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Doney Stinguel
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“O ponto de partida do socialismo — de todo socialismo — é o homem e o protesto contra a desumanização da vida e, por conseguinte, o seu ponto de partida é o amor aos homens, a solidariedade em face da desumanização, da humilhação, da desgraça. Socialismo é, em certo sentido, idêntico a amar aos homens. O socialismo é a doutrina do amor ao próximo, tanto em relação ao ponto de partida como em relação ao objetivo.” (Adam Schaff)
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“Eu vejo a Igreja aberta a todas as perspectivas de solidariedade, de comunidade, de fraternidade, de colocar os bens a partir das necessidades do homem, e fazer com que o homem supere os tabus do capitalismo, que consagra e diviniza o dinheiro.
Esse capitalismo é um mal, é o próprio pecado. Nefasto, inimigo do homem, a alternativa será uma comunhão cada vez maior e uma valorização daquilo que o povo tem como identidade sua. Até mesmo valores culturais e religiosos devem ser assumidos, como expressão de algo muito profundo que é necessário ao seu viver.“ (Dom Tomás Balduíno)
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“No seu Catecismo socialista, Luis Blanc começa com esta pergunta: “O que é o socialismo?” E responde: “É o evangelho em ação”.” (Padre José Comblin)
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Mais em:
https://listadelivros-doney.blogspot.com.br/2018/05/socialismo-uma-utopia-crista-parte-ii.html
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“O amor ao próximo como a si mesmo exige uma sociedade sem opressões, sem exploração, com base em relações interpessoais, sociais e econômicas fraternas, cooperativas, baseadas no diálogo.”

“Aquele que não se compadece nem se comove diante da fome e da enfermidade de seu próximo é um animal irracional, que não tem o direito de ter aspecto de homem, pois contradiz ou desmente sua natureza.” (Santo Astério de Amaseia)

“Santo Agostinho, ao abrir o livro Cidade de Deus, contrapõe dois amores — de um lado o amor a Deus acima de tudo e ao próximo como a si mesmo (a Cidade de Deus), do outro lado, o amor a si mesmo acima de tudo (a Cidade do Diabo). Em linguagem política, significa que, de um lado (o lado de Deus), devem existir relações fraternas, cooperativas, comunitárias, filiais, paternas e maternas (destaque para Maria e a Igreja como mãe). Do outro lado (o lado de Mamon ou do bezerro de ouro), há relações individualistas, de opressão, de escravidão, de ódio, sem solidariedade, sem amor ao próximo (enfim, há o capitalismo, com a idolatria à riqueza, aos prazeres e fundada na mentira).”

“Os ricos, que açambarcam os bens, perdem contato com Deus, pela insensibilidade ética e afetiva (que obscurece a inteligência, enfraquece a vontade, nubla a memória, confunde a afetividade, etc.) diante das necessidades do próximo. São Francisco de Assis mostrou, claramente, como deve ser nossa relação com o próximo e com os bens, por isso é um bom exemplo de como deve ser o cidadão do futuro, especialmente nas relações sociais e na forma de gestão dos bens.”

Mais em:
http://listadelivros-doney.blogspot.com.br/2018/05/socialismo-uma-utopia-crista-parte-i.html
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“A vida do consumidor, a vida de consumo, não se refere à aquisição e posse. Tampouco tem a ver com se livrar do que foi adquirido anteontem e exibido com orgulho no dia seguinte. Refere-se, em vez disso, principalmente e acima de tudo, a estar em movimento. Se Max Weber estava certo e o princípio ético da vida produtiva era (e sempre precisou ser se o propósito era uma vida produtiva) o atraso da satisfação, então a orientação ética da vida de consumo (se é que a ética desse tipo de vida pode ser apresentada na forma de um código de comportamento prescrito) tem de ser evitar estar satisfeito. Para um tipo de sociedade que proclama que a satisfação do consumidor é seu único motivo e seu maior propósito, um consumidor satisfeito não é motivo nem propósito – e sim a ameaça mais apavorante.
O que se aplica à sociedade de consumidores também se aplica a seus membros individuais. A satisfação deve ser apenas uma experiência momentânea, algo que, se durar muito tempo, deve-se temer, e não ambicionar – a satisfação duradoura, de uma vez por todas, deve parecer aos consumidores uma perspectiva bem pouco agradável. Na verdade, uma catástrofe.”
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http://listadelivros-doney.blogspot.com.br/2018/05/vida-para-consumo-transformacao-das_9.html
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“Com a continuação do julgamento, as evidências em contrário se acumulam, provando, ou pelo menos indicando fortemente que, em oposição às alegações do queixoso, uma economia orientada para o consumo promove ativamente a deslealdade, solapa a confiança e aprofunda o sentimento de insegurança, tornando-se ela própria uma fonte do medo que promete curar ou dispersar – o medo que satura a vida líquido-moderna e é a causa principal da variedade líquido-moderna de infelicidade.
A sociedade de consumo tem como base de suas alegações a promessa de satisfazer os desejos humanos em um grau que nenhuma sociedade do passado pôde alcançar, ou mesmo sonhar, mas a promessa de satisfação só permanece sedutora enquanto o desejo continua insatisfeito; mais importante ainda, quando o cliente não está “plenamente satisfeito” – ou seja, enquanto não se acredita que os desejos que motivaram e colocaram em movimento a busca da satisfação e estimularam experimentos consumistas tenham sido verdadeira e totalmente realizados. (...)
