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A Morte e a vida do livro

Maria das Graças Targino*

Em território nacional, comemora-se a Semana Nacional do Livro e da Biblioteca, entre 23 a 29 de outubro. Com a proximidade da Semana, voltamos ao tempo.

Rememoramos que, aos 17 anos, ingressamos na Universidade Federal de Pernambuco para cursar Biblioteconomia, considerada, à época, profissão de “mulher direita.” Não houve opção por pura pressão familiar. Mas ao contrário do que se pode pensar, nos apaixonamos de imediato pela profissão, a qual dedicamos parcela significativa de nossa existência. Mas quando dizemos: voltamos ao tempo, não pretendemos focar vivências tão somente particulares, e, sim, discutir a eterna anunciada morte dos livros e das bibliotecas.


Adiante, fomos instigadas por um dos mestres queridos para escrever sobre o risco anunciado de extinção de livros e, portanto, das bibliotecas, face ao avanço desenfreado, à época, das chamadas microformas em seus formatos mais comuns – microfilmes (rolos), aperture cards, microfichas e micro cartões. O professor enviou o texto ao “Jornal do Commercio” [de Pernambuco], editado em Recife desde 7 de novembro de 1825, sob encargo de Antonino José de Miranda Falcão, e que se impõe como o mais antigo diário em circulação da América Latina.


Lá está em circulação meu primeiro texto na mídia, sob o título “A morte do livro: realidade ou ficção?, 16 de junho de 1968. Amarelado pelo tempo que não para, o registro impresso persiste atual em pleno século XXI, ano 2018. Isto porque, após o temor da força das microformas, o incremento dos meios de comunicação aliado à força das redes eletrônicas de informação, ênfase para a internet, trazem, vez por outra, vozes que insistem em dizer que o impresso se esvai para dar lugar aos documentos digitais. É esta sociedade contemporânea e em pleno desenvolvimento, que, segundo alguns teóricos, absorve com tal intensidade as inovações tecnológicas, decretando a fragilidade do livro na acepção ampla de palavra escrita. Quer dizer, na atualidade, há homens “cultos” que desprezam os livros, seguindo o registrado ainda no século IV a. C., quando Platão se opõe, radicalmente, à escrita, embora ele próprio escrevesse seus argumentos e os registrasse, permitindo a análise de sua obra, após tanto tempo. Eis a grande contradição: os mesmos que admitem a morte do livro e, por conseguinte, das bibliotecas, reconhecem a impossibilidade de uma civilização “sem papéis”, haja vista ser impossível pensar na manipulação da informação pelos computadores sem a utilização da escrita.


Então, a bem da verdade, livros e bibliotecas continuam “firmes e fortes”, sobretudo, nos países desenvolvidos. Os primeiros ganham novos suportes, como os já comuns electronical books (e-books), os audiolivros e os construídos a centenas de mãos e corações no espaço virtual, os quais convivem em harmonia com os impressos. As segundas persistem como memória da civilização, tal como os museus e os arquivos. Persistem como recanto aprazível de descoberta, de lazer e de prazer, sem relegar, em nenhum momento, as potencialidades das inovações tecnológicas. É oportuno retomar a frase histórica do poeta judeu alemão, Heinrich Heine, quando diz: “Onde se queimam livros, acabam-se queimando pessoas.” Além da ascensão do nazismo na Alemanha, onde tudo tem início com a queima de obras literárias, científicas e filosóficas de autores, a exemplo de Albert Einstein, Sigmund Freud, Stefan Zweig e Thomas Mann; no Brasil, a comunicóloga Sandra Reimão, no livro “Repressão e resistência: censura a livros na Ditadura Militar”, ano 2011, edição da Universidade de São Paulo, analisa o veto a livros entre 1964 e 1985, no país.


Entre o Golpe Militar de 1964 e a promulgação do AI-5, a censura à produção de intelectuais brasileiros, e, por conseguinte, às coleções das bibliotecas, é caracterizada por atuação obscura, multifacetada e sem critérios claros, mesclando batidas policiais, apreensões, confiscos e até coerção física. Os vetos atingem livros de ficção e não ficção. Dentre os últimos, estão obras que venceram o tempo e, hoje, ocupam o posto de clássicos. “A revolução brasileira” e “O mundo do socialismo”, ambos de Caio Prado Júnior; “História militar do Brasil”, do historiador Nelson Werneck Sodré; e “A mulher na construção do mundo futuro”, de Rose Marie Muraro constituem significativos exemplos. Há livros de poesia. Há declarações de parlamentares, cuja publicação, à época, é radicalmente proibida. E, como previsível, a censura atinge, também, os jornais, fazendo com que as equipes de redação se unam em busca de artifícios variados que salvaguardem os conteúdos, como relatado por José Antônio Pinheiro Machado em interessante livro-reportagem sobre a luta e a morte do jornal “Opinião.”


Há, ainda, cerco a livros eróticos ou pornográficos. Aliás, a menção a Adelaide Carraro e Cassandra Rios nos remete à adolescência e à inconfessável leitura de romances proibidos, devorados às escondidas. Da primeira, nos resta a lembrança de dois livros – “De prostituta à primeira dama” e “Os padres também amam”, dentre uma produção ampla, de mais de 40 títulos. De Cassandra Rios (pseudônimo de Odete Rios), uma das escritoras mais vendidas nas décadas de 60 e 70 (século XX), fugidia lembrança de “A borboleta branca” e “A paranoica”, esta última obra adaptada para o cinema sob o título “Ariella.”


Na atualidade, no país, museus de grandiosidade universal, tal como o Museu Nacional, Quinta da Boa Vista (Rio de Janeiro, RJ), com cerca de 20 milhões de itens catalogados, todos eles de valor irrecuperável, só revive a celebridade perdida, depois de sua morte, quando o trágico incêndio, ocorrido na noite de 2 de setembro de 2018 ganha impacto internacional. A destruição quase total de seu acervo histórico e científico construído durante 200 anos, lembra que sua perda, por conta das condições precárias do edifício histórico que abrigava o Museu, antes residência oficial dos Imperadores do país, danificado com rachaduras, desabamento da cobertura e de lajes, não atinge apenas o povo brasileiro, mas à humanidade como um todo.
O fato, porém, é que as tragédias que assolam centros internacionais de pesquisa, como no caso do Museu Nacional, cujos recursos financeiros alcançaram, ano 2017, o valor irrisório de 650 mil reais em oposição a 563 333,56 destinados à lavagem dos 83 carros da Câmara dos Deputados, paradoxalmente, tornam mais fácil de entender os maus-tratos destinados aos museus, arquivos e às bibliotecas brasileiras.
Se a Biblioteca Nacional (RJ) também clama por socorro, no caso específico dos Estados, salvo raríssimas e honrosas exceções que existem, sim, no Piauí, outubro de 2018, o Governo Estadual mantém a Biblioteca Pública Estadual Desembargador Cromwell de Carvalho sempre em “constantes reformas”, zero nos itens atualização da coleção, cumprimento da Lei Estadual de Direitos Autorais, qualificação de pessoal, etc. Para ideia mais clara da situação, se, formalmente, participa do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, não conta com nenhum profissional de informação qualificado para gerenciar todo o sistema de bibliotecas nos 224 municípios. Distribuídos entre Arquivo Público, Secretaria de Educação, Secretaria de Assistência Social e Universidade Estadual do Piauí (com seus 17 campi), o Estado do Piauí conta apenas com cerca de oito bibliotecários!


