão perecendo. Se não conseguirmos trazer os restos do navio naufragado à terra, pelo menos, pelo poder de Deus, salvaremos os que estão perecendo, salvaremos vidas e conduziremos os remidos às praias da salvação. Nossa missão, como a de nosso Senhor, é reunir os escolhidos de Deus dentre os homens para que possam viver para a glória de Deus. Todo homem salvo deve ser, sob o comando de Deus, um salvador, e a igreja não está em seu estado certo até que tenha alcançado essa compreensão. A igreja eleita é salva para que possa salvar, purificada para que possa purificar, abençoada para que possa abençoar. O mundo inteiro é o campo, e todos os membros da igreja devem trabalhar nele para o grande Agricultor. Terras incultas serão recuperadas, as improdutivas serão rasgadas pelo arado, até que o lugar solitário comece a florir como a roseira. Não podemos ficar contentes em nos manter onde estamos, precisamos invadir os territórios do príncipe das trevas.

Somos servos
  Meus irmãos, qual é nossa relação com essa igreja? Qual é nossa posição nela? Nós somos servos. Possamos sempre reconhecer nosso lugar e guardá-lo! O lugar mais alto na igreja sempre virá para o homem que voluntariamente escolhe o mais baixo. Enquanto ele aspira ser grande entre seus irmãos, declina até chegar a ser o menor de todos. Certos homens poderiam ter sido alguma coisa se já não se tivessem julgado ser isso. Um homem que conscientemente se acha grande, com certeza é pequeno. Aquele que se considera senhor da herança de Deus é um vil usurpador. Aquele que em seu coração e alma está sempre pronto a servir o menos importante da família, que espera que outros tirem vantagem dele e está disposto a sacrificar o bom nome e a amizade por amor a Cristo, este cumprirá um ministério enviado dos céus. Não somos enviados para ser servidos, mas para servir, para ministrar. Cantemos ao Bem-Amado:

Não há um cordeiro em todo teu rebanho,
Que eu desprezaria alimentar;
Não há um inimigo diante de cuja face
Eu temeria tua causa defender.

Ser exemplos para o rebanho
  Também precisamos ser exemplos para o rebanho. Aquele que não pode ser imitado com segurança não deve ser tolerado em um púlpito. Se já ouvi falar de um ministro que estava sempre disputando a primazia? Ou de outro que era maldoso e ambicioso? Ou de um terceiro cuja conversação não era sempre pura? Ou de um quarto que tinha por hábito não se levantar antes das onze horas da manhã? Minha esperança é que este último boato seja completamente falso. Um ministro ocioso--o que será dele? Um pastor que negligencia seu ofício? Ele espera entrar no céu? Estava para dizer: "Se ele vai para lá sob qualquer condição, que vá logo". Um pastor preguiçoso é uma criatura desprezada pelos homens e detestada por Deus. Disse para um fazendeiro: "Você dá cento e cinqüenta reais por ano para seu ministro! Ora, o pobre homem não consegue viver com isso". A resposta foi: "Olhe aqui, senhor! Eu lhe digo: o que nós lhe damos é muito mais do que ele merece ganhar".

  É uma tristeza quando isso pode ser dito, é uma injúria a todos aqueles que seguem nossa sagrada vocação. Devemos ser exemplos para o nosso rebanho em todas as coisas. Devemos superar em toda diligência, toda bondade, toda humildade e toda santidade. Quando César entrou em suas guerras, uma coisa sempre ajudou seus soldados a suportar as dificuldades, sabiam que César passava o mesmo que eles. Ele marchava se eles marchavam, ele passava sede se eles passavam sede, e ele estava sempre no cerne da batalha se eles estavam lutando.

  Se nós somos oficiais do exército de Cristo, devemos fazer mais do que os outros. Não podemos dizer: "Vão em frente", e sim: "Venham comigo". Nosso povo com razão deve esperar de nós, no mínimo, que estejamos entre os que mais se sacrificam, os mais laboriosos, os mais sérios e zelosos e algo mais. Não podemos esperar ver igrejas santas se nós, que devemos dar exemplo, não somos santificados. Se há em quaisquer de nossos irmãos consagração e santificação evidente a todos os homens, Deus os tem abençoado e os abençoará cada vez mais. Se não temos isso, não precisamos buscar longe para encontrar a causa de nossa falta de sucesso.

  Tenho ainda muitas coisas que lhes dizer, mas vocês não o podem suportar agora, pois já falei por muito tempo e vocês estão cansados. Desejo, contudo, se vocês puderem reunir sua paciência e forças, demorar-me um pouco na parte mais importante de meu tema triplo. Aqui, permitam-me orar pelo auxílio daquele cujo nome e pessoa eu quero engrandecer. Vem, Espírito Santo, Pomba celeste, e descanse sobre nós nesta hora!
Nossa Força
Espírito Santo
 ADMITINDO que pregamos somente a Palavra, que estamos cercados por uma igreja modelo, o que para nosso pesar não é sempre o caso; mas, admitindo que seja assim, a seguir, devemos considerar NOSSA FORÇA. Ela deve vir do ESPÍRITO DE DEUS. Cremos no Espírito Santo e em nossa absoluta dependência dele. Cremos, mas será que cremos na prática? Irmãos, em relação a nós mesmos e nosso trabalho será que cremos no Espírito Santo? Será que cremos por que temos o hábito de provar a verdade da doutrina? Precisamos depender do Espírito em nossa preparação. Será que isso é o que acontece com todos nós? Será que você tem o hábito de buscar o significado dos textos por meio da direção do Espírito Santo? Todo homem que vai à terra do conhecimento celestial precisa conquistar seu caminho para lá, mas precisa conquistá-lo pela força do Espírito Santo ou chegará a alguma ilha do mar da imaginação e nunca alcançará as terras sagradas da verdade. Você não conhece a verdade, meu irmão, por que leu Hodge's Outlines [Os esboços de Hodge], ou Fuller's Gospel worthy of all Acceptation [O evangelho de Fuller digno de toda aceitação] ou Owen on the Spirit [Owen no Espírito], ou qualquer outro clássico de nossa fé. Você não sabe a verdade, meu irmão, meramente por que você aceitou a Confissão de Westminster e a estudou toda. Não, nós nada sabemos até que o Espírito Santo nos ensine, pois ele sussurra em nosso coração, não em nossos ouvidos. Um fato maravilhoso é que nem ouvimos a voz de Jesus até que o Espírito repouse sobre nós. João diz: "No dia do Senhor achei-me no Espírito e ouvi por trás de mim uma voz forte" (Ap 1.10). Ele não ouviu aquela voz até que estivesse no Espírito. Quantas palavras celestiais deixamos de escutar porque não permanecemos no Espírito!

  Não podemos ter êxito em súplicas a não ser que o Espírito Santo ajude nossas enfermidades, porque a verdadeira oração é orar "no Espírito Santo" (Jd 1.20). O Espírito cria uma atmosfera em torno de cada oração viva, e ele vive e prevalece nesse ambiente; fora dele, a oração é uma formalidade morta. Quanto a nós mesmos, portanto, temos de depender do Espírito Santo em nosso estudo, em nossa oração, em nosso pensamento, em nossa palavra e em nossa ação.

No púlpito, descansar real e verdadeiramente no auxílio do Espírito
  No púlpito descansamos real e verdadeiramente no auxílio do Espírito. Não censuro nenhum irmão por sua maneira de pregar, mas preciso confessar que me parece muito estranho quando um irmão ora para que o Espírito Santo possa ajudá-lo na pregação, e depois o vejo tirar um manuscrito do bolso, arrumado de tal modo que possa pô-lo no centro de sua Bíblia, e lê-lo sem que ninguém veja. Essa precaução para assegurar discrição dá a entender que o homem estava com um pouco de vergonha de ler o papel; mas eu acho que ele deveria ficar mais envergonhado de suas precauções. Ele espera que o Espírito de Deus o abençoe enquanto pratica um truque? E como Deus pode ajudá-lo quando ele lê sua pregação o que qualquer outra pessoa poderia fazer sem o auxílio do Espírito? O que o Espírito Santo tem a ver com essa atitude? De fato, ele pode ter tido algo que ver com a composição do manuscrito, mas no púlpito seu auxílio é supérfluo. O mais verdadeiro seria agradecer o Espírito pelo auxílio prestado e pedir que aquilo que nos capacitou, a pôr naquele papel que trazemos no bolso, possa agora entrar nos corações das pessoas. Ainda assim, se o Espírito Santo tivesse qualquer coisa para dizer às pessoas que não estivesse naquele pedaço de papel como poderá dizê-lo por meio de nós? Parece-me que ele efetivamente ficou bloqueado quanto à novidade da palavra falada por meio desse método utilizado. Contudo, não me cabe censurar, embora silenciosamente possa pedir liberdade no profetizar e ensejo para o Senhor nos dar naquela mesma hora o que falar.

Depender do Espírito de Deus em nossos resultados
  Além disso, precisamos depender do Espírito de Deus em nossos resultados. Nenhum homem dentre nós realmente acha que poderia regenerar uma alma. Não somos tão tolos a ponto de reivindicar poder para mudar um coração de pedra. Talvez não ousemos presumir algo tão grandioso, contudo, podemos achar que, pela nossa experiência, podemos ajudar as pessoas a passar por suas dificuldades espirituais. Será que podemos? Podemos ter esperança que nosso entusiasmo mova a igreja viva diante de nós e empurre o mundo morto para trás de nós. Isso pode acontecer? Quem sabe, imaginamos que se pudéssemos apenas conseguir um avivamento, poderíamos facilmente assegurar um grande acréscimo à igreja? Vale à pena conseguir um avivamento? Os verdadeiros avivamentos não são presenteados?

  Podemos nos persuadir que tambores e trompetes e gritos farão muito. No entanto, meus irmãos, "o SENHOR não estava no vento" (1Rs 19.11). Resultados que valem à pena vêm daquele silencioso, mas onipotente Obreiro, cujo nome é o Espírito de Deus: nele, e somente nele, precisamos confiar para a conversão de uma única criança da escola dominical e para todo avivamento genuíno. Devemos olhar para ele para conservar nosso povo junto e edificá-los em um templo santo. O Espírito poderia dizer, assim como disse nosso Senhor: "Sem mim vocês não podem fazer coisa alguma" (Jo 15.5).

