Profile cover photo
Profile photo
Segundo Plano
7 followers -
Página digital de cultura cinematográfica.
Página digital de cultura cinematográfica.

7 followers
About
Posts

Post has attachment
Ano Passado em Marienbad
Alain Resnais, 1961

Em um suntuoso hotel da Europa Central, um homem tenta induzir uma mulher, acompanhada por um marido perturbador, a lembrar-se de manter sua promessa de fugir com ele, feita um ano antes, mas ela não consegue se lembrar.

Com sua elegante e musical organização do espaço e do tempo, Resnais transforma o mundo, descrito no roteiro de Alain Robbe-Grillet com sua prosa seca e ousada que caracteriza a "escola do olhar", em um universo onírico, em um espetáculo encantatório em que, reduzida a mera aparência, a realidade assume diferentes significados.
Photo
Add a comment...

Post has attachment
Um Toque de Pecado (Tian zhu ding)
Jia Zhangke, 2013

Na desolada província de Shanxi (terra natal de Jia Zhangke), um homem conhecido por sua oposição à corrupção não resiste à sensação de impotência e, com um rifle na mão, decide acabar com o mal pela raiz. Em um centro rural do sudoeste, um trabalhador retorna para casa de sua família depois de algum tempo e não consegue mais adequar-se ao ritmo de uma vida sedentária. Em uma cidade da China central, a recepcionista de uma sauna tenta mudar de vida sem sucesso e, ao voltar à precedente, é agredida e humilhada pelos clientes. E finalmente, na cidade industrial de Dongguan, um rapaz deixa e retoma vários empregos dentre os quais um de garçom de muitos bordeis locais disfarçados de atividade legal.

Os quatro segmentos dividem-se quase matematicamente em quatro seções que duram cerca de trinta minutos cada, com importância igualitária entre eles, mostrando, sem filtros, a descida ao inferno na sociedade chinesa. A China, onde os empregos se multiplicam, as oportunidades não faltam e tudo parece fácil, esconde uma tensão social causada pelo desenvolvimento excessivamente rápido, como uma bomba relógio prestes a explodir. Tal explosão em Um Toque de Pecado toma a forma mais clássica da violência deliberadamente clamorosa, súbita, brutal, desenfreada e terrível, justamente porque esta é fruto de sentimentos irreprimíveis. Mas não é a violência real, a que se torna notícia de jornais, o foco de Jia Zhangke: seus cidadãos enlouquecidos que matam como um predador feroz em uma floresta selvagem são personagens problemáticos que sentem na pele a tragicidade da vida cotidiana.

Contrariamente a seu estilo característico, o diretor chinês não desvia em momento algum o olhar e a atenção ao massacre externo direto, aos seus cortes e seus disparos. Jia Zhanghe mostra todo o sangue resultante da devastação efetuada por seus personagens, que não são assassinos profissionais, mas homens e mulheres exasperados em um país no qual os garotos definem o resto do mundo como "falido". Um Toque de Pecado distancia-se bastante do tom e ritmo sóbrios dos trabalhos precedentes de Zhangke, rumando para um cinema mais comercial, mas sem dispensar uma irônica dose de humor e sua magistral capacidade de colocar em cena um pequeno mundo repleto de sensações complexas. Sacrificando um pouco de rarefação por um ritmo mais acelerado, Jia Zhangke é capaz de transmitir sua mensagem para um público mais amplo, com uma potência simples e direta que, de qualquer forma, continua sendo a grande prerrogativa do melhor cinema.
Photo
Add a comment...

Post has attachment
Viagem ao Fim do Mundo
Fernando Cony Campos, 1968

O ano de 1968 foi vital para uma mudança drástica no panorama político do Brasil: foi neste ano em que foi aprovado o AI-5, ato institucional proibicionista responsável pelas maiores atrocidades da ditadura militar. Cineastas, artistas, jornalistas, ativistas políticos da oposição e diversas figuras do meio cultural sofreram exílio, prisão, tortura e assassinato. Nessa época, diversos movimentos cinematográficos surgiram no país, como o Cinema Marginal e o Udigrudi / "boca do lixo", com o intuito de destruir as correntes impostas pela política vigente. Distanciando-se destes e estabelecendo suas próprias regras, Fernando Cony Campos realizou Viagem ao Fim do Mundo, com sequências levemente baseadas nas obras de Machado de Assis (Memórias Póstumas de Brás Cubas) e Simone Weil, a quem a obra é dedicada.