A sociedade de consumo prospera enquanto consegue tornar perpétua a não-satisfação de seus membros (e assim, em seus próprios termos, a infelicidade deles). O método explícito de atingir tal efeito é depreciar e desvalorizar os produtos de consumo logo depois de terem sido promovidos no universo dos desejos dos consumidores. Mas outra forma de fazer o mesmo, e com maior eficácia, permanece quase à sombra e dificilmente é trazida às luzes da ribalta, a não ser por jornalistas investigativos perspicazes: satisfazendo cada necessidade/desejo/vontade de tal maneira que eles só podem dar origem a necessidades/desejos/vontades ainda mais novos. O que começa como um esforço para satisfazer uma necessidade deve se transformar em compulsão ou vício. E assim ocorre, desde que o impulso para buscar soluções de problemas e alívio para dores e ansiedades nas lojas, e apenas nelas, continue sendo um aspecto do comportamento não apenas destinado, mas encorajado com avidez, a se condensar num hábito ou estratégia sem alternativa aparente.
A fenda escancarada entre a promessa e seu cumprimento não é um sinal de defeito nem um efeito colateral da negligência, tampouco resulta de um erro de cálculo. O domínio da hipocrisia que se estende entre as crenças populares e as realidades das vidas dos consumidores é condição necessária para que a sociedade de consumidores funcione de modo adequado. Se a busca por realização deve prosseguir e se as novas promessas devem ser atraentes e cativantes, as promessas já feitas devem ser rotineiramente quebradas e as esperanças de realização frustradas com regularidade. Cada uma das promessas deve ser enganadora, ou ao menos exagerada. Do contrário, a busca acaba ou o ardor com que é feita (e também sua intensidade) caem abaixo do nível necessário para manter a circulação de mercadorias entre as linhas de montagem, as lojas e as latas de lixo. Sem a repetida frustração dos desejos, a demanda de consumo logo se esgotaria e a economia voltada para o consumidor ficaria sem combustível. É o excesso da soma total de promessas que neutraliza a frustração causada pelas imperfeições ou defeitos de cada uma delas e permite que a acumulação de experiências frustrantes não chegue a ponto de solapar a confiança na efetividade essencial dessa busca.
Além de ser um excesso e um desperdício econômico, o consumismo também é, por essa razão, uma economia do engano. Ele aposta na irracionalidade dos consumidores, e não em suas estimativas sóbrias e bem informadas; estimula emoções consumistas e não cultiva a razão. Tal como ocorre com o excesso e o desperdício, o engano não é um sinal de problema na economia de consumo. Pelo contrário, é sintoma de sua boa saúde e de que está firme sobre os trilhos, é a marca distintiva do único regime sob o qual a sociedade de consumidores é capaz de assegurar sua sobrevivência.”
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http://listadelivros-doney.blogspot.com.br/2018/05/vida-para-consumo-transformacao-das.html
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“Além de cama de casal, Carlinhos trouxe da cidade escrivaninha e estante com livros, a maioria em língua de gringo. Aos que se admiravam ao ver cama de casal em casa de solteiro, respondia amável e desbocado: solteiro, sim, punheteiro, não.”
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“Zezinha depois chorou lágrimas deveras sentidas ao contar a morte do pai, um homem bom que não tivera sorte. Enquanto forte lavrara a terra de terceiros, terminara na cachaça quando o impaludismo montara em seu cangote. A família trabalhava a dia em plantações alheias, os homens cortavam cana nos campos do banguê. Não fosse a ajuda de Zezinha, passariam fome. Das filhas mulheres, Zezinha tinha sido a única a subir na vida, a prosperar, graças a Deus que a protegera. Fora ser puta em Itabuna.”
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http://listadelivros-doney.blogspot.com.br/2012/07/tocaia-grande-face-obscura-jorge-amado.html
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“Desigualdade social é um fenômeno social, cultural e histórico exterior ao indivíduo, não sendo, portanto, determinado por condições naturais, biológicas ou por herança genética. Desse modo, é necessário ter presente que ninguém nasce desigual, mas, com grande frequência, as pessoas nascem em condições desiguais.
Segundo o sociólogo Guilherme A. Calham (1981), quando falamos de desigualdade social, estamos nos referindo ao fato de existirem hierarquias entre pessoas e grupos sociais, nas quais os indivíduos que ocupam posições superiores possuem vantagem em relação aos que ocupam posições inferiores. Essas vantagens ou privilégios dizem respeito às formas de acesso e distribuição de bens socialmente valorizada – a propriedade, o capital, o poder e a informação, por exemplo. Essa distribuição é sempre ordenada por norma, o que a torna um componente da estrutura de grupos e sociedades.
Tal como aqui propomos, a desigualdade social refere-se à existência de privilégios na distribuição de bens sociais, possuindo certas características básicas que passaremos a descrever:
1. A desigualdade é um fenômeno social – As desigualdades de gênero, raça e etnia não são fatores biológicos ou naturais, mas sim artificiais, no sentido de serem uma criação humana.
2. A desigualdade é um fenômeno onipresente – Pode ser verificado em todas as sociedades humanas.
3. A desigualdade adquire diferentes configurações – As desigualdades mudam de forma e de conteúdo em cada época histórica e tipo de sociedade.
4. A desigualdade influencia as condições de vida das pessoas e dos grupos sociais – Isso implica reconhecer que as desigualdades potencializam conflitos e contradições entre pessoas e coletividades distintas.”
