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Sara Wagner York
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Nina Simone em “You’ve Got To Learn“, canta uma lógica que nos faz pensar quem incluímos ou não em nossas ações cotidianas. Quem continua a seguir uma página quando suas notícias não mais lhe interessam ou ainda quem mantém no pé um sapato que não mais lhe cabe? Tenho aprendido nessa caminhada que, exatamente como trazidop por um colega nesta manhã em um grupo de parceiros, precisamos levantar da mesa quando o amor não é mais servido.

Nem se trata de sermos afetuosos ou não, mas de estarmos prontos para aquele mínimo de respeito ao ouvir o que o outro está dizendo. Se por um lado, enquanto discutia e compreendia numa aula as inflexões para acompanharmos o mundo na lógica da IDC e do que é a revolução industrial 4.0, por outro pergunto, de que adianta toda conectividade e unipresença se não estamos sabendo lidar com nossas prioridades com a qualidade requirida?

Depois eu faço...

O depois tem se tornado o nosso maior aliado na lida e se por um lado procrastinar não é um palavra nova, tanto a lógica em fazer sem paixão para cumprir metas seja. O telefone já não toca mais, a casa está mais funcional, as mensagens são online. São muitas as formas de acesso para se comunicar em tempo real, mas e a qualidade? Não tenho falado com meu filho e minha casa (nova) ainda não é auto limpante, todos os dias me pergunto até quando.

Lembro me que assistia aos filmes de pessoas que corriam em suas rotinas super pontuais e achava aquilo um absurdo, me lembro de viver na rua e não ter nada disso além do tempo, me lembro de ligar e ter o afeto do meu filho, mas tenho me lembrado muito. Tenho me tornado uma dessas pessoas que corre, mas nunca sem esquecer a qualidade do amor que tenho dado...

<3

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É pra sair na foto!

Diante da ação do STF desta semana, tenho aprendido e constatado o óbvio, a MINHA causa não é a SUA causa.

Ao termos uma decisão, que talvez possa ser vista por muitos como o maior evento Pró-LGBTQI+ da história, que diz sobre a possibilidade do seu corpo ser realmente seu, uma constatação se tornou clara e evidente, pra mim que sou uma pessoa TRANS e HETEROSSEXUAL (como a maioria dos meus amigos), o mundo não quer saber da sua causa, mas os que são gigantes, estes o querem!

A minha causa, ela não é necessária por que está em voga, ela está em voga por é necessária. Estamos falando de direitos básicos de vida, na formação e para construção e garantia de dignidade humana. Não se trata de ampliar direitos, mas assegurar os fundamentais, que antes eram ignorados.

O STF trouxe pro centro uma discussão que achávamos estava longe de ter uma unanimidade, e talvez para fazer parecer que a sociedade "patriarcapitalista" esteja menos envolto ao caos, os ministros reconheceram que pessoas trans, possam adequar sua documentação civil ao gênero que se percebem. Mas e o que é pessoa TRANS? São aquelas como eu, que nascidas dentro de uma compreensão binária com sexo masculino, estejam em consonância com o modos, vida e atribuições (sociais, psi ou whatever...) do universo oposto aquele delimitado ou pré definido. Não se trata de um homem no corpo de uma mulher, mas de uma mulher e/ou um homem num corpo que foi constituído e que produz compreensões, puro e simplesmente diferentes daquilo tido ou permitido através do desenho genital.

O termo trans ou pessoas T é particularmente novo, mas nada que quem esteja vivo e em sociedade em 2018 não precise saber. É como eu penso, por exemplo, a previdência privada, eu nunca dei valor ao fato de me programar antes, até pensar na minha velhice, mas o fato de nunca ter dado valor a isso, não significa que ela não existisse ou dela eu pudesse ou não participar. Eu ignorava o fato da Previdência Privada existir pra mim e pra tantas outras pessoas. Assim são as noções sobre CIS e TRANS, você não precisa saber o que é, mas ao saber do que se trata, você compreenderá o lugar de privilégio ou não que sua existência lhe "permite" nessa terra.

Fiz um pedido simples pra alguns dos grandes nomes, e são grandes por que EU os considero grande, e não por que a maioria sabe, na verdade a maioria não tem noção da grandiosidade de algumas causas, quiça de pessoas, mas ao perguntar ao meu amigo CIS-hetero-(como eu)-aliado se ele poderia escrever umas ou duas linhas sobre a minha causa, tive a alegria de perceber, que aqueles os quais eu julguei "Grandes Homens" eles de fato o eram e foram lá fazer a lição de casa, contextualizando um ganho imenso na/da comunidade a qual não pertencem.

Vale lembrar também que pressupostos do que é home também já passa por outras compreensões, tenho amigos que são 100% homens, mesmo nascidos mulheres. Entretanto o fato desde homens beijarem a boca por exemplo, de outros homens em público, ainda é visto como desrespeitoso por muitos, então lembremos que para construção dos alicerces da dignidade humana, muitos sequer podem experienciar o amor como realidade plena e social, e não é por falta de parceiro, como no meu caso, mas por simplesmente terem seus afetos negados nos cotidianos que estão inseridos.

Por outro lado, sigo vendo que mesmo dentro das causas, uma série de compreensões se abriram a partir disso, e a pergunta que uma amiga fez foi, "e o nome de mulheres divorciadas, quando poderá ser corrigido com a mesma facilidade?" A minha cabeça passou pelo título deste texto. Em seguida ponderei. O que posso aprender agora que até o povo da toga, que me outorga a mulheridade que sempre tive, me autoriza a ser quem sou?
Eu não sei responder, por que sendo mulher a partir de 01/03/2018, na compreensão do STF, que me autoriza a falar por mim, ainda não tive tempo de pensar em outras coisas, de me casar e (talvez) requerer o divórcio, este foi apenas o terceiro dia...

