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Thiago Fernandes
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1canto de poeta,1olhar tristonho,1sorriso iluminado,1vida incomum,1time predestinadoBFR,pai-amante-filho-irmão.1homem qualqr,qualqr homem1.
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Eu estive aqui. Eu estive aqui por oito anos, aqui vivi quase toda a década de 1990, todo o meu ensino fundamental. Se, de certa forma, a maior parte de minha formação intelectual se deu no ensino médio, aqui se deu minha formação emocional. Aqui foi onde ouvi pela primeira vez a palavra "Marx", também foi aqui, neste colégio Arquidiocesano, que fiz minha primeira comunhão e tive como professora uma freira que destruiu todo o meu pavor de Céu e Inferno: "Céu e Inferno são estados da alma."
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Eu estive aqui. Nos meus sonhos ainda me vejo criança na mesma sala de aula, desejanto escalar um andaime vermelho que passou um ano inteiro defronte a classe. Classe no térreo em que escrevi o meu primeiro poema (um acróstico bastante elogiado) para uma aula de redação da 6ª série (atual 7º ano).
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Eu estive aqui. E as árvores centenárias sob as quais brincava e sorria quando menino não me parecem tão enormes quanto na minha memória... Então me resta a certeza que a memória está certa, os olhos errados.
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Eu estive aqui. Nesta sala. Atrás desta porta ora trancada se deu o momento mais importante da minha vida. Toda os meus segundos se resumem ao que ocorreu atrás desta porta, numa manhã de terça-feira, durante uma aula de Língua Portuguesa no segundo horário, uma aula chatíssima de análise sintática de períodos compostos por subordinação. Era uma sétima série, atual oitavo ano, e da minha janela no primeiro andar, dava para ver os campos de futebol.
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Folheando a gramática, tentando fugir dentro da minha imaginação daquele infortúnio de reduzidas de gerúndio e de infinitivo, que me deparei com a lição de verbos. Naquele tempo, as aulas de língua portuguesa tentatavam se modernizar, viver a partir do texto, mas era ainda só uma tentativa, e todo capítulo começava com um poema. O poema de "Verbo" era "José", de Carlos Crummond de Andrade - provavelmente para falar de subjuntivo -. E qual não fora meu impacto, qual não fora minha dor!
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O resto do dia passei lendo e relendo aquele poema, li outros, TODOS do livro, não saí para o intervalo, não visitei a biblioteca como sempre fazia para devorar os livros que lá havia. Apenas li, li "José". "José" era eu, era minha vida inteira, meu presente, meu passado e, acima de tudo, o meu futuro. Minha vida se resume à primeira vez que li "José".
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Naquele mesmo dia, escrevi o meu primeiro poema (agora de verdade, sem mandado de professora). E fiz um desenho. Na verdade foram dois poemas e dois desenhos (um dos textos era em inglês). Desenhei porque ainda não entendia direito a função da imagem poética (e a estruturação dos versos) e no livro - não me esquecerei jamais -, todo poema vinha conjugado com uma bela imagem, o de "José" era de um homem de meia idade de costas, caminhando sobre uma relva verde sob um céu rosáceo.
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Por muitos anos ainda guardei a relíquia da gramática como um memento do momento. Eu não poderia saber, mas eu já sabia que estava condenado. Condenado como o menino calado de poucos amigos, como o jovem calado de poucos amigos, o homem calado preso ao convívio familiar e trabalhista que precisaria escrever, escrever sempre, e muito, quase nunca algo bom, para compensar nesta fala dura do papel a frustraçao de não dizer o seu íntimo.
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Por causa de uma aula chatíssima de orações subordinadas reduzidas de gerúndio e infinitivo eu fui condenada a ensinar, pelo resto de minha vida, orações subordinadas reduzidas de infinitivo e gerúndio.
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Mas foi, principalmente por causa destes professores que me tornei o professor que sou.
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Muito mais do que um conteudista, mas alguém com paixão com quem se vive e e se convive. Todos amavam esta família, a família que eu sou. Se muitos alunos me dizem que sou um ótimo professor, se alguns me falam que eu sou péssimo, e se outros tantos me dizem que eu sou o melhor que já tiveram, "o melhor professor do mundo", é que eles não sabem a verdade: Eu sou um imitador; sou um imitador de todos estes maravilhosos professores e professoras que amaram tanto o que fizeram e amaram a família que construíram dentro dos muros desta escola.
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Eu despejo para eles, apenas uma fração da paixão em que fui banhado.
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Pio XII, muito obrigado.
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02/12/2017 (vinte anos depois de minha saída).

