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Palavras Insones
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A alegria é urgente como a vida é breve.
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Ando fazendo tudo
Lembrando de todos
Me esquecendo aos poucos
E desaparecendo no fundo.

Ando esquecendo as palavras
Seus conceitos e significados
Suas versões e emaranhados
Ando me esquecendo do básico.

Ando a correr
Contra o relógio
Contra o sol
Contra a chuva
Contra o vento
Contra a lua
Contra a luz
E tenho sido derrotado.

Tenho caminhado em trilhas ao esvaecimento
Mortificando os meus pensamentos
Pulverizando os meus verdadeiros desejos
Desfalecendo meus limites
Me afundando em meu próprio desespero.

Tenho andado a carregar
Sombras de um passado remoto
Pesadelos de uma criança atormentada
Fantasmas de um adolescente invisível
Arrastando uma identidade em esmorecimento.

Tenho me sufocado
Suportando tudo em um silêncio petrificado
E para o meu próprio descaso:
Tenho guardado tudo dentro do peito
Ficando sempre calado.

Tenho respeitado as etiquetas
Jamais extrapolando os prazos
Sorrindo sempre que solicitado
Abraçando sempre que me convencem
Me matando sempre que me pedem.

Sob a ditadura do mutismo que o acordo de paz social prega para mantermos a falsa paz que alimenta o caos,
Eu travo uma guerra aqui dentro.

Tenho salvado o mundo do precipício
Me jogando ao abismo que todos o condenaram
Tenho me arriscado ao ponto de sangrar sem ver
E no fim do dia
Tenho ficado acordado.

Os pensamentos estão agitados
O coração acelera
O calafrio sobe
O suor do medo me assalta
E tudo que acredito me desespera.

Tenho me sentido vazio
Sem alguém na sala de espera.

Tenho guardado afetos em segredo
Fotografado abraços com receio de me recordar
De que tudo não passou de um sonho falsamente verdadeiro.

Tenho encontrado pedras no caminho
E jogando-as ao mar
Mas o mar revolto devolve tudo com o passar do tempo
E tudo que plantamos no ar, no fogo, na água e na terra
Vem com juros mortais a cobrar.

A alma é uma eterna dívida da existência.

Tenho sido obediente e tenho garantido os próximos passos
Rumo a que lugar?
Se eu asfixio os meus sentimentos:
Onde estarei quando tudo estiver escuro e ninguém aparecer para me salvar?

O caminho pareceu-me escuro
E os demônios riem enquanto os anjos choram
Os policiais sobem os morros para o trauma das crianças
Os jovens se perdem nas balas que o acertam
Não foi bala perdida
Foi bala assertiva
No crânio
No peito
No espírito doente de direitos da favela.

Tenho sustentado a imagem que querem
Para um espetáculo em que só eu não apareço
Onde a plateia ri de mim e de todos os meus sucessos
E apontando-me os dedos que me sangram por inteiro, dizem alegres:
Só está ali porque nós o colocamos
É um pobre rapaz temendo o fracasso de onde veio.

Tenho estado desencantado
Estou sempre rodeado de máscaras
Que só fortalecem os meus medos primários
Futuro, presente e passado
Se confundem confundindo-me a consciência
Não sei se sou o que sou ou aquilo que restou
De um menino sempre quieto num canto da sala
Sempre assustado.

Tenho andado contra a escuridão
Sustentado a luz que me cega
Sendo digerido pelo tempo que me engole
Então vou fazendo promoção da minha voz
Do meu fôlego
Etiquetando minha alma em oferta imperdível
E assim vou perdendo o meu próprio rosto neste grande e arquitetado assalto.

Sei que fujo do meu passado
E no presente faço-me itinerante
No futuro espero esquecer o presente
E ri de tudo que me marcou e marcaram os meus antepassados.

Ando implodindo em vez de gritar todo esse descaso
Em dias tão líquidos
Tenho me segurado em ilusões presas em fios invisíveis de nylon
E me corto
E me desfaço.

Tenho sido sugado
Capturado em minha própria insegurança
Tenho somado todos os meus casos
E descoberto a fragilidade dos humanos contatos
Da superficialidade dos protocolos
Do falso acordo tácito civilizatório em nome do nosso triunfoso e coletivo fracasso.

Tenho desrespeitado os meus limites
Me rastejando por centavos
Sendo humilhado para não ser tão mais humilhado
Assim me esquecer de quem fui
E não ser mais refém dos pesadelos que alimentei
E que me prenderam ao meu próprio descaso.

Viver é pesado
Respirar é caro
Suportar é difícil
Sobreviver não é fácil.

Se arrepender é para os derrotados?

Eu preciso voltar ao início
E me dar um abraço
Quem sabe eu me encontro por aí perdido tentando me reencontrar em algum tempo isolado deste infinito e tortuoso espaço?
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Tenho em mim, desejos e necessidade de me curar do que sinto escrevendo tentando descrever o que realmente sinto. Sei que jamais me curarei, mas expulsarei de mim por alguns minutos essas sensações que parecem esmagar meu peito entorpecendo a mente, colidindo a alma a um meteoro. Porque há um tempo para explodir, como há o tempo de se submeter, ceder, se entregar e depois se embravecer, insultar, gritar, chorar esperando o tempo mágico para esquecer.

Sabendo que um fotógrafo jamais capturará a tristeza de uma pessoa em situação miserável e um cantor jamais conseguirá cantar aos quatro ventos e tons suas dores e desesperos, eu sigo na tentativa de acalmar estes pensamentos que insistem em pesar-me a consciência de maneira fúnebre.
Assim como um pintor que pinta sua dor ao ver a dor dele retratada em um rosto de qualquer desconhecido, o mundo dos que sentem demais segue nesse constante conflito de se isolar por sentirem as mortes que há no mundo, acarretando suas várias mortes internas, há o desejo de se reencontrar na dor do outro, se identificar, de não se sentir só num mundo onde a indiferença e a apatia são valores em uma sociedade carente de compaixão e empatia.

Assim como um ator tenta fugir de si mesmo a cada encenação, tentamos fugir da morte viva do dia a dia, da angústia tão presente na madrugada dos que olham da janela de seus quartos as ações mais bizarras e animalescas desses animais ferozes sedentos por morte e violência. Álcool, sexo compulsivo, drogas de topos os tipos são remédios para nos aliviar da depressão que é encontrar nada dentro do vazio depois de ter acreditado que o produto comprado a prazo não serve nem para o primeiro instante: estamos desesperados.

Assim como uma bailarina parece flutuar no palco, os calos e dores nos pés vêm com o tempo cobrar-lhe o descanso e o choro contido durante todo o tempo não se reprimirá. Há tempo para sorrir das vitórias e há tempo para chorar do preço que a vitória que nos trouxe. Há tempo para agir e depois para pensar. E nesse intervalo a dor é a única verdade a se calar, já que a verdade que existe dentro de nós incomoda, é impertinente e intransigente. Há tempo para celebrar a saúde, as amizades e os amores e há o tempo de se despedir dos amores que não deram certo, dos amigos que foram sem poderem mais voltar, da boa saúde dos pais, enfim, da tragédia que sempre nos espera em tempos sombrios. E há o tempo do frio sempre que há muito calor.

Tento escrever para não morrer de dor. Tento descrever aquilo que jamais conseguirei descrever, pois no ato de descrever me sinto tomado pelas palavras e ela me tomam por completo: me seduzem, me arrastam ao destino que lhes convencem. Assim como é ilusório acreditar que somos potentes quando discursamos, a linguagem é potente, nós somos só os agentes que muitas vezes se sentem espectadores do nosso próprio horror cultural mascarado por um título de espécie que se autodestrói de tempos em tempos, se é que já houve alguma pausa.
Tento me libertar, porque escrever é uma técnica e uma necessidade de se livrar. Pensamentos se casam, se divorciam, emoções se completam e se divergem, sensações se mesclam e se confundem tudo ao mesmo tempo. Na escrita tudo entra em jogo e em cena: o pessoal e o impessoal, o íntimo e o público, mas escrevendo sabemos que o pessoal e o íntimo fazem parte do público como o impessoal jamais será impessoal e tudo isso fazem parte do campo político das nossas relações. O ódio se mostra ressentido, o amor se revela egoísta e infantil, o desejo político de muitos se revelam desejos mesquinhos para alimentarem o próprio ego miserável de admiração própria e os discursos se mostram quase sempre cínicos quando não tão desumanos e demonizadores.

A escrita liberta enquanto nos revela o que está por detrás das cortinas da encenação diária diante do espetáculo que se tornou toda a vida íntima ou privada e a pública. O consciente ou inconsciente literário se revela nefasto, esclarecedor ou assombroso. E diante de uma sociedade fissurada por uma estética e uma política que nos entorpece, nos resta submeter às verdades das palavras, que podem ser verdades de várias outras pessoas quando somente um escreve. A escrita desnuda nosso caráter, mas para enganar a própria fluidez da escrita, alguém que queira distorcer sua força, torna-se capaz de compreender a perversidade daqueles que um dia lutaram e agora estão ao lado dos inimigos e dos carrascos que gozam ainda dos fantasmas do histórico passado.

A escrita é violentada por aqueles que através das palavras querem divulgar, publicitar e propagar suas mentiras. Mas há o que resistem e pagam o preço por amarem esta arte capaz de nos tornar menos humanos como estes humanos e sim espíritos livres das amarras e das marcas das opressões que sempre voltam para nos assombrar e nos perseguir com armas e censura. A escrita não nos torna humano em dias como estes, mas sim nos torna almas capazes de vislumbrar um mundo onde ainda seja possível amar sem trauma, vencer sem ter medo de ser derrotado, abraçar sem esperar outro abraço e amar como se nunca tivesse amado.

A escrita pode nos levar de volta àquela criança que abandonamos em meio ao caminho obscuro e gélido e resgatá-la dos maus tratos que a racionalidade tecnicista impõe em detrimento da criatividade e da emancipação dos afetos. Por isso a escrita subverte, corrompe o status quo da intelectualidade gourmetizada, vendida a centavos por um estilo meramente publicitário de mercado, cuja função é assaltar o pensamento crítico e reflexivo de uma sociedade cada vez mais carente de reflexão e empatia.
A escrita pode ser a nossa luz atual nessa escuridão tão em voga em nossos dias.

Elias Lima
Vitória, ES.
16 de Julho de 2017.
Fotografia: Christian Hopkins
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Em dias como este
Meus olhos parecem acordar de um sonho melancolicamente pesado
Minha visão é o que me pesa
ou serão todos estes sentimentos sem tábua de salvação?

Em dias como este
Dou pequenos passos em direção ao banheiro
Me pergunto se não são passos para o abismo que nos engole diariamente
Sob a ordem da rotina que nos massacra subjetivamente
nos tornando seres escravos de nossa própria burrice?

Em dias como este
Ouço músicas que mais esmagam minhas fracas esperanças
rumo à glória obscura de nossos dias cinzentos
sob um sol que não dá mais conta de iluminar sonhos que mudem algo no mundo.

Em dias como este
Repouso sobre a morte que está ao meu lado
Descanso em seus braços
Ouço o sussurro do vento lamuriar em meus ouvidos:
desista, não há nada aqui para se esperar.

Em dias como este
Ponho-me a sonhar sonhos ridículos,
Estúpido para qualquer ser realista conformado com a realidade pós-modernista
Ponho-me a romancear o fracasso da língua
Da tentativa eminentemente vazia de se comunicar com alguma razão eficiente.

Em dias como este,
A linguagem é mais sensível à noite
Ao sentir o frio, a dor, o gelo de estar só
A loucura de ser negligenciado
por aqueles que te inseriram neste mundo inóspito
neste mundo decadente de amor próprio e amor ao próximo.

Em dias como este,
Ponho-me a escrever como quem cura o que sente
Mesmo sabendo que nada que eu disser fará este mundo diferente.
A língua perdeu espaço para as imagens
As palavras perderam o sentido por falta de estrutura emocional
Sintaxemente empobrecidos, vamos seguindo semanticamente perdidos.

Em dias como este
Sonho acordado realizando tudo que desejo
Mesmo sentindo a opressão do medo
Daquele medo patriarcal que nos mutila por dentro e por inteiro.

Em dias como este,
Já não mergulho no mar da morte a fim de desaparecer
Nem me deixo levar pelas correntezas de Tanatos que sempre me deseja ver esmorecer.

Em dias como este,
Eu já não fecho os olhos para sentir o tempo esvanecer
Eu encaro o suicídio de existir sem medo
E abraço o descaso
que me conta os seus causos
numa realidade cheia de imensos braços a nos engolir
em todos os espaços.

Cada movimento por aqui é medido conforme o capital que se tem para prosseguir.
Quem nada tem é convidado a se retirar
É sutilmente encaminhado a saída de emergência:
vergonha, desmérito e fracasso.

A humilhação é naturalizada por todos os lados.
Segue regida naturalmente pelo ódio cultivado entre todos nós através dos tempos.

Em dias como este,
Sinto a água quente percorrer o meu rosto
Me aquecendo do frio intermitente
desta hóspede intransigente chamada desespero.

Em dias como este,
O meu eu tenta relutar, tenta levantar mesmo sentindo as quedas narcísicas
deixadas pela a marca inevitável da passagem do tempo.

Então concluo que em dias como este,
É melhor escrever do que se matar.
Pois no ato de escrever, me mato
Tento atacar o mundo em sua ilusão pateticamente capitalista
Tento acertar minhas pedras em direção ao platonismo mercadológico
E assim expulsar com as minhas gotas de tintas em papel
todas as sombras que insistem me pesar.