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http://listadelivros-doney.blogspot.com.br/2018/04/desigualdades-de-genero-raca-e-etnia.html
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“Em primeiro lugar, não se deve esquecer que os clássicos da tradição liberal não apenas falam com frieza, hostilidade e às vezes com aberto desprezo da democracia, mas consideram o seu advento como uma ruptura arbitrária e intolerável do pacto social e, portanto, como uma causa legítima de “apelo ao céu” (nas palavras de Locke), isto é, às armas.
Em segundo lugar, deve ser levado em consideração que as cláusulas de exclusão foram superadas não de forma indolor, mas por meio de convulsões violentas e às vezes de violência inaudita.
A abolição da escravidão na esteira da guerra de secessão custou aos Estados Unidos mais vítimas do que a soma dos dois conflitos mundiais. No tocante a discriminação censitária, para o seu cancelamento deu uma contribuição decisiva o ciclo revolucionário francês. Enfim, em grandes países como a Rússia, a Alemanha, os Estados Unidos o acesso das mulheres aos direitos políticos tem atrás de si as convulsões bélicas e revolucionárias do início do século XX.
Em terceiro lugar, além de não ser indolor, o processo histórico culminado no advento da democracia não é absolutamente linear. À emancipação, isto é, à aquisição de direitos anteriormente não reconhecidos e não gozados, pode muito bem se seguir uma desemancipação, ou uma privação dos direitos dos quais os excluídos haviam arrancado o reconhecimento e o gozo. Afirmado na França na trilha da revolução de fevereiro de 1848, o sufrágio universal (masculino) é cancelado dois anos depois pela burguesia liberal, e logo depois é reintroduzido em decorrência não de um processo de amadurecimento do liberalismo mas do golpe de Estado de Luís Napoleão, do qual se serve para a encenação do rito da aclamação plebiscitária. Nesse âmbito o exemplo mais clamoroso nos é fornecido pelos Estados Unidos. O fim da guerra de Secessão inaugura o período mais feliz na história dos afro-americanos, os quais agora conquistam os direitos civis e políticos e passam a fazer parte dos organismos representativos. Mas, trata-se de uma espécie de breve intervalo da tragédia. O compromisso que ocorre em 1877 entre brancos do Norte e do Sul comporta para os negros a perda dos direitos políticos e, muitas vezes dos próprios direitos civis, como é testemunhado pelo regime de segregação racial e pela violência selvagem dos pogrom e dos linchamentos. Essa fase de desemancipação, que se desenvolve no âmbito de uma sociedade que continua a se autodefinir “liberal”, dura quase um século.
Existe depois uma quarta razão. O processo de emancipação muitas vezes tem tido um impulso totalmente externo ao mundo liberal. Não se pode compreender a abolição da escravidão nas colônias inglesas sem a revolução negra de Santo Domingo, vista com horror, e muitas vezes combatida, pelo mundo liberal no seu conjunto. Aproximadamente trinta anos depois o instituto da escravidão é cancelado também nos Estados Unidos, mas sabemos que os abolicionistas mais fervorosos são acusados pelos seus adversários de serem influenciados ou contagiados por ideias francesas e jacobinas. À breve experiência de democracia multirracial segue-se uma longa fase de desemancipação marcada por uma terrorista supremacia branca. Quando acontece o momento da virada? Em dezembro de 1952 o ministro estadunidense da justiça envia para a Corte Suprema, empenhada em discutir a questão da integração nas escolas públicas, uma carta eloquente: “A discriminação racial leva água para a propaganda comunista e suscita dúvidas também entre as nações amigas a respeito da intensidade da nossa devoção à fé democrática”. Washington — observa o historiador americano que reconstrói esse acontecimento — corria o perigo de perder as “raças de cor” não apenas no Oriente e no Terceiro Mundo, mas no próprio coração dos Estados Unidos: aqui também a propaganda comunista alcançava um sucesso considerável na sua tentativa de ganhar os negros para a “causa revolucionária”, provocando neles o desmoronamento da “fé nas instituições americanas”. Observando bem, o que coloca em crise antes a escravidão e depois o regime terrorista de supremacia branca são respectivamente a revolta de Santo Domingo e a revolução de outubro. A afirmação de um princípio essencial, se não do liberalismo, pelo menos da democracia liberal (no sentido hodierno do termo), não pode ser pensada sem a contribuição decisiva dos dois capítulos da história mais odiados pela cultura liberal da época.
Enfim, a quinta e última razão, a mais importante de todas. Refiro-me ao entrelaçamento entre emancipação e desemancipação que caracteriza cada etapa do processo de superação das cláusulas de exclusão que caracterizam a tradição liberal. Nos Estados Unidos o desaparecimento da discriminação censitária e a afirmação do princípio de igualdade política são favorecidos pela contenção quantitativa e pela neutralização política e social das “classes perigosas”, graças à expropriação e deportação dos índios (que por muito tempo permite alargar a classe dos proprietários de terra) e à escravização dos negros; na Europa a expansão do sufrágio no século XIX vai de mãos dadas com a expansão colonial e com a imposição do trabalho forçado contra os povos ou as “raças” consideradas bárbaras ou de menor idade. Esse entrelaçamento às vezes apresenta-se de maneira abertamente trágica. Objeto de humilhações, discriminações e persecuções de todo tipo no Sul, os afro-americanos procuram conquistar o reconhecimento participando em primeira linha nas guerras da União. Acontece então que em alguns ambientes começa a se homenagear a coragem demonstrada pelos soldados de cor na batalha das Wounded Knees. Quer dizer, a esperança de emancipação dos negros passa, é obrigada a passar, pela sua participação ativa no aniquilamento dos peles-vermelhas! (...)