#escrevendo600palavraspordia #SFT #transvivencia #sarayork #sarawagneryork #pensandoalto
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Diante da ação do STF desta semana, tenho aprendido e constatado o óbvio, a MINHA causa não é a SUA causa.

Ao termos uma decisão, que talvez possa ser vista por muitos como o maior evento Pró-LGBTQI+ da história, que diz sobre a possibilidade do seu corpo ser realmente seu, uma constatação se tornou clara e evidente, pra mim que sou uma pessoa TRANS e HETEROSSEXUAL (como a maioria dos meus amigos), o mundo não quer saber da sua causa, mas os que são gigantes, estes o querem!

A minha causa, ela não é necessária por que está em voga, ela está em voga por é necessária. Estamos falando de direitos básicos de vida, na formação e para construção e garantia de dignidade humana. Não se trata de ampliar direitos, mas assegurar os fundamentais, que antes eram ignorados.

O STF trouxe pro centro uma discussão que achávamos estava longe de ter uma unanimidade, e talvez para fazer parecer que a sociedade "patriarcapitalista" esteja menos envolto ao caos, os ministros reconheceram que pessoas trans, possam adequar sua documentação civil ao gênero que se percebem. Mas e o que é pessoa TRANS? São aquelas como eu, que nascidas dentro de uma compreensão binária com sexo masculino, estejam em consonância com o modos, vida e atribuições (sociais, psi ou whatever...) do universo oposto aquele delimitado ou pré definido. Não se trata de um homem no corpo de uma mulher, mas de uma mulher e/ou um homem num corpo que foi constituído e que produz compreensões, puro e simplesmente diferentes daquilo tido ou permitido através do desenho genital.

O termo trans ou pessoas T é particularmente novo, mas nada que quem esteja vivo e em sociedade em 2018 não precise saber. É como eu penso, por exemplo, a previdência privada, eu nunca dei valor ao fato de me programar antes, até pensar na minha velhice, mas o fato de nunca ter dado valor a isso, não significa que ela não existisse ou dela eu pudesse ou não participar. Eu ignorava o fato da Previdência Privada existir pra mim e pra tantas outras pessoas. Assim são as noções sobre CIS e TRANS, você não precisa saber o que é, mas ao saber do que se trata, você compreenderá o lugar de privilégio ou não que sua existência lhe "permite" nessa terra.

Fiz um pedido simples pra alguns dos grandes nomes, e são grandes por que EU os considero grande, e não por que a maioria sabe, na verdade a maioria não tem noção da grandiosidade de algumas causas, quiça de pessoas, mas ao perguntar ao meu amigo CIS-hetero-(como eu)-aliado se ele poderia escrever umas ou duas linhas sobre a minha causa, tive a alegria de perceber, que aqueles os quais eu julguei "Grandes Homens" eles de fato o eram e foram lá fazer a lição de casa, contextualizando um ganho imenso na/da comunidade a qual não pertencem.

Vale lembrar também que pressupostos do que é home também já passa por outras compreensões, tenho amigos que são 100% homens, mesmo nascidos mulheres. Entretanto o fato desde homens beijarem a boca por exemplo, de outros homens em público, ainda é visto como desrespeitoso por muitos, então lembremos que para construção dos alicerces da dignidade humana, muitos sequer podem experienciar o amor como realidade plena e social, e não é por falta de parceiro, como no meu caso, mas por simplesmente terem seus afetos negados nos cotidianos que estão inseridos.

Por outro lado, sigo vendo que mesmo dentro das causas, uma série de compreensões se abriram a partir disso, e a pergunta que uma amiga fez foi, "e o nome de mulheres divorciadas, quando poderá ser corrigido com a mesma facilidade?" A minha cabeça passou pelo título deste texto. Em seguida ponderei. O que posso aprender agora que até o povo da toga, que me outorga a mulheridade que sempre tive, me autoriza a ser quem sou?
Eu não sei responder, por que sendo mulher a partir de 01/03/2018, na compreensão do STF, que me autoriza a falar por mim, ainda não tive tempo de pensar em outras coisas, de me casar e (talvez) requerer o divórcio, este foi apenas o terceiro dia...

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O Tribunal Superior Eleitoral decidiu hoje que pessoas trans e travestis no Brasil devem ter o nome social e o gênero respeitado e apenas o nome social deve ser utilizado nas urnas, quando candidatas/os, além disso decidiu que a cota eleitoral que determina o mínimo de 30% de candidaturas de mulheres por partido, deve abarcar as mulheres transexuais e travestis que registrarem suas candidaturas como pessoas do gênero feminino.

Uma vitória pra todxs nós!

Na foto, eu e Tieta (mulheres-travestis da Região dos Lagos)
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O Tribunal Superior Eleitoral decidiu hoje que pessoas trans e travestis no Brasil devem ter o nome social e o gênero respeitado e apenas o nome social deve ser utilizado nas urnas, quando candidatas/os, além disso decidiu que a cota eleitoral que determina o mínimo de 30% de candidaturas de mulheres por partido, deve abarcar as mulheres transexuais e travestis que registrarem suas candidaturas como pessoas do gênero feminino.

Uma vitória pra todxs nós!