  O que é a igreja de Deus sem o Espírito Santo? O que seria o Hermom sem o orvalho ou o Egito sem o Nilo? Veja a terra de Canaã, quando a maldição de Elias caiu sobre ela, por três anos não sentiu orvalho nem chuva: assim seria o cristianismo sem o Espírito. O que os vales seriam sem seus córregos, ou as cidades sem seus poços, o que os campos de milho seriam sem o sol, ou a safra de vinho sem o verão--assim seriam nossas igrejas sem o Espírito. Como não podemos pensar no dia sem luz, na vida sem respiração, no céu sem Deus, também não podemos pensar no culto cristão sem o Espírito Santo.

  Nada pode substituí-lo: os pastos são um deserto, os campos frutíferos são áridos, o Sarom definha e o Carmelo é consumido pelo fogo. Bendito Espírito do Senhor, perdoa-nos por tê-lo desprezado, por tê-lo esquecido, por nosso orgulho auto-suficiente, por resistir a sua influência e apagar seu fogo! Daqui em diante opere em nós de acordo com sua excelência. Faça nosso coração ternamente impressionável, depois nos faça como cera para o sinete e estampe em nós a imagem do Filho de Deus. Com tal oração e confissão de fé, deixe-nos perseguir nosso objetivo no poder do bom Espírito de quem falamos.

  O que o Espírito Santo faz? Amado, que boa ação ele não faz? Ele desperta, convence, ilumina, limpa, guia, preserva, consola, confirma, aperfeiçoa e usa. Quanto pode ser dito de cada uma dessas ações! É ele quem opera em nós para o querer e o fazer. Ele que operou todas as coisas é Deus. Glória seja dada ao Espírito Santo por tudo que realizou em naturezas tão pobres e imperfeitas como a nossa! Nada podemos fazer à parte da seiva de vida que flui para nós de Jesus, a Videira. Aquilo que é de nós mesmos só serve para nos causar vergonha e confusão. Não damos um passo em direção ao céu sem o Espírito Santo. Não guiamos outros para o caminho do céu sem o Espírito Santo. Não temos nenhum pensamento aceitável, nem palavra, nem ato sem o Espírito Santo. Mesmo o levantar dos olhos e da esperança ou a oração exclamatória que exprime o desejo do coração deve ser obra dele. Todas as coisas boas, do começo ao fim, vêm dele e por meio dele. Não há risco de exagero aqui. Contudo, será que traduzimos essa convicção em nossa conduta atual?

  Em vez de me estender sobre o que o Espírito de Deus faz, deixe-me recorrer a sua experiência e fazer uma ou duas perguntas. Você lembra de ocasiões em que o Espírito de Deus esteve graciosamente presente, em plenitude de poder, com você e seu povo? Bons tempos aqueles! Aquele Dia do Senhor foi um dia elevado. Aqueles cultos pareciam com a adoração de Jacó quando disse: "Sem dúvida o SENHOR está neste lugar!". Que sinalização mútua há entre o pregador no Espírito e o povo no Espírito! Seus olhos parecem nos falar tanto quanto nossas línguas falam a eles. Nesse momento, eles são um povo muito diferente do que em ocasiões comuns: há até beleza em seus rostos enquanto glorificamos ao Senhor Jesus, e eles se deleitam e sorvem nosso testemunho.

  Você já viu um senhor da escola moderna apreciar a própria pregação? Nossos pregadores evangélicos estão muito felizes em pregar aquilo que nossos amigos liberais gostam de chamar de "seus chavões"; mas os modernos, em sua sabedoria, não sentem tal alegria. Você pensa que por trás do ardor com que nossos amigos galeses dizem "Tintim!" há um Decadente? Com que seriedade eles dissertam sobre a teoria Pós-Exílica! Lembram-me a expressão de Ruskin: "Turner não teve alegria com seu moinho". Admito, não há nada para se alegrar, e evidentemente eles ficam contentes em terminar sua tarefa de empilhar ossos descarnados. Eles estão em pé diante de uma manjedoura vazia, divertindo-se em ser sarcásticos em relação a essa manjedoura que é deles também. Terminam sua pregação e estão bastante entorpe-cidos, até que chegue a segunda-feira com alguma partida de futebol, ou um entretenimento na sala de aula ou uma reunião política. Para eles pregar é "trabalho", embora não se empenhem muito nesse trabalho.

  Os velhos pregadores e alguns daqueles que vivem hoje, chamados de "obsoletos", pensam no púlpito como um trono ou uma carruagem triunfal e que estão perto do céu quando são ajudados a pregar com poder. Pobres tolos que somos, pregando nosso evangelho "antiquado"! Nós gostamos da tarefa. Nossas doutrinas melancólicas nos fazem muito felizes. Estranho, não é? É claro que o evangelho é tutano e gordura para nós, e nossas crenças--embora, com certeza, sejam muito absurdas e nada filosóficas--nos satisfazem e nos deixam muito confiantes e felizes.

  Sobre alguns de meus irmãos, posso dizer que seus olhos parecem faiscar e suas almas brilhar, enquanto descortinam a graça gratuita e o amor vicário. Assim, irmãos, quando Deus está presente, nós e nossos ouvintes somos transportados em deleite celestial. E isso não é tudo. Quando o Espírito de Deus está presente, cada santo ama seu irmão santo, e não há disputa entre nós a não ser para ver quem é o mais amável. Portanto, a oração é lutar e prevalecer, e o ministério é semear boa semente e colher grandes braçadas. Assim, as conversões são numerosas, as restaurações abundantes e por toda parte são vistos avanços na graça. Aleluia! Com o Espírito de Deus vai tudo bem.

  Mas você conhece a condição oposta? Espero que não. É morte em vida. Espero que você nunca, em seus experimentos científicos, tenha sido suficientemente cruel para pôr um ratinho em uma bomba de ar e aos poucos exauri-lo. Eu li sobre esse experimento fatal. Pobre ratinho! À medida que o ar fica cada vez mais rarefeito seu sofrimento aumenta, e quando o ar acaba, ele cai morto. Você já não esteve em uma bomba de ar em que se sentiu exausto espiritualmente? Você só esteve ali o tempo suficiente para perceber que quanto mais cedo escapasse, melhor.

  Um dia desses, uma pessoa me disse: "Bem, quanto ao sermão que ouvi do divino pensador moderno não houve grande mal nele, porque nessa ocasião ele se manteve longe da falsa doutrina, mas toda a experiência foi intensamente fria. Senti-me como o homem que cai na fissura de uma geleira: confinado como se não pudesse respirar o ar do céu." Você conhece aquele frio ártico que ocasionalmente pode ser sentido mesmo quando a doutrina é sólida. Quando o Espírito de Deus se foi, mesmo a verdade se torna um iceberg. É terrível uma religião fria e sem vida! O Espírito Santo se foi, e levou toda energia e entusiasmo. A cena fica como aquela descrita no poema The Ancient Mariner [A balada do velho marinheiro], quando o navio estava em uma calmaria:

O próprio abismo apodrecia... Como, ó Cristo, 
Aquilo foi se dar? 
Coisas viscosas e com pernas rastejavam 
Sobre o viscoso mar

Dentro do navio tudo era morte. E já vimos isso na igreja. Sou tentado a usar os versos de Coleridge em relação ao muito que pode ser visto nessas igrejas que merecem o nome de congregações de mortos. O poeta descreve como os corpos dos mortos eram inspirados e o navio prosseguia, cada morto cumpria seu ofício de forma morta e formal:

Manobra o Timoneiro, a nave se desloca, 
E sem nenhuma aragem; 
Os marujos se põem a trabalhar nas cordas, 
E tal como antes agem; 
Instrumentos sem vida tornam-se seus membros... 
Que tétrica equipagem!

Faltava qualquer viva camaradagem, pois o velho marinheiro diz:

Postado frente a mim, puxando a mesma corda, 
Era-me companhia, 
Joelho com joelho, o corpo de um sobrinho; 
Mas nada me dizia. 
  Algo semelhante acontece naquelas congregações "respeitáveis" em que ninguém conhece ninguém e um digno isolamento toma o lugar de toda santa comunhão. Para o pregador, se ele é o único ser vivo na congregação, a igreja produz uma triste comunidade. Seus sermões caem em ouvidos moucos.

Plácida a noite, era alta a lua; e vi reunidos os mortos nesse instante. 
Todos de pé lá no convés, que deveria Ossário se chamar; 
Todos em mim fixavam seu olhar de pedra, Que brilhava ao luar.

  Sim, o frio e melancólico luar do pregador, cai sobre faces que são semelhantes a essa luz. O discurso impressiona seus intelectos impassíveis e fixa seus olhos duros como pedra; exceto o coração! Bem, o coração não está em voga nessas paragens. O coração é para o reino da vida; mas sem o Espírito Santo o que as congregações conhecem da vida verdadeira? Se o Espírito Santo se foi, a morte reina, e a igreja é um sepulcro. Portanto, precisamos rogar que ele habite em nós, e não podemos descansar até que ele faça isso. Ó irmãos, que não seja eu quem fale com vocês sobre isso, para depois permitir que o assunto morra; mas que cada um de nós busque com o coração e a alma para que o poder do Espírito Santo habite em nós.

A certeza da presença do Espírito Santo
  Temos recebido o Espírito Santo? Ele está conosco agora? Se esse é o caso, como podemos ter certeza de sua presença no futuro? Como podemos compeli-lo a habitar em nós?

  Primeiro, trate-o como deve ser tratado. Adore-o como o Senhor Deus digno de adoração. Nunca trate o Espírito Santo como se fosse um objeto, nem fale dele como se fosse uma doutrina, uma influência ou um mito ortodoxo. Reverencie o Espírito, ame-o, e creia nele com confiança familiar, porém reverente. Ele é Deus, deixe-o ser Deus para você.

  Aja em conformidade com a obra dele. O marinheiro que vai para o leste não pode criar os ventos a seu bel-prazer, mas ele sabe quando os ventos alísios sopram e aproveita a estação para imprimir velocidade a sua embarcação. Saia ao mar em santo empreendimento quando o vento celestial está a seu favor. Aproveite a maré sagrada enquanto ela avança. Aumente suas reuniões quando sente que o Espírito de Deus as abençoa. Insista na verdade com mais veemência que nunca, quando o Senhor abre ouvidos e corações para aceitá-la. Você logo aprenderá a conhecer quando há orvalho em volta--valorize a graciosa visitação. O fazendeiro diz: "Trabalha enquanto é dia". Você não pode fazer o sol brilhar; isso está completamente fora de seu alcance; mas você pode usar o sol enquanto brilha. "Assim que você ouvir um som de passos por cima das amoreiras, saia rapidamente" (2Sm 5.24). Seja diligente na estação e fora dela, mas em uma estação cheia de vida seja duplamente laborioso.