A Prefeitura Municipal de Teresina (PMT) adota o mesmo descaso. Apesar do inchaço de seu quadro de pessoal, a Secretaria de Administração não mantém em seu Plano de Cargos e Salários, o profissional bibliotecário. Ao que tudo indica, a PMT abriga um único profissional especializado para gerenciar as bibliotecas da capital Teresina. É muito evidente e óbvio: nenhum governante e/ou administrador da linha de frente ousa negar publicamente a relevância de museus, arquivos e bibliotecas como instituições eminentemente sociais e culturais. Na prática, porém, o corte de verbas recai sempre e sempre sobre eles! A situação dessas instituições no Estado é lamentável. Não são palavras jogadas ao vento. Simples visita in loco constata o que ora registramos.


Nosso desconforto e nossa tristeza diante da situação se agravam quando nos deparamos em outras nações com exemplos fantásticos. Nenhuma exaltação gratuita ao que não é nosso ou nenhuma intenção de reduzir de forma irresponsável nossos valores. No setor específico de bibliotecas, o confronto é inevitável. O contato com outras culturas não deixa dúvidas. No Arquipélago de Açores (Portugal), quase em cinco ilhas visitadas, há bibliotecas locadas em praças e parques, as quais coexistem com o público, que pode doar e levar à vontade publicações para ler: o compromisso social está implícito e a liberdade de ir e vir, idem. A Biblioteca Pública de Boston (Estados Unidos da América) é indescritível. É citada em qualquer guia, como ponto turístico imperdível. É a realização do que se apregoa, desde minha fase de estudante de Biblioteconomia: as bibliotecas como centros de informação utilitária, como espaços sociais e de expressão dos valores genuínos da coletividade.


São dados objetivos, precisos, exatos, relativos a direitos e deveres do cidadão, habitação, emprego, educação, concursos, transportes públicos, problemas do consumidor, opções de lazer, saúde, impostos, finanças, alimentação e outros itens. Isto é, em Boston, a Biblioteca Pública, ocupando um quarteirão enorme, pulsa vida e energia. A cada dia, de janeiro a dezembro, mediante planejamento invejável, mantém uma série de atividades que se destinam aos públicos de todas as faixas etárias e de interesses diversificados. Mantém exposições culturais permanentes. Mantém, de forma sistemática, saraus, concertos, cursos de extensão nas mais distintas áreas, como redação técnico-científica, uso de tecnologias, comércio e indústria, etc. Supre as demandas informacionais dos cidadãos e lhes concede acesso aos itens de que necessitam, de forma selecionada, organizada e em linguagem acessível e atualizada.


E melhor, sem a malfadada burocracia e contando, ainda, com pequenas bibliotecas espalhadas em locais públicos, gerenciadas praticamente por indivíduos envolvidos com a formação de sua gente, tal como vimos em outros países, que contam com estanterias para uso de qualquer um, em rodoviárias, aeroportos, pontos de parada do transporte público, entradas de centros culturais, etc. Enfim, é o inimaginável ou o que qualquer brasileiro sonharia para sua cidade ou seu bairro.


Puro sonho. Aqui, em Teresina, grandes escolas privadas mantêm grandes bibliotecas. A grande diferença: livros aprisionados e solitários em armários fechados. Recentemente, uma instituição considerada essencial ao desenvolvimento de micro e pequenas empresas, fecha sua biblioteca por não reconhecer mais sua função como tal. E eis nova denominação sob o olhar conivente dos profissionais bibliotecários, retomando a temível premissa: a morte do livro e da biblioteca: realidade ou ficção? Interpretação ingênua! Afinal, a recuperação da qualidade de vida do cidadão brasileiro passa pela difusão da informação, passa por uma postura fundamentalmente social da biblioteconomia e do bibliotecário, passa pela democracia, que tem na informação o pressuposto maior e que significa força conjunta, engajamento social e político.


Por fim, ao relembrarmos a informação como poder econômico, social e político, a biblioteca como centro de informação é, inevitavelmente, elemento vital ao processo desenvolvimentista do Brasil. Mas, ao contrário do que ocorre em relação aos meios de comunicação e aos artefatos tecnológicos, a biblioteca prossegue vista como força diminuta e fortemente comprometida com o sistema. A nós, profissionais da informação, resta um caminho longo e árduo, no sentido de contribuir para que a todos os brasileiros seja legado o exercício da cidadania, a participação real na vida do país, por intermédio do acesso irrestrito à informação, para que possamos realmente comemorar, sem desalento, a Semana Nacional do Livro e da Biblioteca.


*Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica.
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DOIS TEXTOS PARAIBANOS