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TRAVESTI: A FRAGILIDADE NO ENSINO


(...) território existencial, toma o conceito de território não a partir de aspectos utilitários e funcionais, mas privilegiando os sentidos e modos de expressão. (Deleuze e Guattari, 1997)

Me lembro que desde criança a minha minha avó, que era a pessoa responsável pela minha educação sempre dizia que devíamos tratar a todos da mesma forma, e que era inconcebível alguém por qualquer motivo, destratar um mendigo, ou uma serviçal seja qual fosse a causa. Achava que isso era uma coisa recorrente na educação dos meus colegas e amigos na infância, e realmente era mesmo, mas apenas para alguns poucos.
Se por um lado, eu era estimulada a ser autêntica em minhas ações cotidianas, me lembro claramente que minha avó com seu doce coração e trágica história de vida, era sempre vaga sobre as possibilidades que cercavam a minha precoce sexualidade. E foi sendo meio “palerma” e pouco astuta, que na minha infância tive péssimas lições de vida ,sobre sexo, e muitas delas foram descobertas entre abusos e violações.
Lutando por um protagonismo que outrora não me era permitido, hoje, sendo professora de Língua Inglesa, Teatro e Pedagoga, fiz da minha maior sala de aula um lugar onde muito mais que saberes repassados, fosse permeado por experiências de vida e pesquisa na experiência do saber que busca autonomia e troca. A escola foi mais que exercer trocas de saberes, ela foi trazendo instrumentos para superar os meus próprios traumas, dentro da sala de aula pude modificar as histórias de abusos que ao meu redor se montavam, mas que rotineiramente me faziam repensar a minha própria caminhada.
Entrei em sala de aula, era o primeiro horário, numa das três escolas que leciono Língua Inglesa no interior Estado do Rio de Janeiro, era um dia muito quente e eu precisava para seguir o currículo de base comum do município, explicar as diferentes formas e igualdades em palavras com mesmo radical, e que fossem homógrafas, homófonas e outras e que trouxessem em sua formação estruturas de contraponto léxico-semântico, gramaticalmente explicadas. Para tal, exemplificação ao explicar do que se trata o prefixo “homo” de igual, eu fiz a relação ao seu contrário o “hétero” e completei com a pergunta, o que é e o que significa a palavra “homossexual” por exemplo?
Apesar de sermos uma turma “amigável” um aluno gritou lá do fundo:
“Puta-merda, vamos falar disso de novo?”
Me sentindo constrangida, como se sendo chamada a atenção, eu busquei acalmá-lo dizendo que poderíamos usar uma outra palavra, desde que o “PRÉfixo” mais comum fosse exemplificado. Logo ele disse, que estava brincando e toda sala começou a rir. Aproveitei aquele momento e perguntei então, por qual motivo não poderíamos falar daquele assunto?
Ele me respondeu que a moça do postinho de saúde, já havia ido a escola naquela semana e dado uma aula para as meninas e que a dos meninos seria na semana seguinte.
Analisando o ocorrido em casa dias depois, sabendo de minha ação, competência para tal explicação, e buscando reflexões que emergissem da fatídica estrutura política e social do país e de nossas dissidências, percebi o quanto algumas decisões tomadas em Brasília, reforçam os questionamentos em minha sala de aula em tempo real diante das possibilidades midiáticas. Isto é, enquanto em Brasília discutia se o “Escola sem partido” e a retirada de Judith Butler do seminário sobre “populações dissidentes”, na televisão aberta a notícia era trazida até nós, como sendo aberta a ‘ditadura gay”no Brasil. Os alunos e alunas em boa parte são residentes em espaços com pouca ou nenhuma infraestrutura e em sua maioria são de classe baixa ou miserável e que tem em sua diversão entre outras coisas, a praia, o funk e a igreja como elemento social e poucos sabem o real interesse de tais assuntos veiculados nas mídias.
Ao questionar as estruturas que permeiam o esqueleto desse recorte, trago a dinâmica apresentada nos textos picados que tive acesso de Wilhelm Reich, que em seu ponto fundamental da análise da situação econômica com a situação ideológica do trabalhador, como objetos estáticos, e aqui faço um link para a minha compreensão ao carácter punitivo e “sujo”, ao ser advertida pelo aluno sobre o tópico que por mim seria apresentado. Ao censurar à evolução da explicação, por uma pseudo compreensão ele exerce a função da autoridade e dela se sente pleno ao dizer, “mas de novo?”, é como o velho desenho do pai chamando a atenção. Seria esperado que diante da possibilidade de um papo mais descontraído, o aluno (ou alunos em questão) (de)formado por modos sistemáticos pelo processo de produção de seres cada vez mais distantes de autocrítica, desenvolvesse uma clara consciência de sua situação social? A professora transexual, que usa de liberdade no contexto escolar, transformaria uma determinação revolucionária de se livrar de sua própria “miséria” social, como crítico de seu lugar n mundo?









"A inibição moral da sexualidade natural na infância, cuja última etapa é o grave dano da sexualidade genital, torna a criança medrosa, tímida, submissa, obediente, "boa", e "dócil", no sentido autoritário das palavras. (...) o objetivo da moralidade é a criação do indivíduo submisso que se adapta à ordem autoritária, apesar do sofrimento e da humilhação. Assim, a família é o Estado autoritário em miniatura, ao qual a criança deve aprender a se adaptar, como uma preparação para o ajustamento geral que será exigido dela mais tarde. A estrutura autoritária do homem é basicamente produzida - é necessário ter isso presente - através da fixação das inibições e dos medos sexuais na substância viva dos impulsos sexuais." (William Reich, p. 28)

Talvez aí nesse apanhado fique mais claro, o fato de estarmos em um “refazendo de retornos”, onde a busca mais se associa a práticas outrora utilizada noutras demandas, como o uso da instrução sexual dada em separado a meninas e meninos, por entender que são diferentes em função social, política e sexual. Se a geração Y, está recriando caminhos iguais, por outro lado uma juventude mais consciente tem buscado a compreensão de um “ideal comunitário” para o tempo das tribos no laço societal (Michel Maffesoli, 2017), aquele que enfatiza viver o social, mas que vai além, ele pede um social com um relacionamento empático com outro.
Sendo o ensino é a maneira pela qual o conhecimento é transmitido, é como conseguimos melhorar nosso intelecto e enriquecer nossa cultura e clareza sobre as coisas da vida e a educação refere-se aos valores humanos e sociais. Ambos perpassam pela socialização do indivíduo, por sua leitura de mundo, e isso se dá na vida (casa, trabalho, espaços múltiplos e escola é parte disso), talvez por isso ao perceberem se instrumentos de censura, aqueles alunos se percebam extensão de estruturas familiares que por ali crescem.


