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Jorge Cruz
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Igreja de São Francisco [interior] – Porto (Portugal).

A chegada dos frades franciscanos à cidade do Porto aconteceu praticamente ao mesmo tempo que o estabelecimento da ordem nas cidades mais populosas do Sul do país (Lisboa e Santarém), estando a sua presença na cidade da foz do Douro testemunhada logo em 1223. A construção da sua igreja iniciou-se, ao que tudo indica, em 1244, mas as resistências por parte das autoridades religiosas tradicionais da cidade e a eventual falta de apoio financeiro, determinaram que as obras se tivessem arrastado por todo o século XIII e que o resultado final tenha sido um templo modesto, de dimensões reduzidas e, muito provavelmente, de uma só nave (BARROCA, 2002, p.51).
No reinado de D. Fernando, monarca que concedeu particular protecção aos franciscanos, procedeu-se à construção do templo que hoje subsiste. As obras iniciaram-se já no ano da morte do rei, em 1383, e prolongaram-se pelos primeiros anos do século XIV, entrando, muito provavelmente, pela segunda década.
Pretendeu-se, acima de tudo, dotar a instituição de condições mais favoráveis à sua acção, pelo que se ampliou consideravelmente a anterior igreja. O resultado foi um templo de três naves de cinco tramos, transepto saliente e profusamente iluminado e cabeceira tripartida, com capela-mor mais profunda e cintada por grossos contrafortes. O modelo planimétrico adoptado não foi mais que o já ensaiado em variadíssimos templos góticos do país, a partir do gótico mendicante do século XIII. Mas a obra de São Francisco do Porto possui uma marca regional importante, que ajuda a caracterizar o Gótico nortenho da transição para a dinastia de Avis. Sintoma disso mesmo é o "lacrimal decorado com bolas" na parte superior das frestas da capela-mor (BARROCA, 2002, pp.52-53), elemento que prova uma certa influência galega na região Norte do país por esta altura.
Nos séculos seguintes, a igreja de São Francisco do Porto foi objecto de várias campanhas artísticas. Ainda do século XV, do reinado de D. João I, é a pintura mural alusiva à Senhora do Rosa, obra atribuída a António de Florentim e uma das mais antigas pinturas murais conservadas no país. Da década de 30 do século XVI data a Capela de São João Baptista, desenhada por João de Castilho e que constitui um dos momentos-chave na evolução deste que foi um dos principais arquitectos do ciclo manuelino.
Mas a principal campanha moderna da igreja de São Francisco foi efectuada na época barroca, remodelação que confere ao interior do templo, ainda hoje, o estatuto de igreja forrada a ouro. Com efeito, nos inícios do século XVIII, todo o interior, engrandecido ao longo da centúria anterior, foi objecto de uma remodelação radical, construindo-se, então, os principais retábulos de talha dourada. O retábulo-mor, dedicado à Árvore de Jessé, foi reformulado entre 1718 e 1721 por Filipe da Silva e António Gomes, sobre uma obra pré-existente, e constitui o mais exuberante exemplo desta temática em Portugal. Mais modesto, o Retábulo de Nossa Senhora da Rosa data já da década de 40, da responsabilidade do arquitecto Francisco do Couto. E foram muitas as actualizações estéticas que se prolongaram por todo o século XVIII, como o prova ainda o portal, enquadrado por pares de colunas salomónicas suportando um amplo entablamento, e outras obras já rococós.
No século XIX, com a extinção das ordens religiosas e um violento incêndio ocorrido em 1833, logo a seguir ao cerco do Porto pelas tropas miguelistas, o convento entrou em decadência. O claustro foi arrasado para dar lugar ao Palácio da Bolsa e a igreja foi ocupada para diversos fins, como o de armazém da Alfândega da cidade.
A importância desta igreja para o Porto e para toda a História da Arte portuguesa está bem expressa na atenção que a DGEMN lhe consagrou aquando do restauro iniciado em 1957. Ao contrário do que sucedeu na esmagadora maioria dos nossos monumentos de origem medieval, em que toda a obra pós-medieval foi sacrificada, em São Francisco do Porto tudo se manteve.
[Fonte: PAF – DGPC].

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