DOIS TEXTOS PARAIBANOS

Clemente Rosas

1.SAMBA DE COCO
INVENTÁRIO SENTIMENTAL DE UM FOLGUEDO EM EXTINÇÃO
Sua origem remonta aos tempos em que as praias da Paraíba eram cobertas de imensos coqueirais, com algumas aldeias de pescadores de permeio. E a principal fonte de renda dessas propriedades era mesmo o coco, já que os areais não são propícios a culturas agrícolas temporárias ou à criação de gado. Cabia, portanto, uma comemoração ao final das colheitas, que mobilizavam muitos praieiros para tirar, descascar e transportar os cocos. Eram as festas de “samba de coco”.
Com o tempo, o nome do folguedo, que envolve cantoria e dança, ficou reduzido à expressão “coco”. E foi melhor assim, porque o seu ritmo nada tem a ver com a cadência do samba dos morros cariocas. Está mais próximo dos forrós nordestinos, mas com batuque e coreografia diferenciados. Extremamente rústico, seus instrumentos se limitam a um zabumba e um caracaxá. Dança-se solto, em roda ou com livre deslocamento, marcando-se o compasso sempre com o pé direito. Inocentes umbigadas eventuais também podem ter lugar.
Os temas das canções são passagens da vida dos litorâneos: manobras no porto, pesca, navegação, coisas do mar e da terra. Mas há espaço também para o cômico e o romântico. Algumas poucas mereceram gravações de cantores populares, como Jackson do Pandeiro. Mas a maior parte ficou apenas na memória de alguns veranistas, como os de minha família, e tendem ao esquecimento. Daí a ideia de registrá-las aqui, “ad perpetuam rei memoriam”.
É de se destacar que, em minha terra, a dança chegou aos terraços e aos pavilhões da classe média, diferentemente de Pernambuco. Nesse Estado vizinho, onde morei por muitos anos, só ouvi falar dela quando uma letrinha de duplo sentido foi popularizada por Dona Selma do Coco (depois seguida por Dona Aurinha). A canção falava da fuga de um columbídeo, e terminava com o estribilho: “pega, pega minha rola!”
Na Paraíba não foi assim. As moças e rapazes da sociedade dançavam coco. Minha mãe e tias foram graciosas dançarinas, seguidas por filhas, filhos e netos. Com elas aprendemos muitas letras, como também com os pescadores Pititinga e João Flor. Elas variam de forma: simplesmente narrativas, à maneira de diálogo, ou com refrão ou coro. Algumas vão aqui reproduzidas.

Com temas portuários

Santa Maria lá fora
Os canoeiro remando
Lourenço tá maginando
Mané Fulô não vem cá
Sustenta o leme no meio
Que é pra não perder o tino
Que eu ouço a voz do menino
Chamar do lado de lá
O mestre é Mané Fulô
Toda manobra ele faz
E o dono é Doutor Jaime
Filho do Governador

Na barra entrou
Dois navio de guerra
Não içou bandeira
E nem salvou à terra

Maria, acorda João
Que o “Alemão” vem lá fora
O “Alemão” é paquete
Não entra fora de hora

Românticas

Olha a rosa amarela, rosa
Tão bonita e tão bela, rosa
Iaiá, meu lenço, ô iaiá
De eu me enxugar, ô iaiá
Nessa despedida, ô iaiá
Que me faz chorar, ô iaiá

Morena, fulô da noite
Ô fulô tão maravilhosa
Quero ver a pisada mansinha
Pra matar as invejosa

Ô menina do dente de ouro
Parece um tesouro a boquinha dela
Se eu pudesse, tivesse dinheiro
Eu ia a Barreiro e casava com ela
Barreiros, cidade da Zona da Mata pernambucana

Viuvinha não chore não
Viuvinha não vá chorar
Viuvinha, não chore não
Que seu amor já vai voltar

De pesca, mar e tempo

Camarão é peixe bom, camarão
Quando leva seu tempero, camarão
Seu azeite, seu vinagre, camarão
Sua pimenta de cheiro, camarão
Eu botei a rede n’água, camarão
Comecei a lancear, camarão
O peixe que veio na rede, camarão
Foi o camarão do mar, camarão

Compadre, que vento é esse
Que esse vento não navega
Às quatro horas da tarde
Avistei Ponta de Pedra
Ponta de Pedras, praia pernambucana

Canoeiro acende a vela
Quando vai de mar afora
Quero ver a lua nova
Quando vai rompendo a aurora

A chuva choveu, paraná
A goteira me molhou, paraná
Tá chovendo, tá relampeando, paraná
Tá trovejando nas ondas do mar, paraná

De plantas e bichos

Cajueiro abalou
Abalou, abalançou
.............................
Passarinho da lagoa se tu queres avoar
Avoa, avoa, avoa já
O biquinho pelo chão e as asinhas pelo ar
Avoa, avoa, avoa já_

Facécias

Ô papai, mamãe
Cadê Maria, meu Deus?
Comeu farinha do barco
Caiu pra trás e morreu
Farinha transportada em porões de barcos, quando havia falta de abastecimento local, que facilmente azedava

Dona Maria, olha o boi!
Dona Chiquinha, cadê?
Se não tem pau que eu me assuba
Vou me valer do dendê
Palmeira com o tronco cheio de espinhos

Gravados

Ao menos dois cocos foram gravados, creio que por Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro

Oi, responda esse coco, com palma de mão
É coco do Norte, nunca foi baião
.........................................................
Ai, nesse coco eu não vadeio mais
Apagaram o candeeiro, derramaram o gás
..................................................................

E para terminar, eu e meu irmão Mateus constatamos, mais recentemente, a entrada do veículo motorizado no universo dos letristas de coco:

Meu caminhão Chevrolet
Pra carregar e vender
O motor dele é V-8
Vou comprar um pra você

Sinal dos tempos. Hoje só resta um grupo de coco em Cabedelo: o do mestre Benedito, já falecido. Sua viúva e herdeiros lhe deram continuidade. E, para prestigiá-los, meu irmão os convidava, toda passagem de ano, para uma apresentação em sua casa. Morto também meu irmão, minha cunhada e sobrinhas mantiveram a tradição.
Um zabumbeiro cego, alguns jovens revezando-se no caracaxá, uma morena esbelta liderando os movimentos, as velhas puxando a cantoria, aí vamos todos, no terraço e no terreno arenoso em frente à casa, em volta de uma amendoeira, marcando os passos do coco. Para descansar, alternamos com uma ciranda, de compasso mais lento, mãos dadas, reproduzindo o vai-e-vem das ondas na praia. Não deixa de ser gratificante, para nós e nossos convidados.
Observei, no começo deste texto, que o folguedo só se popularizou em Pernambuco por uma letra maliciosa, que falava de uma rolinha fugitiva, a ser capturada. Esse recurso – o duplo sentido das canções, muitas vezes resvalando para o mau gosto – tem feito o sucesso de cantores nordestinos como Genival Lacerda, “o senador do rojão”. E os sucessores do mestre Benedito parecem ter aderido a essa prática, como se quisessem dizer: “nós também sabemos fazer isso”.
Se a fórmula contribuir, de algum modo, para a sua notoriedade, acho que poderíamos perdoá-los. De qualquer maneira, cumpro aqui o compromisso que assumi, comigo mesmo, de não deixar que a memória de um folguedo tão autenticamente paraibano venha a apagar-se, com a chama das nossas vidas. E reproduzo, em despedida, a última composição do Grupo, na linha ora comentada.
Canta a puxadora, “a palo seco”:

Em Cabedelo tem uma cobra
Fazendo manobra, dando carreira em mulher
Na casa dela tem um A e tem um D
Só seu Geraldo é que sabe
O ninho da cobra onde é

E entra o coro, com o batuque:

Ai, que rolo de cobra, ai que rolão
Ai, que rolo de cobra, ai que rolão
Ai, a cabeça da cobra, ai que rolão
Ai, a linguinha da cobra, ai que rolão
....................................................................