“Em primeiro lugar, existe o regime de poder necropatriarcal arcaico, segundo o qual apenas o corpo masculino é um corpo totalmente soberano. Os corpos de mulheres, crianças e organismos não-humanos são inferiores. A soberania masculina é definida em termos necropolíticos com o monopólio legítimo da violência. A autoridade paterna e masculina é primordial e absoluta”. (Paul B. Preciado, 2018)


Então se vivemos em um momento em que enfrentar pode ser a solução para as novas reinvenções do capitalismo, sendo este o pai zeloso de todas as outras formas (o patriarcado, o sexismo, as religiões mononucleares e tantos outros filiados) ser um corpo (trans)generificador em sala de aula, isto é, aquele que mesmo diante do outro e sem dizer uma só palavra é capaz de introduzir a compreensão sexual de si. Seria um processo de equiparação real de estruturas humanas não inclusas, a serviço da ruptura desse sistema.
O fato que realmente me prende e é nesse ponto que me atenho, é no quão frágil as estruturas cis-hetero-normativas, trazem em sua natureza construída sobre estereótipos, sofismas em uma fragilidade que de tão absorta, se abala no mínimo real que lhe destoe. É assim ao vermos a travesti na escola, é tão envolto em dinâmicas da negação, ao evitarmos que a explicação sobre sexualidade, seja dada por uma agente de saúde e não por uma pedagoga de formação, que sua estada perpassa o surreal.
Não é apenas o reforço de uma “aceitação” termos uma professora transexual em sala de aula diante de crianças que iniciam suas compreensões, questões pessoais e buscas, mas vê las, buscando esse “respeito e empatia” em outras estruturas até então conhecidas e tidas como abjetas. Ao termos este corpo diretamente questionado pelo processo educacional como e quanto a sua coerência é implicar o valer de direitos, a nacionalização de corpos que falam além das palavras e incomodam para além de sua existência. Faz se o deslocamento de estereótipos em suas representações, quando vemos que “não deveríamos ter uma travesti na escola”, diria o grosso senso comum, mas por outro lado, esta presença perpassa desejos de moralidade, virtudes e empatia que gostaríamos que nossos filhos tivessem em suas índoles. É como minha boa velha avó dizia, devemos respeitar todos. Esta territorialização traz duas vertentes que precisam aprender a trabalhar em sinergia, de um lado fazendo buracos no muro (que sustenta sua história) e por outro (des)legitimando a importância da diversidade nesta economia que faz acreditarmos que atende, entende e está para todos que por ela passam, num novo modo, onde o fascismo digital e biopolítico pedem inclusão exatamente como minha avó dizia, mas nele não cabe todos, pois na sua manutenção meritocrática, para ascensão, diz que para subida de um, é necessário caída, no mínimo, de outros dois”, logo uma nova pergunta, quem vai ceder o lugar e deixar passar a educação e suas inclusões para o ensino?


Referências Bibliográficas:

DELEUZE, Gilles. GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia, vol. 4. Trad. Suely Rolnik. São Paulo: Ed.34, 1997.


Paul B. Preciado is a philosopher, a curator, and a transgender activist. He was Curator of Public Programs of Documenta 14 (Kassel/Athens) and is currently a writer-in-residence at the LUMA Foundation, Arles, France. Tradução: Sara Wagner Pimenta Gonçalves Júnior https://www.artforum.com/inprint/issue=201801&id=73189

REICH, Wilhelm. A Função do Orgasmo. Problemas econômico-sexuais da energia biológica. São Paulo. Editora Brasiliense. 1975. ____________. A Revolução Sexual, Rio de Janeiro. Editora Zahar. 1981.
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★ QUAIS SÃO OS DESAFIOS E DANOS NA VIDA DE PESSOAS TRANS?

Matéria Original: http://queergrace.com/transphobia/ Tradução: Sara Wagner Pimenta Gonçalves Júnior

O que significa "transgênero"?

Transgênero é um termo de guarda-chuva que sinaliza o movimento entre ou entre os gêneros. Uma pessoa transgênera é alguém que identifica um gênero diferente do que foram atribuídos no nascimento com base na aparência de seus órgãos sexuais. Muitas pessoas transgêneros experimentam ansiedade e angústia que seu gênero - seu senso pessoal de ser masculino, feminino ou não binário - não é refletido pela maneira como eles interpretam seus corpos ou os outros interpretam seu corpo.

Algumas pessoas transgêneros encontram alívio mental, emocional e físico significativo quando começam a usar um nome e pronomes que se alinham com sua identidade de gênero, e não com o sexo atribuído. As pessoas trans também podem optar por se vestir de forma a refletir com maior precisão sua identidade de gênero e às vezes buscar tratamento hormonal e / ou cirurgia, o que traz seu corpo mais alinhado com as expectativas de gênero associadas ao gênero.

Isso significa que os corpos transgêneros podem ser muito diferentes das expectativas cis. Algumas mulheres trans, por exemplo, não têm seios. Alguns homens trans, por exemplo, têm vaginas e menstruam a cada mês.

"Cisgênero"
Uma pessoa cisgênero, é alguém cuja identidade de gênero corresponde ao que foram atribuídos no nascimento. O prefixo "cis-" sinaliza uma sensação de estar do mesmo lado, em contraste com "trans-", que sinaliza um movimento entre ou através de.

"Homem trans"

Um homem transgênero é um indivíduo que foi designado ou designado feminino ao nascer (geralmente com base em características sexuais), mas que identifica o macho.