E assim, me arrasto até cansar
Dou bom dia, boa tarde e boa noite
Cumprimente fortemente, sorrio nas fotos sempre.
Pois em dias como estes,
Não há escapatória para os rebeldes da linguagem
Senão se curvar e fazer da palavra
O seu único instrumento de poder.

https://eliaslimaescritor.wordpress.com/2017/04/25/a-palavra-como-poder-em-dias-como-este/

A palavra como poder (Em dias como este)
A palavra como poder (Em dias como este)
eliaslimaescritor.wordpress.com
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Hoje eu acordei como um cadáver em seu próprio pesadelo. O mundo não passa de um grande caixão a abrigar seus mortos aos montes infinitamente.
De forma lenta e progressiva, somos soterrados, enterrados vivos enquanto marchamos funebremente rumo a lugar algum. Seguimos acreditando em promessas que não se sustentam sem a nossa covardia diária e demasiadamente humana que nos impede de olharmos para a grande górgona de frente.

Com medo de enfrentá-la e voltarmos petrificados, vamos sucumbindo os nossos maiores monstros enquanto tentamos entender tudo com os olhos de uma criança egoísta e pirracenta.
Assim vamos fazendo do fluxo da vida o grande corredor da nossa iminente morte subjetiva.
Assim nos unimos como um grande coletivo sem identidade e como vermes parasitas interiormente, vamos nos enganando neste teatro decadente da cultura e da linguagem.

Sem um rosto próprio, sem uma voz real, sem um pensamento autônomo e sem olhos para enxergar a grande verdade estampada na nossa cara: somos masoquistas a comprar chicotes para o auto-flagelo de nossas existências.

A boiada segue confiante em suas ilusões materialistas, metafísicas, plásticas, embaladas rapidamente de acordo com o desespero do personagem de cada um. E a qualquer tempestade mais forte, nossos balões de crenças e fés utilitaristas compradas parceladamente no cartão estouram para o nosso espanto e pavor.

Neste momento, nada nos salva.
A mansão, a esposa mais bonita, o marido mais bem sucedido e o lustre caríssimo na sala de estar não conterão a desilusão escorrendo líquida e amargamente contra a nosso ego erguido a custa da crença neste castelo de cartas que se transformou a nossa vida privada. E como uma bela maquiagem que sustenta a farsa coletiva cuja ordem que nos rege é a ordem do cinismo, a nossa sagrada vaidade se mostra ineficaz, improdutiva e estéril afetivamente. E sujando todo o rosto, borrando toda a travestilização cultural e ditatorial em que nos submetemos para sobreviver, nos vemos num barco solitário em meio as ondas turbulentas de uma Ilha escura cuja função é devolver a nós o que é nosso de fato: excesso de lixo acumulado espiritualmente. E diante do reflexo que nós odiamos por não esconder nada do que realmente somos: animais miseráveis em busca de um sentido para as suas angústias, nos apavoramos e então nos decepcionamos com o nosso eu romântico e nos envergonhamos com o que somos capazes de fazer para nos escondermos daquilo que é inerente a condição de estar no mundo enquanto animal e ser de linguagem.

Caminhamos asfixiados cotidianamente enquanto somos regidos por diretores que lançam o roteiro, os dramas, os personagens a serem encenados publicamente, enquanto escrevem as nossas falas, os nossos pensamentos e ditam quem vai morrer e quando e onde neste grande espetáculo que se tornou a vida pública e privada. E obedecemos como boas ovelhas no pasto . Não questionamos, pois os diretores estão em todos os lugares: em nossas casas, na tevê, nos anúncios das revistas, nos conteúdos dos jornais, nas imagens das telas na qual somos devotos contemporaneamente. E quando menos esperamos, o muro que construímos para nos blindar da dor de existir, se quebra. E de cacos em cacos vamos nos colando, unindo peças do nosso infindável quebra-cabeça, tentando saber quem realmente somos, quais personagens estávamos representando (isso se tivermos coragem para tal) e qual era o enredo final de tudo isso, pois foi de pedra em pedra que construímos barreiras para não nos abrirmos verdadeiramente para aquilo que a vida pode ser não somente conosco, mas como ela pode ser para a maioria. O bem estar do outro implica o nosso, e isso jamais virá escrito num outdoor ou num comercial.
Então retornamos a ela da qual sempre estamos fugindo: dor. Mas agora não é só a dor que incomoda, mas o sentimento de fracasso que nos toma por consciência em último grau de excelência. Depois de certa idade, a consciência já não bate de leve; martela. Sonhos sem chão, ambições sem moderação, delírios altamente individualistas, projetos estéticos desumanos. Tudo cai lentamente em nossa frente como pássaros mortos por abandono de si próprios.
E rastejando até o espelho que mostra a nossa alma suja e corrompida pela cultura, vamos procurando contornos mais suaves, nada exuberante, linhas leves em traços ainda em constituição, um rosto menos pesado, menos carregado de ditames. Aceitando o eu real, nós conseguimos fugir do espetáculo a encenar e nos tornamos mais tolerantes com os nossos erros, derrotas e fracassos. Assim passamos a não maquiar o que é feio em nós, mas começamos a acreditar que somos paradoxais por natureza. Habita em todos nós um desejo de viver e um desejo de desistir, de morrer. Aceitar a nossa condição paradoxal, a nossa incoerência e contradição nos ajuda a olharmos para o nosso espelho com mais complacência e respeito. Quem sabe assim começamos a gostar de nós? Atravessamos a ponte que nos leva do ódio a todo tipo de morte para a auto-reflexão e compaixão própria.

Não há soluções eficazes nem métodos infalíveis diante da complexidade que é se vender para viver. A pergunta é: o quanto você vale pra você mesmo e o quanto isso te satisfaz ou te faz sofrer. A que preço estamos nos vendendo e se o que recebemos está nos suprindo no final. Sacrifícios são da ordem da sobrevivência, mas até que ponto estamos nos vendemos e em que ponto estamos nos prostituindo. A linha é tênue, mas vale ainda se encontrar tarde do que se perder de vez no caminho das concessões inexoráveis nestes jogos de linguagem do poder. Uma vida vivida sem orgulho e admirações honestas, fica a deriva de um valor qualquer que nos oferecem para nos submeter aos comandos dos diretores do grande espetáculo. Seremos sempre escravos deste sistema, mas exercer a liberdade que se pode enquanto vale a pena viver é imprescindível para a nossa saúde mental e espiritual. A dor a se carregar pode ser mais suportável também.

https://eliaslimaescritor.wordpress.com/2017/02/19/reconstituindo-se/
Reconstituindo-se
Reconstituindo-se
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Na noite que antecedeu a sua morte por infelicidade, refletiu sobre as coisas e as causas que o moldaram numa pintura triste e sem cor.
E se ele dissesse algumas coisas antes de partir? Teria feito diferença? E se ele liberasse tudo que estava preso nos tentáculos de sua angústia? Ele continuaria a ter seus amigos que ele acreditava ser verdadeiros? E se ele gritasse sua solidão mortificante na presença destes seres absurdamente estranhos enquanto íntimos?
Toda tentativa teria valido a pena?
Valeria a pena ainda acreditar na boa relação entre os animais humanos?
Tudo isso era um belo sonho desprezado pelos que acreditam que sozinho se vence tudo e todos. Delírio de uma criança que insiste em não crescer, apesar dos intensos e constantes castigos. Loucura para os que acreditam que juntos já não somos fortes, e sim, fortificados em nosso egoísmo sempre altamente individualista por excelência. Excessivamente excludente, subjetivamente esquizofrênico em seu modo de agir e pensar.
Não lhe restava nada além de alucinações diante da realidade ficcionalizada para sustento de milhares de egos vazios de pensamento crítico. Vazios de reflexão.

Aqui, se foge da verdade que se é, enquanto se foge da verdade que se pode ouvir para não ter que falar a verdade que se quer.

A sinceridade é uma anti-etiqueta monstruosa, capaz de romper com a falsa estética da grande felicidade tiranamente publicitária. O gozo é só uma questão de mercadoria. A promessa é o melhor desejo que se pode alimentar os cegos de tanto de ver e ouvir.
A verdade atrapalha o protocolo da boa e falsa convivência. Palavras podem doer e fazer sofrer até os que não costumam ouvir ninguém.

Viver é acumular débitos numa conta de saldo sempre em negativo.

Os créditos ficam para os sonhos não realizados, para as coisas que não fizemos por covardia, para as coisas que não dizemos por medo da solidão, sem perceber que a solidão é o primeiro e último passo neste caminho solitário que é a existência. E se as dificuldades não fossem tantas? E se a alegria não insistisse em escorregar do brilho de seus olhos sempre molhados de lágrimas que escorriam até o peito, perfurando seu coração já cansado de provar tanto sal da vida?
E se a escuridão cessasse e a melancolia de afastasse? E se a alma dele fosse liberta deste caminhão de pedras que havia se tornado sua vida e sua voz passasse a ganhar força e resistência?
Sim, ele tentou.
E tentou por trinta anos. Mas o movimento contra os seus desejos mais puros era constante e o sangrava por dentro. Espinhos o perfuravam em silêncio letal. Sua voz já não conseguia traduzir nenhum pensamento. Talvez o tom cinzento da pintura que ele se tornou o perseguia silenciosamente ao seu lado sem que ele mesmo notasse. Talvez tudo não passasse de uma má interpretação dos fatos e do mundo. Talvez ele não passasse de um mero proletariado com mania de sonhos burgueses.
Mas nada foi como ele havia sonhado e desejado. E a certeza do fracasso era amigavelmente assustadora. Há um débito eterno para os que experimentam o fel das sombras desde que se aprende a sentir e enxergar. É uma marca que registra o seu lugar no mundo plástico de ideias sustentadas por produtos caros.

A miséria existencial torna o bilionário o mais infeliz animal da selva humana.

E essa ferida jamais cria cascas. É uma dor que jamais se cansa de doer, de triturar desejos de prazer, de transcendência deste eterno sofrer que é esta vida sempre como pêndulo entre a agonia e o desejo de desaparecer. A poesia triste é o acúmulo de lixo consumido nesta estrada sem saída que é sobreviver.

A morte é só um descanso para toda essa ilusão de viver.

Ele ainda buscou refúgio nas crenças religiosas, filosóficas, astrológicas, antropológicas, sociológicas, biológicas, numerológicas, na ciência que prometeu um mundo melhor que jamais conseguiu promover. Ele insistiu e fez-se acreditar, apesar de jamais ter-se convencido de todas estas baboseiras. Incrédulo de espírito. A vida tinha dado porradas demais nele para que algumas ingenuidades permanecessem intactas. O que permaneceu intacto foi o desejo de tentar, que se esgotou naquela noite. A impotência era marcada pela falta afetiva, espiritual, material, psicológica e emocional.

Sua mente era puro caos. Caos que se nutria do caos que via todos os dias. Epidemias de doenças, de ódio, de burrice, de ignorância popular, de cinismo oportunista, de maldade banalizada, de crueldade revestida de religião. De Hades travestido de Deus. E com o passar do tempo as coisas não esvaneciam. O espírito estava se entorpecendo de razão doente de tanta emoção contida. Sua histeria era expressada em suas medíocres poesias. Ninguém escapa deste script. Desde que abrimos os olhos pela primeira vez, o senhor do tempo se prepara para nos dar o seu maior e triste presente: ressentimento. Que se não cuidada, não adestrada, torna-se uma fera a devorar as próprias vísceras enquanto envenena as de outrem.

Ressentir sem refletir é tornar-se pedra.

Ele que já havia visto gente sonhadora tornar-se estátua de marfim já sabia que um futuro destes o espreitava sempre pela porta de seu quarto escuro e inabitável de luzes que o ajudasse a enxergar outras possibilidades. O ressentimento tornava treva quem sempre fora apaixonado pela luz. E ele sabia que algo assim o esperava debaixo da cama desde que aprendeu a ter medo de monstros noturnos.
À noite, se masturbava. Aliviava-se nestes instantes de auto-prazer diariamente. O pequeno alívio lhe fazia esquecer que suas defesas haviam se esgotado. Os ataques vindos de fora para dentro eram muito mais inteligentes e mais fortes que um desejo solitário de vida em percurso. Mas logo depois viam seus pensamentos lhe dizer a razão de intenso refúgio em doses homeopáticas de prazer estético e manual, porém, físico também.

A realidade é regida pela insanidade.

Quem ainda não enlouqueceu, está ao certo a enlouquecer os outros.
Pensou e se cansou. Sabia o roteiro de cor, os personagens eram os mesmos com os mesmos sentimentos. E decidiu dar um fim neste enredo reflexivo mal feito desde que começou a acreditar na potência do discurso da vida. A pergunta dos personagens eram as mesmas nos finais da peça: continuar a viver ou morrer, quando a vida já sustenta a própria morte?
Então não fazia sentido permanecer. Tudo resulta em morte e tragédias irreversíveis. Pensar demais dói. Então descobriu que o que sempre buscou foi uma fuga. Uma fuga perfeita.

Era dia de seu aniversário e então, abriu sua caixa de presente. Dele para ele mesmo. Era costume seu se auto-presentear todos os anos. Pegou a arma gélida, fria de emoção e sem brilho. Mas seu rosto estava refletido no tambor metálico.

Porque uma fuga perfeita é sem volta.

https://eliaslimaescritor.wordpress.com/2017/03/01/uma-fuga-perfeita/
Uma fuga perfeita
Uma fuga perfeita
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Eu matei a minha mãe. Simples como matar um bandido que há muito tempo fazia muito mal à comunidade, ou que transformara em caos a ‘paz’ desta cidade imunda. Simples como matar aquele político que ordenou um golpe de Estado num país recentemente democrático. Matar mamãe foi fácil. Sempre quis isso. Sempre quis e desejei que ela morresse logo.