2.POLÍTICOS DE ONTEM E DE HOJE
DOIS DOCUMENTOS HISTÓRICOS E ALGUMAS REFLEXÕES

Carta de Mateus Gomes Ribeiro, Secretário da Fazenda da Paraíba, ao Interventor do Estado, Gratuliano Brito


30/06/1932
Meu caro Gratuliano: Venho cumprir o dever de apresentar-lhe o meu pedido de demissão do cargo de Secretario da Fazenda, que me foi confiado pelo meu inolvidável amigo Anthenor Navarro. Depois do incidente que me afastou desse cargo, no governo do saudoso e Grande Presidente João Pessoa, a quem, apesar disso, nunca neguei a minha absoluta admiração e de quem nunca me afastei até a véspera do seu tragico desaparecimento, não pretendia mais voltar a exercel-o, desde que tantos sacrifícios materiaes me tinha causado. Veio a revolução, a nossa tão sonhada revolução, e com ella a transformação administrativa que nos deu como Interventor da Parahyba aquelle a principio desconhecido espirito de administrador que foi Anthenor Navarro. Nos primeiros dias, eu confesso que não acreditava na efficiencia daquelle moço, embora o reconhecesse de grande capacidade no desenvolvimento dos acontecimentos em torno à Campanha Liberal e à Revolução. Fui por ele convidado para Secretario da Fazenda e, não obstante a surpresa do convite, porque me considerava riscado do mappa das posições, não o aceitei sem o compromisso de que na minha pasta teria absoluta liberdade de acção e, ainda mais, a minha investidura era um imperativo seu e do nosso Grande Ministro José Americo. Diante disso voltei ao sacrifício a que me impunha sobretudo o dever de cooperar modestamente na administração do meu caro Estado. Não sei se tenho correspondido à benévola expectativa daquelles dignos amigos, sabendo, entretanto, que para isso muito me tenho esforçado. Morto tragicamente o meu caro Anthenor, que tão bem me soube comprehender e corresponder à nossa estima comum, considerando-me dentro na bondade de seu grande espirito de justiça, eu me venho sentindo desestimulado para prosseguir nessa luta tremenda e estafante que é a direção dos destinos economicos do Estado. Não é que me falte animo para perseguil-a pela felicidade da nossa extremecida Parahyba, mas, como você conhece, eu sou um espirito um tanto rebelde, para não dizer independente, e não sei se no seu governo effectivo poderei conquistar aquella mesma consideração e prestigio que me fizeram tão captivo do mallogrado Anthenor. Destruindo explorações, devo dizer-lhe que a sua candidatura ou a sua effectivação foi-me sempre muito simpathica, desde que lhe reconheço muito digno e com muitos predicados para a tarefa de governar. A maneira por que ella foi lançada entretanto, sem contestação sua, em face dos elementos que a animaram em detrimento dos nossos amigos que nunca pensaram em combatel-a, (tenho disto certeza) motivou-me uma grande tristeza, nessa oportunidade revolucionaria. Quero dizer-lhe, pois, que sempre o apoiei e aplaudo a sua effectivação, desde que lhe reconheço digno entre os mais dignos, com a ressalva de que esses elementos que combateram ao nosso inesquecivel Anthenor não se venham infiltrar nos designios de sua provavelmente boa e sábia administração. Nestas condições, pois, deponho às suas mãos o meu honroso cargo, sem que em qualquer hypothese você deixe de contar com a minha absoluta e particular estima. Seu amigo certo - M. Ribeiro.
* * * * * * * * *
Carta de José de Borja Peregrino, prefeito nomeado da cidade de João Pessoa, ao interventor do Estado, Gratuliano Brito

09/11/1934
Sr. Dr. Gratuliano de Britto. Accuso recebida e respondo a carta que me dirigiu, hoje, por mãos do seu Secretario, dr. Abdias de Almeida. Começo a respondel-a, repellindo a grosseira e indigna insinuação que quiz fazer-me, atribuindo-me dever de promover a renuncia do sr. Joaquim Torres, à presidência da Caixa de Aposentadorias e Pensões dos Empregados da Empresa Tracção, Luz e Força. Mesmo que eu tivesse concorrido para a escolha desse cidadão, o que em nada me desmereceria mas é falso e mentiroso, não poderia deixar sem repulsa a proposta de negociar a minha permanência num posto de confiança do Governo mediante solução de tal natureza. Esquece, talvez, que propostas dessa ordem não se fazem a homens que sabem presar a honra e dignidade proprias e colocam, acima de tudo, os seus sentimentos de lealdade publica e particular. Dito isto, a respeito da parte principal da sua carta, da que mais interessa aos seus sentimentos personalissimos, quero revidar o que assevera a respeito de ter eu servido de vehiculo, no caso da Caixa de Pensões, afirmativa na qual, de certo, quer envolver os nomes dos meus ilustres e dignos amigos drs. José Americo e Argemiro de Figueiredo, unicas pessôas com quem conversei sobre o assunto, como é do seu conhecimento. Sirva de testemunho da minha actuação, nesse caso como em quaesquer outros casos, o valor da palavra de tão conceituados cidadãos, testemunho inegavelmente mais valioso e irrefutavel do que o de outros que se arrogam sentimentos e qualidades que não possuem. Acho muito justa a sua vontade de não deixar mal o Geisel e não desejo, absolutamente, contribuir para isto porque sei do empenho desse seu digno e devotado auxiliar em proveito da sua administração. Por isto e porque não me sentiria bem, moralmente, continuando no posto de auxiliar do seu governo, passo agora mesmo a responsabilidade da direcção da Prefeitura ao Director de Expediente e Fazenda, sr. José de Carvalho. Do patrício - J. de BORJA PEREGRINO
Originais no arquivo particular de Joaquim Inácio Brito, sobrinho de Gratuliano Brito. Eliminados apenas os parágrafos, para adensamento dos textos.
* * * * * * * * * *
As reflexões que se nos apresentam, a propósito destes documentos, dizem respeito à natureza da política brasileira, como a vemos hoje, em comparação com a de oitenta anos atrás. Evoluímos, em teoria e prática, ou nos degradamos?
Talvez o único aspecto evolutivo seja o fato de que nela não mais prevalece aquela passionalidade pela qual se via no opositor um inimigo figadal, e que levou à morte quatro honradas figuras paraibanas: João Pessoa, João Dantas, João Suassuna e Anayde Beiriz. Mas, na maneira de encarar o múnus público e as responsabilidades do poder, a diferença é abissal, em desfavor dos políticos de hoje.
Sente-se, nos políticos emergentes dos anos 30 do século passado, um forte sentimento de dignidade pessoal e um profundo desapego aos cargos públicos. No primeiro caso, o secretário da fazenda do Presidente João Pessoa, que permaneceu no posto no governo do interventor Antenor Navarro, não quis mais continuar, após a morte deste em trágico acidente de avião. E isso apenas porque o sucessor, cuja probidade e competência não deixou de reconhecer, não lhe parecia ter plena identificação com o ideal revolucionário dos tenentes e seus amigos civis, tendo recebido o apoio dos opositores. No segundo, o prefeito nomeado da capital, integrante do pelotão de civis que, sob o comando do tenente Agildo Barata, tomou o quartel do 22º BC, no início da revolução, por uma simples “ fofoca” envolvendo o seu nome numa ação de advocacia administrativa, demite-se altivamente da Prefeitura, proclamando sua honradez.
O que vemos hoje, muito ao contrário, são velhas raposas que, mesmo investigadas por corrupção, processadas, condenadas, permanecem grudadas aos seus postos como cracas no casco de um barco encalhado, protestando inocência e recorrendo a qualquer manobra, legal ou ilegal, para protelar a queda. Em situações onde qualquer homem honrado se sentiria mal e abandonaria o palco, fingem-se de ofendidos e proclamam inocência.
Não há o que se esperar desses velhos “carcomidos”, como chamavam os “tenentes” de 1930 aos políticos da República Oligárquica que morreu naquele ano. Esperemos, apenas, que a onda renovadora da Operação Lava Jato possa varrê-los do mapa, abrindo espaço para uma nova geração de homens públicos decentes, que há de surgir.
E se alguém, a pretexto de criticar os jovens procuradores da república que promovem essa faxina, por suas audácias e pretensões, os compara com os “tenentes” de oitenta anos atrás, a comparação, a meu juízo, vem em favor deles. Afinal, o Brasil mudou muito a partir de 1930. E, apesar dos percalços de 1932, 1935 e 1937, acabou sendo para melhor.
Em tempo: O Geisel referido na carta de Borja Peregrino é mesmo o tenente Ernesto Geisel, que sucedeu meu avô na Secretaria da Fazenda da Paraíba, e, quase meio século depois, como general, presidiu o país na Ditadura Militar. Que a História possa bem julgá-lo, em seus dois momentos como político.
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CORAÇÃO ESGOTADO - ME CHAME PELO SEU NOME