E, no entanto, por difícil que possa ser essa operação para os que estão empenhados em superar as cláusulas de exclusão do liberalismo, assumir a herança dessa tradição de pensamento é uma tarefa absolutamente inescapável. Por outro lado, os méritos do liberalismo são importantes e evidentes demais para que haja necessidade de atribuir-lhe outros, totalmente imaginários. Faz parte desses últimos a presumida capacidade espontânea de autocorreção que frequentemente lhe é atribuída. Se partirmos desse pressuposto, torna-se totalmente inexplicável a tragédia em primeiro lugar dos povos submetidos à escravidão ou semiescravidão, ou deportados, dizimados e eliminados; trata-se de uma tragédia, que longe de ser impedida ou bloqueada pelo mundo liberal, se desenvolveu em estreita conexão com ele. Inconsistente no plano historiográfico, a hagiografia usual é também um insulto à memória das vítimas. Em contraposição às difundidas remoções e transfigurações o livro que agora chega ao final apresenta-se como uma “contra-história”: dizer adeus à hagiografia é a condição preliminar para desembarcar no terreno da história.”
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http://listadelivros-doney.blogspot.com.br/2018/04/contra-historia-do-liberalismo-parte.html
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“Como sabemos, o primeiro a contrapor liberdade e igualdade e a denunciar a reivindicação da igualdade política como um ataque à liberdade foi Barnave, que também é um defensor da escravidão. Esse instituto continua vivo e vital nos Estados Unidos no momento em que, diante da França devorada pela paixão da igualdade, Tocqueville aponta como país modelo do amor pela liberdade, juntamente com a Inglaterra, exatamente a república do outro lado do Atlântico. Mas, justamente aqui, pelos teóricos do Sul, a escravidão é justificada e até celebrada como instrumento para garantir, ao lado da liberdade, também a igualdade dos membros da comunidade branca. Para confirmar o caráter problemático da contraposição liberdade/igualdade poderia ser mencionado o Tocqueville anterior a 48, que acusa a Inglaterra de ter uma concepção errada da liberdade, enquanto fundada sobre o “privilégio” (e sobre a desigualdade), e que atribui à revolução francesa o mérito de ter promovido, em nome da igualdade, a causa da abolição da escravidão e da liberdade dos negros. Nesse momento, longe de estar em contraposição, liberdade e igualdade resultam em plena sintonia.
A contraposição reapresenta-se, de maneira sensivelmente diferente, em outro importante expoente da tradição liberal. Em Bentham podemos ler: “Quando a segurança e a igualdade estão em conflito, não se deve hesitar um instante: deve perder a igualdade”. Exatamente no país indicado por Tocqueville como modelo, pela sua capacidade de compreender a absoluta prioridade do valor da liberdade, observamos que a reafirmação absoluta do valor subordinado da igualdade acontece em primeiro lugar em nome da “segurança” da sociedade e da ordem existente.
A esta altura convém analisar mais amplamente a profissão de fé individualista dos liberais do século XIX. Sobretudo depois do ‘48, na esteira da luta contra a massificação contestada no socialismo, eles parecem às vezes considerar o individualismo como uma realidade pré-moderna, infelizmente dissipada no decorrer dos sucessivos desdobramentos históricos. Nas palavras de John S. Mill, “Na antiguidade, na Idade Média, e, em medida decrescente, durante a longa transição do feudalismo à sociedade hodierna, o indivíduo constituía um poder em si”; não se dissolvia na “multidão” e nas “massas”. Também Tocqueville homenageia o “individualismo da Idade Média”. Claramente, ele não leva em consideração o destino dos servos da gleba, assim como não considera a sorte dos escravos e dos negros em geral, quando aponta os Estados Unidos como o país no qual “todo indivíduo” goza de uma “independência” sem precedentes. Quando, depois, afirma que na Argélia colonizada “o papel do indivíduo é por toda parte maior do que na pátria-mãe”, Tocqueville não leva em consideração os árabes que, como ele mesmo reconhece, são muitas vezes assimilados a “bestas maléficas”.
Emerge assim o caráter bastante problemático do pathos do indivíduo, que é a bandeira agitada pelo liberalismo dedicado a contrastar radicalismo e socialismo. Quem é mais individualista, Toussaint Louverture, o grande protagonista da revolução dos escravos ou Calhoun o grande teórico estadunidense do Sul escravista? Quem dá prova de respeito pela dignidade do indivíduo enquanto tal é o jacobino negro que, levando à sério a Declaração dos direitos do homem, considera inadmissível em qualquer caso a redução de um homem a objeto de “propriedade” de um seu semelhante; ou é Jefferson, que reprime as suas dúvidas sobre a escravidão a partir da convicção da superioridade dos brancos e da preocupação de não colocar em perigo a paz e a estabilidade do Sul e da União? Quem expressa melhor o individualismo, John S. Mill e os seus seguidores em terra inglesa ou francesa, que consideram benéfica e necessária a subjugação e até a escravidão (mesmo se temporária) dos povos coloniais, ou aqueles franceses que começam a colocar em discussão o despotismo colonial enquanto tal (“Morram as colônias se elas nos devessem custar a honra, a liberdade”)?”