Mamãe morta era sinônimo de paz. Paz interior que eu nunca tive. Aliás, paz que ela nunca me deixou ter porque simplesmente ela era uma fracassada triunfante na vida. Mamãe era mais uma mulher pobre derrotada pelo sistema econômico. Teve uma vida difícil com vovó, que era dura e fria como Hitler. Ou Mussolini, pois minha avó é descendente de italianos. Mamãe sempre descontou toda a sua raiva, tristeza, desgosto e fracasso na vida nos seus filhos. E eu, que morei com ela até poucos instantes, fui o que mais sofri suas humilhações.

Agora ela está morta. Porque eu a matei. E me sinto livre. Eternamente livre por tal ato corajoso. Quando eu era adolescente, sempre sonhava que ela morresse de câncer, atropelada, envenenada ou por enfarto depois que nós brigávamos muito.Ela, como de costume por ser minha mãe e minha autoridade (aquela que me deu a vida que eu nunca pedi), me humilhava diante de todos que eu conhecia e não conhecia na rua depois destas brigas em casa.

Eu sempre decidia sair para esfriar a cabeça com alguns amigos e assim evitar mais raiva e tristeza. Ela não satisfeita em me derrotar até me ver chorando e solitário em meu quarto, fazia questão de passar de casa em casa para falar de minha orientação sexual, de meu comportamento verbalmente agressivo com ela que sempre ela autoritária e prepotente em nossa anti-relação.

Os vizinhos saiam de casa. Iam para rua ouvi-la gritar. E eles gostavam, principalmente porque era sempre num domingo que mamãe gostava de fazer o seu show histérico e perverso. O domingo é um dia bastante entedioso para os pobres que nada tem o que fazer a não ser assistir a programação da tevê aberta. E todos eles assistiam a tudo sem contestar. Filmavam com os olhos o que hoje fazem com seus smartphones.

A vizinhança não gostava de mim. Mamãe conseguiu fazer isto. As pessoas me olhavam e falavam baixo com um olhar de reprovação, olhar do qual eu imaginava que mamãe era capaz de inventar tamanha barbaridade sobre mim que eles só podiam ter desprezo por minha pessoa.
Eu os entendia. Eles nunca me entenderam.

Papai não aguentou e depois de se envolver mais uma vez extraconjugalmente com uma mulher aqui perto de casa, pegou suas coisas e foi embora. Eu comemorei. Enfim, eles iriam parar de quebrar toda a casa brigando e tentando literalmente, se matar. Haveria menos brigas e mais talheres, copos e mesas nos lugares a partir do dia em que ele foi embora e nunca mais voltou.
Eu entendia papai.
Mamãe gostava de humilhá-lo também. Ele não gostava que xingasse minha avó paterna, por obviamente ser a mãe dele. E quando ela bebia, xingava a minha avó de todos os nomes cruéis possíveis. Principalmente estes nomes que desonram a ‘dignidade feminina’ de qualquer mulher. Papai avançava toda vez que ela o chamava de filho da puta. E ela sabia que isso o descontrolava, então ela o provocava. Ele a agredia com porradas e chutes. Ela jogava facas, garrafas, tudo que via na frente e depois ligava para a delegacia de mulher. Papai era preso por alguns dias e depois solto, pois ela sempre ia na delegacia retirar a queixa contra ele. E papai, por ser mecânico, consertava os carros dos policiais e delegadas e ficava tudo bem. Pra eles. Mas sempre voltava a acontecer. O roteiro era o mesmo. Domingo, noite, bebida, histeria. Até que os policiais e nem a delegada quiseram se envolver mais nesta relação conturbada e autodestrutiva para os dois.

Era só chegar o final de semana. Ela bebia todas que tinha direito e as que não tinha também. Xingava os vizinhos, arrumava confusão com a minha irmã, xingando-a de vadia quando esta saia para somente dançar. Mamãe viveu muito. Eu deixei ela viver tempo demais. Papai também deixou. Fomos demasiadamente tolerantes com esta que sempre arruinou a nossa vida em família.

Hoje, mais uma vez, ela me xingou de tudo. Só não me chamou de santo. Me chamou de viadinho, que eu deveria dar para um macho e sair desta casa que era somente dela, sendo que meu pai comprou a casa sozinha. Depois ela vendeu para a minha avó que não podia mais morar em um morro devido sua saúde bastante fragilizada, e com o dinheiro recebido, reformou a casa que a minha avó iria morar e na hora de construir a dela, ela percebeu que não tinha mais dinheiro para terminar de construir a sua casa. A casa que era ‘somente dela’. Eu e meus irmãos nos juntamos e terminamos a casa. Até hoje ela grita que a casa é dela e que quem não estiver satisfeito que pegue suas coisas e rache fora.

Mamãe é assim. Escrota mesmo. Egoísta, manipuladora, fria, fascista, machista e agressiva. Mas hoje eu não quis continuar me ofendendo por suas palavras que sempre me rasgavam por dentro, me inferiorizava ainda mais no que eu já era. Não quis continuar sendo humilhado por esta que sempre me diminuiu em tudo, em tudo.
A briga foi por causa de uma panela cheia de cobertura de chocolate que eu guardei na geladeira. Ela queria que eu jogasse fora. Eu disse que não iria, pois iria usá-la novamente quando fosse fazer outro bolo de chocolate esta semana. Ela disse para eu ‘me virar’. Eu respondi que não, que não iria jogar a minha cobertura de chocolate no lixo só porque ela não queria retirar da geladeira os utensílios que ela guardava por pura mania de guardar e acumular coisas sem necessidade e sem utilidade. Pois ela não contente de estar gritando para que eu tirasse, começou o seu discurso humilhante mais uma vez, que eu era um encosto, um marmanjo que só atrapalhava a vida dela, que só trouxe desgosto, que nunca vai sair da saia dela, que eu vou ser igual ao meu tio materno que faleceu odiando a minha avó, xingando e agredindo ela, mesmo em fase terminal de câncer e morando juntos.

O ódio sempre foi a base das nossas relações. Não era e nunca foi o amor, a união. O que nos unia era o ressentimento, o desejo de vingança, o desejo de dar a rasteira no outro quando menos se espera. A gente aprendeu a se odiar porque mamãe sempre nos odiou. Ela engravidava como quem paria um animal. E foi assim que teve três filhos e depois fez a cirurgia de laqueadura, pois papai enfim, tinha conseguido uma menina como filha. Três filhos dos quais ela se apegou ao mais velho, este que a agredia quando ela o humilhava. Mas mamãe o amava muito mais do que a mim e a minha irmã. Mamãe amava a dor, a humilhação. E amava humilhar.

Eu não estava suportando tanto ódio, ressentimento e humilhação. Ela abriu a porta e despejou toda a cobertura de chocolate em mim, dizendo: já que é seu! Toma, é todo seu!
Eu estava no celular conversando com um amigo quando só senti a cobertura de chocolate me sujar, molhando toda a minha roupa, a cadeira e o chão do quarto. A força da minha fúria me fez levantar daquela cadeira de rodas onde eu me encontrava miserável diante de todas as pessoas que me olharam com pena neste mundo e agarrei o pescoço dela com um ódio que nutri nestes trinta anos de convívio destrutivo.
Era tanto ódio que eu saltei da cadeira como quem tivesse conseguido finalmente voar e não a larguei enquanto não vi os seus olhos se avermelhando de nervos atrofiados e o seu pescoço sangrar através das minhas unhas que estavam a cortá-la enquanto eu a sufocava, deixando- a imóvel diante de trinta anos de ódio escondido e humilhação contida.
O sangue escorria e eu me sentia feliz, belo e forte. Como qualquer outra pessoa comum. Eu podia e era capaz de matar também. Mostrei a todos a minha capacidade. E me senti livre. Como sempre sonhei todos estes anos em que estive preso a estes sentimentos que me torturavam como um cárcere maldito e nojento.

Eu estava matando a minha mãe. Ah quanto tempo esperei isto! Este foi o pensamento que me veio enquanto ela se debatia enquanto tentava gritar e não conseguia. O seu olhar era de ódio e desespero. Ela estava me xingando em seu coração negro de tanta maldade, eu pude notar.
Quem é que está por cima agora hein, mãe? Hein? Me diga! Fala! Eu não consigo te ouvir. Que pena…

Eu percebi que ela tinha parado de respirar. Fiquei grato. Consegui. Acabei com ela. E sorri. Gozo, sabe? Sabe quando você acaba de transar e sente a pessoa mais leve do mundo? Como se estivesse transcendendo o seu corpo? Foi assim. Como jogar fora um entulho de trinta anos sendo carregado inutilmente. Tem gente que merece ser morta logo, eu sempre acreditei nisso.
Mamãe morreu! Mamãe morreu! Eu gritei a todos vizinhos. E gritei sorrindo como quem dava uma grande e maravilhosa notícia: mamãe morreu! Venham ver! Ela está morta!

E sim, eu me rastejava no chão enquanto via ela caída sem voz. Tudo que eu sempre pedi a Deus em meu quarto enquanto ela me xingava e Ele sempre me negou: a mudabilidade daquela que sempre gritava e me emudecia sempre. Ela estava imóvel.
Me perguntaram: quem a matou? E olharam para mim com as mãos sujas de sangue. Eu disse feliz, fui eu! Fui eu! Olha só! Ela não está bem assim? De olhos bem fechados e com a boca calada para sempre?
Os vizinhos se assustaram e ligaram imediatamente para a polícia. E saíram. Todos.

A polícia estava vindo. Eu sabia que viriam. Eu odeio policiais. Sempre tive vontade matar alguns, ou muitos. Ou quase todos. E mamãe sempre fingia que ligava para eles toda vez que eu xingava ela também. O que era raro, pois eu nunca gostei de palavrões, embora tenha nascido num ‘lar’ onde se ouvia palavrões de manhã cedo, na hora do café da manhã.
Toda vez que eu insultava com palavras que a ofendia, ela fingia ligar para o 190, fingia ligar para o meu pai para que ele viesse me bater. Este que eu nunca mais vi senão depois dele ter vindo aqui me espancar algumas vezes por eu ter faltado ao estágio quando era adolescente. E estes espaçamentos eram a pedido dela, pois ela advertia diante dos vizinhos que já não sabia mais o que fazer de mim, um adolescente tão problemático.

Mamãe sabia me torturar. Era pelo medo. Era pela mente. Ela me torturava psicologicamente e eu sempre fui frágil nesta parte do corpo. A minha mente e toda a minha psique era frágil diante da violência que eu sofria desde que aprendi a sentir dor emocional.
Terror. Mamãe, como costumam dizer por ai, gostava era de colocar o terror. E ela conseguia. O meu irmão não aguentou ela por muito tempo. Engravidou uma moça tão adolescente quanto ele e foi morar com a sogra. A minha irmã também. Mas minha irmã não engravidou. Pelo contrário, a minha irmã nunca quis ter filhos. A razão disso eu sempre imaginei. E eu, que não consigo andar devido estas pernas que não se movem desde o acidente de carro que eu sofri quando tinha uns treze anos, no qual o meu pai estava dirigindo bêbado e brigando com a minha mãe, fiquei aqui, com esta que nunca gostou de mim. Eu até consegui uns empregos. Mas sempre muito humilhantes e sempre sofrendo por demais o preconceito para além do que o salário estava me comprometendo.

Os olhares de pena, dó e de tristeza me deixavam cada vez mais deprimidos e com aquele sentimento de incapacidade que todo deficiente carrega dentro de si para fazer companhia a outro complexo: o de inferioridade. Eu que sou gay desde que me entendo como humano, sei disso de muitos modos sendo ‘pobre’ para não ser chamado de preguiçoso e incompetente pela classe média fascista, ‘moreno’ para não me chamarem ou me ‘xingarem’ de negro como costumam pensar, ‘cadeirante’ para não me chamarem de deficiente e ‘disléxico’ para não me chamarem de retardado.

Complexo de inferioridade nunca me faltou. Nunca me faltou a incapacidade. A capacidade de fazer tudo acabar. Esta sempre me faltou.

Nasci devendo o mundo.
Nasci errado.

Nasci com defeitos.
Os policiais chegaram. Eu atiro contra todos eles até que um dispara contra a minha cabeça. Foi certeiro. Pegou no córtex pré-frontal perfurando a massa encefálica adentro com a pólvora quente e rápida. Mamãe e eu estamos mortos. Eu caído sobre ela. Ela caída sobre o chão em que eu a derrubei e a matei. Isso seria trágico se não fosse irônico.

https://eliaslimaescritor.wordpress.com/2016/10/31/eu-matei-a-minha-mae/?wref=tp
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Na noite que antecedeu a sua morte por infelicidade, refletiu sobre as coisas e as causas que o moldaram numa pintura triste e sem cor.
E se ele dissesse algumas coisas antes de partir? Teria feito diferença? E se ele liberasse tudo que estava preso nos tentáculos de sua angústia? Ele continuaria a ter seus amigos que ele acreditava ser verdadeiros? E se ele gritasse sua solidão mortificante na presença destes seres absurdamente estranhos enquanto íntimos?
Toda tentativa teria valido a pena?
Valeria a pena ainda acreditar na boa relação entre os animais humanos?
Tudo isso era um belo sonho desprezado pelos que acreditam que sozinho se vence tudo e todos. Delírio de uma criança que insiste em não crescer, apesar dos intensos e constantes castigos. Loucura para os que acreditam que juntos já não somos fortes, e sim, fortificados em nosso egoísmo sempre altamente individualista por excelência. Excessivamente excludente, subjetivamente esquizofrênico em seu modo de agir e pensar.
Não lhe restava nada além de alucinações diante da realidade ficcionalizada para sustento de milhares de egos vazios de pensamento crítico. Vazios de reflexão.

Aqui, se foge da verdade que se é, enquanto se foge da verdade que se pode ouvir para não ter que falar a verdade que se quer.