"Mulher transgênero" ou "mulher trans"

Uma mulher transgênero é um indivíduo que foi designado ou designado masculino ao nascer (geralmente com base em características sexuais), mas que identifica a fêmea.

"Não-binário"

O gênero não binário descreve qualquer identidade de gênero que não se enquadre no binário masculino e feminino.

"AMAB" e "AFAB"

AMAB é um acrônimo para "designado masculino ao nascer", e AFAB para "designado feminino no nascimento". Ao nascer (ou antes disso, através da observação em ultra-som), os órgãos genitais do bebê são observados por médicos e outros profissionais médicos que declaram que a criança, com base em órgãos sexuais, é "masculina" ou "feminina". Esta é uma suposição sobre gênero baseada na anatomia e no binário de gênero.

O que é cissexismo, transfobia e transmisoginia?

A realidade de viver como pessoa transgênero significa experimentar preconceitos, discriminação, danos materiais e até violência. Esses resultados negativos resultam de um conjunto de múltiplas forças sociais sobrepostas, que chamamos de cissexismo, transfobia e transmisoginia.

O que é cissexismo?

O cissexismo é a suposição explícita ou implícita de que as narrativas, experiências e corpos do cis são mais naturais, normais ou válidas do que trans.

Exemplos de cissexismo incluem:

- Supor que uma mulher menstrue ou que possa ter filhos (embora isso também afete um grande número de mulheres cisgênero, ou assumindo que uma não-mulher pode ou não.

- A suposição de que todos são um homem ou uma mulher (incluindo frases como "irmãos e irmãs", "gênero oposto").

- Supondo que alguém é cis porque não se pode dizer que eles são trans.

- Supondo que alguém que é um homem sempre apresentou como macho, foi incluído em espaços masculinos e teve experiências culturalmente esperadas pelos meninos; e também para as mulheres.

- A crença de que a feminilidade trans ou a masculinidade é uma imitação da feminilidade ou da masculinidade, ou que as experiências trans de gênero não são expressões de feminilidade ou masculinidade tão válidas quanto as experiências cis.
Ao invés de desafiar as experiências de gênero, as expressões e experiências transgêneros podem melhorar a maneira como todos os humanos experimentam identidade de gênero e gênero.
As experiências de gênero não são restritas a quem é cis. As experiências das mulheres trans são experiências das mulheres no mesmo sentido que são as experiências das mulheres cis. Ser uma mulher no vestiário de meninos é uma experiência de mulher. Uma mulher AMAB negando que ela é possivelmente uma mulher é a experiência de uma mulher.

- Termos como "sexo biológico", mesmo quando usados ​​em contextos médicos. A configuração cromossômica, a configuração genital, as características sexuais secundárias ou a habilidade reprodutiva têm sido freqüentemente tratadas em relação direta com a masculinidade ou a feminilidade, e, desse modo, privilegia inerentemente as narrativas do cispar. Além disso, a configuração cromossômica, a configuração genital, as características secundárias do sexo e a capacidade reprodutiva nem sempre correspondem umas às outras de maneira perfeitamente dividida ou "binária", e assumindo que excluem e apagam as pessoas trans que modificaram seus corpos para aliviar disforia e pessoas intersexuais.

O cissexismo é, de várias maneiras, enraizado em muitas expressões comuns, incluindo "homens e mulheres", as duas categorias contrastantes e abrangentes. Uma tentativa de resolver este problema é o uso de frases como "pessoas com vaginas" e "pessoas com pênis".
Esta expressão reconhece a existência de homens e mulheres trans, o que é útil, mas a expressão os agrupa com mulheres e homens cis, respectivamente. Excepto em um contexto médico, implicando que cis mulheres e homens trans formam uma categoria socialmente coesa (essencialmente, porque compartilham órgãos sexuais) é incorreta e muito nociva, como implica que mulheres trans e homens cis formam uma categoria socialmente coesa. Mesmo que eles não tenham o mesmo corpo, eles têm a mesma anatomia que eles não têm o mesmo corpo. ignorante das experiências de pessoas trans e intersexuais.

O que é transfobia?

A transfobia é um sentimento anti-trans explícito. A linha entre cissexismo e transfobia nem sempre é clara ou significativa ou importante. Exemplos de transfobia: - Acreditar que ser transgênero é um sintoma de doença mental, mentir que as pessoas falam, ou a moda (leia mais: está sendo transgênero para transtorno mental? - Exigindo que as pessoas transgênero usem facilidades de gênero, como banheiros públicos que são inconsistentes com o seu gênero identificado. - Avaliando a validade da identidade de gênero de alguém com base na sua capacidade de "passar" o cis.

O que é "passar"?

Passar é a capacidade de uma pessoa parecer ser uma pessoa de seu gênero. Passar não é absoluto, muitas pessoas trans só passam às vezes. As pessoas trans que freqüentemente passam são, por razões óbvias, menos probabilidades de experimentar violência ou discriminação anti-transmissão direta. Além disso, mesmo quando outros sabem que são trans, as pessoas trans que passam são muitas vezes tomadas mais seriamente. No entanto, todas as pessoas trans, quer passam ou não, vivem em um mundo estruturalmente não construído para incluí-las e devem lidar com as conseqüências práticas disso, bem como E sentimentos interiorizados que resultam.
É importante notar que passar não é necessariamente um objetivo primordial para as pessoas trans. A validade da identidade ou experiência de uma pessoa trans não está relacionada à forma como eles imitam as cis.
Passar pode resultar em proteção contra a discriminação e a violência, e pode aumentar a auto-estima devido ao cissexismo internalizado, mas pode não ser importante ou valer a pena para cada pessoa trans.
Dependendo da pessoa e suas experiências, a passagem pode levar um esforço considerável. A pressão para "passar" também pode aumentar o cissexismo internalizado, o potencial de ansiedade e depressão ou outras doenças mentais, disforia corporal e hiper-feminilidade ou -masculinidade (por exemplo, um homem trans tentando eliminar todas as expressões de emoção porque "meninos não 'choram').