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http://listadelivros-doney.blogspot.com.br/2018/04/contra-historia-do-liberalismo-parte-ii.html

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“A escravidão não é algo que permaneça não obstante o sucesso das três revoluções liberais; ao contrário, ela conhece o seu máximo desenvolvimento em virtude desse sucesso: “O total da população escrava nas Américas somava aproximadamente 330.000 no ano de 1700, chegou a quase três milhões no ano de 1800, até alcançar o pico de mais de 6 milhões nos anos 50 do séc. XIX”. O que contribui de forma decisiva para o crescimento desse instituto sinônimo de poder absoluto do homem sobre o homem é o mundo liberal. Na metade do séc. XVIII a Grã-Bretanha é a que possui o maior número de escravos (878.000). Não há nada de óbvio nesse dado. Embora o seu império seja de longe o mais extenso, a Espanha segue a muita distância. Quem ocupa o segundo lugar é o Portugal, que possui 700.000 escravos e que na verdade é uma espécie de semicolônia da Grã-Bretanha: boa parte do ouro extraído pelos escravos brasileiros acaba em Londres. Portanto, não há dúvida de que quem se destaca nesse campo pela sua posição absolutamente eminente é o país que está ao mesmo tempo na frente do movimento liberal e que conquistou o seu primado no comércio e na posse dos escravos negros exatamente a partir da Revolução Gloriosa. Por outro lado, é o próprio Pitt, o jovem, quem em sua intervenção em abril de 1792 na Câmara dos Comuns sobre o tema da escravidão e do tráfico dos negros, reconhece que “nenhuma nação na Europa [...] está tão profundamente mergulhada nessa culpa como a Grã Bretanha”.”
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http://listadelivros-doney.blogspot.com.br/2018/04/contra-historia-do-liberalismo-parte-i.html
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“Eu sou brasileiro e estou vendo meu país ser invadido por esses homens-bomba miseráveis, esquartejados, que mataram crianças, adolescentes. Justiça! Vamos expulsar ele! Cadê o prefeito? O governo do estado?”
As palavras foram um ataque recente a um refugiado sírio que vendia salgados em sua barraca no Rio de Janeiro. Seu nome é Mohamed Ali. E essa parece ser a sua sina.
Afinal, também foi um Muhammad Ali que fez história no século XX não só pelo seu trabalho – o de um dos mais talentosos pugilistas da Terra, mas por enfrentar o racismo em um país segregado entre brancos e negros.
Mohamed Ali precisa enfrentar a resistência de uma parcela da sociedade. Resistência que tem nome, islamofobia.
Quem acha que a agressão a Mohamed foi um caso isolado se engana. Após o atentado à revista francesa Charlie Hebdo, em 2015, mulheres e homens muçulmanos vêm sendo xingados, apedrejados e tendo pertences danificados em diferentes lugares do Brasil.
Mesquitas foram vandalizadas. Em cidades do Paraná, estado com forte presença muçulmana, relata-se a pixação de uma estrela de Davi, símbolo do Estado de Israel, o arremesso de um balde de fezes humanas contra o pátio de uma mesquita e o cântico de hinos israelenses em frente a templos sagrados muçulmanos. Ataques e provocações que não aconteceram apenas do lado de fora.
Refugiado sírio de Alepo, um dos focos mais violentos da Guerra na Síria, Abdulbaset Jarour, 27, conta que foi agredido dentro de casa por vizinhos, em São Paulo.
Ele conseguiu chamar a polícia. “Aqueles que me bateram falaram que eu sou um terrorista, um homem-bomba, que iria explodir o condomínio. Eu não saí do meu país para passar por isso aqui. É muito triste”, relata.
Sua aparência se transformou num de seus maiores obstáculos. Sem conseguir emprego fixo por muito tempo desde que veio para cá, conta que alugou um carro para trabalhar como motorista do Uber. Não contava com a reação dos passageiros.
“Muitas pessoas cancelam a viagem quando veem o meu nome, quando veem a minha foto. Alguns que entram no carro começam a me olhar estranho. E perguntam: ‘por que seu nome é estranho?’ Respondo que sou árabe. Começam a ficar nervosos”.
Ele lembra de uma passageira que sugeriu que tirasse a barba. “Eu respondi: essa é a minha vida, tem brasileiros que têm o dobro da minha barba. Ela disse: ‘mas você é árabe, é diferente, não pode’”.
Certa vez, recorda, duas passageiras se beijavam em seu carro. “Não estavam nem aí. Perguntaram sobre meu nome. Falei que sou árabe. Me desvalorizaram e me avaliaram com 1 estrela. Antes de descerem, foram muito grossas comigo e bateram forte a porta do carro, só de saber que sou árabe”.
Abdulbaset também não esquece do que era para ser um almoço na casa de uma amiga. “A gente se sentou. A minha amiga me apresentou para a amiga dela, que olhou pra mim com uma cara estranha e me falou: ‘por favor, não mata a minha amiga!’ Eu deixei o almoço e fui embora. Fiquei muito triste”.
Não é diferente na internet. “Uma pessoa me mandou no Facebook: ‘Oi, tudo bem? Posso te conhecer?’ Eu falei: sim! Ela disse: ‘Você é da onde?’ Eu falei: Sou árabe, da Síria. Ela falou: ‘seu mentiroso! Você não é árabe, você é sírio. Sai do nosso país, vocês o estragam!’”
Não é diferente nem nas palestras que dá. “Eu falo: o que eu sou pra vocês, como árabe, muçulmano? A maioria fala: terrorista. Pergunto: o que é terrorista pra vocês? Ninguém responde”.
Mito
O que Mohamed Ali e Abdulbaset Jarour viveram no Brasil não é uma novidade na história do Brasil. E põe em xeque a fama do brasileiro de ser um povo acolhedor e pacífico.