A sinceridade é uma etiqueta monstruosa, capaz de romper com a falsa estética da grande felicidade tiranamente publicitária. O gozo é só uma questão de mercadoria. A promessa é o melhor desejo que se pode alimentar os cegos de tanto de ver e ouvir.
A verdade atrapalha o protocolo da boa e falsa convivência. Palavras podem doer e fazer sofrer até os que não costumam ouvir ninguém.

Viver é acumular débitos numa conta de saldo sempre em negativo.

Os créditos ficam para os sonhos não realizados, para as coisas que não fizemos por covardia, para as coisas que não dizemos por medo da solidão, sem perceber que a solidão é o primeiro e último passo neste caminho solitário que é a existência. E se as dificuldades não fossem tantas? E se a alegria não insistisse em escorregar do brilho de seus olhos sempre molhados de lágrimas que escorriam até o peito, perfurando seu coração já cansado de provar tanto sal da vida?
E se a escuridão cessasse e a melancolia de afastasse? E se a alma dele fosse liberta deste caminhão de pedras que havia se tornado sua vida e sua voz passasse a ganhar força e resistência?
Sim, ele tentou.
E tentou por trinta anos. Mas o movimento contra os seus desejos mais puros era constante e o sangrava por dentro. Espinhos o perfuravam em silêncio letal. Sua voz já não conseguia traduzir nenhum pensamento. Talvez o tom cinzento da pintura que ele se tornou o perseguia silenciosamente ao seu lado sem que ele mesmo notasse. Talvez tudo não passasse de uma má interpretação dos fatos e do mundo. Talvez ele não passasse de um mero proletariado com mania de sonhos burgueses.
Mas nada foi como ele havia sonhado e desejado. E a certeza do fracasso era amigavelmente assustadora. Há um débito eterno para os que experimentam o fel das sombras desde que se aprende a sentir e enxergar. É uma marca que registra o seu lugar no mundo plástico de ideias sustentadas por produtos caros.

A miséria existencial torna o bilionário o mais infeliz animal da selva humana.

E essa ferida jamais cria cascas. É uma dor que jamais se cansa de doer, de triturar desejos de prazer, de transcendência deste eterno sofrer que é esta vida sempre como pêndulo entre a agonia e o desejo de desaparecer. A poesia triste é o acúmulo de lixo consumido nesta estrada sem saída que é sobreviver.

A morte é só um descanso para toda essa ilusão de viver.

Ele ainda buscou refúgio nas crenças religiosas, filosóficas, astrológicas, antropológicas, sociológicas, biológicas, numerológicas, na ciência que prometeu um mundo melhor que jamais conseguiu promover. Ele insistiu e fez-se acreditar, apesar de jamais ter-se convencido de todas estas baboseiras. Incrédulo de espírito. A vida tinha dado porradas demais nele para que algumas ingenuidades permanecessem intactas. O que permaneceu intacto foi o desejo de tentar, que se esgotou naquela noite. A impotência era marcada pela falta afetiva, espiritual, material, psicológica e emocional.

Sua mente era puro caos. Caos que se nutria do caos que via todos os dias. Epidemias de doenças, de ódio, de burrice, de ignorância popular, de cinismo oportunista, de maldade banalizada, de crueldade revestida de religião. De Hades travestido de Deus. E com o passar do tempo as coisas não esvaneciam. O espírito estava se entorpecendo de razão doente de tanta emoção contida. Sua histeria era expressada em suas medíocres poesias. Ninguém escapa deste script. Desde que abrimos os olhos pela primeira vez, o senhor do tempo se prepara para nos dar o seu maior e triste presente: ressentimento. Que se não cuidada, não adestrada, torna-se uma fera a devorar as próprias vísceras enquanto envenena as de outrem.

Ressentir sem refletir é tornar-se pedra.

Ele que já havia visto gente sonhadora tornar-se estátua de marfim já sabia que um futuro destes o espreitava sempre pela porta de seu quarto escuro e inabitável de luzes que o ajudasse a enxergar outras possibilidades. O ressentimento tornava treva quem sempre fora apaixonado pela luz. E ele sabia que algo assim o esperava debaixo da cama desde que aprendeu a ter medo de monstros noturnos.
À noite, se masturbava. Aliviava-se nestes instantes de auto-prazer diariamente. O pequeno alívio lhe fazia esquecer que suas defesas haviam se esgotado. Os ataques vindos de fora para dentro eram muito mais inteligentes e mais fortes que um desejo solitário de vida em percurso. Mas logo depois viam seus pensamentos lhe dizer a razão de intenso refúgio em doses homeopáticas de prazer estético e manual, porém, físico também.

A realidade é regida pela insanidade.

Quem ainda não enlouqueceu, está ao certo a enlouquecer os outros.
Pensou e se cansou. Sabia o roteiro de cor, os personagens eram os mesmos com os mesmos sentimentos. E decidiu dar um fim neste enredo reflexivo mal feito desde que começou a acreditar na potência do discurso da vida. A pergunta dos personagens eram as mesmas nos finais da peça: continuar a viver ou morrer, quando a vida já sustenta a própria morte?
Então não fazia sentido permanecer. Tudo resulta em morte e tragédias irreversíveis. Pensar demais dói. Então descobriu que o que sempre buscou foi uma fuga. Uma fuga perfeita.

Era dia de seu aniversário e então, abriu sua caixa de presente. Dele para ele mesmo. Era costume seu se auto-presentear todos os anos. Pegou a arma gélida, fria de emoção e sem brilho. Mas seu rosto estava refletido no tambor metálico.

Porque uma fuga perfeita é sem volta.

https://eliaslimaescritor.wordpress.com/2017/03/01/uma-fuga-perfeita/
Uma fuga perfeita
Uma fuga perfeita
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A chuva cai harmoniosamente, compondo uma das canções que só a natureza é capaz de produzir para os ouvidos da alma. Pedro está lá, enterrado, silenciado para sempre. Não há nada que eu possa fazer para voltar atrás e pedir que falasse tudo que sempre teve vontade.

Impotência é a marca maior de todos os seres humanos em dor.

O dia foi carregado de culpas, remorsos, conversas em silêncio, ironicamente. Todos se perguntando: como não notei? Há quanto tempo ele estava planejando isso?
Agora todos se importam.
Mas ele já tinha decidido. E ninguém percebeu nada em meio ao caos que ele era. Em meio ao caos que somos. Em meio ao caos que estamos condenados a viver.

Pedro era um grande amigo. Desses que eu imaginei fossem envelhecer juntos a contar minhas histórias fracassadas, meus problemas, minhas inseguranças. Não sei como ele envelheceria. Mas pressuponho que ele continuaria pobre e eu, um pobre que ascendeu um pouco socialmente e que carrega como medalha de vida a superação e o orgulho de ser um burguês alcançado por mérito próprio, embora nunca me sinta plenamente igual a toda essa gente que esbarro no elevador, no supermercado e nas lojas de grife.

Engraçado como as pessoas estavam falando tanto dele, que nunca era bem lembrado. Quando acontecia, era de maneira insólita. Meu amigo nunca foi admirado. Era um estorvo para a família, um fardo a se carregar, como sempre dizia sua mãe. Quem pariu Mateus, que balance, era costumeiro ela dizer isto sempre que estava descontente com a situação financeira dele.

Pedro quase não parava em emprego algum. Tinha sérios problemas de convivência com os seres humanos. Ele dizia que as lideranças no ambiente de trabalho eram muito autoritárias, frias e até fascistas. Sua mãe e seu pai diziam que isso era preguiça de trabalhar, que ele sempre arrumava uma desculpa para não ter que acordar cedo e aceitar a realidade.

É bem verdade que Pedro nunca aceitou muito bem esta realidade, ou a nossa realidade, ou a realidade dele. Pedro sempre foi muito sensível, sonhador, cabeça na lua como ele mesmo dizia. E isso trouxe vários problemas em sua vida. Por infinitas vezes, era ingênuo. Por outras, extremamente desconfiado, bem neurótico. Aliás, neuroses não lhe faltavam nunca. Pedro tinha fobia de seringas, de sangue, de multidões.
Era de uma natureza romântica, sonhava com a igualdade, com a humanização do ‘animal humano’, como ele mesmo gostava de expor.
Gostava de viver o tanto quanto desejava morrer. Ele era esse paradoxo, essa contradição extrema. Às vezes tinha grandes hiatos em quase total desaparecimento. Por outras vezes, gostava de circular, conversar, falar do que escreveu, do que leu, do que ouviu, do que assistiu, de tudo que sentiu enquanto estava aprisionado ou livre solitariamente em si mesmo. Talvez ele fosse isto: liberdade e prisão brigando desde sempre dentro dele entre si, até o dia em que somente uma venceria. E esse dia, para espanto e susto de todos nós, chegou.

Pedro teve uma adolescência conturbada. Depressão, crises de pânico, tentativas de suicídio recorrentes. Ficou muito doente. Mas eu estava muito ocupado com a universidade, com os meus novos amigos e com a vida que eu sempre quis ter e acabei por não lhe visitar muito. Nunca soube qual era a raiz dos seus problemas. Sempre percebi que parte de muito de seus conflitos vinha de sua desestruturada família, que alimentava-se de hábitos bem machistas, homofóbicas, racistas e até fascistas.

Ele teve muita dificuldade para se assumir gay. Levou mais de sete anos desde que percebeu que gostava de meninos no início, aos treze anos, quando ainda era um adolescente cheio de medos e reprimido por tudo. Eu sempre soube que ele era gay, como ele sempre soube que eu também era.
Mas não assumíamos. Não tínhamos a coragem suficiente para bancar futuras fofocas, conversinhas pelas ruas. Éramos dois garotos com medo.

Estávamos sempre esperando que o outro contasse primeiro o seu crime para depois confessar o nosso. Acredito que nestes sete anos de medo, culpa, insegurança e homofobia internalizada o fizeram adoecer psicologicamente ao ponto de tentar se matar neste período obscuro e trágico de sua vida. A cada ano eu percebia ele mais sombrio, fechado em si mesmo, melancólico, mas nunca achei nada demais, aliás, muitos adolescentes são dramáticos nesta fase e com certeza ele iria passar desta facilmente como eu passei a minha.
Mas não.
Quando soube que ele havia cortado os pulsos e o braço no mesmo dia, na mesma noite, fiquei estarrecido e assustado. Fiz-lhe uma visita breve, conversei um pouco. Ele parecia não adentrar no mundo dos que se conformaram que a vida é essa desgraça mesmo. E que não há saída para ninguém.

Ele relutava e sangrava por dentro tanto quanto por fora. Mas naquele momento ele estava costurado e o sangue estava estancado pelos pontos. Seus olhos carregavam a tristeza de viver e enxergar o mundo como um lugar perigoso, inóspito e perverso nas suas relações. Ele sempre brigou muito contra quem tentasse lhe impor algo que ele achava injusto ou desumano depois que melhorou da depressão. Não aceitava imperativos com facilidade.
As humilhações que sofrera em casa serviram de marcas para que ele tornasse sua voz cada vez mais ativa no ambiente de trabalho, o que sempre lhe ocasionava demissões. Ele não aceitava o jogo de linguagem do poder: a submissão, a resignação, o mutismo, a humilhação constante e desmedida, a descartabilidade perversa. Ele quebrava com as regras impostas. Rasgava os protocolos, queimava todas as etiquetas. E era mandado embora. São incontáveis suas demissões.

Eu dizia que ele precisava barganhar, negociar, fazer concessões. Eu já faço isso desde que nasci, sou pobre, esqueceu? Ele sempre me respondia assim. Eu nunca lhe tirei a razão, mas sempre joguei o jogo. Deu certo. Mas o meu complexo de inferioridade ainda está latente. Você pode até conseguir sair da condição de pobre, porém as marcas da pobreza jamais sairão de você. E isto me assombra, pois carrego muito desprezo por mim por ter aceitado tanta coisa e barganhado várias vezes demasiadamente. Não sei o que me tornei; talvez uma sombra do que eu era e um assombro do que sou agora.

Sento aqui em frente à janela enquanto olho para o céu e vejo as gotas caírem sobre os telhados das casas, sobre os quintais, sobre os carros estacionados erroneamente nas ruas. As gotas invadem o meu quarto. Eu me molho e pela primeira vez, não me protejo delas. É o meu contato a partir de hoje com ele, que sempre esteve tão presente o quanto pode em minha vida.
Agora a nossa relação será através das lágrimas do céu, como ele gostava de dizer, mesmo que de modo jocoso.

O céu é a alma de Deus.
É a transparência de seu estado de espírito.

A gente ria, ele parecia falar realmente sério, por mais que fosse ateu. Talvez ele acreditasse que a natureza tinha a sua vida, o seu corpo e sua alma e por isto também sofria com as nossas ações contra ela. Mas isso seria ‘humanizar a natureza’, argumento que ele combateria com veemência. Ele gostava de dizer que os humanos jamais conseguiram sucumbir seus desejos mais cruéis, animais, perversos. Toda a animalidade inerente a nossa condição foi sofisticada pela civilização. Em casos não muito raros, alguns romperam com o acordo social cívico e deixaram seu animal falar mais alto como nos casos de violência extrema e até inacreditáveis. Toda a civilização é uma tentativa suja de maquiar o que realmente somos: trogloditas que querem uma casa decorada, um animal pequeno para enfeitar o quarto e um habitat para chamar de ‘lar’. Pessimismos a parte, eu concordava em meia parte com o que ele sempre dizia sobre este animal feroz e cruel conceituado e defendido como humano pelos iluministas.