Maria das Graças Targino*


Título é um elemento que atrai ou afasta. É assim com livros, textos avulsos, posts, filmes, exposições, eventos, etc. “Me chame pelo seu nome”, tradução em português de “Call me by your name”, é uma designação longa e difícil de viralizar. Mas, é só sentar diante da telona para entender o sucesso do filme do diretor italiano Luca Guadagnino e produção do brasileiro Rodrigo Teixeira. Adaptado do romance homônimo do ítalo-americano André Aciman, lançado no Brasil, pela Editora Intrínseca, em 2017, a película é coprodução de França, Itália, Estados Unidos da América (EUA) e Brasil.
Trata-se de impacto subjacente à temática num momento histórico em que parte da sociedade, sobretudo, no Ocidente, clama aos céus o reconhecimento do amor entre os seres humanos, independentemente do gênero dos envolvidos. Evidente que há do lado de lá, quem se posicione contra o amor que envolve pessoas do mesmo sexo, embora aqui resida um dos trunfos de “Me chame pelo seu nome”: ele rejeita qualquer forma de banalização, no decorrer de seus 132 minutos de duração, para, bravamente, evitar macular uma bela história de amor.

Não é à toa que está entre os indicados ao Oscar do ano, em quatro categorias: melhor filme; melhor ator (Timothée Chalamet); roteiro adaptado (James Ivory); melhor canção original “Mystery of love”, do músico estadunidense Sufjan Stevens. Seu favoritismo se dá desde a estreia no Festival Sundance de Cinema (Estado de Wyoming, EUA), 2017. Além de estar concorrendo tanto para o Globo de Ouro, promoção da Hollywood Foreign Press Association, que escolhe os melhores filmes da tevê e do cinema, quanto para o Bafta, academia britânica responsável pela segunda maior premiação da história do cinema, até então já conquistou o troféu do American Film Institute como “o filme do ano.”

O cenário, retratado em fotografia ímpar, encanta por uma ambientação que põe em contraste as estações, sobretudo, verão e inverno, cada uma das quais com sua perfeição singular e resquícios que afetam a vida das pessoas nos mais íntimos detalhes. Porém, a maior parte da trama se passa em pleno verão nos anos 80, na velha Itália, o que justifica as palavras iniciais da película: “Em algum lugar do norte da Itália!” A trilha sonora faz sonhar. A harmonia familiar surpreende por um nível de perfeição que beira à desconstrução... Um pai erudito, o professor universitário senhor Perlman, vivido pelo genial ator Michael S. Stuhlbarg, é pleno de atenção para os que lhe rodeiam. A mulher Anella, frágil e forte, carinhosa e dinâmica, representada por Amira Casar é a encarnação do requinte. O filho único, Elio, 17 anos, vivido por Timothée Chalamet, conserva a doçura e o infindo amor pela música, com gestos raros de rebeldia, a exemplo da frágil negação ante o pedido dos pais para que vista determinada camisa que lhe parece espalhafatosa, talvez por ser presente de um casal de gays maduros e felizes.

A rotina da casa mantém uma incrível aura de cultura, conhecimento e arte, enriquecida pela presença anual, a cada seis semanas de verão, de um novo personagem. Desta vez, o pesquisador rumo ao doutorado, o norte-americano Oliver (Armie Hammer), a quem compete ajudar o professor ilustre em seus estudos e correspondências. E tudo isto em meio a locações magníficas em cidadezinhas medievais da região da Lombardia, em que a natureza, com toda sua grandiosidade, inclui rios e recantos de beleza indescritível. Há tardes à beira da piscina; refeições fartas e sadias, recheadas por frutos retirados do pomar da própria vivenda, na horinha exata do consumo; muito livro “no pedaço”; erudição aqui e ali; recitais de música; passeios de bicicleta e muito mais... Nada muda com a chegada do “intruso.” E, paradoxalmente, tudo muda! Há certa eletricidade no ar! De início, o homem, 24 anos, aproxima-se do menino, para conhecer melhor os arredores.

