Setor Tradicional, São Sebastião, 7 de março de 2017

Na terça feira, como havia sido acordado, realizei a visita ao Setor Tradicional de São Sebastião. Dra Daniela, preceptora que aceitou nos receber na Unidade Básica de Saúde, precisou se ausentar na data por motivos de saúde. Ainda assim pude observar o funcionamento da unidade.
Nas terças atendimento é direcionado ao acompanhamento de recém nascidos. Observei a intimidade com que a atendente, enfermeira e a agente de saúde se dirigem aos usuários e considero positiva essa relação. Notei também que há poucos metros da Unidade se encontra um ponto de ônibus, o que facilita o acesso a ela. Outro fator que facilita o acesso é o fato de a Unidade de Saúde de encontrar em uma região privilegiada no centro do Setor Tradicional (em uma das vias que dá acesso à Avenida Comercial, a principal da micro região)
Como combinado, acompanhei a Agente de Saúde nas visitas. Por hora, ainda não foi possível obter um grande conhecimento a respeito do território, uma vez que não nos afastamos muito da Avenida Comercial. As visitas tinham como objetivo o recadastramento dos usuários aos moldes das novas recomendações da Secretaria de Saúde do Distrito Federal. A proximidade da Agente Comunitária com a população ficou evidente em diversas situações. Quase todas as visitas me pareceram conversas de vizinhos ou amigos próximos. Apesar disso, muitos se negaram a fazer o recadastramento.
Com uma análise rasa, é possível identificar que se trata de uma população predominantemente jovem. Um aspecto importante é que, apesar de se identificarem como pardos, a grande maioria dos entrevistados é composta por pessoas negras. Além disso, o estranhamento dos indivíduos ao serem interpelados a respeito da orientação sexual demonstra a pouca tolerância aos padrões que fogem da heteronormatividade.


Visita a UBS do Itapoã no dia 10 de março de 2017, me deixou numa expectativa e me gerou uma verdadeira reflexão sobre minha identidade e meu papel de médico na sociedade, moro há um tempinho no plano piloto e estava muito acomodado em um meio tão diferente daquela realidade que estava acostumado no sertão, aquela saudade do verdadeiro calor humano. Peguei um ônibus sem medo e com vontade de desbravar uma Brasília que desconhecia, como de uma população em sua maioria periférica carente de recursos e oportunidades, com essa impressão fui em direção a Unidade Básica de Saúde na qual pude observar muitas coisas. Uma delas é a integração de diversos profissionais que fazem acontecer com tão pouco no que se refere a estrutura e equipamentos. Cheguei com vontade mais ao mesmo tempo me senti despreparado e percebi que tenho que ler mais atentamente sobre ESF e sobre UBS para entender a dinâmica do sistema, o Estevão é meu preceptor me recebeu muito bem, um profissional de ótima qualidade em pouco tempo pude perceber sua seriedade no trabalho e dedicação para ajudar a população através das organizações de dados dos pacientes que achei muito interessante mesmo não entendendo muita coisa, conversamos um pouco e ele me passou uma tarefa no computador para fazer um breve resumo de cuidados necessários para evitar quedas em idosos, já que a minha linha de cuidado é sobre envelhecimento e fiz em formas de tópicos para facilitar o entendimento do leitor. Logo após o termino do trabalho chamado de pré-estruturado fragilidade do idoso segui em direção a sala do médico para que possamos conversar sobre o projeto, ele me perguntou algumas informações como; quantas horas eu teria que passar por lá, duração do projeto e entre outras coisas. Estou muito perdido sobre a minha função naquela unidade básica de saúde, eu achava que o médico já tinha algo mais programado sobre o meu eixo. Como foi o primeiro encontro até compreendo que vamos fazendo ao longo das necessidades. No mais foi muito empolgante está ali naquele meio de poder sentir um pouco da realidade que pretendo ter após a minha formação. Estou feliz pela possível bagagem de aprendizado que vou poder tirar dessa experiência e poder participar positivamente no projeto que visa melhoria e qualidade de vida das pessoas.

