Profile cover photo
Profile photo
Cynthia Kremer
161 followers
161 followers
About
Posts

Post has attachment

Post has attachment
Bem-vindo, meu grafite grandão!
Photo

Post has attachment
Adeus, meu douradinho lindo...
Photo

Post has attachment
Com Dudu Braga, depois do show
Photo

Post has shared content
O charme de um gênio.

Gerald Thomas é um gênio; conseguiu misturar com maestria Wagner e Led Zeppelin na peça "Nietzsche contra Wagner".

Post has attachment

Post has attachment
PhotoPhotoPhotoPhotoPhoto
2015-06-04
40 Photos - View album

Crônica da escritora Carmem Dolores, publicada no Correio da Manhã, de 1/12/1905, sobre a escultura de minha bisavó, Zulmira Uchoa Cavalcanti Fernandes Barros.

"La Femme Endormie"

O Amor e a Morte 

“Conta Zimmerman, que tendo um pobre homem de Zurich perdido a noiva que adorava, esculpiu uma rosa sobre a lousa do seu túmulo e escreveu embaixo, sem nome nem data: "Assim é que ela foi...” 
Para sua alma simples e saudosa, aquilo bastava e reconstituía perante os seus olhos umedecidos de pranto a figura juvenil, viçosa e fresca da bem ornada esvaída. Ela tinha sido a túmida rosa de maio que perfumara as suas esperanças de amor, e rosa ficaria sempre sendo, eternamente, simbolicamente gravada nesse mármore puro que recobria os seus restos mortais. Quanto, porém, na atualidade, outra idéia mais bela sobrepuja em grandeza e poesia, em originalidade, em arrojo, em inspiração romântica, a tocante fantasia desse bom suíço! Na sepultura erigida por este, uma flor rememorava a graça do ente querido; no incomparável mármore que meus olhos agora contemplaram, cativos, fascinados, é a própria morta que sobrevive à destruição suprema, eternizada pela arte no último abandono. E nunca pareceu mais verdadeira a frase tantas vezes citada e tão raramente confirmada: "L'amour est plus fort que la mort!" que há servido de eixo a mais de um delicioso romance conhecido. Qual, porém, a natureza do amor que sugeriu a obra imortal de que me ocupo agora? Não sei! Tudo ignoro. De um grande mistério todo branco, evocou-se apenas a evidência para mim de um sentimento poderoso e inconsolável, que insuflara ao artista o ideal - 
da sua dor - pagã, se quiserem, mas admirável na concepção de seu desesperado intento de conservar intacta uma forma idolatrada. Essa dor maior, o seu suplício de Tântalo, arrojando longe de todos os moldes convencionais da resignação cristã, sob forma de um anjo pensativo que aponta para o céu, ou de uma estátua chorosa que se reclina sobre uma urna - todas essas figuras de uniformidade mística na expressão rafaelesca do mesmo longo oval dos rostos, emoldurados por cabeleiras soltas: representam com suas grandes asas tristes a esperança de uma outra vida, além, no infinito azul...mas a dor que sonhou uma obra de arte para imortalizar o vulto estremecido, recusou todos os símbolos consolidadores da convenção religiosa, e pediu em brados a realidade cruel, torturante, mas humana, que esculpisse no eterno mármore aquela que partira, e no gesto da partida... Oh! Não sei, repito, qual a natureza do amor que ideou tal perpetuidade grandiosa da derradeira atitude de um ser estremecido, fora de todos os preconceitos estúpidos da morte, arranjada e enfeitada pelas regras funerárias, com as mãos inertes bem cruzadinhas sobre o peito do defunto, uma flor aqui, uma coroa acolá, a cabeça disposta assim, os pés bem juntos, presos por uma fita, todas as formalidades do estilo. Mas acredito, mas ouso quase assegurar, que o sentimento que realizou essa aspiração excepcional, foi o amor - paixão ardente, refratário a todas as consolações, rebelado furiosamente contra os estragos de um corpo entusiasticamente adorado... E se me engano, que importa? Deixem-me a ilusão desse amor e desse culto; deixem-me o belo romance, com a visão de um poeta que se evade dos sistemáticos convencionalismos do tributo à morte e largamente abre margem às reminiscências tantálicas da sua ternura, na concepção desse mármore