Fama que, na visão de Anaxsuell Fernando, não passa de um mito, que surge com intelectuais como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda e se consolida no imaginário social por meio do cinema. “Essa compreensão da realidade ajudou a dissimular o racismo, o sexismo e as mais distintas formas de violência cotidianas”, afirma.
Diferentemente da África do Sul e dos Estados Unidos, onde até algumas décadas atrás a hostilidade era institucional e explícita, o antropólogo explica que a violência brasileira se consolidou “de um modo mais cínico”.
“Ela existe no cotidiano e no narcisismo das pequenas diferenças. De maneira que grupos minorizados socialmente vivenciam todos os dias experiências de violência, inclusive por parte do próprio Estado”, analisa.
“Não existe uma demarcação visível da xenofobia, como um muro físico, mas existem muros simbólicos que separam pessoas por causa do seu gênero, raça, origem ou orientação sexual. E este discurso pode, eventualmente, ganhar contornos religiosos e morais”, explica.
Segundo Fernando, também é falsa a ideia de que o Brasil é um país muito diverso religiosamente. “O Brasil é profundamente religioso mas sem perder de vista que somos majoritariamente cristãos”, afirma.


Segundo o censo do IBGE, enquanto os católicos eram em 2010 mais de 120 milhões no Brasil e os evangélicos, mais de 42 milhões, os muçulmanos beiravam os 35 mil. “Os cristãos somam cerca de 86% da população (64% católicos e 22% evangélicos). Podemos falar em diversidade cristã, mas não em diversidade religiosa”, observa Anaxsuell Fernando.
E nesse grupo, segundo o professor, a intolerância religiosa é uma marca desde a chegada dos colonizadores. “Já nos primeiros anos de colonização, a incapacidade de convívio teve como alvo as diferentes culturas indígenas. As chamadas reduções indígenas foram uma maneira encontrada para circunscrever as populações indígenas na crença correta, neste caso, a fé cristã”.
Depois, com a escravidão de povos africanos, veio a intolerância contra suas religiões, “que serão associadas a práticas demoníacas”.
“Com o fluxo migratório de pessoas de tradição protestantes, a incapacidade de convívio com a diferença se faz novamente presente. São fartos os relatos de grupos cristãos minoritários discriminados e marginalizados em razão das suas crenças”.
As comunidades islâmicas no Brasil, afirma, “vivenciam aquilo que vários outros grupos religiosos experienciaram noutros momentos. Obviamente, em intensidade e natureza distintas”.
Política
Se depender de setores da política brasileira, ataques como os sofridos por Mohamed e Abdulbaset poderão ganhar proporções ainda maiores.
Em fevereiro deste ano, o deputado Jair Bolsonaro (PSC), segundo colocado em diversas pesquisas de intenção de voto para presidente no ano que vem, fez um discurso no mínimo “contundente” contra minorias.
Contrariando a Constituição Brasileira de 1988, ele disse:
“Essa historinha de Estado laico não. É Estado cristão. Vamos fazer um Brasil para as maiorias. As minorias têm que se curvar. A lei deve existir para defender as maiorias. As minorias se adequam ou simplesmente desapareçam!”
Ovacionado a cada frase por uma plateia majoritariamente masculina, seu nome era erguido em bandeiras do Brasil.
O canal Religião e Política, que publicou o discurso no YouTube, foi mais específico dois meses depois. Em abril, postou “Treinamento da Síria para invadir Israel”, vídeo em que homens armados aparecem fazendo supostos disparos numa região remota, onde derrubam uma pequena bandeira de Israel. No momento em que os supostos sírios falam, suas vozes são sobrepostas por uma música que impede a compreensão do que dizem.
Para Anaxsuell Fernando, professor e pesquisador de Antropologia da Religião na Unila (Universidade Federal da Integração Latino-Americana), a emergência de figuras como Bolsonaro reflete o avanço do neoliberalismo sobre a democracia, “dissolvendo a estrutura estatal e instituindo o discurso do medo, principal veículo do conservadorismo”.
Ele recorre ao intelectual português Boaventura de Sousa Santos para dizer que em nome da liberdade de expressão, permite-se a ascensão de comportamentos e atitudes que cerceiam a democracia. “Estamos vivendo em um contexto social politicamente democrático e socialmente fascista”.
Xenofobia
No último dia 29 de julho, Bolsonaro compartilhou um vídeo da Hebraica, sobre o qual escreveu: “Minha continência ao Estado de Israel”.
No vídeo, diz-se que, apesar dos muçulmanos defenderem a sacralidade de Jerusalém, ela não é citada nenhuma vez no Alcorão, livro sagrado para o Islã. Também defende que os judeus chegaram primeiro. Que, sob o domínio muçulmano, as outras religiões eram consideradas infiéis. Que se a cidade fosse realmente sagrada, por que os islâmicos rezariam voltados para Meca, e não para Jerusalém, como fazem os judeus?
O vídeo foi compartilhado por mais de 8.400 pessoas e visualizado quase 390 mil vezes. O deputado Flávio Bolsonaro (PSC) foi uma das 19 mil pessoas que reagiram, entre aqueles que curtiram, amaram ou se surpreenderam.
Ibrahim Alzeben, embaixador da Palestina no Brasil, condena a postura do deputado por compartilhar esse tipo de conteúdo. “Como ser humano, ele está incentivado a xenofobia e o fanatismo. Palestina é a Terra de Canaã. Se ele acredita na Bíblia e volta ao capítulo Êxodo, vai perceber que nós estávamos ali, os palestinos”, diz.