  Sempre ao começar, continuar e terminar qualquer e toda boa obra, dependa conscientemente e em verdade do Espírito Santo. Até a consciência de sua necessidade dele, ele precisa lhes dar, e as orações com que suplicam por sua presença devem partir dele. Vocês estão empenhados em um trabalho tão espiritual, tão acima de todo poder humano que esquecer-se do Espírito é certeza de derrota. Façam o Espírito Santo ser o sine qua non de seus esforços, e digam a ele: "Se não fores conosco, não nos envies" (Êx 33.15).

  Descansem apenas nele e reservem para ele toda a glória. Lembrem-se especialmente disso, porque esse é um ponto delicado para ele: ele não dará sua glória a outro. Tenham o cuidado de louvar o Espírito de Deus do fundo do coração, e gratamente se admirem de que ele aceite trabalhar a seu lado. Agradem-no ao glorificar Cristo. Honrem-no ao ceder sua pessoa aos impulsos dele e ao odiar tudo que o entristece. A consagração de todo seu ser é o melhor salmo que pode fazer em louvor dele.

  Há algumas coisas de que gostaria que se lembrassem, depois termino. Lembrem-se, o Espírito Santo tem seus meios e métodos, e há algumas coisas que ele não fará. Lembrem-se, ele não faz nenhuma promessa de abençoar acordos. Se fizermos acordo com o erro ou o pecado, é por nossa conta e risco. Se fazemos qualquer coisa sobre a qual não temos clareza, se manipulamos a verdade ou a santidade, se somos amigos do mundo, se fazemos provisão para carne, se pregamos com desânimo ou fazemos pacto com engana-dores, não temos nenhuma promessa de que o Espírito Santo está conosco. A grande promessa vai em outra direção: "'Saiam do meio deles e separem-se', diz o Senhor. 'Não toquem em coisas impuras, e eu os receberei e lhes serei Pai, e vocês serão meus filhos e minhas filhas', diz o Senhor todo-poderoso" (2Co 6.17,18).

  No Novo Testamento apenas em um único lugar, com exceção do Livro de Apocalipse, Deus é chamado de "Senhor todo-poderoso" (2Co 6.18). Se você quer saber que grandes coisas o Senhor pode fazer como Senhor Todo-Poderoso, separe-se do mundo e daqueles que apostatam da verdade. O título "Senhor todo-poderoso" é citado do Antigo Testamento. "El Shaddai", Deus Todo-suficiente, o Deus de muitos ventres. Não conheceremos o poder supremo de Deus para suprir todas nossas necessidades até que cortemos de vez a ligação com tudo que não está de acordo com a mente dele.

  Abrão foi grande quando disse ao rei de Sodoma: "Não aceitarei nada"--, uma veste babilônica ou uma cunha de ouro? Não, não. Ele disse: "Não aceitarei nada do que lhe pertence, nem mesmo um cordão ou uma correia de sandália" (Gn 14.23). Esse foi o "corte pela raiz". O homem de Deus não aceita ter nada com Sodoma nem com a falsa doutrina. Se você vir qualquer coisa má, corte-a pela raiz. Afaste-se daqueles que afastaram a verdade. Então você está preparado para receber a promessa, não antes disso.

  Irmãos amados, lembrem-se, onde houver grande amor, com certeza, haverá grande ciúme. "Amor é tão forte quanto a morte" (Ct 8.6). O que vem em seguida? "O ciúme é tão inflexível quanto a sepultura". "Deus é amor" (1Jo 4.8,16) e exatamente por essa razão "o SENHOR, o seu Deus, é Deus zeloso; é fogo consumidor" (Dt 4.24). Passe longe de tudo que contamina ou entristece o Espírito Santo; pois se ele estiver aborrecido conosco, logo passaremos vergonha diante do inimigo.

  A seguir, observe que ele não faz nenhuma promessa à covardia. Se você permitir que o temor do homem o governe e desejar se salvar do sofrimento ou ridículo, encontra pouco conforto na promessa de Deus: "Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá" (Mt 16.25). As promessas do Espírito Santo para nós, em nossa guerra, são para aqueles que se portam como homens e pela fé são tornados corajosos na hora do conflito. Desejo que cheguemos a esse ponto, desprezando o ridículo e a calúnia.

  Ah, esquecer de si mesmo como aquele mártir italiano de quem Foxe fala! Condenaram-no a ser queimado vivo, e ele ouviu a sentença calmamente. Mas queimar mártires, por mais deleitável que seja também é caro; e o prefeito da cidade não tinha interesse em pagar pela lenha, e os sacerdo-tes que o haviam acusado também queriam fazer o trabalho sem ter despesa. Por isso, tiveram uma briga feia, e lá estava de pé e quieto o pobre homem para quem essa lenha era destinada, ouvindo as mútuas recriminações daquelas autoridades. Vendo que não podiam resolver o assunto, ele disse: "Senhores, acabarei com sua disputa. É pena que qualquer dos senhores precisem gastar tanto com lenha para me queimar, assim, por amor a meu Senhor, pagarei pela lenha que me vai queimar, se me permitem."

  Eis um lindo exemplo de escárnio, bem como de mansidão. Não sei se teria pago aquela conta; mas tenho me sentido inclinado a sair um pouco do caminho para ajudar os inimigos da verdade, para que encontrem combustível para suas críticas contra mim. Sim, sim; serei ainda pior, lhes darei mais para reclamar. Por amor a Cristo, vou até o fim com a controvérsia e nada farei para aquietar a ira deles. Irmãos, se vocês adornarem um pouco, se tentarem salvar um pouco de sua reputação junto aos homens da apostasia, isso é ruim para vocês. Aquele que se envergonha de Cristo e de sua Palavra nesta geração má verá que, no fim, Cristo se envergonha dele.

  Serei muito breve sobre esses pontos. Depois, lembre-se, o Espírito Santo nunca põe seu selo sobre a mentira. Nunca! Se o que você pregar não for verdade, Deus não reconhecerá isso. Prestem muita atenção a isso.

  Além disso, o Espírito Santo nunca põe sua assinatura em um papel em branco. Isso seria falta de prudência no homem, e o santo Senhor não faria tal tolice. Se não pregarmos uma doutrina clara com discurso inteligível, o Espírito Santo não assinará tagarelice vazia. Se não fizermos claramente nossa apresentação de Cristo, e de Cristo crucificado, podemos dar adeus ao sucesso verdadeiro.

  Depois, lembre-se, o Espírito Santo nunca sanciona o pecado; e abençoar o ministério de alguns homens seria sancionar o mau caminho. "Sejam puros, vocês, que transportam os utensílios do Senhor" (Is 52.11). Que seu caráter corresponda a seu ensino, e que sua igreja seja purgada dos transgressores que erram abertamente, para que o Espírito Santo não rejeite seu ensino, não pelo ensino em si, mas por causa do mau cheiro da vida impura que o desonra.

  Lembre-se, também, ele nunca incentiva o ócio. O Espírito Santo não nos resgatará da negligência voluntária da Palavra de Deus e do estudo. Se passamos a semana toda de lá para cá, sem nada fazer, não podemos subir ao púlpito e pensar que o Senhor está lá para nos dizer sobre o que devemos falar. Se fosse prometido auxílio a tais pessoas, então quanto mais preguiçoso o homem, melhor seria o sermão. Se o Espírito Santo trabalhasse apenas por meio de oradores improvisados, quanto menos lêssemos nossas Bíblias e medi-tássemos sobre elas, tanto melhor. Se fosse errado citar livros, não seria ordenado: "Dedique-se à leitura" (1Tm 4.13). Tudo isso é um absurdo óbvio, e nenhum de vocês acredita em tal ilusão. Com certeza, somos obrigados a meditar muito e nos entregar inteiramente à Palavra de Deus e à oração, e quando nos dedicamos a essas coisas podemos esperar a aprovação e cooperação do Espírito. Devemos preparar o sermão como se tudo dependesse de nós e confiar no Espírito de Deus, sabendo que tudo depende dele. O Espírito Santo não envia ninguém à colheita para dormir entre os feixes, mas para suportar o peso do trabalho e o calor do dia. É bom orarmos a Deus para que mande mais "trabalhadores" para o vinhedo, pois o Espírito está com a força dos lavradores, mas não é amigo dos ociosos.

  Mais uma vez, pondere, o Espírito Santo não nos abençoa para sustentar nosso orgulho. É possível que desejemos uma grande bênção para que sejamos considerados grandes homens? Isso atrapalha nosso êxito: a corda do arco está avariada e a flecha cai para o lado. O que Deus faz com homens orgulhosos? Ele os exalta? Creio que não. Herodes fez um discurso eloqüente e vestiu uma toga de prata reluzente que brilhava ao sol, e quando o povo viu suas vestimentas e ouviu sua voz charmosa, exclamou: "É voz de deus, e não de homem" (At 12.22), mas o Senhor o feriu, e ele foi comido por vermes. Vermes têm o direito prescritivo de comer carne orgulhosa; e quando nos tornamos muito poderosos e grandes, os vermes esperam fazer de nós uma refeição. "O orgulho vem antes da destruição; o espírito altivo, antes da queda" (Pv 16.18). Conserve-se humilde se quiser ter consigo o Espírito de Deus. O Espírito Santo não tem prazer na oratória inflamada do soberbo. Como poderia? Você o imagina sancionando linguagem bombástica? "Ande humildemente com o seu Deus" (Mq 6.8), Ó, Pregador! pois não podes andar com ele de nenhuma outra maneira; e se não andar com ele, teu andar será em vão.

  Lembre-se, de novo, o Espírito Santo não habita onde há contenda. Que sigamos em paz com todos os homens e, especialmente, conservemos a paz em nossas igrejas. Alguns de vocês ainda não foram favorecidos com essa bênção e é possível que não seja sua culpa. Você herdou antigas contendas. Em muitas comunidades pequenas, todos os membros da congregação são primos uns dos outros, e, em geral, parentes concordam em discordar. Quando primos enganam primos, as sementes do rancor são semeadas e embrenha-se até mesmo na vida da igreja. A arrogância de seu antecessor pode criar muita disputa por anos. Ele era um homem de guerra desde a mocidade e mesmo depois que se foi, os espíritos que chamou de vasta profundeza ficaram para assombrar o local. Temo que você não possa esperar muita benção, pois a Pomba Santa não habita águas turbulentas, ela escolhe vir onde há amor fraternal. Arriscamos a paz pessoal por grandes princípios e assuntos de disciplina santa, mas que não o façamos por nós mesmos ou por nossos interesses.