original, formoso, imaculado, eterno... Imagino assim o caso. Ela morreu longe daqui, no estrangeiro, ferida na plenitude da sua beleza e da sua mocidade. Nem a morte teve o tempo de alterá-la, em longos dias de sofrimento. Chegou à maldita, espreitando, viu a formosa criatura e fulminou-a em todo o esplendor das suas linhas soberbas. Era ela brasileira, francesa, italiana? Não lhes posso responder. Ignoro... e então, esse que a estremecia e hoje a pranteia, cobriu-a depressa com o mais fino e transparente lençol de cambraia de linho, ainda sobre o leito morno em que exalara o último suspiro, e correu a chamar um estatuário, um escultor - não um marmorista, vejam bem - ao qual exprimiu a idéia, filha das desesperadas lágrimas que seus olhos vertiam. E o artista compreendeu 
a secreta aspiração que latejava nessa alma poética e apaixonada. Veio o óleo quente, o gesso e a carne inerte retomou uma aparência de vida efêmera, rosada sob o calor do molde que estreitamente cingiu e modelou o corpo inteiro, ainda flexível, na posição natural, graciosa e indolente, em que resvalara no infinito repouso. O mármore, depois, imortalizou esse molde dáprès nature, em toda a sua pujante verdade; e o seu dono pôde contemplar essa que amava no mole abandono da primeira hora do eterno sono, tão linda e perfeita, a cabeça um pouco virada para o lado, a boca risonha, o cabelo em voltas flexuosas, cheias de seiva e presa à moderna. Os braços languidamente caídos ao longo do corpo - ela toda um primor de escultura viva e palpitante. Não morreu: existe, dorme, repousa, com o seu belo peito forte dilatado pela respiração calma que o mármore não consegue figurar, em sua dureza de bloco imortal. Mas só falta isto - o hálito perfumado a fugir desses lábios ridentes. Então o dono levantou-a assim adormecida nos seus braços delicados, transportou-a para bordo de um vapor e trouxe-a para nossa terra - talvez a dela ou a dele, quem sabe? No mesmo navio viajavam: os restos sujeitos à destruição e a efígie soberba desafiando a morte e o tempo. 
Aqui repousam hoje esses restos mortais de uma mulher bonita numa sepultura do cemitério São João Batista. A carne roída pelos vermes, jaz embaixo da lousa, invisível aos olhares mais ternos e saudosos, revertendo à cinza das imposições cristãs; mas, em cima dessa pedra mármore, como sobre um leito alvíssimo, cuja cúpula formosa fosse o vasto cetim azul dos céus, a morta adorada sobrevive à destruição do seu corpo, estendida em decúbitos dorsal sobre todo comprimento do túmulo, e sorrindo de pálpebras cerradas àqueles que a admiram, sorrindo aos beijos do sol, às borboletas ou aos passarinhos amorosos, que lhe posam em cima, na atitude abandonada de um simples descanso no silêncio profundo desse campo tranqüilo. Fino lençol em grandes pregas, modela castamente os seus membros emergindo apenas a cabeça vigorosa, um pescoço e a nascença de um peito positivamente esculturais, e um dos braços também perfeito, cuja mão, a convulsão da morte torce um bocadinho ou pendeu, no derradeiro esvaimento, assim contraída. Todo o resto do corpo, esbelto e grandioso, se desenha através do tecido transparente da cambraia de linho, maravilhosamente tratado pelo cinzel do escultor, sentindo-se-lhe a finura e a leveza das dobras amplas, que envolvem sem oprimir; e uma das pernas cedeu um pouco a qualquer contração última, que a desviou ligeiramente da pose clássica, exigida pelas linhas da arte. Mas não lhe mexeram: assim se imobilizou essa perna, assim ficou no mármore... e mais humana é deste modo a bela criatura, dormindo como uma simples mortal o seu sono de imortal, eternamente gloriosa e eternamente pura, tocada de luz, radiante de perfeição plástica, serena, indiferente a essa horrível solidão dos túmulos, onde ela só, toda branca, representa ainda a vida e o amor entre rosas que florescem e as avezinhas que trinam aos pares sobre as árvores. Murmuram alguns, que a idéia é pagã... Pois eu acho admirável, única, divina... Por que havemos de