Pedro era agradável o tanto quanto era incômodo as pessoas, inclusive a mim. Eu me incomodava com aquele jeito errado, meio desequilibrado, meio nonsense, meio rebelde, iconoclasta. Eu me incomodava principalmente quando o levava para alguns eventos privados nas casas dos meus amigos ex-universitários, pois todos já haviam concluído o curso superior, menos Pedro que tinha o ensino médio incompleto.
Me dava vergonha dele, mas fazia isto para tentar lhe mostrar que uma vida esteticamente melhor poderia ser boa para ele. Ele não reclamava dos eventos, até gostava muito. Mas eu evitava levá-lo sempre. Tinha medo que ele tivesse uma crise de pânico no meio do evento, ou quisesse ficar sozinho de uma hora para outra, sei lá. Tinha medo que ele estragasse minha imagem diante de meus colegas diplomados superiormente pela universidade federal.

Eu o preferia sozinho. Ele me ouvia sempre com muita atenção. Seus ouvidos sempre foram dedicados. Disso eu jamais pude reclamar. Tudo que eu falava numa conversa, em um ano ou dois anos depois, ele relembrava com detalhes. Eu me assustava com a sua memória. Tinha medo de que ele relembrasse alguma atitude desprezível da minha parte, algo que eu disse e não fiz, que eu prometi e não cumpri, coisas do campo do ego, sabe?
Ele tinha esta memória incrível. E eu acho que esta memória também o prejudicou, pois nada que lhe dissesse ele esqueceria facilmente. E ele ouviu muita coisa antes de ir.

Certa vez ele disse que ouvia tudo com a alma, por isso se lembrava de tudo. Eu não disse nada, só imaginei que isso devia ser bem doloroso, pois o esquecimento nos faz muito bem em vários momentos. Uma memória que trabalha demais, ressente demais também. Assim como são os escritores que eu já li. Na grande maioria são depressivos, melancólicos, suicidas. Deve ser perturbador lembrar de tudo que não quer, quando tudo que se tem que fazer é fugir delas como um rato foge do gato. Talvez Pedro não tivesse encontrado a sua melhor saída. Desistiu de fugir do gato da morte.
Entregou-se.

Engraçado como também é triste perceber que ele sempre foi o meu melhor amigo. Eu não admitia isso a ninguém. Era muito esquisito ter alguém como ele como melhor amigo. O que iriam pensar de mim? Mas a morte traz à consciência fatos, verdades escondidas, orgulhos envergonhados, culpas sucumbidas. Ao vê-lo deitado no caixão com aqueles algodões no nariz e nos ouvidos eu pude sentir o tamanho do prazer que ele me proporcionava quando estava ao seu lado. E ao mesmo tempo pude sentir o tamanho da falta que ele iria fazer na minha vida. Percebi tudo hoje ao entardecer, enquanto a lua insistia em descer e empurrava o sol para baixo a força.
O crepúsculo parecia o retrato do espírito dele quando ele adoecia. Era a noite insistindo em cair em sua mente trazendo anjos expulsos do céu, traidores da paz, demônios disfarçados.

Hoje eu percebi que nunca dei nenhuma importância a alguém que tivesse sofrido ou adoecido de depressão. Sempre achei frescura, camuflagem, auto-enganação barata e chata, vontade de aparecer enquanto tenta enganar o outro com o seu drama tentando convencer a toda força a si mesmo. Assim eu via as pessoas que sofriam de pânico e outras doenças psicológicas contemporâneas. Para mim, todas frescas, sem foco e determinação na vida. De gente assim eu fugia. Como sempre fugi de Pedro, deixando ele apodrecer sozinho por tantos e tantos anos.

Por ter se calado de medo por tantos anos, vindo adoecer até, ele ensinou a sua sobrinha adolescente a contra argumentar qualquer ‘autoridade’ em discussões em família, ou seja, contra argumentar todos os homens desta. Ele tentava desta forma, impedir que ela não se deixasse esvaziar por dentro como fizeram com ele na adolescência. Apoiou-a infinitas vezes até ela se voltar contra ele. O fracasso o invadiu desta vez na relação entre eles. Ele desejava fazer dela uma militante, ela preferia ficar em casa ao se envolver com a militância. Queria ficar namorando. A frustração só aumentava e a distância entre eles também. Até que um dia ela resolveu humilhá-lo por ele ter cortado a internet dela por falta de pagamento da própria. Ele ouviu tudo e mais um pouco. Não sabia que estava instruindo um monstro contra ele. Era o fim da linguagem. Ele pressentiu mais uma vez.

Na militância a mesma coisa: conversas e mais conversas onde maioria não ouvia por não querer ouvir. Interrompiam-se falas de um com os outros por falta de educação e respeito. Na falta de argumentos para defender a falta de postura, maledicência. Então nada ficava totalmente de acordo. Não se ouviam, não se respeitavam, não havia o mínimo respeito para o lugar do outro. E se não há o outro em nós, estamos fechado em nós mesmos.
Em outras palavras, ainda falta a tão insistente abertura para o outro. Não havia uma política de escuta, uma política da fala, nada havia ali no movimento social que produzisse um desejo a mais de avançar ou uma potência ainda maior para o diálogo com o outro. Não havia diálogo. Havia conversações, troca de ideias e isso ainda não é diálogo.
Diálogo seria ouvir com a alma, falar com a alma consultando sempre a razão e o objetivo maior de se estar falando e escutando. Neste momento, elimina-se o ego, os diplomas de graduação, de mestrado, de doutorado e pós-doutorado. Elimina-se tudo para construir algo em comum no coletivo: potências para a nossa linguagem. Comunicação assertiva. E mesmo num espaço politizado não havia possibilidade para este avanço. As pessoas pareciam mais estar interessadas em mostrar o que sabiam fazer de melhor para se auto-promover ou para mostrar que eram superiores intelectualmente ao outro.
Enquanto sinto as gotas molharem o meu rosto, percebo que o que sempre senti dele também era desprezo. Pedro, apesar de se sentir anulado subjetivamente em família, queria sempre ser aceito por eles. Eu nunca tive paciência com este desejo tão primário. Ele parecia criança. E de certo modo, se comportava como tal. Morria de vergonha quando às vezes ele falava algo que parecia impensado para nós, ilógico ou sem noção. Cheguei a pensar que o meu amigo era autista, esquizofrênico, algo deste gênero psiquiátrico. Só hoje pude perceber que se tratava de um mundo em que quase ninguém o alcançava. Pedro tinha o seu mundo, o mundo dos sonhos, das possibilidades, das realizações, das verdades. Onde tudo era possível mudar. E quando ele falava de algo de forma inesperada, era a partir deste mundo que falava e não do nosso: conformado e covarde.

Pedro muitas vezes estando em companhia, parecia solitário. Pegava-o pensando sozinho, de cabeça baixa, como quem tivesse a refletir sobre algo que não estava sendo discutido ou que não pretendia se discutir. A partir de algumas conversas, ele pegava o seu caderno e começava a escrever compulsivamente, sem dizer uma única palavra. Por isso o achava um pouco autista. Parecia que havia encontrado alguma chave secreta para alguma saída dos labirintos que ele habitava: a cultura, a linguagem, a nossa condição de miseráveis fracassados a erguer pequenos troféus de sujeitos que se sentindo invisíveis como a maioria, se fantasia de vencedores?

Ele estava sempre apto a uma reflexão. Da mais indesejada, nas horas menos esperadas até as mais pesadas como suicídio coletivo, morte assistida, suicídio individual. Aonde mora a nossa liberdade? Ele sempre perguntava isso quando insistíamos em não continuar com estes assuntos. Covardes, ele dizia e nós encerrávamos a conversa, sempre incomodados com esta capacidade de refletir pesadamente sobre coisas que sempre buscávamos fugir.

Muitas vezes ele ia embora mais cedo para cuidar da sobrinha pequena, pois a mãe costumava beber muito nos finais de semana. E a gente não entendia a razão dele ter pegado uma responsabilidade como esta sendo tão novo. Ele tinha dezesseis anos e agia como o pai da garota. Com o pouco dinheiro que recebia do estágio, comprava bonecas, alimentos e a levava para o teatro, cinema, sorveterias, parques municipais. E por isso, estava sempre apertado, sem dinheiro.
Mais da metade do seu salário de estagiário ia para as despesas da pequena. Eu sempre insistia, dizendo que ele estava fazendo algo que não era obrigação dele, que ele estava se cobrando de algo que nem o pai da criança se cobrava.

Ele me dizia que quem tem amor para dar, não perde tempo julgando quem não tem.

E nós encerrávamos assim.

Uma vez, quando conversávamos num bar após uma manifestação cansativa, nos reunimos com outros militantes e nos pusemos a conversar sobre assuntos deste tipo. Falamos das antigas lutas, dos movimentos antigos, das dificuldades daquela época, das de hoje e quando menos vimos, estávamos falando de nossas vidas privadas. E o assunto era aparentemente bobo sobre palmadas, surras, castigos que levávamos quando éramos crianças.
Chegamos num ponto em que comentávamos certos abusos sofridos por alguns conhecidos que vieram a ter sérios problemas emocionais, psicológicos e comportamentais quando se tornaram adultos. Um destes conhecidos era muito odiado pela família e chegou a se mudar do país para nunca mais ter que rever o pai, a mãe e os irmãos, bem como os parentes também, que ele quase nunca os via.
Disseram que ele se tornara andarilho, um eremita qualquer. Pedro disse que não imaginaria como teria sido a vida dele também se tivesse sofrido como este conhecido nosso. Eu não hesitei e disse: você não precisa, Pedro. Olha pra sua vida.
Pedro abaixou a cabeça. Ficou em silêncio por uns cinco minutos e quando voltou a falar, disse que estava se sentindo mal, que precisava ir embora logo. Eu achei aquela cena bem banal e como protocolo, insisti: mas já? Fique mais. Não, eu preciso ir mesmo.

Pedro não atendia minhas ligações, nem respondia minhas mensagens. Mas como Pedro era estranho, achei isso bem comum. E essa distância foi acontecendo sem importância alguma pra mim. Quando me dei conta, havia se passado quase um ano quando resolvi ligar pra ele mais uma vez nestes meses todos em silêncio. Ele me atendeu, me tratou bem. Não parecia ter se incomodado com o que eu disse meses atrás. Marcamos de dar uma volta, um passeio destes que a gente sempre fazia.
O olhar era para baixo, o semblante ainda parecia carregar o peso daquelas palavras dirigidas a ele tão cruelmente. Ele então quebrou o silêncio e disse que algumas ordens de linguagens no mundo jamais mudariam. Eu fui pego de surpresa com este assunto, mas na cabeça dele o que estávamos dizendo dialogava com o que estava falando, então perguntei a razão destas ordens não mudarem.
Pressuponho que há hierarquias que nos distanciam: pessoas, sociedades, países, continentes. Estas hierarquias se constituem em identidades, estas que se formam com muita veemência, dor e luta, pois a hierarquia pressupõe uma identidade superior ao outro e por isso, o explora. Com o tempo, identidades novas se formam, de diversas formas, mas sempre com dor, luta e veemência. Mas o que isso tem a ver com o que estamos dizendo? Fiquei impaciente e perguntei.
Que quem olha para o outro de modo superior sempre o humilhará nesta posição de inferior. E isto acontece porque a pessoa que humilha acredita que por meio desta identidade ele está autorizado a falar em nome do ‘seu lugar’ na sociedade. Continuo sem entender.
Quero dizer que quem humilha, não percebe que humilha porque acredita que certas posturas são naturais e não adquiridas através desta cultura que privilegia um enquanto subalterniza o outro. Aonde você quer chegar com isso, Pedro?
Quero chegar naqueles que por algum motivo acham que devem sair falando o que quer e o que pensa sem se responsabilizar pelo o que acontece depois. Que em cada indivíduo há uma narrativa, uma história de dor, humilhação, luta, superações, derrotas e fracassos também. E que ninguém tem o direito de apontar o fracasso alheio sem ao menos entender a razão disto.
Eu senti que aquilo era intenso e que Pedro queria gritar isso para algumas pessoas, mas não para mim, que era amigo dele. Achei que ele estava desabafando por não ter conseguido expressar isto a alguém em alguma circunstância, então ignorei.
Pedro era assim. Às vezes demorava a responder alguém, se calava e um bom tempo depois vinha com a resposta. Mas ninguém lembrava mais do que se tratava. Só ele tratava de carregar a dor e explorá-la de forma mais sofisticada, mesmo que ninguém conseguisse entender. Só ele tentava tornar leve a pedra que lhe atiravam a fim de se salvar da dor que o perseguia desde que aprendeu a ouvir e sentir.

Há em todos nós um desejo de fugir. O meu problema sempre foi fugir do Pedro quando ele mais precisava. Ele não me exigia isso também. Não me cobrava. Eu sempre achei que então estava tudo bem. Problemas todos têm, e quem quer parar para ouvir os problemas alheios? O Pedro parava. Ele sempre estava atento e disponível para me ouvir, me elogiar, me colocar para cima. Quando ele começava a falar dos problemas dele, eu mudava a direção da conversa e voltava-a para os meus. Talvez ele tenha se sufocado de tanto guardar suas dores e implodiu. E a nossa negligência foi exposta, o nosso abandono, o nosso descaso estava estampado no semblante melancólico dele enquanto os velávamos.

Nunca tive saco para entender o ser humano em suas complexidades psicológicas. O Pedro já lia Psicologia, Psicanálise, Filosofia, Sociologia, o que aparecesse sobre comportamento ele estava disposto a entender. Eu sempre gostei de analisar o coletivo, a complexidade do coletivo, suas dinâmicas. Nunca quis entender o sujeito e suas angústias, aflições e desesperos. Me cansava.
Pedro começou a escrever de uns anos para cá, a pedido do terapeuta dele. E a escrita dele resultou numa participação literária em uma antologia de uma editora pequena em São Paulo. Ele me deu um exemplar, do qual eu nunca peguei pra ler. Está guardado na estante até hoje, cheio de poeira.