Ambientado quase que completamente dentro de um avião, Viagem ao Fim do Mundo não possui uma estrutura narrativa convencional; cada personagem parece viver em seu próprio universo, como se os outros passageiros do voo fizessem parte de seus universos particulares, que acabam interagindo entre si. Um jovem encantado com a garota propaganda que acabara de conhecer e interage com Pandora, personificação da natureza; um velho decrépito que tenta seduzir garotas mais jovens e não possui as melhores das intenções; uma freira que condena sua já abalada fé em Deus; jogadores de futebol cujos pensamentos beiram ao existencialismo; uma personagem denominada dentro do próprio filme como "um erro de continuidade que só aparece nos planos ímpares", quebrando a quarta parede do filme; nada em comum liga os protagonistas do filme, mas todos estes são essenciais para que o filme se desenvolva ao explorar o que há dentro das mentes de cada um destes.

No decorrer da história, filmagens de tiranos como Hitler, Mussolini e Stalin intercalam-se a cenas de morte, destruição e uma clara alusão ao regime militar brasileiro, quase como uma previsão do que estaria por vir no decorrer dos anos. O mito da existência de Deus, os dogmas católicos e a hipocrisia religiosa são denunciados sem misericórdia pela freira, representação da filosofia de Simone Weil no filme, como uma afronta aos pilares da igreja, sempre unida à política, especialmente num país onde a falta de fé ou religião é mal vista até os dias atuais. Viagem ao Centro do Mundo é uma produção rigorosamente experimental, ambiciosa e corajosa até seu último minuto, exemplar único de um cinema que infelizmente torna-se cada vez mais raro.
Photo
Add a comment...

Post has attachment
Vencer (Vincere)
Marco Bellocchio, 2009

Um jovem socialista revolucionário acidentalmente conhece uma jovem passional como ele, Ida Dalser. O jovem se chama Benito Mussolini e Ida o acompanhará em suas ações políticas e lhe dará um filho, Benito Albino. Contundo, descobrirá que seu casamento, na igreja, tem muito menos valor que o que Mussolini contratou civilmente com Rachele Guidi, com a qual teve uma filha, Edda. A ascensão política de Mussolini é irrefreável, assim como sua decisão de excluir de sua vida tanto Ida quanto o filho. Ida tentará convencer a si mesma que se trata apenas de um teste e tudo irá se resolver de forma positiva, mas para ela não sobrará nada além do filho morto em um hospital psiquiátrico circundado por uma cortina de esquecimento.

Bellocchio faz uma interessante leitura que coloca em jogo a psiquiatria, e acima de tudo, a psicanálise, que estuda a relação entre o poder e as massas. Enquanto a loucura torna-se cada vez mais coletiva e participativa no país, a normalidade (Ida) é tratada como um desvio. Enquanto a Itália corre em direção à Segunda Guerra Mundial, Ida e seu filho sofrerão os tormentos da clausura dos Institutos. O filme é constituído na forma de um melodrama, tanto no plano musical quanto em sua estrutura, enriquecido com materiais de arquivo, seguindo a paixão dominante do início rumo à desilusão e a morte.
Photo
Add a comment...

Post has attachment
Mahler
Ken Russell, 1974

Em um trem para Viena, o compositor Gustav Mahler relembra, sem nenhum compromisso com a cronologia, sua vida através de histórias vividas, recordações, sonhos e pesadelos. Uma obra muito mais homogênea e coerente que a maioria de seus filmes, mas Ken Russell não poupa o maestro e compositor de uma ácida autoparódia: maltrata Mahler submetendo-o ao seu exercício preferido de visionária e provocativa manipulação. Contudo, em sua inconfundível mistura de invenções figurativas inusitadas e imaginativas, oscilando sempre entre o kitsch e o lugar comum, Russell dirige um filme com uma insólita ternura e repleto de momentos ironicamente delicados e apaixonados.
Photo
Add a comment...

Post has attachment
A Cor da Romã (Sayat Nova)
Sergei Parajanov, 1968

A vida do trovador armênio Sayat Nova, que viveu no século XVIII, da infância à corte real, do retiro em um convento à morte, através de uma série de episódios, estáticos como quadros que não contam, mas mostram, evocam, sugerem por meio de várias metáforas, analogias, estros surrealistas e paisagens oníricas. Tudo acompanhado por uma trilha sonora (músicas, ruídos) tão importante quanto a composição visual pictórica. Hermético, mas deslumbrante.
Photo
Add a comment...