fazer da morte um pavoroso espantalho? Já foi tempo em que a Idade Média inventava a Dança Macabra com seus esqueletos a chocalharem furiosamente os ossos em contorções sinistras, e que desapareceram gradualmente no princípio da época do Renascimento. Os mortos, então, eram grotescos, riam sardonicamente, mascaravam-se de abades, de clowns, de velhas decrépitas, enchendo as vinhetas dos livros e até os vitrais coloridos dos claustros, das longas procissões de ossadas saltitantes, girando  numa jovialidade fantástica e alucinante. Foi Holberin que resumiu com o seu gênio o lúgubre humorismo dessa temporada. O cristianismo entrega o corpo à terra que o corrompe e só se ocupa da alma, que foge aos céus da outra vida, abandonando a forma mortal a podridões sem importância para a essência divina do ser. Essa idéia, porém, consola apenas as resignações calmas e tranqüilas. A pessoa morta está com Deus! Um dia, todos nós nos encontraremos lá, nas regiões celestes... sim mas essa esperança não basta de certo às afeições veementes, férvidas, vibrantes, que se estorcem de saudade, que se revoltam desesperadamente contra a eterna separação material da carne. Nunca mais ver, sentir, olhar o ente querido, mas é atroz! Debalde a vista se volve para as alturas e invoca as figuras angélicas da tradição religiosa, tão docemente serenas e consoladoras no seu vago contorno espiritual. Qual! Aquilo porque o nosso amor anseia é a figura terrestre e imperfeita, mas real, tangível, do ente que partiu. E saber que nunca, nunca mais a havemos de contemplar nas suas linhas naturais, nas suas proporções humanas, conforme ela ficou gravada na retina, onde, contudo, ai de nós! As cinzas do tempo a vão lentamente, implacavelmente afogando numa sombra cada vez mais esbatida - eis o que é certamente o mais torturante dos martírios. Depois, meu Deus! A lembrança dessa forma amada a apodrecer embaixo de uma dura pedra, a dissolver-se em lama, em líquidos esverdinhados, saponáceos, corrompidos - essa lembrança é inaturável, confessemos. Ah, quanto à morte na Grécia Antiga, tinha outra beleza e outro prestígio! O gênio helênico exprimia por meio de uma letargia poética, o esvaecimento supremo. Não se morria: dormia-se numa serenidade elísia de deuses. A chama purificava em seguida os restos sujeitos à decomposição da matéria e belíssimas estátuas de adolescentes apoiados numa coluna partida e calcando os pés um archote extinto, assinalavam apenas, branquejando divinamente entre a verdura dos loureiros, o desaparecimento de mais um mortal querido da superfície da terra. É possível que, debaixo do estreito ponto de vista das convenções da morte, entre nós, esse admirável túmulo do cemitério São João Batista, represente uma idéia pagã...nada ali, com efeito, indica uma obediência às fórmulas estabelecidas. Não há cruz à cabeceira, nem anjo de asas abertas, nem urna, nem vasos, nem nome nem data... Há unicamente ela, só ela, deusa daquele altar, reclinada no seu divino mármore, sorrindo, toda branca, aos olhos saudosos que de quando em quando, a vão Contemplar na sua forma sempre humana sempre verdadeira, sempre bela... É o triunfo do amor sobre a morte... É o mais adorável tributo anônimo de um sentimento que recusa ostentações e vive apenas da satisfação íntima que só ele conhece e goza, ao estorcer de sua saudade. É finalmente a mais perfeita e original obra de arte que eu jamais tenha visto e admirado num cemitério da nossa cidade, esplêndido bloco de mármore, onde apenas se descobre dissimulado num ângulo, o nome do estatuário, a palavra "Paris" e a data 1905. Mais nada! Nós já temos na Escola de Belas Artes um quadro recente sob o título: Femme à la rose. Eu proponho aqui que se denomine a soberba figura do túmulo a que me referi com tanto entusiasmo nestas linhas: La femme endormie. E possam as gotas frias da chuva e as lágrimas quentes do amor que a ideou, rolando sempre pelas suas linhas tão belas, conservar-lhe eternamente a pureza e a brancura divinas!" 