O que é transmisoginia?

Transmissível e específico para mulheres trans e AMAB (designado masculino ao nascer) pessoas trans. Alguns pensam em transmisoginia como uma expressão específica de misoginia, outros como uma espécie de transfobia e outros como a interseção de misoginia e transfobia.
A transmisoginia frequentemente se manifesta como uma crença de que os corpos das mulheres são revoltantes, intocáveis ​​ou sem sexo.
Esta mensagem coincide com a crença misógina de que os corpos das mulheres são inerentemente sexual e, portanto, os corpos das mulheres são construídos com muito pouco valor.
Outro exemplo comum de transmisoginia é a insistência de que as mulheres são misóginas, ou de alguma maneira ameaçam mulheres cis.

Transmisoginia dá a todas as pessoas AFAB, cis e trans, assim como homens cis, poder estrutural sobre as mulheres trans e outras pessoas AMAB trans. Como resultado, as mulheres trans são muitas vezes mais propensas a serem abusadas, mas são mais propensas a serem vistas como potenciais abusadores. Em muitos casos, a transmisoginia pode ser invisível para quem não a experimenta, em particular nos momentos em que a transfobia também está operando. Por exemplo, considere o caso das contas do banheiro. Essas leis tornam ilegal que muitas ou todas as pessoas usem banheiros públicos consistentes com o gênero identificado. Se essas contas se tornam lei, as pessoas trans são obrigadas a usar banheiros consistentes com o gênero atribuído ao nascimento - em vez do gênero com que se identificam e, em alguns casos, aparecem fisicamente.
A motivação principal por trás dessas contas é proteger cis mulheres e meninas, que são vistas como vulneráveis, de mulheres e meninas trans "perigosas" e "falsas", que são vistas como homens predadores. Na realidade, as mulheres e as mulheres trans são ainda mais vulneráveis ​​à violência, não apenas dos homens, mas de outras mulheres. Embora não tenha havido relatos de mulheres que atacam mulheres cis em banheiros públicos, tem havido muitos exemplos de mulheres cis que atacam mulheres trans. Uma resposta popular em oposição a essas contas foi para pessoas que transigam de acordo com o gênero, trans-trans, particularmente homens trans ) para tirar fotos de si mesmos em banheiros públicos e publicá-los on-line com legendas como "Você realmente me quer no banheiro das mulheres?", com a implicação de que eles não parecem pertencer, eles não. Esta resposta fica baixa porque obscurece o fato de que, embora a transfobia geral esteja certamente em jogo (na não acreditar nos gêneros identificados pelas pessoas trans), a motivação mais profunda por trás das contas do banheiro é a transmisoginia.
A implicação de que as pessoas trans não pertencem à casa de banho errada por causa de como eles olham exatamente as pessoas que precisam de proteção contra essas leis, as mulheres trans que não passam o cis, com o maior risco.

Quais são os efeitos do sentimento anti-trans?


Embora muitos exemplos de cissexismo, transfobia e transmisoginia listados acima possam parecer relativamente menores para aqueles que não os experimentam, eles podem ter consequências profundas. Uma em cada cinco pessoas trans desabrigadas, seja devido a discriminação de habitação ou rejeição familiar.
As pessoas transgêneros são muito mais propensas a viver na pobreza do que as pessoas cis devido à rejeição familiar, discriminação na habitação e discriminação no emprego.
As pessoas trans enfrentam discriminação nos cuidados de saúde também - mesmo quando segurados (que as pessoas trans, que freqüentemente vivem na pobreza e não estão seguradas, são menos propensos a ser), as pessoas trans enfrentam políticas discriminatórias sobre cobertura de cuidados de saúde e discriminação de profissionais de saúde.
O medo de usar banheiros públicos é particularmente importante entre pessoas trans. Cinquenta e quatro por cento das pessoas trans relataram resultados negativos para a saúde, como infecções do trato urinário, evitando o uso do banheiro; 58% relataram evitar sair em público para evitar o problema completamente. As taxas de doenças mentais entre pessoas transgênero são muito altas.
Aproximadamente 6,8% das pessoas americanas cispender experimentam ansiedade social e 8,2% do pessoal militar. Em contraste, 55% das pessoas transgêneros experimentam esse tipo de ansiedade. Quarenta por cento das pessoas trans americanas relatam que tentaram suicídio, em oposição a 1,6% de todos os americanos. A distribuição da discriminação anti-trans e da violência não é mesmo, no entanto. Noventa e oito por cento da violência física contra pessoas transgêneros é perpetrada contra as pessoas trans de AMAB, e a maior parte daquela contra as pessoas não-brancas AMAB trans. Por exemplo, das 38 pessoas transgênero assassinadas em 2003, 70% eram mulheres trans de cor. Praticamente todos os itens acima mencionados são muito mais propensos a afetar as pessoas trans de AMAB e as pessoas trans de cor, e as afetam mais severamente. As pessoas que vivem em nossa sociedade enfrentam muitos obstáculos significativos de preconceito, postam ignorância e malícia.
A forma como a nossa sociedade concebe principalmente o género é inerentemente excluidora das pessoas trans, e as consequências são profundas. As formas negativas que nossa sociedade vê gênero afetam as mulheres desproporcionalmente, especialmente as mulheres de cor. Se for necessário qualquer remédio para tudo isso, as vozes dos transexuais devem ser prioritárias, e aqueles que não são afetados por essas estruturas sociais devem estar dispostos a admitir seu próprio papel neles e estar disposto a mudar.


http://queergrace.com/transphobia/
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★ O TECNOPATRIARCADO BARROCO: A REPRODUÇÃO