Acho que na literatura ele encontrava um espaço para desabafar, gritar, chorar, já que no mundo externo ninguém dava a mínima para ele, a não ser o seu terapeuta, o que não contava, pois era o trabalho deste se mostrar interessado em entender as dores e angústias do meu amigo. Acredito que a literatura o manteve conosco por mais um tempo, por mais que a gente não percebesse. Como ele suportou tudo sozinho este tempo todo?
Eu que sou ou era mais maduro que ele, o procurava com frequência para falar de mim, dos meus conflitos no trabalho e ele? Com quem falava? Com quem se abria? Não sei. Nunca me perguntei isso antes. Assim como ninguém na casa dele parecia querer saber como ele fazia para sobreviver. A sua mãe nunca o encorajava. Quando ele conseguiu enfim, entrar para a universidade, ela disse que ele não iria completar o curso, sendo preguiçoso como ele era. Ele comentou isso comigo, mas eu não demonstrei interesse em saber se ele estava chateado, se ele queria falar mais sobre isto.

Soube do seu suicídio através de uma nota que a família publicou através do Facebook dele. A reação foi instantânea: culpa. De todos. Nós o deixamos morrer. Como não percebemos? Mas quem estava disposto a carregá-lo também?
O pai não o via há anos, principalmente depois que se separou da mãe dele. Os irmãos, casados, estavam a viver suas vidas de pessoas casadas e infelizes com o seus casamentos. Ele estava a estudar e morava com a mãe e a sobrinha. Para todos nós, ele estava bem, levando a vida como conseguia. O que afinal, todo mundo faz. Encontraram um bilhete com um aviso escrito:

Vocês nunca me conheceram. E também não se esforçaram. Eu tentei, me esforcei e até sangrei. Mas agora está cada vez mais difícil continuar. A vida parece agarrar os meus pés e me puxar incansavelmente para baixo. Estou cedendo. Eu perdi esta guerra. Espero que vivam melhores sem mim.

Adeus

Encontraram o corpo dele caído no quarto. Sua boca expelia muito sangue e uma baba constante. Envenenamento por cianureto de potássio, concluíram a perícia. Uma morte dessas é sempre planejada, pensada um bom tempo antes, disse um dos policiais e investigadores. Ele estava deprimido, triste com alguma coisa? Um deles perguntou a mãe dele. Eu achei que ele estava bem, ele nunca me dizia nada, respondeu. Geralmente é assim mesmo, os suicidas são calados, introspectivos e depressivos. Quando menos se espera, eles nos surpreendem com sua tristeza e violência. Ele tinha algum diário, algum caderno que ele gostava de anotar coisas que lhe acontecia? A mãe dele não soube responder. O policial percebeu que se tratava de uma família típica dos suicidas; negligentes, indiferentes.

E eu sempre pensei que envelheceríamos juntos. Mas não imaginava que por debaixo daquele silêncio, corria águas escuras da morte que o sugava sempre para baixo. Eu achei que ele estava curado deste abismo que o sempre tragava para as entranhas deste mundo obscuro e cheio de seres assustadores. É assim que vemos a morte; assustadora. E para alguns ela é a maior sedução; ou a única solução para este tormento sem salvação?
Talvez ele tenha só desistido. Só quis parar de sofrer. Eu quero pensar assim, pois me sinto melhor. Assim concluo que nada que fizéssemos o iria impedir de tal ato. Alguns parecem nascer predispostos a tragédias. Eu nunca acreditei nisso. Sempre acreditei que nós somos os agentes de tudo. Que podemos mudar tudo que quisermos se quisermos mudar.
Mas para Pedro talvez esta não fosse a questão. A dor enlouquece, entorpece a razão. E eu já tive dias ruins. Quem nunca têm?
Mas para Pedro parecia que ele não somente tinha dias ruins, mas períodos ruins, fases ruins que demoravam a passar. Por dentro de cada um corre rios de turbulências que somente cada um sabe, hoje percebi isto.

Não dá para fugir da tragédia da vida.

E assim ele foi para o grande lago da morte. Para o rio dos abandonados. Para o descanso dos esquecidos. Nunca pensei tanto nele o quanto pensei hoje. E nada alivia minha culpa e descaso. Acho que o desejo de morte nasce do incomunicável. Daquilo que não falamos, daquilo que fingimos estar bem enquanto consentimos nesta covardia de tentar mais uma vez por desistir de antemão do outro, porque estamos todos cansados e indispostos a aceitar o outro com toda a glória e desgraça que ele nos propõe. Assim não nos responsabilizamos por ninguém. Mas gostamos de culpar o outro quando ele não nos atende, nos falta. E assim vamos usando o outro como um objeto, uma mercadoria que é explorada pelo desejo do seu consumidor. E que é descartado assim que sua utilidade foi totalmente explorada em seu uso. E não reciclagens nestas relações. Só há incomunicabilidade, dedos apontados em riste, acusações, culpas, ressentimentos, remorsos e invejas. O que resta a cada um é suportar as boas lembranças que nos uniram e as péssimas que nos distanciaram, nos separaram para sempre.

Pedro me uniu a ele porque ele sempre esteve aberto para mim, para tudo que eu trazia para ele. Eu sempre me fechei para não me sobrecarregar demais. Só queria suportar os meus pesos e nada mais. Não é o que todos fazem?
Cai uma gota de chuva em meu rosto enquanto também escorre uma lágrima de arrependimento. Agora entendo o que ele quis dizer uma vez ao se referir a queda das gotas da chuva.

Cai lá fora como cai aqui dentro.

Sim, cai aqui dentro de mim todas as lágrimas que você nunca chorou comigo por eu nunca querer ter te escutado. Cai lá fora como cai aqui dentro, a dor em gotas que se somando a todas as gotas que você suportou sozinho, se tornaram a tempestade em que você se tornou após tanto tempo tentando ser entendido aqui entre estes que nunca quiseram te entender. Cai lá fora pedaços de mim que eu nunca irei recuperar, pois você se foi sem ao menos me dizer adeus. Sem se lembrar do amigo que você nunca sentiu de verdade que teve. E eu acho que você não se enganou. E eu não posso pedir perdão por isto, pois você é agora o que sempre foi:

silêncio absoluto.

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Como a chuva
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Era uma manhã cinzenta como era de se esperar. O corpo do meu pai estava sendo carregado até o buraco. Parece que ninguém escapa disso: uma hora nos damos conta que somos apenas corpos seguindo em direção ao mesmo precipício.

Ela segurava a minha mão. Forte, mas delicada. Era possível sentir o seu desejo de me reconfortar. Não me lembro da vez em que ela não tenha se esforçado para me fazer sorrir quando eu sofria as de crise de pânico. Viver era muito assustador. Mas ela estava viva, estava lá sempre que eu precisava.

Na maioria das sextas-feiras ela subia as escadas e vinha até o meu quarto. Dizia estar entediada, sem nada para fazer em casa além de assistir reprises de seus seriados favoritos. Eu fingia que acreditava. Eu sentia lá no fundo que ela queria era me ver, estar comigo, me tocar, me olhar nos olhos e sonhar. Sim, eu sempre fui um idiota, um medroso incurável. Meu irmão sempre disse que eu era retardado, que eu nunca notava nada acontecer do meu lado. Às vezes as coisas aconteciam na minha frente e eu me recusava a aceitar.

Sempre me achei aquém de tudo. Feio demais, magro demais, burro demais apesar das boas notas em todas as matérias. Eu sempre me senti abaixo das próprias expectativas que eu mesmo criei para sustentar o ideal de ego que sempre almejei.
Tolo mesmo.

Meu irmão sempre teve razão. Diziam que o meu pai também era assim. Que minha mãe é que teve que convida-lo para sair um dia antes do baile de formatura. Papai era desajeitado, sem modos algumas vezes. Se atrapalhava demais com a cultura e com a linguagem. Nada parecia ter lógica neste mundo para ele, apesar de reconhecer que havia um certo funcionalismo para toda essa tristeza de viver.

Mamãe agora carece de mim e de meu irmão que já se casou. Tento visita-la frequentemente, mas os estudos fora do Estado me ocupam e me atrapalham a vê-la. Gosto do habitual, do mesmo sempre, da sensação de segurança que a mesmice dá. Evito viajar com muitas pessoas. Sempre que posso, vou sozinho aos lugares. Pessoas me dão medo. Muito medo.
Sei que devo ultrapassar este medo que me impede de viver com mais perigo, mais riscos, mas sei que não suportaria carregar alguns arrependimentos em meu ego já fraco e covarde por natureza. Por isso escrevo. Falo tudo que nunca falei, grito tudo que nunca gritei, vomito tudo que nunca vomitei porque também não bebo e nem fumo e não saio muito à noite.

Ela tinha me ligado no dia anterior. Disse que estava mal, deprimida, que precisava de um conselho, de um ombro amigo, de um abraço sem interesse como estes que ocorrem sempre com as meninas. Eu disse que não dava, pois tinha uma prova de manhã cedo no dia seguinte. Ela não insistiu. Agradeceu e desligou.

Eram cinco horas até chegar lá e salvá-la daquilo que nunca imaginei que sofria. Larissa sofria abusos sexuais do pai frequentemente, na mesma intensidade em que se propunha a me fortalecer nos meus momentos de pânico e depressão. Eu jamais desconfiei de algo absurdo assim. O Seu Clóvis, com aquele bigode todo, cara de carrasco, evangélico até?

Não consigo entender por qual motivo ela tenha conseguido esconder este horror por tanto tempo. Talvez se achasse culpada, como acontece com a maioria das garotas que sofrem esta violência. Talvez muitos já tinham percebido, mas não falavam nada e eu, sempre distraído com as minhas dores e angústias, jamais notei que no seu toque havia um gemido de dor, um grito de desespero.
Não consigo imaginar como ela conseguiu ser tão forte sozinha. Só consigo entender que sempre fui fraco, errado, um ser qualquer que não faria diferença na vida dela. Apesar dela ter feito toda a diferença na minha.

Hoje eu sento e choro. E se eu tivesse ido até lá só para ouvi-la? Tivesse deixado ela gritar, beber de raiva e de dor, cair e vomitar de terror familiar?
E se eu não fosse tão pobre de espírito? Se eu não fosse mais um idiota na vida sofrida que ela levava? E se eu fosse corajoso, destemido e nada metódico? Teria atravessado o Estado e suportado todos os seus gemidos? Teria chorado junto e levado ela para morar comigo? Teria mudado a história dela? Teria conseguido evitar?

Larissa era uma linda garota de dezoito anos. Caloura do curso de Filosofia numa das universidades mais conceituadas do país. Mas não suportou a solidão e o silêncio da sua desgraça assombrosa. Larissa guardava um segredo que a envenenava e sobrecarregava o seu espírito leve e adorável de ser e existir.

Engraçado nunca ter escrito isso dela antes. Engraçado como a gente só enxerga algumas qualidades nas pessoas depois que elas morrem ou partem para outra dimensão. Para o seu destino estelar. Larissa era uma amiga e quase uma irmã. Quase uma amante também, se não fosse pelo simples fato que ignoro o mundo todo a meu redor só para me concentrar no meu próprio e de migalha em migalha, tentar conserva-lo meio intacto, meio destruído, mas resistente aos fatos e aos castigos sempre muito duros. Egoísta, medíocre, mesquinho. Este é o meu mundo interior.

Larissa poderia estar sorrindo comigo agora. Poderia estar falando de Schopenhauer, Nietzsche, Foucault e subjetividades, que era um de seus assuntos preferidos. Depois que ela desligou o telefone, atirou contra a própria cabeça, estourando seus miolos. Larissa foi guerreira até o último momento. Tentou gritar, pedir socorro, mas quem ela queria encontrar para se salvar, não estava disposto a salvá-la. Às vezes as pessoas morrem por desamparo, fome, negligência dos órgãos públicos. Mas tem gente também que morre por causa da preguiça daquele que ela confia.

Larissa não sabe que eu lamento, que me arrependo, que me acho agora o mais desprezível de todos os seres imundamente humanos deste mundo. Ela jamais saberá disso. Jamais saberá que em vez de ir ao seu enterro, eu preferi ficar escondido no quarto a escrever meus arrependimentos e vergonha.
Mas eu escrevi uma carta me desculpando e joguei-a ao mar, que ela amava tanto estar perto para descansar.
Larissa era das águas. Não era do ar, nem do fogo e nem da terra. Era mar escorrendo de tristeza por dentro. Era onda quebrando todos os dias contra o seu peito lhe pedindo para desistir de tudo isso. Um tiro apenas resolveria tudo. Simples.
Seu pai iria para cadeia já que ela fez questão de escrever na parede do quarto: meu pai me estuprou a vida toda. Ela se vingou e matou cinco coelhos numa única cajadada. Matou o silêncio, a dor, o sofrimento, o desprezo do amigo e se vingou daquele que eu achei que a amasse incondicionalmente.

Nada trará minha amiga de volta. Nada. Nem esta história ridícula cheia de culpa, remorso e autocomiseração. Nem estas lágrimas que insistem em cair em reprovação de tudo que sou e sempre fui. Nunca serei como Larissa. Nunca serei maduro o suficiente para suportar as adversidades da vida e mesmo assim abraçá-la com afirmação como escreveu Nietzsche uma vez.
Sou rancoroso, amargo, ressentido e orgulhoso. Sou fraco de espírito e mais franzino ainda de escrita. Sou vergonhosamente miserável. Minha maior carência é de mim mesmo. Porque o que eu já fui um dia já não voltará nunca mais.

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Larissa
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A chuva cai harmoniosamente, compondo uma das canções que só a natureza é capaz de produzir para os ouvidos da alma. Pedro está lá, enterrado, silenciado para sempre. Não há nada que eu possa fazer para voltar atrás e pedir que falasse tudo que sempre teve vontade.

Impotência é a marca maior de todos os seres humanos em dor.