  Por fim, lembre-se, o Espírito Santo só abençoa em conformidade com seu propósito determinado. Nosso Senhor explica qual é esse propósito: "Ele me glorificará" (Jo 16.14). Ele veio para essa grande finalidade e não se contentará com nada menos que isso. Portanto, se não pregarmos Cristo, o que o Espírito Santo fará com nossa pregação? Se não fizermos com que o Senhor Jesus seja glorificado, se não o elevarmos alto na estima dos homens, se não nos esforçarmos para fazê-lo Rei dos reis e Senhor dos senhores; não teremos o Espírito conosco. Vãs são a retórica, a música, a arquitetura, a energia e a posição social: se nosso projeto não for engrandecer o Senhor Jesus, trabalhamos sozinhos e em vão.

  Isso é tudo que tenho a lhes dizer nesta hora, mas, irmãos queridos, isso é um grande tudo se primeiro for considerado e depois executado. Que possa ter efeito prático sobre nós! Terá, se o grande Operador usá-lo, e não o contrário. Ó soldados de Jesus vão adiante com "a espada do Espírito, que é a palavra de Deus" (Ef 6.17). Vão em frente, em companhia dos devotos a quem guiam, e que todo homem seja forte no Senhor e na força do seu poder. Como homens vivos que vêm da morte, vão em frente no poder vivificador do Espírito Santo, vocês não têm outra força. Que a bênção do Deus Triúno repouse sobre vocês, sobre cada um de vocês e todos, por amor do Senhor Jesus Cristo! Amém.
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A Imperfeição do Conhecimento Humano

John Wesley

Pregado em Bristol, 05 de Março de 1784.
"Porque, em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos" (I Cor. 13:9)


I. Quão surpreendentemente pouco sabemos de Deus!

II. Nós não estamos melhores familiarizados com seus trabalhos de providência, do que com suas obras de criação? 

III. Nós somos capazes de procurar saber, alguma coisa a mais, sobre suas obras de graça, do que sobre seus trabalhos de providência? 

IV. Diversas lições valiosas, nós podemos aprender da profunda consciência de nossa própria ignorância.

1. O desejo do conhecimento é um princípio universal no homem, fixado em sua natureza mais íntima. Ele não é variável, mas, constante, em toda criatura racional, a menos, enquanto ele é suspenso por alguns desejos fortes. E ele é insaciável: "O olho nunca está satisfeito com o que vê, nem os ouvidos com o que ouve". Nem a mente com algum grau de conhecimento que possa ser concebido dentro dela. E ele é plantado, em toda a alma humana, para propósitos excelentes. Ele é pretendido para impedir nossa inércia em qualquer coisa aqui embaixo; erguendo nossos pensamentos para objetos mais altos, mais merecedores de nossa consideração, até que ascendamos à Fonte de todo conhecimento e toda excelência, o Criador de toda sabedoria e toda graça. 

2. Mas, embora nosso desejo de conhecimento não tenha limites, nosso conhecimento, em si mesmo, tem. Ele é, de fato, confinado, nos mesmos limites estreitos; muito mais estreitos do que as pessoas comuns possam imaginar, ou homens letrados estão dispostos a admitir: uma forte sugestão, (já que o Criador não faz coisa alguma em vão), que possa haver algumas condições futuras de existência, por meio das quais, este, até o momento, desejo insaciável, possa ser satisfeito, e não haja distância tão grande entre o apetite e o objeto dele. 

3. O presente conhecimento do homem está exatamente adaptado para as suas necessidades presentes. Ele é suficiente para nos alertar, e nos preservar dos perigos às quais nós estamos agora expostos; e para obter o que quer que seja necessário a nós, nessa condição infantil de existência. Nós sabemos o suficiente da natureza e qualidades sensíveis das coisas que estão à nossa volta, tanto quanto elas são subservientes à saúde e força de nossos corpos: nós sabemos como procurar e preparar nossa comida; nós sabemos como construir nossas casas e as mobílias delas, com todas as necessidades e conveniências; nós sabemos apenas, o quanto é conducente, para vivermos, confortavelmente, nesse mundo: Mas das inumeráveis coisas acima, embaixo e ao redor de nós, o muito que sabemos é que elas existem. E nessa nossa ignorância profunda é visto a bondade, tanto quanto a sabedoria de Deus, resumindo seu conhecimento de todos os lados, com o propósito de "encobrir a vaidade do homem".  

4. E, em conseqüência disto, pela mesma constituição de sua natureza, o mais sábio dos homens "sabe", mas "em parte". E quão espantosamente pequena é a parte que eles conhecem, tanto do Criador, quando de suas obras! Esse é um tema muito necessário, mas também muito desagradável; porque "o homem tolo seria sábio". Vamos refletir sobre isso, por enquanto. E possa o Deus da sabedoria e amor abrir nossos olhos para discernir nossa própria ignorância! 

I.

1. Para começar com o próprio grande Criador. Quão surpreendentemente pouco nós conhecemos sobre Deus! Quão pequena parte de sua natureza, nós conhecemos de seus atributos essenciais! Que concepção nós podemos formar de sua Onipresença? Quem é capaz de compreender Deus, nesse e em todas os lugares? Como ele preenche a imensidão do espaço? Se os filósofos, ao negarem a existência do vácuo, apenas quisessem dizer que não há espaço vazio de Deus, que todos os pontos do espaço infinito é cheio de Deus, certamente, nenhum homem poderia chamar isso à questão. Mas, ainda que o fato seja admitido, o que é Onipresença ou ubiqüidade? O homem não é mais capaz de compreender isso, do que alcançar o universo. 

2. A Onipresença ou a imensidade de Deus, Sir Isaac Newton esforçou-se para ilustrar através da forte expressão, denominando o espaço infinito de "O Sensório da Divindade". E os mesmos ateus não tiveram escrúpulos para dizer, "Todas as coisas estão cheia de Deus": Apenas equivalente com suas próprias declarações: "Eu não encho céus e terra? - diz o Senhor". Quão maravilhosamente o salmista ilustra isso! "Para onde eu devo fugir da tua presença? Se eu subir ao céu, tu estás lá: Se eu vou para o inferno, tu também estás. Seu eu levo as asas da manhã, e permaneço, nas partes mais remotas do mar, mesmo lá, tua mão me encontra, e tua mão direita me segura". "Mas, nesse meio tempo, que concepção podemos formar tanto de sua eternidade, quanto de sua imensidade? Tal conhecimento é muito maravilhoso para nós: Nós não podemos alcançar isso".

(Salmo 139:7-10) "Para onde me irei, do teu Espírito, ou para onde fugirei de tua face? Se subir ao céu, tu ai estás; se fizer no Seol a minha cama, eis que tu ali estás também; se  tomar as asas da alva,; se habitar nas extremidades do mar; até ali a tua mão me guiará, e tua destra me susterá"

3. O segundo atributo essencial de Deus é a eternidade. Ele existe, antes de todo o tempo. Talvez, mais propriamente, pudéssemos dizer: Ele existe, desde o sempre, para o sempre. Mas o que é eternidade? Um renomado autor diz que a eternidade Divina "é a concepção imediata, inteira e perfeita, da vida que nunca tem fim". Mas quão mais sábio nós ficamos, por causa dessa definição? Nós sabemos disso, tanto quanto sabíamos antes! "A concepção imediata, inteira e perfeita!". Quem pode conceber o que isso significa?  

4. Se, realmente, Deus tinha estampado (como alguns têm mantido) uma idéia de si mesmo, em toda alma humana, nós devemos, certamente, ter entendido alguma coisa desse, assim como, de outros atributos; já que não podemos supor que ele tivesse imprimido em nós uma idéia falsa, ou imperfeita de si mesmo; mas a verdade é que nenhum homem encontrou, ou encontra agora, qualquer idéia estampada em sua alma. O pouco que nós sabemos de Deus (exceto o que nós recebemos por inspiração do Espírito Santo), nós não reunimos de qualquer impressão interior, mas, gradualmente, adquirimos, exteriormente. "As coisas invisíveis de Deus", se elas são conhecidas, afinal, "são conhecidas das coisas que são feitas"; não do que Deus tem escrito em nossos corações, mas do que Ele tem escrito, em todas as suas obras. 

5. Daí, então; das suas obras, particularmente, das suas obras de criação, nós podemos aprender o conhecimento de Deus. Mas não é fácil conceber o quão pouco nós sabemos mesmos desses. Para começar com aqueles que estão á uma certa distância: Quem sabe quão distante o universo se estende? Quais são os limites dele? As estrelas da manhã podem dizer, aquelas que cantaram juntas, quando as linhas dele foram esticadas para fora, quando Deus disse: "Seja essa tua circunferência, ó mundo!" Mas as estrelas fixas têm escondido, totalmente, dos filhos do homem, tudo o mais. E o que nós sabemos das estrelas fixas? Quem pode dizer o número delas? Mesmo essa pequena porção delas que, pela sua luz misturada nós denominamos "via Láctea?". E quem sabe o uso delas? Elas são muitos sóis que iluminam seus respectivos planetas? Ou elas apenas auxiliam nisso, (como o Sr. Hutchinson supõe), e contribuem, de alguma maneira desconhecida, para a circulação perpétua da luz e espírito? Quem sabe o que são os cometas? Eles são planetas não completamente formados? Ou planetas destruídos por uma conflagração? Ou eles são corpos de uma natureza totalmente diferente, do qual nós podemos formar nenhuma idéia? Quem pode nos dizer o que é o sol?  O seu uso nós sabemos: mas quem sabe de que substância ele é composto? Não, nós ainda não somos capazes de determinar, se ela é fluida ou sólida! Quem sabe a distância precisa do sol a terra? Muitos astrônomos são persuadidos de que se trata de centenas de milhões de milhas; outros, que é apenas oitenta e seis milhões, embora, geralmente, considerada noventa. Mas, igualmente, grandes homens dizem que é não mais do que cinqüenta; algum deles, que é doze milhões: Por último, chega o Dr. Rogers, e demonstra que são, justos, dois milhões e novecentas mil milhas! Tão pouco nós sabemos, até mesmo, dessa luminária gloriosa, o olho e alma do mundo menor! E, do mesmo modo, tanto quanto dos planetas que o circundam; sim; de nosso planeta, da lua. Alguns, realmente, descobriram: Rios e montanhas em seu globo iluminado; sim, destacaram todos os mares e continentes delas! Mas, afinal, nós sabemos quase nada do assunto. Nós temos nada mais do que meras conjecturas incertas concernentes ao mais próximo dos corpos celestes.  