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Visitas Domiciliares no Lamarão - 23/02/2016

Hoje estava programado que eu e a Lígia fossemos à UBS do PAD-DF acompanhar a médica Marina nas visitas domiciliares. Conciliar as atividades do PET com o internato não está sendo fácil, estava desde cedo no hospital, saí quando pude e não deu tempo de almoçar. O internato gera uma carga estresse tão grande que pedi para trocar a unidade e fazer as práticas do PET em uma mais próxima, a fim de que pudesse conciliar 3 refeições diárias, PET e internato, no entanto nosso coordenador disse não ser possível. Tudo bem, pensei, mudar o cenário de prática da UnB para a região leste é um projeto que eu levo a sério o suficiente então vou enfrentar as adversidades. Em um passado não tão distante ficar sem almoço não era um empecilho dos piores.
Não seria a primeira visita. Havíamos ido semana passada junto ao Ximenes (o coordenador do projeto) para conhecermos a equipe. A região do PAD- DF + Lamarão se trata de um grande território, no entanto pouco povoada. É a região de grandes fazendeiros do DF, incluindo a “Fazenda Malunga”, fazenda de produtos orgânicos do Joe Valle (deputado distrital), o qual já promoveu reformas na UBS e dizem que ajuda muito a comunidade. A própria médica da equipe tem fazenda na região, e comentou sobre os “aviõezinhos de agrotóxico” que passam por lá. Admito que isso me deixou com uma certa desconfiança e influenciou para querer trocar de campo de prática.
Após este extenso epílogo de contras, chegamos lá e fomos encontrar a médica Marina e o agente de saúde Gilberto no centro comunitário do Lamarão, para fazermos as visitas domiciliares da região. A UBS fica no PAD-DF, e a médica com a enfermeira Glória se dividem entre as duas comunidades, de maneira que pelo menos três dias da semana a comunidade do Lamarão tenha cobertura dos serviços de saúde. Foi um dia atípico pois a Marina estava enferma (e de novo pensei sobre a questão de promover saúde estando doente), portanto as visitas foram mais curtas que o usual.
Visitamos primeiro a casa da Dona Roberta e do Seu Amadeu. Dona Roberta havia tido um resultado alterado no exame preventivo para câncer de colo de útero, e a equipe marcou uma consulta na referência secundária, que é o Hospital do Paranoá. A equipe fica com o papel de agendar as consultas pelo seguinte motivo: há não muito tempo, o Lamarão era região administrativa de Planaltina. Lá existe apenas uma opção de transporte público, que é um ônibus que sai às 7h para Planaltina e retorna por volta das 17h de Planaltina para o Lamarão. Essa falta de transporte (ou o cerceamento do direito de ir e vir) é comum em regiões rurais do DF. Quando a referência era Planaltina, não havia problema para que fossem até lá marcar suas consultas e exames. Depois que passou a ser região do Paranoá, tornou-se um grande estorvo. A única maneira de ir ao Paranoá, para os que não tem carro, é pagando para aqueles que fazem este transporte, e eles cobram o valor de 120 reais para levá-los ao paranoá, 50 para a UBS de PAD-DF e 150 para os hospitais do plano piloto. Portanto, a fim de minimizar os danos, a equipe se organiza de maneira que a população não perca tempo e dinheiro com burocracia e precise ir apenas no dia da consulta ou exame. Glória tem um dia específico para ir ao Paranoá fazer agendamentos.
Já Seu Amadeu, marido de Dona Roberta, entrou em um quadro depressivo progressivo, que resultou em um surto psicótico. Hoje ele consegue realizar algumas de suas atividades diárias no roçado, porém não é o mesmo. Não permite abraços nem que encostem nele. O que me chamou atenção, por outro lado, foi a relação que tinha com a Marina (não a chamava de doutora, tratava-a como uma amiga). Ele confiava nela, e a todo momento pedia alguma coisa, como, por exemplo, dinheiro para tratar dos filhos. Os filhos na realidade não estavam doentes, mas a família toda entendia o quadro e provia suporte e apoio para seu Amadeu (pelo menos à primeira vista).