“Para nós é uma grande honra, ao contrário do que foi dito, Jerusalém ser o berço de três religiões”, afirma. Ele esclarece que a única religião que, de fato, nasceu na Palestina foi o cristianismo e que judaísmo e islamismo se desenvolveram no local, mas não nasceram nele.
“Se vamos falar de direitos históricos e religiosos, eu acho que a esta altura do campeonato, se o Brasil pertence aos portugueses ou aos guaranis, eu acho que o ser humano tem que crescer um pouco e pensar alto”, ironiza. “Mais quando um deputado representa o povo”, critica. Para Ibrahim Alzeben, o papel das lideranças políticas é fomentar a paz, não o conflito.
O embaixador ressalta que a Palestina é importante para todos, sejam cristãos, muçulmanos e judeus. “Não podemos negar nunca o direito religioso a ninguém. Quanto a direitos racionais, temos que separar política de religião. A Palestina é território dos palestinos”.
Ualid Rabah, diretor de relações institucionais da Federação Árabe-Palestina do Brasil (FEPAL), também rebate as informações apresentadas na página de Bolsonaro. Explica que Jerusalém é citada no Alcorão e que estudos apontam que a origem dos palestinos está relacionada aos cananeus, povo que foi morar na região há mais de dez mil anos.
“A Palestina é um caso único de limpeza étnica na história da humanidade, não que não tenha havido outras, mas elas foram em território contíguo, entre povos que disputavam terras há séculos ou milênios”, observa.


No caso palestino, afirma, a limpeza étnica é executada previamente “contra uma população autóctone em que sua metade é expulsa para no seu lugar ser colocada uma população de várias partes do mundo”.
Para Rabah, que também integra coletivos de combate à islamofobia, quem adesiva-se de Bolsonaro ou vota nele não é sério ou adere a um genocídio programado. “Não é possível ser levado a sério um sujeito que defende, inclusive publicamente, extermínios, submissão de minorias, subtração de direitos dessas minorias”, afirma.
Segundo o ativista, trata-se do discurso de um “bandido, que reproduz o que há de pior no fascismo europeu, que levou às limpezas étnicas e às distorções fora da Europa na forma colonial e dentro da Europa na I e na II Guerra, sem contar as guerras dentro da Europa séculos anteriores com europeus matando europeus”.
Rabah acredita que o discurso do deputado é comparável ao de grandes tiranias na história da humanidade, como no caso de Adolf Hitler, que liderou o nazismo na Alemanha durante a II Guerra Mundial; Benito Mussolini, líder do fascismo na Itália antes e durante o mesmo período; o apartheid na África do Sul e a escravidão de negros daquele continente para outras partes do mundo.
“O que o Bolsonaro não entende e nunca vai entender é que Mussolini era tão cristão quanto ele. Que Hitler era tão cristão quanto ele. O que esse louco nunca vai entender é que o regime do apartheid na África do Sul e todos os crimes cometidos a pretexto de que os negros eram inferiores, inclusive a escravização de 150 milhões de pessoas no curso de dois, três séculos, foi feita por cristãos brancos, europeus e ocidentais iguais a ele. Gente que se diz cristã e não é. São bandidos”, acusa.
“É um sujeito que deveria estar preso, não falando para uma plateia e ser ovacionado, menos ainda ser recebido na Hebraica. Pra você ver a que grau de degeneração ideológica e humana parcela da liderança judaica sionista chegou”, afirma.
Hebraica
Rabah se refere a uma palestra do deputado, convidado pela Hebraica do Rio de Janeiro em abril deste ano. O próprio convite foi condenado por lideranças judaicas e alvo de protestos.
No vídeo, Bolsonaro defendeu que não se pode “abrir as portas para todo mundo”, em referência aos refugiados.
Ualid Rabah acredita que Bolsonaro é só a ponta de um iceberg. No caso da islamofobia, o diretor de relações institucionais da FEPAL afirma que a origem do preconceito está em “setores pentecostais e neopentecostais que se apresentam como cristãos e evangélicos”
Segundo ele, esses grupos religiosos vinham disseminando o horror ao catolicismo, espiritismo e matrizes de origem africana, e há cerca de vinte anos o fazem em relação ao islã. Esse discurso estaria sendo utilizado, por exemplo, aponta Rabah, na Igreja Universal do Reino de Deus.
De acordo com o ativista, essa prática teria começado há cerca de vinte anos, “quando começam associar a leitura do Velho Testamento à defesa de Israel. Em tempos mais recentes, eles começam a ter vínculos diretos com todas as organizações representativas da comunidade judaica no Brasil, como a CONIB (Confederação Israelita do Brasil)”.
Ele defende que essa articulação se junta à extrema direita da política brasileira, mas chega até a esquerda, no caso do deputado Jean Wyllys (PSOL).  “Ele diz defender os direitos do palestinos, mas é incrível como acentua a criminalização dos mesmos, e de todos os muçulmanos, por meio do que alega ser a criminalização, por estes todos, dos LGBT. E faz isso se associando a Israel”, afirma.
Rabah fala das críticas que o congressista teria feito a um evento muçulmano há pouco mais de uma semana. “Fica evidente sua islamofobia quando se associa, acriticamente, na criminalização do evento muçulmano promovido em São Paulo. É como se tivesse cumprido uma pauta previamente determinada”, diz.