Paul B. Preciado is a philosopher, a curator, and a transgender activist. He was Curator of Public Programs of Documenta 14 (Kassel/Athens) and is currently a writer-in-residence at the LUMA Foundation, Arles, France.
Tradução: Sara Wagner Pimenta Gonçalves Júnior


O PLANETA ESTÁ EM TRANSIÇÃO. O poder está em transição. Estamos passando por uma mudança de paradigma que, quando tudo é dito e feito, pode vir a ser a conseqüência do conjunto de rupturas de época convencionalmente agrupadas sob a rubrica de uma "modernidade precoce". No entanto, não temos um diagnóstico sistemático das mudanças que estamos experimentando. Antes de podermos desenvolver estratégias eficazes de resistência, temos que desenhar uma cartografia de técnicas de poder já operativas e forjar um idioma crítico compatível com nossas circunstâncias. E isso, por sua vez, exige uma mudança no foco de nossa crítica.

A maioria dos estudos atribuídos na compreensão dos processos são identificados como práticas fundamentais do neoliberalismo: o financiamento da economia, abstração de valor, digitalização de informações, proliferação de redes interconectadas de computação, automação industrial e robotização de mão-de-obra. O poder nestas análises ainda é entendido principalmente como um conjunto de regras sociais para a apropriação, liberalização e gestão das formas de produção. Mas, embora seja naturalmente necessário teorizar a natureza em mudança da produção, não temos adequadamente contabilizado o poder em relação à reprodução.

É lá, no campo da reprodução - sexual, social, cultural - que enfrentamos a dimensão mais crucial do poder contemporâneo. É a relação de poder com a vida que está em mutação drasticamente. E não me refiro apenas à noção restrita do biopoder que Foucault popularizou na década de 1970, mas a todas as modalidades - da força pura, da violência e da capacidade de dar a morte (necropolítica) à capacidade de decodificar, preservar, replicar e modificar formas vivas - através das quais o poder atua em toda a vida. A "arte de governar a nós mesmos", as relações, instituições, discursos e técnicas que permitem que um organismo vivo seja considerado "humano" ou seja reconhecido como um cidadão reprodutível e os processos através dos quais um determinado corpo (orgânico ou mecânico) torna-se capaz de dizer "eu", estão em mutação.

A vida no sentido mais básico, conforme definido por muitas comunidades de conhecimento diferentes, é um sistema que pode sustentar e se reproduzir. Para isso, o sistema deve converter energia (alimentação, luz solar, combustível fóssil, etc.) em calor, canalizando a parte dessa energia para o seu metabolismo para sobreviver e reproduzir. Qualquer regime político regula as formas coletivas de capturar e distribuir energia e reproduzir a vida. No caso do que historicamente foi reconhecido como a espécie humana, a evolução do biocódigo reprodutivo foi acompanhada e talvez superada pelo rápido desenvolvimento de códigos semióticos, o fluxo e mutação sempre crescente de linguagem, conhecimento e práxis, que chamemos de cultura. E a evolução da cultura (tecnologia, ideologia) remete à regulação da vida, influenciando -e ofuscando - os meios pelos quais o poder desempenha a tarefa fundamental de controlar e gerenciar a reprodução.

As teorias liberais e comunistas do poder naturalizam a reprodução e tratam-na como não-histórica. Portanto, é urgente desnaturalizar a reprodução. Para o efeito, o que se segue são notas para a "historicização" de diferentes regimes de poder que operam na vida e que, em suas complexidades emaranhadas, constituem-nos como ficções históricas de histórias vivas. Esta história pode ser pensada em termos de interação entre três tipos de tecnologias de energia:

Em primeiro lugar, existe o regime de poder necropatriarcal arcaico, segundo o qual apenas o corpo masculino é um corpo totalmente soberano. Os corpos de mulheres, crianças e organismos não-humanos são inferiores. A soberania masculina é definida em termos necropolíticos com o monopólio legítimo da violência. A autoridade paterna e masculina é primordial e absoluta. O pai é aquele que tem o direito de dar a morte e decide o destino de sua esposa, filhos e todos os outros dependentes. Essa definição de soberania nacio-patriarcal é a maneira mais antiga e disseminada de exercer o poder, desenvolvendo o extrativismo em relação aos recursos naturais, a ocupação em relação ao território, a dominação em relação à esfera social e a violação em relação à sexualidade.

O segundo é o regime heterossexual-colonial, que se desenvolveu com a modernidade. O sistema de produção capitalista e colonial que se originou no século XV envolve e supera a soberania patriarcal. Não poderia existir sem a nova categoria política de raça, que desdobrou os discursos emergentes do empirismo e da investigação científica para legitimar o sistema de plantação, escravidão e leis anti-miscigenação.
Os conceitos (aparentemente) anatômicos e psicopatológicos da diferença sexual, heterossexualidade e homossexualidade instrumentalizaram esses mesmos discursos para governar as práticas de reprodução nos impérios coloniais. Monique Wittig, Guy Hocquenghem, Angela Davis, Judith Butler, Jack Halberstam, Achille Mbembe e outros ofereceram compreensões indispensáveis ​​sobre as formas em que a heteronormatividade e a raça foram construídas como (respectivamente) condições sexuais e fisionômicas, em oposição às tecnologias de poder que determinam a posição dos corpos em um sistema de produção e reprodução. As mulheres, as crianças, as pessoas de cor, os indígenas, os "desativados", os desviantes e os animais são considerados não-humanos, infracidadãos, que não têm acesso a técnicas de governança ou produção de conhecimento e sem influência nas formulações hegemônicas do que significa ser humano em "primeiro lugar". A heterossexualidade padronizada dos séculos XIX e XX, com sua lógica de identidade e diferença, sustenta a taylorização sexo-industrial e o fordismo genital.
Essa concepção médico-sexual da sexualidade ajudou a tornar a reprodução biológica tão rápida e barata quanto possível, de modo a construir a força de trabalho do industrialismo e dos novos estados-nação. Seu resultado final: a consagração da família nuclear insular, construída em torno da procriação, e facilmente transplantada, melhor para facilitar a segregação racial e econômica - como a unidade básica da sociedade.
A modernidade inventou não só um novo corpo trabalhador adaptado à máquina, mas também uma nova alma capaz de desejar apenas aquela sexualidade que era reprodutiva.

