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Chomsky: "há 50 anos, o mundo esteve para acabar"

Uma resenha (e uma advertência) sobre a crise nuclear que teve Cuba como pivô e quase levou EUA e União Soviética ao Armagedon

O episódio mais tenso da Guerra Fria e provavelmente a maior ameaça já vivida pela humanidade completará 50 anos no próximo dia 28. Nas duas últimas semanas de outubro de 1962, Estados Unidos e a então União Soviética (URSS) estiveram muito próximos de deflagrarem, entre si, uma guerra atômica que teria arrasado boa parte do planeta.

Muitas análises serão publicadas a respeito do episódio, nos próximos dias -- mas vale a pena ler com atenção uma delas, escrita por Noam Chomsky e recém-publicada (em inglês). Apoiado numa vasta análise de documentos secretos desclassificados, Chomsky sustenta entre outras coisas que:

> No lado norte-americano, a crise foi manejada por um comitê extraordinário (o ExComm) formando na Casa Branca, sob presidência de John F. Kennedy. Boa parte de seus integrantes acreditava que a guerra total contra a URSS era inevitável. O próprio Kennedy avaliou, depois, que os riscos chegaram a ser de 50%. O secretário de Defesa, Robert McNamara, indagava-se, no momento mais tenso, se teria a chance de "viver outra noite de sábado".  

> Riquíssimo tanto na análise geral quanto nas minúcias, Chomsky descreve, por exemplo, os dois momentos mais tensos nas semanas decisivas. O mundo pode ter sido salvo, mostra o relato, pela frieza do capitão de submarino nuclear soviético Vasili Akhipov, em 27 de outubro. Ou, um dia antes, pelo major Don Clawson, piloto de bombardeiro B-52 norte-americano armado de ogivas atômicas. "Tivemos muita sorte por não explodir o mundo", diria ele depois.

> As raízes da crise estão na tentativa de invasão de Cuba por mercenários treinados pela CIA, em 1961. Mais ou menos à mesma época, na escalada de ameaças da Guerra Fria, os EUA instalaram mísseis nucleares, dirigidos contra a URSS, na Grã-Bretanha, Itália e Turquia. Em resposta, e com apoio de Havana, Moscou instalou na ilha mísseis nucleares apontados para os Estados Unidos -- que consideraram o fato inaceitável.

> O conflito ocorreu no momento em que poder global norte-americano estava no auge. Ao final de duas semanas, durante as quais um mero acidente poderia ter desencadeado a catástrofe nuclear. Moscou cedeu. O líder soviético, Nikita Kruschev, anunciou publicamente a retirada dos mísseis de Cuba. Os EUA aceitaram, como contrapartida secreta, retirar foguetes da Turquia. Mas não o admitiram de modo aberto e se tratava, de qualquer forma, de armas obsoletas, prestes a serem substituídas. A atitude de URSS enfureceu a liderança cubana. Durante todo o tempo, Washington rejeitou um acordo que significasse sua sujeição ao direito internacional. Buscava (e alcançou, à época), estabelecer-se como um poder supremo, livre de qualquer outro controle.

> Chomsky lembra que a ameaça de catástrofes nucleares permanece aberta, mesmo após o fim da Guerra Fria. Muito mais países desenvolveram capacidade e arsenais atômicos. Índia e Paquistão estiveram à beira de um conflito. Os EUA insistem em manter Israel como única potência nuclear do Oriente Médio. O artigo termina com uma citação de Albert Einstein e Bertrand Russel. Dez anos antes da crise, eles haviam advertido que a humanidade está diante de um dilema "cru, terrível e inescapável: vamos acabar com a espécie humana, ou seremos capazes de renunciar à guerra"?  
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