O dia foi carregado de culpas, remorsos, conversas em silêncio, ironicamente. Todos se perguntando: como não notei? Há quanto tempo ele estava planejando isso?
Agora todos se importam.
Mas ele já tinha decidido. E ninguém percebeu nada em meio ao caos que ele era. Em meio ao caos que somos. Em meio ao caos que estamos condenados a viver.

Pedro era um grande amigo. Desses que eu imaginei fossem envelhecer juntos a contar minhas histórias fracassadas, meus problemas, minhas inseguranças. Não sei como ele envelheceria. Mas pressuponho que ele continuaria pobre e eu, um pobre que ascendeu um pouco socialmente e que carrega como medalha de vida a superação e o orgulho de ser um burguês alcançado por mérito próprio, embora nunca me sinta plenamente igual a toda essa gente que esbarro no elevador, no supermercado e nas lojas de grife.

Engraçado como as pessoas estavam falando tanto dele, que nunca era bem lembrado. Quando acontecia, era de maneira insólita. Meu amigo nunca foi admirado. Era um estorvo para a família, um fardo a se carregar, como sempre dizia sua mãe. Quem pariu Mateus, que balance, era costumeiro ela dizer isto sempre que estava descontente com a situação financeira dele.

Pedro quase não parava em emprego algum. Tinha sérios problemas de convivência com os seres humanos. Ele dizia que as lideranças no ambiente de trabalho eram muito autoritárias, frias e até fascistas. Sua mãe e seu pai diziam que isso era preguiça de trabalhar, que ele sempre arrumava uma desculpa para não ter que acordar cedo e aceitar a realidade.

É bem verdade que Pedro nunca aceitou muito bem esta realidade, ou a nossa realidade, ou a realidade dele. Pedro sempre foi muito sensível, sonhador, cabeça na lua como ele mesmo dizia. E isso trouxe vários problemas em sua vida. Por infinitas vezes, era ingênuo. Por outras, extremamente desconfiado, bem neurótico. Aliás, neuroses não lhe faltavam nunca. Pedro tinha fobia de seringas, de sangue, de multidões.
Era de uma natureza romântica, sonhava com a igualdade, com a humanização do ‘animal humano’, como ele mesmo gostava de expor.
Gostava de viver o tanto quanto desejava morrer. Ele era esse paradoxo, essa contradição extrema. Às vezes tinha grandes hiatos em quase total desaparecimento. Por outras vezes, gostava de circular, conversar, falar do que escreveu, do que leu, do que ouviu, do que assistiu, de tudo que sentiu enquanto estava aprisionado ou livre solitariamente em si mesmo. Talvez ele fosse isto: liberdade e prisão brigando desde sempre dentro dele entre si, até o dia em que somente uma venceria. E esse dia, para espanto e susto de todos nós, chegou.

Pedro teve uma adolescência conturbada. Depressão, crises de pânico, tentativas de suicídio recorrentes. Ficou muito doente. Mas eu estava muito ocupado com a universidade, com os meus novos amigos e com a vida que eu sempre quis ter e acabei por não lhe visitar muito. Nunca soube qual era a raiz dos seus problemas. Sempre percebi que parte de muito de seus conflitos vinha de sua desestruturada família, que alimentava-se de hábitos bem machistas, homofóbicas, racistas e até fascistas.

Ele teve muita dificuldade para se assumir gay. Levou mais de sete anos desde que percebeu que gostava de meninos no início, aos treze anos, quando ainda era um adolescente cheio de medos e reprimido por tudo. Eu sempre soube que ele era gay, como ele sempre soube que eu também era.
Mas não assumíamos. Não tínhamos a coragem suficiente para bancar futuras fofocas, conversinhas pelas ruas. Éramos dois garotos com medo.

Estávamos sempre esperando que o outro contasse primeiro o seu crime para depois confessar o nosso. Acredito que nestes sete anos de medo, culpa, insegurança e homofobia internalizada o fizeram adoecer psicologicamente ao ponto de tentar se matar neste período obscuro e trágico de sua vida. A cada ano eu percebia ele mais sombrio, fechado em si mesmo, melancólico, mas nunca achei nada demais, aliás, muitos adolescentes são dramáticos nesta fase e com certeza ele iria passar desta facilmente como eu passei a minha.
Mas não.
Quando soube que ele havia cortado os pulsos e o braço no mesmo dia, na mesma noite, fiquei estarrecido e assustado. Fiz-lhe uma visita breve, conversei um pouco. Ele parecia não adentrar no mundo dos que se conformaram que a vida é essa desgraça mesmo. E que não há saída para ninguém.

Ele relutava e sangrava por dentro tanto quanto por fora. Mas naquele momento ele estava costurado e o sangue estava estancado pelos pontos. Seus olhos carregavam a tristeza de viver e enxergar o mundo como um lugar perigoso, inóspito e perverso nas suas relações. Ele sempre brigou muito contra quem tentasse lhe impor algo que ele achava injusto ou desumano depois que melhorou da depressão. Não aceitava imperativos com facilidade.
As humilhações que sofrera em casa serviram de marcas para que ele tornasse sua voz cada vez mais ativa no ambiente de trabalho, o que sempre lhe ocasionava demissões. Ele não aceitava o jogo de linguagem do poder: a submissão, a resignação, o mutismo, a humilhação constante e desmedida, a descartabilidade perversa. Ele quebrava com as regras impostas. Rasgava os protocolos, queimava todas as etiquetas. E era mandado embora. São incontáveis suas demissões.

Eu dizia que ele precisava barganhar, negociar, fazer concessões. Eu já faço isso desde que nasci, sou pobre, esqueceu? Ele sempre me respondia assim. Eu nunca lhe tirei a razão, mas sempre joguei o jogo. Deu certo. Mas o meu complexo de inferioridade ainda está latente. Você pode até conseguir sair da condição de pobre, porém as marcas da pobreza jamais sairão de você. E isto me assombra, pois carrego muito desprezo por mim por ter aceitado tanta coisa e barganhado várias vezes demasiadamente. Não sei o que me tornei; talvez uma sombra do que eu era e um assombro do que sou agora.

Sento aqui em frente à janela enquanto olho para o céu e vejo as gotas caírem sobre os telhados das casas, sobre os quintais, sobre os carros estacionados erroneamente nas ruas. As gotas invadem o meu quarto. Eu me molho e pela primeira vez, não me protejo delas. É o meu contato a partir de hoje com ele, que sempre esteve tão presente o quanto pode em minha vida.
Agora a nossa relação será através das lágrimas do céu, como ele gostava de dizer, mesmo que de modo jocoso.

O céu é a alma de Deus.
É a transparência de seu estado de espírito.

A gente ria, ele parecia falar realmente sério, por mais que fosse ateu. Talvez ele acreditasse que a natureza tinha a sua vida, o seu corpo e sua alma e por isto também sofria com as nossas ações contra ela. Mas isso seria ‘humanizar a natureza’, argumento que ele combateria com veemência. Ele gostava de dizer que os humanos jamais conseguiram sucumbir seus desejos mais cruéis, animais, perversos. Toda a animalidade inerente a nossa condição foi sofisticada pela civilização. Em casos não muito raros, alguns romperam com o acordo social cívico e deixaram seu animal falar mais alto como nos casos de violência extrema e até inacreditáveis. Toda a civilização é uma tentativa suja de maquiar o que realmente somos: trogloditas que querem uma casa decorada, um animal pequeno para enfeitar o quarto e um habitat para chamar de ‘lar’. Pessimismos a parte, eu concordava em meia parte com o que ele sempre dizia sobre este animal feroz e cruel conceituado e defendido como humano pelos iluministas.

Pedro era agradável o tanto quanto era incômodo as pessoas, inclusive a mim. Eu me incomodava com aquele jeito errado, meio desequilibrado, meio nonsense, meio rebelde, iconoclasta. Eu me incomodava principalmente quando o levava para alguns eventos privados nas casas dos meus amigos ex-universitários, pois todos já haviam concluído o curso superior, menos Pedro que tinha o ensino médio incompleto.
Me dava vergonha dele, mas fazia isto para tentar lhe mostrar que uma vida esteticamente melhor poderia ser boa para ele. Ele não reclamava dos eventos, até gostava muito. Mas eu evitava levá-lo sempre. Tinha medo que ele tivesse uma crise de pânico no meio do evento, ou quisesse ficar sozinho de uma hora para outra, sei lá. Tinha medo que ele estragasse minha imagem diante de meus colegas diplomados superiormente pela universidade federal.

Eu o preferia sozinho. Ele me ouvia sempre com muita atenção. Seus ouvidos sempre foram dedicados. Disso eu jamais pude reclamar. Tudo que eu falava numa conversa, em um ano ou dois anos depois, ele relembrava com detalhes. Eu me assustava com a sua memória. Tinha medo de que ele relembrasse alguma atitude desprezível da minha parte, algo que eu disse e não fiz, que eu prometi e não cumpri, coisas do campo do ego, sabe?
Ele tinha esta memória incrível. E eu acho que esta memória também o prejudicou, pois nada que lhe dissesse ele esqueceria facilmente. E ele ouviu muita coisa antes de ir.

Certa vez ele disse que ouvia tudo com a alma, por isso se lembrava de tudo. Eu não disse nada, só imaginei que isso devia ser bem doloroso, pois o esquecimento nos faz muito bem em vários momentos. Uma memória que trabalha demais, ressente demais também. Assim como são os escritores que eu já li. Na grande maioria são depressivos, melancólicos, suicidas. Deve ser perturbador lembrar de tudo que não quer, quando tudo que se tem que fazer é fugir delas como um rato foge do gato. Talvez Pedro não tivesse encontrado a sua melhor saída. Desistiu de fugir do gato da morte.
Entregou-se.

Engraçado como também é triste perceber que ele sempre foi o meu melhor amigo. Eu não admitia isso a ninguém. Era muito esquisito ter alguém como ele como melhor amigo. O que iriam pensar de mim? Mas a morte traz à consciência fatos, verdades escondidas, orgulhos envergonhados, culpas sucumbidas. Ao vê-lo deitado no caixão com aqueles algodões no nariz e nos ouvidos eu pude sentir o tamanho do prazer que ele me proporcionava quando estava ao seu lado. E ao mesmo tempo pude sentir o tamanho da falta que ele iria fazer na minha vida. Percebi tudo hoje ao entardecer, enquanto a lua insistia em descer e empurrava o sol para baixo a força.
O crepúsculo parecia o retrato do espírito dele quando ele adoecia. Era a noite insistindo em cair em sua mente trazendo anjos expulsos do céu, traidores da paz, demônios disfarçados.

Hoje eu percebi que nunca dei nenhuma importância a alguém que tivesse sofrido ou adoecido de depressão. Sempre achei frescura, camuflagem, auto-enganação barata e chata, vontade de aparecer enquanto tenta enganar o outro com o seu drama tentando convencer a toda força a si mesmo. Assim eu via as pessoas que sofriam de pânico e outras doenças psicológicas contemporâneas. Para mim, todas frescas, sem foco e determinação na vida. De gente assim eu fugia. Como sempre fugi de Pedro, deixando ele apodrecer sozinho por tantos e tantos anos.

Por ter se calado de medo por tantos anos, vindo adoecer até, ele ensinou a sua sobrinha adolescente a contra argumentar qualquer ‘autoridade’ em discussões em família, ou seja, contra argumentar todos os homens desta. Ele tentava desta forma, impedir que ela não se deixasse esvaziar por dentro como fizeram com ele na adolescência. Apoiou-a infinitas vezes até ela se voltar contra ele. O fracasso o invadiu desta vez na relação entre eles. Ele desejava fazer dela uma militante, ela preferia ficar em casa ao se envolver com a militância. Queria ficar namorando. A frustração só aumentava e a distância entre eles também. Até que um dia ela resolveu humilhá-lo por ele ter cortado a internet dela por falta de pagamento da própria. Ele ouviu tudo e mais um pouco. Não sabia que estava instruindo um monstro contra ele. Era o fim da linguagem. Ele pressentiu mais uma vez.

Na militância a mesma coisa: conversas e mais conversas onde maioria não ouvia por não querer ouvir. Interrompiam-se falas de um com os outros por falta de educação e respeito. Na falta de argumentos para defender a falta de postura, maledicência. Então nada ficava totalmente de acordo. Não se ouviam, não se respeitavam, não havia o mínimo respeito para o lugar do outro. E se não há o outro em nós, estamos fechado em nós mesmos.
Em outras palavras, ainda falta a tão insistente abertura para o outro. Não havia uma política de escuta, uma política da fala, nada havia ali no movimento social que produzisse um desejo a mais de avançar ou uma potência ainda maior para o diálogo com o outro. Não havia diálogo. Havia conversações, troca de ideias e isso ainda não é diálogo.
Diálogo seria ouvir com a alma, falar com a alma consultando sempre a razão e o objetivo maior de se estar falando e escutando. Neste momento, elimina-se o ego, os diplomas de graduação, de mestrado, de doutorado e pós-doutorado. Elimina-se tudo para construir algo em comum no coletivo: potências para a nossa linguagem. Comunicação assertiva. E mesmo num espaço politizado não havia possibilidade para este avanço. As pessoas pareciam mais estar interessadas em mostrar o que sabiam fazer de melhor para se auto-promover ou para mostrar que eram superiores intelectualmente ao outro.
Enquanto sinto as gotas molharem o meu rosto, percebo que o que sempre senti dele também era desprezo. Pedro, apesar de se sentir anulado subjetivamente em família, queria sempre ser aceito por eles. Eu nunca tive paciência com este desejo tão primário. Ele parecia criança. E de certo modo, se comportava como tal. Morria de vergonha quando às vezes ele falava algo que parecia impensado para nós, ilógico ou sem noção. Cheguei a pensar que o meu amigo era autista, esquizofrênico, algo deste gênero psiquiátrico. Só hoje pude perceber que se tratava de um mundo em que quase ninguém o alcançava. Pedro tinha o seu mundo, o mundo dos sonhos, das possibilidades, das realizações, das verdades. Onde tudo era possível mudar. E quando ele falava de algo de forma inesperada, era a partir deste mundo que falava e não do nosso: conformado e covarde.