O terceiro tipo de tecnologia de energia é o regime farmacopornográfico, que foi ascendente desde a década de 60, embora seus começos possam ser atribuídos à descoberta, em 1953, da estrutura de duble-helix do DNA. Este regime é definido pelo mapeamento e manipulação de genomas, pelo uso de técnicas hormonais e cirúrgicas para alterar a aparência e o metabolismo do organismo e pela invenção de novas concepções de gênero, inter-sexualidade e transsexualidade. Essas novas modalidades de gestão social são reações à crise do regime epistêmico da diferença sexual. Considerando que parece claro que o gênero não pode ser reduzido a dois sexo, nem definido pela forma dos chamados órgãos reprodutivos, as instituições médicas e jurídicas insistem em reconstruir tecnicamente o binário para manter as hierarquias sociais. Enquanto isso, as técnicas que controlam a reprodução heterossexual têm sido cada vez mais externalizadas nas últimas décadas. Primeiro, a pílula (feminina) separou a heterossexualidade da reprodução, tornando obsoletas as razões que inicialmente justificavam o esquema "hetero versus homossexual" como uma oposição entre sexualidades reprodutivas e patológicas não-reprodutivas normais. Em segundo lugar, com o advento da fertilização in vitro, a recombinação sexual começou a ocorrer fora do corpo. Em breve, a industrialização do útero externo tornará a distinção arcaica entre masculinidade e feminilidade obsoleta também. Uma distinção inevitável entre criadores orgânicos e criadores artificiais será acompanhada por um novo campo de trabalhadores reprodutivos. Em terceiro lugar, a internet, uma prótese masturbatória multimídia global que oferece acesso ilimitado ao pornô e ao consumo, proporcionou o golpe de graça para a compreensão já sitiada do corpo como um recipiente de energia reprodutiva que só deveria ser usado para criar filhos. Dentro desse regime, a energia reprodutiva é canalizada em canais produtivos e transformada em valor financeiro. A produção e a reprodução da produção aleatória parecem exigir momentos de "destruição criativa". Em meados do século XX, a exploração de elementos radioativos conferia aos humanos o poder de destruir todas as coisa viva (exceto talvez bactérias) no planeta. A guerra nuclear, que liga as tecnologias farmacoterapêuticas com movimentos necropatriarcais, continua a surgir como uma possibilidade. E há também uma sinergia potencialmente necropolítica entre os métodos farmacopornográficos de reprodução externalizada assistida, novas técnicas para modificar e monetizar genomas e novos tipos de intervenções no desenho da alma. Juntos, esses fenômenos oferecem oportunidades sem precedentes para exercer controle, excluir e exterminar outros seres humanos e não humanos.
O brincadeiras de "homem -reparado" com genes e biomas terá consequências não intencionais, que somos axiomaticamente incapazes de imaginar ou prever. Precisamos assumir a responsabilidade por esta nova condição: somos a primeira espécie capaz de pôr em perigo a vida no planeta.

Em suma, a própria sobrevivência da vida na terra depende da invenção de tecnologias cooperativas e simbióticas de produção e reprodução.

A evolução dos códigos linguísticos da reprodução social e cultural é um elemento chave a considerar em qualquer investigação dos usos do poder. O aprendizado, um processo que pode ser considerado o análogo cultural da recombinação genética, é nossa maneira individual e coletiva de se transformar em breves intervalos e se adaptar a mudanças rápidas. O que podemos aprender com nosso histórico compartilhado? Uma nova forma de masculinidade pode ser definida em termos não-políticos? É possível depatriar e descolonizar as instituições da família e do Estado-nação? Existe uma maneira equitativa de governar o uso de fluidos reprodutivos (sêmen, leite, sangue), órgãos (útero), células (óvulos, espermatozoides) e materiais genéticos? É possível redistribuí-los, ou mesmo para coletivizá-los? Devemos aplicar o princípio da recombinação cultural às nossas estratégias de produção e reprodução da vida, de modo a transformar nossas tecnologias de poder e (politicamente) (trans)mutar.

Vivemos em um momento de justaposições barrocas de tecnologias e regimes de poder. Não estamos lidando com estratos planos e planos de fases históricas, mas com uma topografia vertiginosamente complexa de forças de interconexão e de curto-circuito. Às vezes, conexões inesperadas são estabelecidas entre tecnologias radicalmente distintas; às vezes duas ou mais tecnologias lutam pelo controle e territorialização da mesma rota de energia, os mesmos fluidos reprodutivos, células, órgãos e corpos. Por exemplo, o Estado-nação e a indústria biomédica competem pelo controle do útero das mulheres, o primeiro procurando manter o trabalho reprodutivo não remunerado das mulheres como um recurso nacional, o último sonhando com a transformação do útero em um ambiente vivo sujeito à economia de mercado livre . A era Trump é uma recrutação de tecnologias de poder necropatriarcal e uma implementação das noções coloniais de raça e sexo dentro de um quadro farmacopotográfico altamente sofisticado. Este novo fascismo digital e biotecnológico também pode ser o último.

Paul B. Preciado is a philosopher, a curator, and a transgender activist. He was Curator of Public Programs of Documenta 14 (Kassel/Athens) and is currently a writer-in-residence at the LUMA Foundation, Arles, France.
Tradução: Sara Wagner Pimenta Gonçalves Júnior


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