Em plena efervescência da descoberta da sexualidade e da própria vida, Elio ensaia os primeiros passos no território. Meninas lhe parecem interessantes. Mas é “ele” quem ocupa seu pensamento. Afinal, assemelha-se aos deuses gregos tão estudados pelo pai... O verão caloroso facilita. Shorts e camisetas insinuam uma nudez próxima a de um deus em plena atividade. São turbilhões de emoções que fazem corar o rosto do jovem ou sangrar seu nariz em momentos incontidos e incompreendidos de tensão. Decide confessar sua atração. A princípio, negação sem muita firmeza. Certo da impropriedade de uma relação como a que se impõe devagarinho, Oliver está ciente do fosso que separa as gerações, e, sobretudo, da distinção de estilos de vida, mas os momentos de êxtase e doce loucura impõem-se... Nada chocante. Até a cena de um delicioso pêssego não consegue agredir a sensibilidade da audiência. Tudo remete à paixão e à felicidade, pouco importa sua transitoriedade anunciada desde sempre. Os grandes amores não precisam durar para sempre. Há pessoas que permanecem conosco quando se vão e ganham o status de estrela distante, mas presentes a cada noite nos céus azuis ou cinzas!

O norte-americano retorna ao seu país. Antes, no entanto, os amantes jogam o jogo da troca de nomes. Quando Oliver sugere ser chamado de Elio e vice-versa, metaforicamente, tornam-se um só sujeito. Após a partida, resta o vazio, mas a compreensão dos pais está presente, sem incômodo ou qualquer peso. O diálogo (mais próximo de um belo monólogo) entre pai e filho, por si só, vale a produção do drama ora em cartaz nos cinemas brasileiros. Seu realismo nos faz sussurrar: “este texto é meu! Eu deveria tê-lo escrito!” Eis a fala do pai. Eis um momento de generoso acolhimento:

Vocês dois tiveram uma amizade muito bonita. Você é esperto demais para não saber o quão raro é e o quão especial é o que vocês dois tiveram [...] O que vocês tiveram não tinha nada a ver com inteligência. Ele era bom. E vocês dois tiveram sorte de terem se encontrado porque você também é bom.
................................................................................................................................
Quando você menos espera, a natureza tem maneiras astutas para encontrar nossos pontos mais fracos. Apenas, lembre-se de que eu estou aqui. Agora, você pode desejar não sentir nada. Talvez nunca tenha desejado sentir algo [...] Mas sentir algo, você obviamente sentiu. Vocês tiveram uma amizade linda. Talvez mais do que amizade. E eu o invejo. No lugar de onde eu vim, a maioria dos pais esperaria que tudo passasse [...] Eu não sou esse tipo de pai.

Nós arrancamos tanto de nós mesmos para nos curarmos mais depressa das coisas, que ficamos esgotados perto dos 30 anos. E temos menos a oferecer cada vez que começamos algo novo com alguém novo. Mas, se obrigar a ser um insensível, assim como não sentir coisa alguma, que desperdício! [...] E direi mais uma coisa que esclarecerá melhor. Eu posso ter chegado perto, mas nunca tive o que vocês dois tiveram. Algo sempre me detinha ou ficava no caminho. Como você vive sua vida, é algo de sua conta. Lembre-se que nosso coração e nosso corpo nos são dados apenas uma vez. E antes que perceba, seu coração estará esgotado. Quanto ao seu corpo, chegará a um ponto em que ninguém vai querer olhar para ele, muito menos chegar perto dele. No momento, você sente tristeza, dor… Não as mate. Muito menos a felicidade que você sentiu [...] (Senhor Perlman, 2017, grifos nossos)

Simples assim. O coração esgota-se no momento da descoberta da fragilidade dos amores e das paixões. O coração esgota-se no momento da descoberta de que sonhos e ilusões não mais nos pertencem. O coração esgota-se no momento da descoberta de que os amigos não são tão amigos assim. O coração esgota-se no momento da descoberta de que a solidão entrou de “casa a dentro” de mala e cuia. Pura balela quando se diz que a alma só envelhece se você permitir! Quem assim o afirma, desconhece a velhice imposta impiedosamente pela sociedade ao redor.

E o que dizer do corpo? Este, sim, envelhece sem nossa permissão. Não resta muito para descobrir que nos tornamos invisíveis, ou quando muito, somos apenas uma “velha professora” ou uma “professora velha” ou, simplesmente, “uma velha.” A variação existe: um “velho escritor” ou um “escritor velho”, ou, simplesmente, “um velho.” Simples assim...


*Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica
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A FEBRE DO MAR

Clemente Rosas (clementerosas@terra.com.br)

I must go down to the seas again, for the call of the running tide
Is a wild call and a clear call that may not be denied

Sea Fever – John Masefield

Pois é, amigos, o claro e selvagem apelo do mar me fez voltar a ele, no mesmo veleiro branco, e a convite dos mesmos companheiros. Desta vez rumo ao sul, partindo do Cabanga, em Recife, para a tranquila praia de Serrambi. A placidez em que a encontramos, ao chegar e ancorar, me fez lembrar a minha Praia Formosa, em seus melhores dias.

Esse novo e sossegado velejo me levou a refletir sobre a influência do mar em minha vida. Tendo passado, desde a mais tenra infância, pelo menos dois meses por ano em intimidade com ele, aprendi a “curti-lo” de todas as formas: nadando, pescando, fazendo caça submarina, remando, velejando... Ou apenas sentindo o aroma dos sargaços, o gosto de sal nos lábios e na pele, e ouvindo o marulho das ondas – o mais repousante som da natureza (ao lado do ciciar do vento nas palmas dos coqueiros). E isso significa, simplesmente, desfrutá-lo com o uso de todos os sentidos humanos.

Posso dizer também que o mar sempre esteve presente na minha poesia, no tempo em que tinha a coragem de escrever versos. Dos poemas em que ele aparece, recordo um:

O mar em mim subsiste
Em sal, espuma e canto.
Sal de inúteis esperas
Ao vento e ao sol do tempo
Espuma que se gera
Das ondas ao espanto
E o canto em que deponho
Meu tormento e meu sonho.

Tenho ainda, em relação a ele, uma profunda admiração, surgida a partir da palestra de um graduado oficial da Marinha Brasileira. Pela sua magnitude e suas riquezas, nosso mar territorial é comparável à Amazônia. Temos, portanto, uma “Amazônia Azul”, e com mais uma razão para merecer a nossa reverência: é nela que repousam as centenas de compatriotas mortos com o torpedeamento dos nossos navios pelos submarinos nazistas, na 2ª Grande Guerra.