6. Mas vamos para as coisas que estão mais perto de casa, e inquirir o conhecimento que nós temos delas. Quanto nós conhecemos desse corpo maravilhoso, a luz? Como ela é trazida até nós? Ela flui num fluxo continuado do sol? Ou o sol impele as partículas, próximo à sua órbita, e assim, por diante, até a extremidade de seu sistema? Novamente: A luz gravita ou não: Ela atrai ou repele outros corpos? Ela está sujeita às leis gerais, as quais prevalecem em todos os assuntos? Ou ela é um corpo "siu generis", completamente, diferente de todos os outros assuntos?  É o mesmo com o fluído elétrico, e outros controlam seu curso? Porque o vidro é capaz de ser mudado para tal ponto, e não mais além? Centena de mais perguntas poderiam ser feitas sobre esse assunto, que nenhum homem vivente pode responder.

7. Mas, certamente, nós entendemos o ar que respiramos, e que nos envolve de todos os lados. Por essa admirável propriedade de elasticidade, ele é a fonte geral da natureza. Mas a elasticidade é essencial para o ar, e inseparável dele? Não; já foi provado, por inúmeros experimentos, que o ar pode ser fixado, ou seja, despido de sua elasticidade, e produzido e restaurado a ela novamente. Entretanto, ele não é, por outro lado, elástico, do que quando ele é conectado com fogo elétrico. E não é esse fogo elétrico ou etéreo, a única elasticidade verdadeiramente essencial na natureza? Quem sabe por qual poder o orvalho, chuva, e todos os outros vapores sobem e caem no ar? Nós podemos considerar o fenômeno deles princípios comuns? Ou devemos nós mesmos concluir, com o recente autor engenhoso, que esses princípios são extremamente insuficientes; e que eles não podem ser considerados, racionalmente, a não ser sobre os princípios de eletricidade? 

8. Vamos, agora, descer para a terra, que nós pisamos, e que Deus tem, peculiarmente, dado aos filhos dos homens. Os filhos dos homens entendem isso? Suponha que o globo terrestre tenha sete ou oito mil milhas, em diâmetro, quanto disso, nós sabemos?  Talvez, uma milha ou duas de sua superfície: Quão longe a arte do homem penetrou. Mas quem pode informar-nos o que pode ser encontrado abaixo da região das pedras, metais, minerais e outros fósseis? Essa é apenas uma crosta fina, que suporta uma proporção muito pequena do todo. Quem pode nos instruir com respeito às partes internas do globo? Do que essas consistem? Há um fogo central, um grande reservatório, o qual não apenas supre aos vulcões, mas também contribuem (embora não saibamos como) para o maturativo de gemas e metais; sim, e talvez, para a produção dos vegetais e o bem-estar de animais também? Ou está a grande profundeza ainda contida nas entranhas da terra? Um abismo central de águas. Quem viu? Quem pode dizer? Quem pode dar uma satisfação sólida para o inquiridor racional? 

9. Quanto da mesma superfície do globo é ainda extremamente desconhecida para nós! Quão pouco, nós sabemos das regiões polares, norte e sul, da Europa ou Ásia! Quão pouco dessas vastas regiões, dos confins da África ou América! Bem menos, nós sabemos o que está contido no mar amplo. O grande abismo, que cobre a parte maior do globo. A maioria de suas cavidades é inacessível para o homem, de modo que nós não podemos dizer como elas são providas. Quão pouco nós sabemos dessas coisas sobre a terra firme, que cai diretamente sob nossa observação! Considerem mesmo os mais simples metais e pedras: Quão, imperfeitamente, nós estamos familiarizados com a maturidade e propriedades deles! Quem sabe o que é que distingue os metais de todos os outros fósseis? É respondido: "Eles são mais pesados". Muito verdadeiro; mas qual é a causa de eles serem mais pesados? Qual a diferença específica entre metais e pedras? Ou entre um metal e outro? Entre ouro e prata? Entre lata e chumbo? Ainda é tudo mistério para os filhos dos homens.

10. Continuemos com o reino dos vegetais. Quem pode demonstrar que a seiva, em qualquer vegetal, executa uma circulação regular através de suas artérias, ou que ela não faz isso? Quem pode indicar a diferença específica entre uma espécie de planta e outra? Ou a conformação e disposição, peculiar e interna, de suas partes componentes? Sim, que homem vivente compreende, completamente, a natureza e propriedades de qualquer uma planta debaixo do céu? 

11. Com respeito aos animais: Os animais microscópicos, assim chamados, são realmente animais, ou não? Se eles são; eles não são, essencialmente, diferentes de todos os outros animais no universo, não requerendo alimento, não gerando ou sendo gerados? Eles não são animais, afinal, mas, meramente, partículas inanimadas de matéria, num estado de fermentação? Quão totalmente ignorante é a maioria dos homens mais sagazes, tocando o assunto da criação no seu todo! Mesmo a criação do homem. No livro do Criador, certamente, estavam todos nossos membros escritos, "os quais, dia a dia foram formados, quando ainda nenhum deles existia": Mas de que modo foi o primeiro gesto comunicado para o "punctum saliens?" Quando, e como, foi o espírito imortal adicionado ao barro inconsciente? É tudo mistério. E nós podemos apenas dizer: "Eu estou extraordinariamente, e maravilhosamente feito".

12. Com respeito aos insetos, muitas são as descobertas que têm sido recentemente feitas. Mas quão pouco ainda é tudo isso que foi descoberto, em comparação ao que se desconhece! Quantos milhões deles, por sua miudeza extrema, escapam totalmente de nossas investigações. E, de fato, as partes minúsculas dos maiores animais iludem nossas diligências extremas. Nós temos um conhecimento mais completo dos peixes do que temos dos insetos? A grande parte, se não a maior parte dos habitantes das águas estão, totalmente, ocultos de nós. É provável, que as espécies de animais marinhos sejam, tão numerosas, quanto as dos animais terrestres. Mas quão poucos deles são conhecidos para nós! E quão poucos sabemos dessa minoria. Com pássaros nós estamos um pouco mais familiarizados: mas, na verdade, é muito pouco ainda. Porque, de muitos, nós, mal e mal, sabemos alguma coisa mais, do que sua forma exterior. Algumas poucas propriedades óbvias, de outros, principalmente dos que freqüentem nossas casas. Mas não temos um conhecimento completo e adequado mesmo desses. Quão pouco nós sabemos de nossos animais! Nós não sabemos, por qual motivo, temperamentos e qualidades diferentes, surgem; não apenas, nas diferentes espécies deles, mas nos indivíduos da mesma espécie; sim, e, freqüentemente, naqueles que nascem dos mesmos pais, do mesmo macho, e fêmea animal. Eles são meras máquinas? Então, eles são incapazes de prazer ou dor. Não, eles podem não ter sentido algum; eles não vêem, nem ouvem; nem sentem o paladar, nem o odor. Tão pouco, eles podem, agora, lembrar-se ou mover-se, a não ser se forem impulsionados exteriormente. Mas tudo isso, como é mostrado, diariamente, é bem ao contrário, afinal. 

13. Bem; mas, se nós conhecemos nada mais, nós conhecemos, pelo menos, a nós mesmos? Nossos corpos e almas? O que é nossa alma? É um espírito, nós sabemos. Mas o que é um espírito? Aqui nós estamos completamente bloqueados. E onde a alma habita? Na glândula pineal; no cérebro todo; no coração; no sangue; em alguma parte particular do corpo, ou (se alguém pode entender esses termos) "tudo em tudo", e em toda parte? Como a alma é unida ao corpo? Qual é o segredo, a corrente imperceptível que os une? Pode o mais sábio dos homens dar uma resposta satisfatória a qualquer uma dessas questões simples? Ó quão pouco conhecemos, mesmo no que concerne a toda criação de Deus? 

II.

1. Mas nós estamos mais familiarizados com suas obras de providência, do que com sua obra de criação? É um dos primeiros princípios da religião, que seu reino impere sobre tudo? De maneira que nós podemos dizer com confiança? "O, Senhor, nosso Governador, quão excelente é o teu nome sobre toda a terra!". É um conceito infantil, para supor que o acaso governa o mundo, ou tem alguma parte no governo dele: Não, nem mesmo, nessas coisas que, para o olho comum, parecem ser, perfeitamente, casuais. "A sorte está lançada à mão; mas o poder de dispor disso é de Deus". Nosso abençoado Mestre, ele mesmo tem colocado esse assunto além de qualquer dúvida possível: "Nem mesmo um pardal", disse ele, "cai ao chão, sem a vontade do Pai que está nos céus": "Sim", (para expressar a coisa mais fortemente ainda) "até mesmo os cabelos de sua cabeça são todos numerados". 

2. Mas, embora nós sejamos bem informados dessa verdade geral, a de que todas as coisas são governadas pela providência de Deus; (a mesma linguagem do orador pagão, Deorum moderamine cuncta geri) "tratando da maneira como Deus governa tudo", quão espantosamente pouco, nós sabemos das particularidades contidas sob essa idéia! Quão pouco, nós entendemos de sua conduta divina, tanto com respeito às nações, ou famílias, ou indivíduos! Há alturas e profundidades em tudo isso em que nosso entendimento pode, de forma alguma, penetrar. Nós podemos compreender, a não ser uma pequena parte de seus métodos, agora; o restante nós devemos saber, daqui por diante.   

3. Até mesmo, com respeito á nações inteiras; quão pouco, nós compreendemos dos procedimentos providenciais de Deus para com elas! Quais nações inumeráveis, no mundo oriental uma vez floresceram, para o terror ao redor delas, e estão agora varridas da face da terra; e a sua lembrança pereceu com elas! Nem foi ao contrário no mundo ocidental. Na Europa também, nós lemos sobre muitos reinos amplos e poderosos, dos quais apenas os nomes restaram: As pessoas desapareceram, e são como se nunca tivessem existido. Mas por que isso tem agradado ao Todo-Poderoso Governador do mundo varrê-los fora, com a vassoura da destruição, nós não sabemos; esses que os sucederam são, muitas vezes, pouco melhor do que eles mesmos.  