Pedro muitas vezes estando em companhia, parecia solitário. Pegava-o pensando sozinho, de cabeça baixa, como quem tivesse a refletir sobre algo que não estava sendo discutido ou que não pretendia se discutir. A partir de algumas conversas, ele pegava o seu caderno e começava a escrever compulsivamente, sem dizer uma única palavra. Por isso o achava um pouco autista. Parecia que havia encontrado alguma chave secreta para alguma saída dos labirintos que ele habitava: a cultura, a linguagem, a nossa condição de miseráveis fracassados a erguer pequenos troféus de sujeitos que se sentindo invisíveis como a maioria, se fantasia de vencedores?

Ele estava sempre apto a uma reflexão. Da mais indesejada, nas horas menos esperadas até as mais pesadas como suicídio coletivo, morte assistida, suicídio individual. Aonde mora a nossa liberdade? Ele sempre perguntava isso quando insistíamos em não continuar com estes assuntos. Covardes, ele dizia e nós encerrávamos a conversa, sempre incomodados com esta capacidade de refletir pesadamente sobre coisas que sempre buscávamos fugir.

Muitas vezes ele ia embora mais cedo para cuidar da sobrinha pequena, pois a mãe costumava beber muito nos finais de semana. E a gente não entendia a razão dele ter pegado uma responsabilidade como esta sendo tão novo. Ele tinha dezesseis anos e agia como o pai da garota. Com o pouco dinheiro que recebia do estágio, comprava bonecas, alimentos e a levava para o teatro, cinema, sorveterias, parques municipais. E por isso, estava sempre apertado, sem dinheiro.
Mais da metade do seu salário de estagiário ia para as despesas da pequena. Eu sempre insistia, dizendo que ele estava fazendo algo que não era obrigação dele, que ele estava se cobrando de algo que nem o pai da criança se cobrava.

Ele me dizia que quem tem amor para dar, não perde tempo julgando quem não tem.

E nós encerrávamos assim.

Uma vez, quando conversávamos num bar após uma manifestação cansativa, nos reunimos com outros militantes e nos pusemos a conversar sobre assuntos deste tipo. Falamos das antigas lutas, dos movimentos antigos, das dificuldades daquela época, das de hoje e quando menos vimos, estávamos falando de nossas vidas privadas. E o assunto era aparentemente bobo sobre palmadas, surras, castigos que levávamos quando éramos crianças.
Chegamos num ponto em que comentávamos certos abusos sofridos por alguns conhecidos que vieram a ter sérios problemas emocionais, psicológicos e comportamentais quando se tornaram adultos. Um destes conhecidos era muito odiado pela família e chegou a se mudar do país para nunca mais ter que rever o pai, a mãe e os irmãos, bem como os parentes também, que ele quase nunca os via.
Disseram que ele se tornara andarilho, um eremita qualquer. Pedro disse que não imaginaria como teria sido a vida dele também se tivesse sofrido como este conhecido nosso. Eu não hesitei e disse: você não precisa, Pedro. Olha pra sua vida.
Pedro abaixou a cabeça. Ficou em silêncio por uns cinco minutos e quando voltou a falar, disse que estava se sentindo mal, que precisava ir embora logo. Eu achei aquela cena bem banal e como protocolo, insisti: mas já? Fique mais. Não, eu preciso ir mesmo.

Pedro não atendia minhas ligações, nem respondia minhas mensagens. Mas como Pedro era estranho, achei isso bem comum. E essa distância foi acontecendo sem importância alguma pra mim. Quando me dei conta, havia se passado quase um ano quando resolvi ligar pra ele mais uma vez nestes meses todos em silêncio. Ele me atendeu, me tratou bem. Não parecia ter se incomodado com o que eu disse meses atrás. Marcamos de dar uma volta, um passeio destes que a gente sempre fazia.
O olhar era para baixo, o semblante ainda parecia carregar o peso daquelas palavras dirigidas a ele tão cruelmente. Ele então quebrou o silêncio e disse que algumas ordens de linguagens no mundo jamais mudariam. Eu fui pego de surpresa com este assunto, mas na cabeça dele o que estávamos dizendo dialogava com o que estava falando, então perguntei a razão destas ordens não mudarem.
Pressuponho que há hierarquias que nos distanciam: pessoas, sociedades, países, continentes. Estas hierarquias se constituem em identidades, estas que se formam com muita veemência, dor e luta, pois a hierarquia pressupõe uma identidade superior ao outro e por isso, o explora. Com o tempo, identidades novas se formam, de diversas formas, mas sempre com dor, luta e veemência. Mas o que isso tem a ver com o que estamos dizendo? Fiquei impaciente e perguntei.
Que quem olha para o outro de modo superior sempre o humilhará nesta posição de inferior. E isto acontece porque a pessoa que humilha acredita que por meio desta identidade ele está autorizado a falar em nome do ‘seu lugar’ na sociedade. Continuo sem entender.
Quero dizer que quem humilha, não percebe que humilha porque acredita que certas posturas são naturais e não adquiridas através desta cultura que privilegia um enquanto subalterniza o outro. Aonde você quer chegar com isso, Pedro?
Quero chegar naqueles que por algum motivo acham que devem sair falando o que quer e o que pensa sem se responsabilizar pelo o que acontece depois. Que em cada indivíduo há uma narrativa, uma história de dor, humilhação, luta, superações, derrotas e fracassos também. E que ninguém tem o direito de apontar o fracasso alheio sem ao menos entender a razão disto.
Eu senti que aquilo era intenso e que Pedro queria gritar isso para algumas pessoas, mas não para mim, que era amigo dele. Achei que ele estava desabafando por não ter conseguido expressar isto a alguém em alguma circunstância, então ignorei.
Pedro era assim. Às vezes demorava a responder alguém, se calava e um bom tempo depois vinha com a resposta. Mas ninguém lembrava mais do que se tratava. Só ele tratava de carregar a dor e explorá-la de forma mais sofisticada, mesmo que ninguém conseguisse entender. Só ele tentava tornar leve a pedra que lhe atiravam a fim de se salvar da dor que o perseguia desde que aprendeu a ouvir e sentir.

Há em todos nós um desejo de fugir. O meu problema sempre foi fugir do Pedro quando ele mais precisava. Ele não me exigia isso também. Não me cobrava. Eu sempre achei que então estava tudo bem. Problemas todos têm, e quem quer parar para ouvir os problemas alheios? O Pedro parava. Ele sempre estava atento e disponível para me ouvir, me elogiar, me colocar para cima. Quando ele começava a falar dos problemas dele, eu mudava a direção da conversa e voltava-a para os meus. Talvez ele tenha se sufocado de tanto guardar suas dores e implodiu. E a nossa negligência foi exposta, o nosso abandono, o nosso descaso estava estampado no semblante melancólico dele enquanto os velávamos.

Nunca tive saco para entender o ser humano em suas complexidades psicológicas. O Pedro já lia Psicologia, Psicanálise, Filosofia, Sociologia, o que aparecesse sobre comportamento ele estava disposto a entender. Eu sempre gostei de analisar o coletivo, a complexidade do coletivo, suas dinâmicas. Nunca quis entender o sujeito e suas angústias, aflições e desesperos. Me cansava.
Pedro começou a escrever de uns anos para cá, a pedido do terapeuta dele. E a escrita dele resultou numa participação literária em uma antologia de uma editora pequena em São Paulo. Ele me deu um exemplar, do qual eu nunca peguei pra ler. Está guardado na estante até hoje, cheio de poeira.

Acho que na literatura ele encontrava um espaço para desabafar, gritar, chorar, já que no mundo externo ninguém dava a mínima para ele, a não ser o seu terapeuta, o que não contava, pois era o trabalho deste se mostrar interessado em entender as dores e angústias do meu amigo. Acredito que a literatura o manteve conosco por mais um tempo, por mais que a gente não percebesse. Como ele suportou tudo sozinho este tempo todo?
Eu que sou ou era mais maduro que ele, o procurava com frequência para falar de mim, dos meus conflitos no trabalho e ele? Com quem falava? Com quem se abria? Não sei. Nunca me perguntei isso antes. Assim como ninguém na casa dele parecia querer saber como ele fazia para sobreviver. A sua mãe nunca o encorajava. Quando ele conseguiu enfim, entrar para a universidade, ela disse que ele não iria completar o curso, sendo preguiçoso como ele era. Ele comentou isso comigo, mas eu não demonstrei interesse em saber se ele estava chateado, se ele queria falar mais sobre isto.

Soube do seu suicídio através de uma nota que a família publicou através do Facebook dele. A reação foi instantânea: culpa. De todos. Nós o deixamos morrer. Como não percebemos? Mas quem estava disposto a carregá-lo também?
O pai não o via há anos, principalmente depois que se separou da mãe dele. Os irmãos, casados, estavam a viver suas vidas de pessoas casadas e infelizes com o seus casamentos. Ele estava a estudar e morava com a mãe e a sobrinha. Para todos nós, ele estava bem, levando a vida como conseguia. O que afinal, todo mundo faz. Encontraram um bilhete com um aviso escrito:

Vocês nunca me conheceram. E também não se esforçaram. Eu tentei, me esforcei e até sangrei. Mas agora está cada vez mais difícil continuar. A vida parece agarrar os meus pés e me puxar incansavelmente para baixo. Estou cedendo. Eu perdi esta guerra. Espero que vivam melhores sem mim.

Adeus

Encontraram o corpo dele caído no quarto. Sua boca expelia muito sangue e uma baba constante. Envenenamento por cianureto de potássio, concluíram a perícia. Uma morte dessas é sempre planejada, pensada um bom tempo antes, disse um dos policiais e investigadores. Ele estava deprimido, triste com alguma coisa? Um deles perguntou a mãe dele. Eu achei que ele estava bem, ele nunca me dizia nada, respondeu. Geralmente é assim mesmo, os suicidas são calados, introspectivos e depressivos. Quando menos se espera, eles nos surpreendem com sua tristeza e violência. Ele tinha algum diário, algum caderno que ele gostava de anotar coisas que lhe acontecia? A mãe dele não soube responder. O policial percebeu que se tratava de uma família típica dos suicidas; negligentes, indiferentes.

E eu sempre pensei que envelheceríamos juntos. Mas não imaginava que por debaixo daquele silêncio, corria águas escuras da morte que o sugava sempre para baixo. Eu achei que ele estava curado deste abismo que o sempre tragava para as entranhas deste mundo obscuro e cheio de seres assustadores. É assim que vemos a morte; assustadora. E para alguns ela é a maior sedução; ou a única solução para este tormento sem salvação?
Talvez ele tenha só desistido. Só quis parar de sofrer. Eu quero pensar assim, pois me sinto melhor. Assim concluo que nada que fizéssemos o iria impedir de tal ato. Alguns parecem nascer predispostos a tragédias. Eu nunca acreditei nisso. Sempre acreditei que nós somos os agentes de tudo. Que podemos mudar tudo que quisermos se quisermos mudar.
Mas para Pedro talvez esta não fosse a questão. A dor enlouquece, entorpece a razão. E eu já tive dias ruins. Quem nunca têm?
Mas para Pedro parecia que ele não somente tinha dias ruins, mas períodos ruins, fases ruins que demoravam a passar. Por dentro de cada um corre rios de turbulências que somente cada um sabe, hoje percebi isto.

Não dá para fugir da tragédia da vida.

E assim ele foi para o grande lago da morte. Para o rio dos abandonados. Para o descanso dos esquecidos. Nunca pensei tanto nele o quanto pensei hoje. E nada alivia minha culpa e descaso. Acho que o desejo de morte nasce do incomunicável. Daquilo que não falamos, daquilo que fingimos estar bem enquanto consentimos nesta covardia de tentar mais uma vez por desistir de antemão do outro, porque estamos todos cansados e indispostos a aceitar o outro com toda a glória e desgraça que ele nos propõe. Assim não nos responsabilizamos por ninguém. Mas gostamos de culpar o outro quando ele não nos atende, nos falta. E assim vamos usando o outro como um objeto, uma mercadoria que é explorada pelo desejo do seu consumidor. E que é descartado assim que sua utilidade foi totalmente explorada em seu uso. E não reciclagens nestas relações. Só há incomunicabilidade, dedos apontados em riste, acusações, culpas, ressentimentos, remorsos e invejas. O que resta a cada um é suportar as boas lembranças que nos uniram e as péssimas que nos distanciaram, nos separaram para sempre.

Pedro me uniu a ele porque ele sempre esteve aberto para mim, para tudo que eu trazia para ele. Eu sempre me fechei para não me sobrecarregar demais. Só queria suportar os meus pesos e nada mais. Não é o que todos fazem?
Cai uma gota de chuva em meu rosto enquanto também escorre uma lágrima de arrependimento. Agora entendo o que ele quis dizer uma vez ao se referir a queda das gotas da chuva.

Cai lá fora como cai aqui dentro.

Sim, cai aqui dentro de mim todas as lágrimas que você nunca chorou comigo por eu nunca querer ter te escutado. Cai lá fora como cai aqui dentro, a dor em gotas que se somando a todas as gotas que você suportou sozinho, se tornaram a tempestade em que você se tornou após tanto tempo tentando ser entendido aqui entre estes que nunca quiseram te entender. Cai lá fora pedaços de mim que eu nunca irei recuperar, pois você se foi sem ao menos me dizer adeus. Sem se lembrar do amigo que você nunca sentiu de verdade que teve. E eu acho que você não se enganou. E eu não posso pedir perdão por isto, pois você é agora o que sempre foi:

silêncio absoluto.

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Como a chuva
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