A essas riquezas econômicas – petróleo, minérios, recursos pesqueiros – somam-se riquezas de outro tipo, acessíveis a qualquer mergulhador de águas menos profundas. Pois, para estes, o fundo do mar é uma caixa de deliciosas surpresas. Sem temer o juízo tradicional sobre as “conversas de pescador”, cito alguns dos meus “achados”, em mergulhos e pescarias: o raro e belo “guajá”, cujo casco vermelho traz a silhueta de um morcego de asas abertas; um caranguejo esquisito, de casco projetado para cima, em forma de estreito cone, tão fino quanto as suas patas, o que lhe dá o aspecto de uma aranha subaquática; o “siri do alto”, de casco triangular, que por isso mesmo tem na Bahia o nome de “siri boceta”, popularizado por Jorge Amado em seus romances; o pequeno “tubarão morcego”, estranha combinação de tubarão e arraia, sem dentes, barriga branca e lisa, quase totalmente desconhecido entre os próprios pescadores de Formosa; o “voador de pedra”, um pardacento peixe voador dos corais: e, para fechar a lista, o “peixe cachimbo”, semelhante a um animal pré-histórico, de crosta dura, chifre, dois “braços” laterais curvos terminando em barbatanas, duas “perninhas” abaixo da barriga, encontrado em fundos lamacentos, e tão vagaroso que pode ser agarrado com a mão (só subsistem, suponho, porque nenhum predador os quer). Como esquecê-los?

Mas volto à minha expedição náutica, para enfatizar o seu encanto e o seu conforto. Sopravam os ventos do nordeste e leste, anunciadores do verão, aqueles que nunca trazem chuvas. O motor foi usado apenas para desatracar do Cabanga. Vela armada até o porto do Recife, um simples bordo para contornar o dique de proteção, e voo direto rumo ao sul, apenas adentrando um pouco o oceano para vencer o cabo de Santo Agostinho. Na saída, fomos saudados por três golfinhos, no percurso alguns “voadores” mostraram suas habilidades fora d’água, e uma pequena tartaruga apareceu à proa, logo mergulhando para que o barco lhe passasse por cima. No final, só mais um bordejo para contornar a linha de arrecifes que protege o ancoradouro. E a alegria de chegar.

Com ventos favoráveis e boa velocidade, fizemos o percurso em duas horas menos do que o previsto, ancorando pouco depois do meio dia. E constatamos prazerosamente que as nossas praias não urbanas, em dias não feriados, ainda são propícias ao repouso: encontramos Serrambi quase deserta, com apenas um solitário veranista cortando a faixa de areia com o seu cachorro. Nossas bênçãos para os dois!

OBS – Para Eurico e Paulo, marinheiros de muitas viagens.

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Viagem


IRÃ, A ANTIGA PÉRSIA

Maria das Graças Targino


VOU-ME EMBORA PRA
PASÁRGADA
Manuel Bandeira

Vou-me embora pra
Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra
Pasárgada
Vou-me embora pra
Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana, “a Louca de Espanha”
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
..............................................
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
– Lá sou amigo do rei –
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra
Pasárgada.


Reconhecer a sensibilidade de Glória Maria, repórter da TV Globo, é indispensável no momento de escrever sobre o Irã. Suas palavras iniciais na primeira das duas reportagens sobre essa nação de flores e de sonhos, veiculadas em setembro passado, são incríveis. Recorro a elas. Em vez de plágio descarado, vontade imensa de reafirmá-las. Elas são também minhas: “quando se pensa no Irã, uma das primeiras imagens que vem à nossa cabeça é a de um país triste, fechado, arrasado por guerras e terrorismo. Mas quando a gente chega aqui, esta imagem começa a mudar. O que encontramos é um país lindo [...]”

Em que pesem o rigor da religião islâmica (99,1% da população são adeptos do islamismo, com prevalência dos xiitas, com 93,3%, seguidos dos sunitas, 5,8%); as fotos de barbudos sisudos aqui e ali, lembrando o poderio dos aiatolás; as roupas escuras ou raramente coloridas, que cobrem e recobrem os corpos das mulheres com os cabelos sempre ocultos por sob véus (hijab); a restrição de bermudas e camisetas regatas para os homens e a sombra da chamada polícia moral (que não “mostra a cara”), o país é realmente de uma beleza inesperada. Jardins, parques, flores e muito colorido por toda parte, incluindo muros e escadarias em locais públicos recobertas de murais artísticos, atraem famílias inteiras que se reúnem em intermináveis piqueniques, onde só há lugar para sorrisos e descontração surpreendente. Sem aproximação física entre homens e mulheres e raras trocas de carinhos em público entre os casais, contrariando as expectativas, os iranianos são receptivos e buscam contato com os visitantes. Tulipas em profusão ao lado da rosa vermelha, flor nacional do Irã, imprimem intensa magia aos jardins. Os iranianos os veem como pedacinhos do paraíso, o que justifica a prática anterior de quadricular os jardins para abrigar os quatro elementos da natureza – terra, água, fogo e ar.

No entanto, o país não é só multicolor, como a tranquilidade das montanhas e das planícies sugere. Trata-se de uma nação com recursos hídricos parcos, uma vez que há apenas três grandes rios: Karun, Atrak e Safid. Como decorrência, possui 27 desertos, onde o calor chega a ser angustiante. Se nas demais regiões, o clima é árido subtropical e / ou subtropical de altitude, nas áreas desertificadas, a temperatura alcança 70.7ºC, como registrado no deserto de Dasht-e Lut ou Dasht-i-Lut ou, simplesmente, Lut, o lugar mais quente da Terra, e, paradoxalmente, classificado como Patrimônio da Humanidade, pela Unesco, sob o argumento de que é um surpreendente exemplo de acidentes geográficos eólicos, bem como de desertos de rochas e dunas. Situado no sudeste do Irã, o Lut ocupa o 25º lugar no ranking dos maiores desertos do mundo.

O país, cuja moeda oficial é o rial iraniano, de difícil conversão pelo excesso de zeros e quase inexistência de moedas, encobre uma intricada história de guerras e lutas, ganhos e perdas. Após 2.500 anos de impor seu domínio ao mundo, o Império Persa dissolve-se. Há exatos 38 anos, 1979, dá lugar à República Islâmica do Irã, que abriga, na atualidade, em seus 1.648.196 km², cerca de 82 milhões de habitantes, com a prevalência de iranianos (65%), seguidos de azeris, curdos, árabes, lures e outras nacionalidades. É imperdoável confundir os nativos com árabes, até porque eles nutrem visível orgulho de seu passado persa e de sua origem indo-europeia, o que remete a um grupo étnico da Europa e da Ásia, com idioma distinto e cultura singular em hábitos cotidianos, como na culinária e na forma de vivenciar sua religiosidade.
Falando de comida, é muito usual dentre os iranianos as sopas. Podem conter de um tudo: lentilhas, macarrões, iogurte, frutos secos, tipos de feijão, macarrão, legumes variados. O abgusht, por exemplo, que se apresenta como caldo de carne, de fato, é um guisado de pedaços de carneiro com feijão, batata, tomate e outros ingredientes. A galinha especial – morge shekam por – com nozes, romãs e ameixas – é o melhor ao meu paladar. E a carne de camelo, delícia pura! Frutas deliciosas, mas a citada romã reina absoluta por toda parte: aperitivo, sobremesa e, sobretudo, seu delicioso suco!