4. Mas, não é apenas com respeito às antigas nações, que as administrações providenciais de Deus são extremamente incompreensíveis para nós. As mesmas dificuldades ocorrem agora. Nós não podemos responder pelos procedimentos presentes com os habitantes da terra. Nós sabemos que "o Senhor ama todo homem, e sua misericórdia é sobre toda as suas obras". Mas nós não sabemos como reconciliar isso com suas decisões divinas. Até hoje, não está a maior parte da terra repleta de escuridão e habitações cruéis? Em que condição, em particular, está o largo e populoso Império Indo-Europeu! Quantas centenas de milhares dessas pobres e tranqüilas pessoas têm sido destruídas, e suas carcaças deixadas como esterco para a terra! Em que condição (embora eles não tenham malfeitores ingleses lá) estão as incontáveis ilhas no Oceano Pacífico! Quão pequenas são suas condições sobre esses lobos e ursos! E quem se preocupa, seja com suas almas ou seus corpos? Mas o Pai de toda a humanidade não se preocupa com eles? Ó, mistério da providência! 

5. E quem se preocupa com os milhares, miríades, se não milhões, de africanos miseráveis? Rebanhos inteiros destas pobres ovelhas (seres humanos; seres racionais!) não são, continuamente, conduzidos, para serem comercializados, e vendidos como gado, na escravidão mais vil, sem qualquer esperança de libertação, a não ser através da morte?  Quem se preocupa com esses homens proscritos, os bem conhecidos africanos? É verdade, que um escritor, recentemente, tem tomado as dores deles para representá-los, como pessoas respeitáveis: Mas por que motivo, é difícil dizer; já que ele mesmo permite (como um exemplo da cultura deles), que os intestinos crus de ovelhas e outros gados sejam, não apenas, algumas das comidas escolhidas para eles, mas também o ornamento de seus braços e pernas; e (um exemplo da religião deles). que o filho não seja considerado um homem até que ele bata em sua própria mãe, quase à morte; e que, quando seu pai envelhece, ele o confina em uma pequena choupana, e o deixa lá, para morrer de fome! Ó, Pai, das misericórdias! Essas são as obras de tuas próprias mãos, a compra, através do sangue de teu Filho?  

6. Quão pouco melhor é tanta a condição civil, quanto a religiosa dos pobres índios americanos! Ou seja, os poucos miseráveis que ainda restam deles: porque em algumas províncias, nenhum deles foi deixado para respirar. Na Espanha, quando os cristãos lá chegaram, havia três milhões de habitantes. Escassos, doze mil deles ainda sobrevivem hoje em dia. E em que condição eles estão, ou os outros índios, que ainda estão esparramados acima e abaixo, nos domínios do Continente Americano do Sul ou do Norte?  Religião eles não têm; nem adoração pública de qualquer espécie! Deus não está em todos os seus pensamentos. E a maioria deles não tem governo civil, afinal; nem leis; nem magistrados; mas todo homem faz o que é direito aos seus próprios olhos. Entretanto, eles estão decrescendo, diariamente; e, muito provavelmente, em um século ou dois, não restará um deles.  

7. Entretanto, os habitantes da Europa não estão, nessa condição tão deplorável. Eles estão em uma condição de civilização; eles ainda têm leis úteis, e são governados por magistrados; eles têm religião; eles são cristãos. Eu temo, se eles são chamados cristão ou não, já que muitos deles não têm religião. E o que dizer dos milhares habitantes da Lapônia, Finlândia, Samoa, e os da Groelândia? Na verdade, de todos aqueles que vivem nas latitudes norte? Eles são tão civilizados, quanto uma ovelha ou um boi? Compará-los com cavalos, ou quaisquer de nossos animais domésticos, isso poderia dar a eles muita honra! Acrescente a esses, miríades de selvagens humanos que estão tremendo de frio, entre as neves da Sibéria, tanto quanto, se não, em número maior, aqueles que estão perambulando, acima e abaixo, nos desertos da Tartária. Acrescente milhares sobre milhares de poloneses e moscovitas; e os assim chamados cristãos da Turquia, na Europa. E não só "Deus ama" esses, "mas deu seu Filho, seu único Filho, para que eles não perecessem e tivessem a vida eterna? Então, por que eles são assim?" Ó, maravilha sobre todas as maravilhas!

8. Não há, igualmente, alguma coisa misteriosa nos propósitos divinos, com respeito ao próprio Cristianismo? Quem pode explicar por que o Cristianismo não se espalha tanto quanto o pecado? Por que esse medicamento não é enviado a todos os lugares onde a enfermidade é encontrada? Mas, ai de mim! Não é: "O som dele" não adentrou ainda "em todas as terras". O veneno é difundido sobre todo o globo, mas o antídoto não é conhecido, pela sexta parte dele! Não! E como é que a sabedoria e bondade de Deus permitem que o próprio antídoto seja, tão gravemente, adulterado, não apenas nas regiões de Catolicismo Romano, mas em quase todas as partes do mundo cristão? Tão adulterado, por serem misturados, freqüentemente, com ingredientes desnecessários ou venenosos, que ele acaba retendo nada, ou, quando muito, apenas uma pequena parte de sua virtude original. Sim! Ele tem sido, assim adulterado, por muitas dessas mesmas pessoas, enviadas para ministrá-lo; de tal maneira, que ele acrescenta, dez vezes mais malignidade, às enfermidades, às quais ele foi designado para curar! Em conseqüência disso, há, bem menos, misericórdia ou verdade encontradas, no meio cristão, do que no meio pagão! Ao contrário, tem sido afirmado, e eu temo que, verdadeiramente, que muitos dos assim chamados cristãos são bem piores do que os pagãos que os rodeiam: são mais devassos, e mais abandonados a todo tipo de maldade; não temendo a Deus, nem ao homem! Ó, quem pode compreender isso! Será que aquele que é o ainda mais poderoso, do que o mais poderoso dos homens, vê isso? 

9. Igualmente incompreensível para nós são os planos divinos, com respeito às famílias, em particular. Nós não podemos, afinal, compreender, por que é que para alguns ele ergue riqueza, honra e poder, e, nesse meio tempo, permite que outros vivam privações e aflições? Alguns, maravilhosamente, prosperam, em tudo que eles têm na mão, e o mundo aflui sobre eles; enquanto outros, com todo seu trabalho e labuta, podem, escassamente, conseguir o pão de cada dia. E, talvez, prosperidade e aplauso continuem com os primeiros, até a morte deles; enquanto, os últimos, beberão o copo da adversidade, até o fim de suas vidas, mesmo que nenhuma razão exista para nós que justifique, tanto a prosperidade de um, quanto a adversidade do outro. 

  10. E quão pouco, nós sabemos dos propósitos divinos, com respeito aos indivíduos. Por que uma grande quantidade desses homens é deixada, na Europa, e nos lugares ermos da América; por que alguns nascem de ricos e nobres, e outros, de pais pobres; por que o pai e mãe, de um, são fortes e saudáveis; e, os de outro, são fracos e doentes; em conseqüência disso, ele arrasta uma existência miserável, todos os dias de sua vida, exposto às necessidades, dores e milhares de tentações, das quais ele não encontra caminho para escapar? Quantos existem que, em sua própria infância, foram restringidos, por tais relações, de tal maneira, que eles parecem não ter chance (como alguns dizem), nem possibilidade de serem úteis a si mesmos ou a outros? Por que eles são emaranhados, nessas conexões, antes mesmo de suas próprias escolhas? Por que pessoas nocivas são colocadas, no caminho deles, sem que eles saibam, de que maneira, eles podem escapar delas? Por que as pessoas úteis são ocultadas de suas vistas, ou arrebatadas deles, no momento em que eles mais precisam? Meu Deus! Quão insondáveis são os teus julgamentos e deliberações! Muito profundos, para serem penetrados, por nossa razão; e, os meios, para executar tais deliberações, não são, para serem reconhecidos pela nossa sabedoria!

III.

1. Nós somos capazes de procurar saber sobre as obras da graça, mais do que sobre as obras da providência? Nada é mais certo do que "sem santidade, nenhum homem verá ao Senhor". Então, por que a vasta maioria da humanidade, até onde, nós podemos julgar, pôs fim a todos os meios, e todas as possibilidades de santidade, até mesmo do útero de quem a gerou? Por exemplo: Qual a possibilidade que existe dos africanos, neozelandeses, ou dos habitantes da Nova-Zâmbia saberem, alguma vez, o que a palavra santidade significa? Ou, conseqüentemente, de alguma vez, obtê-la? Mas alguém pode dizer: "Ele pecou, antes de ele ter nascido, em uma condição pré-existente. Assim sendo, ele foi colocado aqui, em uma situação tão desfavorável. É apenas mera misericórdia que eles possam ter uma segunda chance". Eu respondo: Supondo-se que exista tal condição pré-existente, isso que você chama de segunda chance não é realmente uma chance, afinal. Tão logo, ele nasce, ele fica, absolutamente, no poder de seus pais e relações, selvagens; e que, pela mesma origem de raciocínio, educam-no, na mesma ignorância, ateísmo, e barbaridade, que eles mesmos. Ou seja, se ele não tem possibilidade de alguma outra educação melhor, que chance ele tem, então? Do momento em que ele nasce, até o momento em que ele morre, ele parece estar sob a necessidade terrível de viver na completa descrença e iniqüidade. Mas como é isso? Como esse pode ser o caso de tanto milhões de almas que Deus criou? Tu não és o Deus "de todos os confins da terra, e dos que permanecem nos amplos mares?".

2. Eu espero que possa ser observado que, se isso evoluir para uma objeção contra a revelação, essa será uma objeção que se coloca completamente contrária à religião natural, tanto quanto à religião revelada. Se isso fosse, conclusivo, poderia nos conduzir, não ao Deismo, mas ao Ateísmo claro. Não só concluiria contra a revelação cristã, mas contra a existência de Deus. E, ainda eu não vejo como nós podemos evitar a força disso, a não ser resolvendo tudo na sabedoria insondável de Deus, junto com a convicção mais profunda de nossa ignorância e inabilidade de penetrar em seus desígnios.  