Depois visitamos Dona Selma e Dona Lucilia. Foram visitas rápidas, para convidá-las ao grupo de idosos, que acontece 1 quarta-feira por mês, e a próxima será semana que vem. Este grupo organiza, entre outras atividades, rifas para promover eventos como jantares, festas, idas à fazendas de ecoturismo e um almoço no Mangai (próxima atividade programada). Também foram resolvidas algumas pendências, como marcar a consulta de Dona Selma para que ela pegasse seu remédio para asma. No caminho, Marina nos contou um pouco sobre o perfil da população do Lamarão. São 415 famílias cadastradas, e eles estimam que sejam 500 moradores. O déficit no cadastramento se dá ao fato da grande rotatividade de trabalhadores na fazenda Malunga, “nordestinos que passam pouco tempo lá trabalhando”, segundo a equipe. Vimos estes trabalhadores, todos uniformizados, durante o trajeto, e moram em casebres alugados nas chácaras da região ou no vilarejo. Ela também nos contou, e este foi um fato que me chamou atenção, sobre mais dois ou três casos de pessoas com transtornos psíquicos graves que vivem por ali.
Acabaram as visitas, Marina teve que ir embora, portanto ficamos conversando com Gilberto. Gilberto é morador da região e ACS há 12 anos. Perguntamos sobre as dificuldades da equipe de saúde da região, e ele nos disse que os hipertensos (36 no total) eram os casos mais difíceis. Ele não pode aferir pressão, apenas técnicas, enfermeiras e médicas o podem. Portanto, o único momento de aferir pressão é durante o grupo de hipertensos. O problema é que as pessoas só vão ao grupo quando precisam renovar a receita de seus anti-hipertensivos, logo, ficam sem controle pressórico por muito tempo. Perguntamos sobre os casos psiquiátricos, e ele disse não ser algo alarmante e sim esporádico. Ele também negou quando perguntamos se havia muitos casos de violência doméstica. Também o questionamos sobre líderes ou lideranças comunitárias, e ele nos disse haver o presidente da associação de moradores rurais, Daniel, que mantém o centro comunitário e garante alguns benefícios para a população. Afora o Daniel, disse que o marido de Marina é também alguém de referência na região, por trabalhar na Emater e ajudar a resolver muitos perrengues dos conterrâneos, e agora a própria Marina o é.
Por fim, vale ressaltar um detalhe: os atendimentos só são realizados no Lamarão caso a comunidade se organize para limpá-lo. Existe um calendário de limpeza na porta do centro comunitário. A equipe reclamou do comodismo da comunidade, que muitas vezes não cumpre a rotina de limpeza. Hoje, por exemplo, esta não estava em dia. Portanto, a médica fez os atendimentos da comunidade do Lamarão na UBS do PAD-DF (lembrando que é cobrado 50 reais para o transporte).
Acredito que tenha sido um dia proveitoso para o projeto. Conseguimos identificar alguns pontos em que poderemos fazer a proposta de intervenção e foi possível já ter uma idéia de como é a dinâmica populacional. Gostei muito da relação da Marina com as pessoas e a com a região (afinal, ela mora lá) e da proposta do grupo de idosos. A equipe aparenta ser bastante dedicada, e não é o ambiente estressante e adoecedor do hospital. Fiquei, no fim das contas, com boas expectativas e empolgada com o projeto.

Anexo algumas fotos do dia de hoje, retratando o caminho até lá, o centro comunitário do lamarão e Gilberto no consultório improvisado do centro.
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23/02/2017
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