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PAX ROMANA

Eu nos ofereço a Paz Romana
e sob esta Águia
conviveremos
e sob esta Cruz
conviveremos
e sob esta Espada
conviveremos

Eu nos ofereço a Paz Romana
e perante minha Lei
iguais seremos
e perante minha Lógica
iguais seremos
e perante a minha Língua
iguais seremos

Eu nos ofereço a Paz Romana
e sob minha Sombra
e perante minha Luz
governaremos

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SONETO

Sou poeta, meu bem, tu bem o sabes,
De palavras eu vivo e sensações:
Teu corpo é uma ideia e nela cabes.
         Amamo-nos na carne e nas ações,
        Mas sem palavras tudo fica feio,
        Por isso nos traduzo nas canções.
Nosso corpo é só tão somente o meio
Do Amor. Palavras são, em si, o seu fim,
Virando quase autônomas, eu creio.
        Não faço apologia deste, assim,
        Amor sem corpo, sem carne e tesão,
        Mas faço um elogio das almas, sim.
Há Amor que se faz Carne, mas que não
Foi Verbo. Amor sem vida, sem razão.

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PRIMAVERA

Primavera esquenta
Os ipês despem-se de suas verdes folhas apáticas
e cobrem-se de seus órgãos floridos
brancos, amarelos
Mas são os rosas sensuais e doces
que fascinam meus olhos com estupefação

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RECANTO

Como te desejo
E quanto!
Mas se não te vejo
Tal santo
Evoco meu pejo
Meu pranto!
Imagino o beijo
E canto
De Amor. Eu despejo
Encanto,
Eu rumino e invejo
O tanto
De abraço que almejo.
Portanto
Teus lábios cortejo
Enquanto
Garanto
De ti meu ensejo,
Recanto.

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NO RETORNO NÃO SE PERDE

"Ninguém se perde na volta"
Por isso, me receba bem feliz
Nada, pois, a nós importa
Tudo o que te fiz.

Abra teus braços envolta
Do meu pescoço e, então, tu vens e diz:
"És minha raiz!
Entre dentro desta porta!"

Nosso laço não se solta,
Não se rompe, nem se corta.
Tal mestre e aprendiz
Sempre fizemos tudo quanto eu quis.

Se me perdi por uma meretriz
A obrigação nos exorta
Perdoar-nos sem revolta
Viver nosso bis.

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PROFESSOR É PROFISSÃO

Professor é profissão.
Ser educador, tutor,
Ou ser facilitador,
Depende de qual visão
Que tu tens da educação.

Sem ideias não se educa,
Só se passa informações
Que se cobra em prestações
Do que se guarda na cuca
Pra se esquecer aos milhões.

Mas não é só profissão,
É um projeto de mundo.
Trabalhar na Formação
É, no mais íntimo e fundo,
Lutar por Transformação.

15/10/2017

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EPIGRAMA

A pior hora do mundo
É deitar e não dormir
Nesta hora que nós viramos
Presa para a consciência

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EPIGRAMA

A pior hora do mundo
É deitar e não dormir
Nesta hora que nós viramos
Presa para a consciência

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A arte pode e deve ser analisada a partir de 4 caminhos que poderíamos definir em grego por estese (sensação), pathos (emoção), logos (razão) e ethos (ideologia, ética, moral). A arte é, fundamentalmente, estese, porque é forma, é, parafraseando Hegel, atingir a verdade através dos sentidos. A obra de arte deve, portanto, partir e retornar ao seu valor estético.

Desta maneira, as artes clássicas ou apolíneas, no dizer de Nietzsche, buscam a sensação de beleza, isto é, harmonia e equilíbrio entre as partes. Já as artes românticas ou dionisíacas buscam o sublime, aquela sensação de grandiosidade, de ser maior que a vida, de alcançar o infinito.

A arte “pós-moderna” (uso este termo com muita cautela e principalmente como paralelo ao vocábulo pré-modernismo) do nosso mundo “líquido”, como define Zygmunt Bauman, é a sensação de choque, uma quebra, um estranhamento como afirmava Bertolt Brecht em relação ao seu teatro épico que exigia uma participação ativa e crítica da parte do receptor.

O pathos é como a forma estética nos faz sentir. Como ela nos deixa: tristes, alegres, amedrontados, raivosos, nos causa desejo ou nojo? O logos, por sua vez, é, como o seu derivante indica, a parte lógica, as ligações racionais entre as partes, as referências socioculturais, as ideias entranhadas a construção estilística (lembrar sempre que o latim “arte” equivale ao grego “técnica”).