3. Mesmo entre nós, que somos muito mais favorecidos do que esses, e aos quais foram confiados os oráculos de Deus, cuja palavra é uma lanterna para nossos pés, e luz, em todos os nossos caminhos, existem ainda muitas circunstâncias, em Seus desígnios, as quais estão acima de nossa compreensão. Nós não sabemos por que ele permitiu que nós seguíssemos, em nossos próprios caminhos, tanto tempo, antes de sermos convencidos do pecado. Ou, por que ele fez uso desse ou daquele instrumento, dessa ou daquela maneira. E, milhares de circunstâncias atenderam o processo de nossa convicção, a qual nós não compreendemos. Nós não sabemos por que ele permitiu que nós permanecêssemos, tanto tempo, antes que ele revelasse seu Filho em nossos corações; ou por que essa mudança, da escuridão para a luz, foi acompanhada com tais e tais circunstâncias particulares. 

4. Não há dúvida da prerrogativa peculiar de Deus para reter o "tempo e momento certo, em seu próprio poder". E nós não podemos dar razão alguma, por que, que de duas pessoas, sedentas por salvação, uma é presentemente levada, ao favor de Deus, e a outra é deixada pranteando, por meses ou anos. Por que, tão logo, uma clama a Deus, é respondida, e preenchida de paz e alegria, em acreditar; e a outra, que busca por ele, pelo que parece, com a mesma sinceridade e seriedade, ainda assim, não pode encontrá-lo, ou alguma consciência de seu favor, por semanas, meses, ou anos. Nós sabemos muito bem, que isso, possivelmente, não pode ser devido a algum grau absoluto, consignando, que, antes mesmo de ter nascido, uma pessoa seja conduzida para a glória, e a outra para o fogo eterno; mas nós não sabemos a razão para isso: É suficiente que Deus saiba! 

5. Há, igualmente, grande variedade, na maneira e tempo de Deus conceder sua graça santificada, por meio da qual, ele capacita seus filhos a dar a Ele todo seu coração, e do que, nós não podemos, de modo algum, prestar contas. Nós não sabemos por que ele a concede, sobre alguns, antes que eles peçam por ela (alguns exemplos inquestionáveis, do qual nós temos visto); sobre outros, alguns poucos dias depois que eles buscaram; e ainda permite que outros crentes esperem, por ela, talvez, vinte, trinta, ou quarenta anos; não, e outros, até poucas horas, ou mesmo minutos, antes que seus espíritos retornem a ele. Por causa das várias circunstâncias também, que atendem o cumprimento daquela grande promessa, "eu irei circuncidar teu coração, para amar o Senhor teu Deus, com todo o teu coração, e com toda a tua alma", Deus, indubitavelmente, tem razões; mas essas razões são geralmente ocultas dos filhos dos homens. Mais uma vez: alguns desses, que são capacitados para amar a Deus, com todo o coração deles, e com toda a sua alma, retém a mesma benção, sem interrupção alguma, até que sejam levados ao seio de Abraão; outros, não a retém, embora eles não estejam conscientes de que afligiram o Espírito Santo de Deus. Isso nós também não podemos entender: Nesse lugar, "nós não conhecemos a mente do Espírito". 

IV.

Diversas lições valiosas nós podemos aprender da consciência profunda de nossa própria ignorância. Primeiro, a lição da humildade; não "pensar, em nós mesmos"; particularmente, com respeito ao nosso entendimento, "maior, do que nós devíamos considerar"; mas "pensar, sobriamente"; estando, completamente, convencido de que não é suficiente, de nós mesmos, ter um pensamento bom; já que nós podemos estar sujeitos a tropeços, em cada passo, a errar, todo o momento de nossas vidas, não fosse o que nós temos, "a unção do Espírito Santo", que habita "conosco"; não fosse Ele que conhece o que há no homem, socorrer nossas enfermidades; e que "há um espírito, no homem, que traz sabedoria", e a inspiração do Espírito Santo que "traz entendimento". Disso, nós podemos aprender, em Segundo Lugar, a lição da fé, da confiança em Deus. A convicção plena de nossa própria ignorância nos ensina a confiar, completamente, em sua sabedoria. Pode nos ensinar (o que não é sempre tão fácil, como alguém poderia conceber) a confiar no Deus invisível, muito além, do que se nós pudéssemos vê-lo! O que pode nos assistir, no aprendizado dessa lição difícil, é "subjugar" nossa própria "imaginação" (ou melhor, raciocínio, como a palavra, propriamente, significa); "subjugar todas as coisas que o exalte contra o conhecimento de Deus, e traga para a escravidão todo pensamento de obediência a Cristo". Há, até o momento, duas grandes obstruções, na nossa formação de um julgamento correto dos desígnios de Deus, com respeito ao homem. O primeiro, é que existem fatos inumeráveis, relacionados a todos os homens, os quais não sabemos, ou podemos saber. Eles estão, no momento, oculto de nós, e escondidos de nossa busca, pela escuridão impenetrável.  O outro é que nós não podemos ver os pensamentos dos homens, mesmo quando nós conhecemos suas ações. Além do que, não conhecendo suas intenções; nós podemos apenas julgar, de maneira equivocada, as atitudes exteriores deles. Conscientes disso, "não julgar coisa alguma antes do tempo" concernente aos planos divinos Dele; até que Ele possa trazer para a luz "as coisas ocultas da escuridão", e manifeste "os pensamentos e intenções do coração". Da consciência de nossa própria ignorância, nós podemos aprender, em Terceiro Lugar, a lição da resignação. Nós podemos ser instruídos a dizer, todo o tempo, e em todas as instâncias, "Pai, não como eu desejo; mas como tu desejas". Essa é a última lição que nosso abençoado Senhor (como homem) aprendeu, enquanto ele estava na terra.  Ele não pode ir mais alto, do que, "Não como eu desejo, mas como tu desejas", até que ele curvou sua cabeça e liberou a alma. Deixe-nos também, proceder, em conformidade com sua morte, para que possamos conhecer completamente, o "poder de sua ressurreição!". 