 Carmen Dolores (Correio da Manhã de 1.12.1905) 

Crônica da escritora Carmem Dolores, publicada no Correio da Manhã, de 1/12/1905, sobre a escultura de minha bisavó, Zulmira Uchoa Cavalcanti Fernandes Barros.

"La Femme Endormie"

O Amor e a Morte 

“Conta Zimmerman, que tendo um pobre homem de Zurich perdido a noiva que adorava, esculpiu uma rosa sobre a lousa do seu túmulo e escreveu embaixo, sem nome nem data: "Assim é que ela foi...” 
Para sua alma simples e saudosa, aquilo bastava e reconstituía perante os seus olhos umedecidos de pranto a figura juvenil, viçosa e fresca da bem ornada esvaída. Ela tinha sido a túmida rosa de maio que perfumara as suas esperanças de amor, e rosa ficaria sempre sendo, eternamente, simbolicamente gravada nesse mármore puro que recobria os seus restos mortais. Quanto, porém, na atualidade, outra idéia mais bela sobrepuja em grandeza e poesia, em originalidade, em arrojo, em inspiração romântica, a tocante fantasia desse bom suíço! Na sepultura erigida por este, uma flor rememorava a graça do ente querido; no incomparável mármore que meus olhos agora contemplaram, cativos, fascinados, é a própria morta que sobrevive à destruição suprema, eternizada pela arte no último abandono. E nunca pareceu mais verdadeira a frase tantas vezes citada e tão raramente confirmada: "L'amour est plus fort que la mort!" que há servido de eixo a mais de um delicioso romance conhecido. Qual, porém, a natureza do amor que sugeriu a obra imortal de que me ocupo agora? Não sei! Tudo ignoro. De um grande mistério todo branco, evocou-se apenas a evidência para mim de um sentimento poderoso e inconsolável, que insuflara ao artista o ideal - 
da sua dor - pagã, se quiserem, mas admirável na concepção de seu desesperado intento de conservar intacta uma forma idolatrada. Essa dor maior, o seu suplício de Tântalo, arrojando longe de todos os moldes convencionais da resignação cristã, sob forma de um anjo pensativo que aponta para o céu, ou de uma estátua chorosa que se reclina sobre uma urna - todas essas figuras de uniformidade mística na expressão rafaelesca do mesmo longo oval dos rostos, emoldurados por cabeleiras soltas: representam com suas grandes asas tristes a esperança de uma outra vida, além, no infinito azul...mas a dor que sonhou uma obra de arte para imortalizar o vulto estremecido, recusou todos os símbolos consolidadores da convenção religiosa, e pediu em brados a realidade cruel, torturante, mas humana, que esculpisse no eterno mármore aquela que partira, e no gesto da partida... Oh! Não sei, repito, qual a natureza do amor que ideou tal perpetuidade grandiosa da derradeira atitude de um ser estremecido, fora de todos os preconceitos estúpidos da morte, arranjada e enfeitada pelas regras funerárias, com as mãos inertes bem cruzadinhas sobre o peito do defunto, uma flor aqui, uma coroa acolá, a cabeça disposta assim, os pés bem juntos, presos por uma fita, todas as formalidades do estilo. Mas acredito, mas ouso quase assegurar, que o sentimento que realizou essa aspiração excepcional, foi o amor - paixão ardente, refratário a todas as consolações, rebelado furiosamente contra os estragos de um corpo entusiasticamente adorado... E se me engano, que importa? Deixem-me a ilusão desse amor e desse culto; deixem-me o belo romance, com a visão de um poeta que se evade dos sistemáticos convencionalismos do tributo à morte e largamente abre margem às reminiscências tantálicas da sua ternura, na concepção desse mármore original, formoso, imaculado, eterno... Imagino assim o caso. Ela morreu longe daqui, no estrangeiro, ferida na plenitude da sua beleza e da sua mocidade. Nem a morte teve o tempo de alterá-la, em longos dias de sofrimento. Chegou à maldita, espreitando, viu a formosa criatura e fulminou-a em todo o esplendor das suas linhas soberbas. Era ela brasileira, francesa, italiana? Não lhes posso responder. Ignoro... e então, esse que a estremecia e hoje a pranteia, cobriu-a depressa com o mais fino e transparente lençol de cambraia de linho, ainda sobre o leito morno em que exalara o último suspiro, e correu a chamar um estatuário, um escultor - não um marmorista, vejam bem - ao qual exprimiu a idéia, filha das desesperadas lágrimas que seus olhos vertiam. E o artista compreendeu 