Post has attachment
Gotas D'água Sobre Pedras Escaldantes (Gouttes d'eau sur Pierres Brûlantes)
François Ozon, 2000

Um filme francês dedicado à generalidade de Rainer Werner Fassbinder. Adaptação de seu primeiro texto teatral, nunca antes levado ao cinema, edividido em três atos, cada um concluído com uma cena na cama, Gotas D'Água Sobre Pedras Escalndantes narra a história de um garoto (Franz) seduzido por um sofisticado homem de meia idade (Leopold) e a relação de poder e crueldade que se estabelece entre eles. Com a chegada de suas ex-namoradas, tudo finalmente entra em colapso. No mundo de Leopold, ambientado na Alemanha dos anos 1970, atmosfera kitsch e trilha sonora em alemão de Françoise Hardy e Raffaella Carrà, o hedonismo pret-à-porter esconde um niilismo substancial. Um ato de devoção e êxito notável da parte de François Ozon.
Photo
Add a comment...

Post has attachment
Os Anões Também Começaram Pequenos (Auch Zwerge Haben Klein Angefangen)
Werner Herzog, 1970

Em lugar não identificado, onde todos os habitantes são anões, uma rebelião provoca um crescimento gradual de vandalismo, loucura, violência e atoscruéis, tornado-se quase um catálogo de sadismo, radicado no mundo animal e na natureza. É um dos filmes mais extremos, surreais e perturbadores de Herzog, que dirigiu, produziu e compôs a trilha sonora, sistematizada inteiramente em uma dimensão crítica. Um pesadelo narrado como tal, sem uma lógica e, em seu padrão caleidoscópico, sem um desenvolvimento linear nem um final, mas com base em um grande rigor estilístico: a figura recorrente do círculo indica uma uma situação contínua e sem saída.
Photo
Add a comment...

Post has attachment
Elisa, Vida Minha (Elisa vida mia)
Carlos Saura, 1977

Uma jovem mulher em crise matrimonial (Geraldine Chaplin) vai visitar o pai que se mudou para uma casa de campo, na província de Segóvia, e que via há muitos anos. Descobre que ele está gravemente doente e está escrevendo um romance/diário em primeira pessoa. A ficção mistura-se com a realidade e, por vezes, a evita ou a causa. Estruturado como um duplo monólogo interior do pai e da filha, mas com a voz em off invertida, e repleto de temas existenciais, é o primeiro filme de Carlos Saura após a morte de Franco e também o primeiro sem alusões ou referências ao contexto social, mas talvez seu filme mais intimista e introspectivo.

A atmosfera solitária e melancólica da casa de campo entrelaça-se de modo indissolúvel à contiguidade sem censura entre presente e passado, como se os fantasmas estivessem diante dos olhos ou os olhos interiores se sobrepusessem às coisas tangíveis, como se fosse a materialização da consciência, sensação exaltada misteriosamente pela Gnossienne No. 3 de Erik Satie, através de sua hipnótica simplicidade ou, de forma ainda mais profunda, através da ária Fatal Amour do "acte de ballet" Pigmalion, de Jean-Philippe Rameau, obra baseada no mito grego homônimo, no qual um escultor apaixona-se por uma estátua sem vida, fruto de sua própria criação.
Photo
Add a comment...

Post has attachment
Roma
Federico Fellini, 1972

Retrato cruel e visionário, com base em um inspiração autobiográfica, sobre a Roma dos fascistas dos anos 1930, assim como a dos 1970. Cinema documental e fantástico ao mesmo tempo, sob um perspectiva histórico-impressionista na qual a capital italiana é mostrada como um museu antropológico e do imaginário que reflete a relação de amor e ódio de Fellini com a cidade. Sua Roma é a de suas recordações inventadas (ou de seus personagens), de sua imaginação e seus pesadelos pessoais. Uma Roma que, por uma lado, como em um trompe-l'oeil, segue um viés de realidade, com sua trupe cinematográfica (pitoresca, mas concreta) e o próprio Fellini como protagonista, e por outro, segue um caminho mais esquemático, transformando-se em uma espécie de narrativa proustiana com um personagem jovem e incerto como o verdadeiro Fellini quando, às vésperas da guerra, deixou sua província para mudar-se para a Cidade Eterna.

Fellini entende que não há necessidade de construir um filme intelectual ou com esquemas rígidos demais para compreender o sentido mais profundo de um povo. Roma é uma linda confusão, a pintura cinematográfica de um gênio que não impõe barreiras em relação ao que representa nem ao modo de representá-lo.
Photo
Add a comment...
Wait while more posts are being loaded