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Paulo Giacomini
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"FALA DA RNP+ SP POR OCASIÃO DO EVENTO 30 ANOS DE RESPOSTAS POSITHIVAS – PROGRAMA ESTADUAL DE DST/AIDS DE SÃO PAULO

Quero cumprimentar a Dra. Maria Clara Gianna, coordenadora do Programa Estadual de DST/AIDS de São Paulo e ao Dr. David Uip, Secretário de Estado da Saúde de São Paulo, por meio de quem cumprimento a toda a mesa.

Quero dedicar esta fala à paulista Gabriela Leite. Gabi, essa é pra você.

Senhoras, senhores,
Estamos todas e todos aqui para celebrar os 30 anos da primeira resposta à epidemia de AIDS no Brasil. Celebramos os 30 anos de um programa de controle de uma epidemia construído sob os pilares da participação social, cara bandeira da Reforma Sanitária em 1983, agregada à Constituição Federal cinco anos depois em todo escopo da Saúde Pública brasileira.
Celebramos os 30 anos da primeira resposta brasileira à epidemia, mas também os mais de 20 anos que São Paulo foi o primeiro Estado brasileiro a distribuir antirretrovirais às pessoas vivendo com HIV e AIDS. Celebramos, neste ato, o embrião do que posteriormente foi premiado como o Melhor Programa de AIDS do mundo, principalmente pelo pioneirismo e pela inovação.
Pioneiro e inovador justamente por acreditar, num país então de baixa renda, que distribuir antirretrovirais manteria a vida das pessoas acometidas por uma doença até hoje mortal e reduziria a transmissão do vírus, o que de fato aconteceu em maiores ou menores proporções.
Celebramos a criação de um programa construído, tijolo por tijolo de sua estrutura, sob a égide dos Direitos Humanos, da atenção integral às pessoas acometidas pelo vírus da AIDS e pelo respeito às escolhas individuais destes mesmos seres humanos. A partir de 1983, no Estado de São Paulo, não era preciso carteira de trabalho assinada, não era preciso ser trabalhador para ter-se atenção integral à saúde se portador ou portadora do vírus HIV. Muito pelo contrário. A partir daquele ano, há 30 anos, para receber atenção integral e tratamento digno era possível ser homossexual, usuário de droga, prostituta ou hemofílico, sem o menor constrangimento.
Faz-se imprescindível ressaltar essas características em tempos em que se ignoram os Direitos Humanos e que acordos pela garantia de votos são mais importantes que a Saúde Pública de 200 milhões de brasileiros, tempo em que a religiosidade começa a mostrar-se mais laica que o próprio Estado.
É tempo de celebração. Celebramos aqui importantes vitórias da luta contra a AIDS em todo o Estado de São Paulo e em todo o Brasil. Por isso, é muito importante, também, que lembremos e apontemos alguns gargalos.
O primeiro gargalo é o mais profundo esquecimento dos Direitos Humanos como pilar da resposta brasileira à epidemia. Quando campanhas e materiais dirigidos a populações altamente vulneráveis ao HIV são censurados, desrespeita-se o cidadão, o contribuinte e o consumidor. E diz-se, com o silêncio, um enorme palavrão às populações cuja autonomia e Direitos Humanos foram propositalmente esquecidos.
Outro gargalo está no tempo de espera entre o diagnóstico positivo para o HIV e a primeira consulta com um infectologista em um Serviço de Atendimento Especializado, serviços estes organizados a partir dos anos 90. No entanto, ao invés de se falar em expansão de profissionais e serviços, fala-se em transferir essa atenção especializada para a Atenção Básica. O Estado de São Paulo, como pioneiro na resposta à epidemia de AIDS no Brasil tem de dizer um rotundo não a essa pauperização da atenção integral às pessoas vivendo com HIV e AIDS. Quem sabe, no dia em que a Atenção Básica fizer a abordagem sindrômica das doenças sexualmente transmissíveis e perder o medo de diagnosticar e tratar a sífilis congênita esta mudança venha a ser oportuna. A AIDS se cronificou, mas não se tornou uma gripe. Não por enquanto. Por isso, não é a resposta das pessoas que vivem com HIV e AIDS no Estado de São Paulo. Não é a resposta das Pessoas Vivendo com HIV e AIDS no Brasil.
Um terceiro gargalo está no mais completo desaparecimento dos profissionais capacitados para proceder às cirurgias contra a lipodistrofia, o que vem acarretando depressão e certamente acarretará em mais mortes por abandono do acompanhamento médico e do tratamento antirretroviral.
Há outros gargalos. Por exemplo, o da falta de laicidade do Estado e de alguns profissionais de Saúde que injetam doses cavalares de moral, religião e costumes em suas consultas, que mais parecem preleções religiosas. A Saúde Pública tem de ser isenta. Isenta de partidos políticos, de governos, de religiões e de crenças.
Mas um dos maiores gargalos se configura no aconselhamento, que deve olhar para o indivíduo enquanto sujeito de direitos e não enquanto sujeito que pode vir a ter direitos se adotar os comportamentos prescritos. Deve-se prescrever a adoção de práticas sexuais seguras, de estratégias de promoção da saúde e de prevenção de doenças. Mas não se pode prescrever o isolamento e a invisibilidade. 
O isolamento esvazia o movimento social. A invisibilidade descaracteriza e esfria a participação social. Juntos, o isolamento e a invisibilidade se fortalecem e nos enfraquece. Não apenas a nós, das redes de pessoas vivendo com HIV e AIDS; não apenas a nós das ONG que trabalham com as questões em torno da AIDS. Mas enfraquece trabalhadores e gestores da saúde. Enfraquece o nosso já tão combalido Sistema Único de Saúde. 
Está em consulta pública o novo consenso brasileiro para tratamento antirretroviral. O documento incentiva prescritores de antirretrovirais a estimular o início da terapia de alta potência já a partir do diagnóstico. É preciso mais do que estimular. É preciso incentivar, motivar as pessoas com HIV e AIDS não apenas aderirem à medicação e ao tratamento, mas à luta.
Porque apesar de tantas vitórias, ainda precisamos de muita luta. Precisamos lutar pela manutenção de nossos medicamentos; precisamos lutar pela manutenção de nossos serviços; precisamos lutar pela manutenção de nossos profissionais de saúde; precisamos lutar pela manutenção das ações de prevenção e de assistência desenvolvidas pelas ONG. Precisamos lutar pela manutenção da resposta, pelo pioneirismo e pela inovação baseados nas evidências contextualizadas da realidade brasileira. Porque ainda hoje, mais do que nunca, precisamos lutar pela manutenção da vida. Das nossas vidas. Viver com AIDS é possível, com a invisibilidade, o isolamento e o abandono, não.
E já que parodiei um slogan governamental, termino parodiando um slogan nosso, da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e AIDS: um dia, no passado, já nos escondemos para morrer. Hoje, mais do que nunca, precisamos nos mostrar para viver!
Obrigado."

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