a secreta aspiração que latejava nessa alma poética e apaixonada. Veio o óleo quente, o gesso e a carne inerte retomou uma aparência de vida efêmera, rosada sob o calor do molde que estreitamente cingiu e modelou o corpo inteiro, ainda flexível, na posição natural, graciosa e indolente, em que resvalara no infinito repouso. O mármore, depois, imortalizou esse molde dáprès nature, em toda a sua pujante verdade; e o seu dono pôde contemplar essa que amava no mole abandono da primeira hora do eterno sono, tão linda e perfeita, a cabeça um pouco virada para o lado, a boca risonha, o cabelo em voltas flexuosas, cheias de seiva e presa à moderna. Os braços languidamente caídos ao longo do corpo - ela toda um primor de escultura viva e palpitante. Não morreu: existe, dorme, repousa, com o seu belo peito forte dilatado pela respiração calma que o mármore não consegue figurar, em sua dureza de bloco imortal. Mas só falta isto - o hálito perfumado a fugir desses lábios ridentes. Então o dono levantou-a assim adormecida nos seus braços delicados, transportou-a para bordo de um vapor e trouxe-a para nossa terra - talvez a dela ou a dele, quem sabe? No mesmo navio viajavam: os restos sujeitos à destruição e a efígie soberba desafiando a morte e o tempo. 
Aqui repousam hoje esses restos mortais de uma mulher bonita numa sepultura do cemitério São João Batista. A carne roída pelos vermes, jaz embaixo da lousa, invisível aos olhares mais ternos e saudosos, revertendo à cinza das imposições cristãs; mas, em cima dessa pedra mármore, como sobre um leito alvíssimo, cuja cúpula formosa fosse o vasto cetim azul dos céus, a morta adorada sobrevive à destruição do seu corpo, estendida em decúbitos dorsal sobre todo comprimento do túmulo, e sorrindo de pálpebras cerradas àqueles que a admiram, sorrindo aos beijos do sol, às borboletas ou aos passarinhos amorosos, que lhe posam em cima, na atitude abandonada de um simples descanso no silêncio profundo desse campo tranqüilo. Fino lençol em grandes pregas, modela castamente os seus membros emergindo apenas a cabeça vigorosa, um pescoço e a nascença de um peito positivamente esculturais, e um dos braços também perfeito, cuja mão, a convulsão da morte torce um bocadinho ou pendeu, no derradeiro esvaimento, assim contraída. Todo o resto do corpo, esbelto e grandioso, se desenha através do tecido transparente da cambraia de linho, maravilhosamente tratado pelo cinzel do escultor, sentindo-se-lhe a finura e a leveza das dobras amplas, que envolvem sem oprimir; e uma das pernas cedeu um pouco a qualquer contração última, que a desviou ligeiramente da pose clássica, exigida pelas linhas da arte. Mas não lhe mexeram: assim se imobilizou essa perna, assim ficou no mármore... e mais humana é deste modo a bela criatura, dormindo como uma simples mortal o seu sono de imortal, eternamente gloriosa e eternamente pura, tocada de luz, radiante de perfeição plástica, serena, indiferente a essa horrível solidão dos túmulos, onde ela só, toda branca, representa ainda a vida e o amor entre rosas que florescem e as avezinhas que trinam aos pares sobre as árvores. Murmuram alguns, que a idéia é pagã... Pois eu acho admirável, única, divina... Por que havemos de fazer da morte um pavoroso espantalho? Já foi tempo em que a Idade Média inventava a Dança Macabra com seus esqueletos a chocalharem furiosamente os ossos em contorções sinistras, e que desapareceram gradualmente no princípio