Mídia
A comunidade muçulmana vem sendo submetida a uma intensa exposição midiática, especialmente a partir de 11/09, observa Anaxsuell Fernando. “Tem forjado uma imagem pública repleta de estereótipos não correspondentes às crenças islâmicas abraçadas pela maioria de sua população”, afirma.


Exemplo de preconceito seria a visão construída em torno do hijab (véu). “No Brasil, tais ações sustentam-se em generalizações enganosas ou percepções religiosas equivocadas dos símbolos religiosos. O hijab tem sido superficialmente associado a opressão das mulheres”.
Para Ualid Rabah, nenhum setor é tão eficaz na disseminação do preconceito quanto a grande mídia brasileira. “Os veículos de comunicação de massa são os primeiros responsáveis pela islamofobia e toda a intolerância reinante no Brasil”.
Desde que chegou ao país, Abdulbaset observa que a mídia brasileira mexe muito com a mente do povo. “O que os EUA querem fazer, os brasileiros gostam. O que a mídia mostrar, o brasileiro vai guardar”, aponta. Diz que no Brasil o que se fala do mundo árabe é por meio de documentários sobre terrorismo e algumas novelas. “Mas se você perguntar para os brasileiros que sabem sobre os árabes, não conhecem nada, não sabem onde fica a Síria”.
“Quando Israel ataca a Palestina e destrói os palestinos, por que não se diz ‘o aviador judeu conduzindo…’? Por que não se associa o credo judaico aos crimes de Israel? Primeiro, eles disseram que o islamismo é uma coisa ruim. Para isso, estão utilizando as correntes pró-Israel”.
Para Ibrahim Alzeben, embaixador da Palestina no Brasil, a visão israelense sobre os fatos prevalece por uma questão econômica. “Eu não tenho recursos para publicar”, afirma. Os veículos de comunicação, aponta ele, não querem contrariar os interesses das empresas que os patrocinam. “Eles têm medo de publicar, de que as grandes empresas deixem de fazer anúncios”.
Recentemente, o blog de Rodrigo Constantino, da Gazeta do Povo, publicou um artigo com o título: “Família do homem acusado de matar judeus vai receber $3 mil por mês de autoridade palestina”. A abordagem foi interpretada como islamofóbica.
“Não é uma recompensa”, esclarece o embaixador Ibrahim Alzeben. Ele afirma que, como em qualquer lugar do mundo, é dever do Estado amparar seus cidadãos. “O Estado Palestino não incentiva atos violentos”.
“A notícia da forma como é apresentada, a promoção da islamofobia, da Palestinofobia, da muçulmanofobia, a Gazeta do Povo está participando dessa orquestra”, critica Ualid Rabah.
Sonhos e frustrações
Há três anos no Brasil, Abdulbaset não veio exatamente por uma escolha. Ele conta que foi aqui que conseguiu refúgio depois de passar por três consulados no Líbano, seu destino após servir o exército em Damasco e ter sua base bombardeada por Israel.
Com várias fraturas pelo corpo, foi tratado. Em fevereiro deste ano, sofreu uma cirurgia. Mas com dificuldades para agendar um tratamento no joelho via SUS e sem recursos financeiros, sua saúde está debilitada. Longe dos familiares, sente saudades e sonha em se juntar a eles.
Sonha também em ter o próprio negócio, como tinha na Síria, levar uma vida confortável, aprender português, fazer uma faculdade de artes cênicas, jornalismo ou relações internacionais, casar e criar uma família.
Sem perspectivas aqui, no entanto, cogita ir embora, talvez para o Canadá ou a Austrália. “Mas eu amo o Brasil.  Tenho amigos maravilhosos. Uma parte de mim quer ficar para sempre.”
Respostas
A nossa reportagem questionou a CONIB (Confederação Israelita do Brasil) sobre as acusações de fomento à islamofobia no país.
Em nota, a instituição afirma que sempre defendeu o diálogo inter-religioso e o combate a toda forma de discriminação, inclusive a islamofobia.
“É preciso tomar cuidado para que o necessário e imprescindível combate à islamofobia não se transforme em pretexto para propagar acusações mentirosas contra minorias e cometer crimes semelhantes, como o antissemitismo”.
Sobre a crítica de Ualid Rabah a parte da liderança judaica, a CONIB aponta o uso da palavra “degenerada” para acusar a comunidade judaica brasileira como sendo o mesmo termo usado pelos nazistas para atacar a arte moderna e muitos dos artistas judeus da época.
Em nota, a Igreja Universal do Reino de Deus declara que repudia com veemência “todo ataque à fé ou às crenças dos adeptos de qualquer religião, até porque são nossos fiéis as maiores vítimas do preconceito religioso no Brasil”. 
Menciona estar presente em mais de 110 países, muitos dos quais de maioria islâmica: “Em todos eles, cumprimos nossa missão evangelizadora e social com total respeito às leis, às normas e costumes locais”.
Diz que, “além absurda, a acusação de ‘islamofobia’ é criminosa. Espera-se que o entrevistado citado pelo jornalista explique como elaborou uma conclusão tão monstruosa, pois nunca uma só palavra neste sentido foi defendida em qualquer templo ou veículo oficial da Universal na TV, no rádio, jornal, livro ou Internet”.
A Hebraica do Rio de Janeiro foi questionada sobre o convite a Jair Bolsonaro para palestrar a sua comunidade, mas não respondeu.
Jair Bolsonaro, Marco Feliciano e Jean Wyllys não se manifestaram sobre as críticas que lhes foram feitas.
Abdulbaset afirma que uma investigação foi aberta contra seus agressores, que estão livres.
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