As obras sublimes produzem, em tese, os mais fortes pathos, a visão do grandioso deixa-nos prostrados na admiração, no maravilhamento. Já as artes do belo priorizam o logos, a força da construção.

As produções que se importam com o choque são extremamente dependentes da capacidade racional dos receptores. Ora, a sua técnica surge a partir da intertextualidade, das releituras e da desconstrução de modelos socioculturais preestabelecidos. Daí o choque, os elementos clássicos e tradicionais reaparecem em novo paradigma o que nos tira de nossa zona de conforto. Por isso, o observador casual da arte não consegue identificar este tipo de produto como arte propriamente dita.

Desta maneira, apelando para a capacidade do espectador de reconstruir logicamente todos os referenciais da obra a fim de interpretá-la, a arte “pós-moderna” é versátil em causar aversão, irritação e emoções análogas. Quando estes pathos são intencionais, logo verifica-se que o autor atingiu ao seu objetivo, portanto foi esteticamente eficaz.

Por fim, o ethos parece ser um elemento extra-artístico. Tomemos dois exemplos do cinema: O nascimento de uma nação (1915), de D. W. Griffith; e O triunfo da vontade (1935), de Leni Riefenstahl são duas obras-primas máximas da “sétima arte”, tendo criado técnicas e estilos de filmagem até hoje utilizadas e revisitadas. Porém, o primeiro filme praticamente ressuscitou a Ku Klux Klan, sendo do mesmo ano da fundação do segundo movimento da KKK. A película alemã, por sua vez, idealizava e heroicizava o nazismo.

Duas grandes obras em técnica, em estética, emocionantes, mas, eticamente, filosoficamente, defensoras do racismo, da intolerância e do autoritarismo fascista. O ethos importa sim, mas não pode prevalecer sobre o estético, pois este elemento é o ponto de partida e de chegada de toda construção cultural.

A arte que não consegue se libertar além da forma é o que chamamos de “arte pela arte”. A arte panfletária é aquela que tenta se segurar apenas no valor ético. A grandeza, no entanto, está em ser emocionalmente sublime; racionalmente belo; a forma eficientemente perfeita; e filosoficamente moralizante e edificante.

Moralizante não significa moralista, as fábulas de Esopo ou D. Quixote, de Cervantes, são moralizantes, não moralistas. Por isso, sempre me preocupa quando se usam valores específicos de um grupo social são usados para julgar esteticamente uma obra ou uma exposição inteira.

Assim como os nazistas criaram uma estética panfletária para apoiar sua estrutura de poder, eles também condenaram centenas de obras, praticamente todo os movimentos de vanguarda como degenerados e pervertidos. O argumento da “pornografia”, “zoofilia” etc., não se sustentam muito quando se coloca, em diacronia, toda a produção humana, seja greco-romana, seja indiana entre outras.

Quanto ao argumento da “pedofilia”, se verdadeiro, seria crime (embora este termo não seja tipificado, mas o abuso sexual infantil sim) e apenas a obra individualmente deveria ser retirada da exposição se comprovada a prática de abuso – ou promoção do abuso –.

Não sou fã da chamada arte (no meu caso, literatura) “pós-moderna”, o limite emotivo destas produções é, ao meu ver, muito circunscrito ao choque, enquanto sua construção artística, ao mais das vezes, depende menos da habilidade e do aprimoramento técnico do que da criatividade de reler, rever, desconstruir e reconstruir os antigos paradigmas. Porém, não posso coadunar com censura político-religiosa.

O julgamento estético deve ser estético, começar e terminar nele. Pathos, logos e ethos são elementos que somam e dão profundidade e alcance humano a uma forma. Sem emoção, cultura e ética, a obra se torna rasa e vazia, mas sem estética, o conteúdo é ineficiente, não causa emoção, não transmite saber, nem edifica.

Só em tiranias totalitárias a perseguição à arte acontece, e, lutar contra estes movimentos inquisitoriais é combater em prol do direito à liberdade, é dever de todo artista e cidadão consciente, aquele que tem dentro de si este tripé que tantas vezes já mencionei, mas que nos é transmitido através dos sentidos. Aceitar que uma exposição seja fechada por motivos religiosos é, por si só, um atentado à sensibilidade, à inteligência e à cidadania de um povo, nosso povo.

11-12/09/2017
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