da época do Renascimento. Os mortos, então, eram grotescos, riam sardonicamente, mascaravam-se de abades, de clowns, de velhas decrépitas, enchendo as vinhetas dos livros e até os vitrais coloridos dos claustros, das longas procissões de ossadas saltitantes, girando  numa jovialidade fantástica e alucinante. Foi Holberin que resumiu com o seu gênio o lúgubre humorismo dessa temporada. O cristianismo entrega o corpo à terra que o corrompe e só se ocupa da alma, que foge aos céus da outra vida, abandonando a forma mortal a podridões sem importância para a essência divina do ser. Essa idéia, porém, consola apenas as resignações calmas e tranqüilas. A pessoa morta está com Deus! Um dia, todos nós nos encontraremos lá, nas regiões celestes... sim mas essa esperança não basta de certo às afeições veementes, férvidas, vibrantes, que se estorcem de saudade, que se revoltam desesperadamente contra a eterna separação material da carne. Nunca mais ver, sentir, olhar o ente querido, mas é atroz! Debalde a vista se volve para as alturas e invoca as figuras angélicas da tradição religiosa, tão docemente serenas e consoladoras no seu vago contorno espiritual. Qual! Aquilo porque o nosso amor anseia é a figura terrestre e imperfeita, mas real, tangível, do ente que partiu. E saber que nunca, nunca mais a havemos de contemplar nas suas linhas naturais, nas suas proporções humanas, conforme ela ficou gravada na retina, onde, contudo, ai de nós! As cinzas do tempo a vão lentamente, implacavelmente afogando numa sombra cada vez mais esbatida - eis o que é certamente o mais torturante dos martírios. Depois, meu Deus! A lembrança dessa forma amada a apodrecer embaixo de uma dura pedra, a dissolver-se em lama, em líquidos esverdinhados, saponáceos, corrompidos - essa lembrança é inaturável, confessemos. Ah, quanto à morte na Grécia Antiga, tinha outra beleza e outro prestígio! O gênio helênico exprimia por meio de uma letargia poética, o esvaecimento supremo. Não se morria: dormia-se numa serenidade elísia de deuses. A chama purificava em seguida os restos sujeitos à decomposição da matéria e belíssimas estátuas de adolescentes apoiados numa coluna partida e calcando os pés um archote extinto, assinalavam apenas, branquejando divinamente entre a verdura dos loureiros, o desaparecimento de mais um mortal querido da superfície da terra. É possível que, debaixo do estreito ponto de vista das convenções da morte, entre nós, esse admirável túmulo do cemitério São João Batista, represente uma idéia pagã...nada ali, com efeito, indica uma obediência às fórmulas estabelecidas. Não há cruz à cabeceira, nem anjo de asas abertas, nem urna, nem vasos, nem nome nem data... Há unicamente ela, só ela, deusa daquele altar, reclinada no seu divino mármore, sorrindo, toda branca, aos olhos saudosos que de quando em quando, a vão Contemplar na sua forma sempre humana sempre verdadeira, sempre bela... É o triunfo do amor sobre a morte... É o mais adorável tributo anônimo de um sentimento que recusa ostentações e vive apenas da satisfação íntima que só ele conhece e goza, ao estorcer de sua saudade. É finalmente a mais perfeita e original obra de arte que eu jamais tenha visto e admirado num cemitério da nossa cidade, esplêndido bloco de mármore, onde apenas se descobre dissimulado num ângulo, o nome do estatuário, a palavra "Paris" e a data 1905. Mais nada! Nós já temos na Escola de Belas Artes um quadro recente sob o título: Femme à la rose. Eu proponho aqui que se denomine a soberba figura do túmulo a que me referi com tanto entusiasmo nestas linhas: La femme endormie. E possam as gotas frias da chuva e as lágrimas quentes do amor que a ideou, rolando sempre pelas suas linhas tão belas, conservar-lhe eternamente a pureza e a brancura divinas!" 
 Carmen Dolores (Correio da Manhã de 1.12.1905) 
Wait while more posts are being loaded