As 95 Teses de Lutero


[Essas teses foram afixadas na porta da igreja do Castelo de Wittenberg a 1o de outubro de 1517. Era esse o modo usual de se anunciar uma disputa, instituição regular da vida universitária e não havia nada de dramático no ato. Lutero confiava receber o apoio do papa pelo fato de revelar os males do tráfico das indulgências.]
Uma disputa do Mestre Martinho Lutero, teólogo, para elucidação da virtude das indulgências.
Com um desejo ardente de trazer a verdade à luz, as seguintes teses serão defendidas em Wittenberg sob a presidência do Rev. Frei Martinho Lutero, Mestre de Artes, Mestre de Sagrada Teologia e Professor oficial da mesma. Ele, portanto, pede que todos os que não puderem estar presentes e disputar com ele verbalmente, o façam por escrito. Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.
1. Nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo em dizendo "Arrependei-vos, etc.), afirmava que toda a vida dos fiéis deve ser uma ato de arrependimento.
2. Essa declaração não pode ser entendida como o sacramento da penitência (i. e., confissão e absolvição) que é administrado pelo sacerdócio.
3. Contudo, não pretende falar unicamente de arrependimento interior; pelo contrário, o arrependimento interior é vão se não produz externamente diferentes espécies de mortificação da carne.
4. Assim, permanece a penitência enquanto permanece o ódio de si (i. e., verdadeira penitência interior), a saber, o caminho reto para entrar no reino dos céus.
5. O papa não tem o desejo nem o poder de perdoar quaisquer penas, exceto aquelas que ele impôs por sua própria vontade ou segundo a vontade dos cânones.
6. O papa não tem o poder de perdoar culpa a não ser declarando ou confirmando que ela foi perdoada por Deus; ou, certamente, perdoado os casos que lhe são reservados. Se ele deixasse de observar essas limitações a culpa permaneceria.
7. Deus não perdoa a culpa de ninguém sem sujeitá-lo à humilhação sob todos os aspectos perante o sacerdote, vigário de Deus.
8. Os cânones da penitência são impostas unicamente sobre os vivos e nada deveria ser imposta aos mortos segundo eles.
9. Por isto o Espírito Santo nos beneficia através do papa, mas sempre faz exceção de seus decretos no caso da iminência da morte e da necessidade.
10. Os sacerdotes que no caso de morte reservam penas canônicas para o purgatório agem ignorante e incorretamente.
11. Esta cizânia que se refere à mudança de penas canônicas em penas no purgatório certamente foi semeada enquanto os bispos dormiam.
12. As penitências canônicas eram impostas antigamente não depois da absolvição, mas antes dela, como prova de verdadeira contrição.
13. Os moribundos pagam todas as suas dívidas por meio de sua morte e já estão mortos para as leis dos cânones, estando livres de sua jurisdição.
14. Qualquer deficiência em saúde espiritual ou e amor por parte de um homem moribundo deve trazer consigo temor, e quanto maior for a deficiência maior deverá ser o temor.
15. Esse temor e esse terror bastam por si mesmos para produzir as penas do purgatório, sem qualquer outra coisa, pois estão pouco distante do terror do desespero.
16. Com efeito, a diferença entre Inferno, Purgatório e Céu parece ser a mesma que há entre desespero, quase-desespero e confiança.
17. Parece certo que para as almas do purgatório o amor cresce na proporção em que diminui o terror.
18. Não parece estar provado, quer por argumentos quer pelas Escrituras, que essas almas estão impedidas de ganhar méritos ou de aumentar o amor.
19. Nem parece estar provado que elas estão seguras e confiantes de sua bem-aventurança, ou, pelo menos, que todas o estejam, embora possamos estar seguros disso.
20. O papa pela remissão plenária de todas as penas não quer dizer a remissão de todas as penas em sentido absoluto, mas somente das que foram impostas por ele mesmo.
21. Por isto estão em erro os pregadores de indulgências que dizem ficar um homem livre de todas as penas mediante as indulgências do papa.
22. Pois para as almas do purgatório ele não perdoa penas a que estavam obrigadas a pagar nesta vida, segundo os cânones.
23. Se é possível conceder remissão completa das penas a alguém, é certo que somente pode ser concedida ao mais perfeito; isto quer dizer, a muito poucos.
24. Daí segue-se que a maior parte do povo está sendo enganada por essas promessas indiscriminadas e liberais de libertação das penas.
25. O mesmo poder sobre o purgatório que o papa possui em geral, é possuído pelo bispo e pároco de cada dioceses ou paróquia.
26. O papa faz bem em conceder remissão às almas não pelo poder das chaves (poder que ele não possui), mas através da intercessão.
27. Os que afirmam que uma alma voa diretamente para fora (do purgatório) quando uma moeda soa na caixa das coletas, estão pregando uma invenção humana (hominem praedicant).
28. É certo que quando uma moeda soa, cresce a ganância e a avareza; mas a intercessão (suffragium) da Igreja está unicamente na vontade de Deus.
29. Quem pode saber se todas as almas do purgatório desejam ser resgatadas? (Que se pense na história contada a respeito de São Severino e São Pascoal).
30. Ninguém está seguro na verdade de sua contrição; muito menos de que se seguirá a remissão plenária.
31. Um homem que verdadeiramente compra suas indulgências é tão raro como um verdadeiro penitente, isto é, muito raro.
32. Aqueles que se julgam seguros da salvação em razão de suas cartas de perdão serão condenados para sempre juntamente com seus mestres.
33. Devemos guardar-nos particularmente daqueles que afirmam que esses perdões do papa são o dom inestimável de Deus pelo qual o homem é reconciliado com Deus. 
34. Porque essas concessões de perdão só se aplicam às penitências da satisfação sacramental que foram estabelecidas pelos homens.
35. Os que ensinam que a contrição não é necessária para obter redenção ou indulgência, estão pregando doutrinas incompatíveis com o cristão.
36. Qualquer cristão que está verdadeiramente contrito tem remissão plenária tanto da pena como da culpa, que são suas dívidas, mesmo sem uma carta de perdão.
37. Qualquer cristão verdadeiro, vivo ou morto, participa de todos os benefícios de Cristo e da Igreja, que são dons de Deus, mesmo sem cartas de perdão.
38. Contudo, o perdão distribuído pelo papa não deve ser desprezado, pois – como disse – é uma declaração da remissão divina.
39. É muito difícil, mesmo para os teólogos mais sábios, dar ênfase na pregação pública simultaneamente ao benefício representado pelos indulgências e à necessidade da verdadeira contrição.
40. Verdadeira contrição exige penitência e a aceita com amor; mas o benefício das indulgências relaxa a penitência e produz ódio a ela. Tal é pelo menos sua tendência.
41. Os perdões apostólicos devem ser pregados com cuidado para que o povo não suponha que eles são mais importantes que outros atos de amor.
42. Deve ensinar-se aos cristãos que não é intenção do papa que se considera a compra dos perdões em pé de igualdade com as obras de misericórdia.
43. Deve ensinar-se aos cristãos que dar aos pobres ou emprestar aos necessitados é melhor obra que comprar perdões.
44. Por causa das obras do amor o amor é aumentado e o homem progride no bem; enquanto que pelos perdões não há progresso na bondade mas simplesmente maior liberdade de penas.
45. Deve ensinar-se aos cristãos que um homem que vê um irmão em necessidade e passa a seu lado para dar o seu dinheiro na compra dos perdões, merece não a indulgência do papa, mas a indignação de Deus.
46. Deve ensinar-se aos cristãos que a não ser que haja grande abundância de bens – são obrigados a guardar o que é necessário para seus próprios lares e de modo algum gastar seus bens na compra de perdões.
47. Deve ensinar-se aos cristãos que a compra de perdões é matéria de livre escolha e não de mandamento.
48. Deve ensinar-se aos cristãos que, ao conceder perdões, o papa tem mais desejo (como tem mais necessidade) de oração devota em seu favor do que de dinheiro contado.
49. Deve ensinar-se aos cristãos que os perdões do papa são úteis se não se põe confiança neles, mas que são enormemente prejudiciais quando por causa deles se perde o temor de Deus.
50. Deve ensinar-se aos cristãos que, se o papa conhecesse as exações praticadas pelos pregadores de indulgências, ele preferiria que a basílica de São Pedro fosse reduzida a cinzas a construí-la com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.
51. Deve ensinar-se aos cristãos que o papa – como é de seu dever – desejaria dar os seus próprios bens aos pobres homens de quem certos vendedores de perdões extorquem o dinheiro; que para este fim ele venderia – se fosse possível – a basílica de São Pedro.
52. Confiança na salvação por causa de cartas de perdões é vã, mesmo que o comissário, e até mesmo o próprio papa, empenhasse sua alma como garantia.
53. São inimigos de Cristo e do povo os que em razão da pregação das indulgências exigiam que a palavra de Deus seja silenciada em outras igrejas.
54. Comete-se uma injustiça para com a palavra de Deus se no mesmo sermão se concede tempo igual, ou mais longo, às indulgências do que a palavra de Deus.
55. A intenção do papa deve ser esta: se a concessão dos perdões – que é matéria de pouca importância – é celebrada pelo toque de um sino, como uma procissão e com uma cerimônia, então o Evangelho – que é a coisa mais importante – deve ser pregado com o acompanhamento de cem sinos, de cem procissões e de cem cerimônias.
56. Os tesouros da Igreja – de onde o papa tira as indulgências – não estão suficientemente esclarecidos nem conhecidos entre o povo de Cristo.
57. É pelo menos claro que não são tesouros temporais, porque não estão amplamente espalhados mas somente colecionados pelos numerosos vendedores de indulgências.
58. Nem são os méritos de Cristo ou dos santos, porque esses, sem o auxílio do papa, operam a graça do homem interior e a crucificação, morte e descida ao inferno do homem exterior.
59. São Lourenço disse que os pobres são os tesouros da Igreja, mas falando assim estava usando a linguagem de seu tempo.
60. Sem violências dizemos que as chaves da Igreja, dadas por mérito de Cristo, são esses tesouros.
61. Porque é claro que para a remissão das penas e a absolvição de casos (especiais) é suficiente o poder do papa.
62. O verdadeiro tesouro da Igreja é o sacrossento Evangelho da glória e da graça de Deus.
63. Mas este é merecidamente o mais odiado, visto que torna o primeiro último.
64. Por outro lado, os tesouros das indulgências são merecidamente muito populares, visto que fazem do último primeiro
65. Assim os tesouros do Evangelho são redes com que desde a Antigüidade se pescam homens de bens.
66. Os tesouros das indulgências são redes com que agora se pescam os bens dos homens.
67. As indulgências, conforme declarações dos que as pregam, são as maiores graças; mas "maiores" se deve entender como rendas que produzem.
68. Com efeito, são de pequeno valor quando comparadas com a graça de Deus e a piedade da cruz.
69. Bispos e párocos são obrigados a admitir os comissários dos perdões apostólicos com toda a reverência.
70. Mas estão mais obrigados a aplicar seus olhos e ouvidos à tarefa de tornar seguro que não pregam as invenções de sua própria imaginação em vez de comissão do papa.
71. Se qualquer um falar contra a verdade dos perdões apostólicos que sejam anátema e amaldiçoado.
72. Mas bem-aventurado é aquele que luta contra a dissoluta e desordenada pregação dos vencedores de perdões.
73. Assim como o papa justamente investe contra aqueles que de qualquer modo agem em detrimento do negócio dos perdões.
74. Tanto mais é sua intenção investir contra aqueles que, sob o pretexto dos perdões, agem em detrimento do santo amor e verdade.
75. Afirmar que os perdões papais têm tanto poder que podem absolver mesmo um homem que  para aduzir uma coisa impossível tivesse violado a mão de Deus, é delirar como um lunático.
76. Dizemos ao contrário, que os perdões papais não podem tirar o menor dos pecados veniais no que tange à culpa.
77. Dizer que nem mesmo São Pedro e o papa, não podia dar graças maiores, é uma blasfêmia contra São Pedro e o papa.
78. Dizemos contra isto que qualquer papa, mesmo São Pedro, tem maiores graças que essas, a saber, o Evangelho, as virtudes, as graças da administração (ou da cura), etc. como em 1 Co 12.
79. É blasfêmia dizer que a cruz adornada com as armas papais tem os mesmos efeitos que a cruz de Cristo.
80. Bispos, párocos e teólogos que permitem que tal doutrina seja pregada ao povo deverão prestar contas.
81. Essa licenciosa pregação dos perdões torna difícil, mesmo a pessoas estudadas, defender a honra do papa contra a calúnia, ou pelo menos contra as perguntas capciosas dos leigos.
82. Esses perguntam: Por que o papa não esvazia o purgatório por um santíssimo ato de amor e das grandes necessidades das almas; isto não seria a mais justa das causas visto que ele resgata um número infinito de almas por causa do sórdido dinheiro dado para a edificação de uma basílica que é uma causa bem trivial?
83. Por que continuam os réquiens e os aniversários dos defuntos e ele não restitui os benefícios feitos em seu favor, ou deixa que sejam restituídos, visto que é coisa errada orar pelos redimidos?
84. Que misericórdia de Deus e do papa é essa de conceder a uma pessoa ímpia e hostil a certeza, por pagamento de dinheiro, de uma alma pia em amizade com Deus, enquanto não resgata por amor espontâneo uma alma que é pia e amada, estando ela em necessidade?
85. Os cânones penitenciais foram revogados de há muito e estão mortos de fato e por desuso. Por que então ainda se concedem dispensas deles por meio de indulgências em troca de dinheiro, como se ainda estivesse em plena força?
86. As riquezas do papa hoje em dia excedem muito às dos mais ricos Crassos; não pode ele então construir uma basílica de São Pedro com seu próprio dinheiro, em vez de fazê-lo com o dinheiro dos fiéis?
87. O que o papa perdoa ou dispensa àqueles que pela perfeita contradição têm direito à remissão e dispensa plenária?
88. Não receberia a Igreja um bem muito maior se o papa fizesse cem vezes por dia o que agora faz uma única vez, isto é, distribuir essas remissões e dispensas a cada um dos fiéis?
89. Se o papa busca pelos seus perdões antes a salvação das almas do que dinheiro, por que suspende ele cartas e perdões anteriormente concedidos, visto que são igualmente eficazes?
90. Abafar esses estudos argumentos dos fiéis apelando simplesmente para a autoridade papal em vez de esclarecê-los mediante uma resposta racional, é expor a Igreja e o papa ao ridículo dos inimigos e tornar os cristãos infelizes.
91. Se os perdões fossem pregados segundo o espírito e a intenção do papa seria fácil resolver todas essas questões; antes, nem surgiriam.
92. Portanto, que se retirem todos os profetas que dizem ao povo de Cristo: "paz, paz", e não há paz.
93. E adeus a todos os profetas que dizem ao povo de Cristo: "a cruz, a cruz", e não há cruz.
94. Os cristãos devem ser exortados a esforçar-se em seguir a Cristo, sua cabeça, através de sofrimentos, mortes e infernos.
95. E que eles confiem entrar no céu antes passando por muitas tribulações do que por meio da confiança da paz.

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2 de março de 2013
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