Decerto, há, no país, lugar para muita diversidade. Ao lado de Teerã, 32ª capital do Irã e uma das cinco maiores cidades do mundo, Shiraz impõe-se como capital cultural. Venera como heróis nacionais, poetas, como Hafez e Sa’adi, cujos poemas são memorizados e cultuados por muitos iranianos. Ambos estão em túmulos localizados no centro de belos jardins. No caso de Hafez, crê-se que abrir um de seus livros de poemas em determinada folha, permite adivinhar o futuro, o que atrai peregrinos. Na onda da bibliomancia, idosos simples postam-se nas calçadas aos arredores, com pequenos pássaros que escolhem dentre gastas cartas o destino dos mais crédulos em troco de algumas moedas. A porta de Qoran é um importante marco da cidade de Shiraz, que, dentre seus jardins, torna imperdível a visita ao Narenjestán (jardim de laranjeiras), um dos mais antigos da cidade. Ainda na “cidade das flores e dos poetas”, a impressionante mesquita Nasir-Ol-Molk, verdadeira explosão de cores em ladrilhos e vitrais!

Persépolis, por sua vez, antiga capital da Pérsia e conhecida como “a cidade da Pérsia”, foi destruída em incêndio sob o comando de Alexandre Magno, O Grande, da Macedônia, em 331 a.C., quando da conquista do Império. Suas ruínas, através de desenhos, recontam a trajetória do povo persa. Lembrando que, em função da vastidão do Império Persa, havia várias capitais ao mesmo tempo, no caso dos brasileiros, é a primeira capital da Pérsia Aquemênida que mais chama atenção. Trata-se de Pasárgada, a 87 quilômetros a nordeste de Persépolis, atualmente, sítio arqueológico da província de Fars e Patrimônio da Humanidade da Unesco. Construída por Ciro II, O Grande, este retoma a concepção persa dos jardins como paraíso ou pontes que facilitem o caminho entre o céu e a terra e lá está seu mausoléu, lugar permanente de visitação. A cidade está presente entre nós, face ao poeta, tradutor e crítico literário brasileiro, Manuel Bandeira, no poema em que ele diz: “Vou-me embora pra Pasárgada. Lá sou amigo do rei. Lá tenho a mulher que eu quero. Na cama que escolherei.” Daí, no português, o termo – Pasárgada – ser utilizado como sinônimo de refúgio distante ou paraíso, nos moldes do poeta, embora, em termos etimológicos, isto não se comprove.

No percurso, antes de chegarmos a Pasárgada, é tempo de visitar Naqsh-i Rustam ou Naqsh-e Rustam, “a cidade da poesia, dos vinhos e das rosas”, o primeiro local sagrado dos povos elamitas e, posteriormente, o local das sepulturas dos reis aquemênidas, pertencentes à Dinastia do rei Aquemênes da Pérsia, com destaque para a grandiosidade da tumba de Dario, O Grande. Ali, vêm sendo descobertos ricos objetos em cerâmica e também peças ligadas ao rito funerário, de modo que esse sítio arqueológico ganha relevância por favorecer estudos sobre os habitantes de então. Em frente às tumbas esculpidas nas rochas, está o Templo do Fogo (Atashgah), que conserva preciosas relíquias da primeira religião persa. Desenvolvido por Zaratustra ou Zoroastro, por volta do século VI a.C., o zoroastrismo privilegia a visão dualística do universo, qual seja, o bem e o mal. Os antigos persas zoroastristas ou parses permanecem em torres de silêncio ou em templos de fogo, para eles, elemento sagrado que liga o homem a Deus, cultuando hábito que assombra os ocidentais: devolvem os mortos à natureza para a delícia dos abutres que rondam as colinas, costume ora combatido com certo rigor. O zoroastrismo segue como a religião principal em todo o Império Persa até a dominação pelos árabes muçulmanos, no século VII, embora existam no país, até hoje, cerca de 30 mil seguidores, que representam um índice muito baixo, ao lado de religiões, como bahaísmo, cristianismo e judaísmo, que juntas somam menos de 1% da população.

Nesse mesmo roteiro, está a cidadela ou castelo Karim Khan, ainda em território de Shiraz. Construído como parte de um amplo complexo arquitetônico durante a dinastia Zand, apesar de sua aparência de fortaleza medieval, com quatro torres cilíndricas que protegem seu interior, serviu como residência para os nobres e, depois, como prisão. Nos dias atuais, é um museu sob a tutela dos órgãos encarregados pelo patrimônio cultural do Irã.
A seguir, é o momento de conhecer a mítica Yazd (= banquete e oração), “a joia do deserto”, e que também mantém acesa as chamas do zoroastrismo, com o Templo do Fogo Atash Behram, construído no século XX, ano 1932, graças à doação de fiéis persas e indianos. No centro do país, Yazd é a capital da província iraniana homônima, com muralhas, monumentos, torres, praças e jardins. Neste caso, “a menina dos olhos” dos habitantes é o Jardim Dowlat Abad. Não é só mais um belo jardim iraniano. Além de inimaginável varanda coberta de espelhos, permite ver como funciona uma torre de vento, que areja o interior das casas, requisito indispensável para quem sobrevive em meio a um clima desértico, como o deste país do Oriente Médio / sudoeste da Ásia.
Isfahan, conhecida como “a cidade das 11 pontes”, por sua vez, é o mais majestoso recanto do país, onde estão a Catedral Vank, templo cristão-armênio ainda do século XVII e o Palácio Chehel Sotoun, com 40 colunas deslumbrantes. As movimentadas pontes e escadarias da antiga capital persa atraem cidadãos de todas as idades, que também lotam praças de beleza ímpar, a exemplo de Naqsh-e Jahan (ou Meidan Emam), bem no centro da cidade e declarada bem cultural do Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

Com seus nove hectares, Meidan Emam alcança o posto da segunda maior praça pública do mundo, aquém tão somente da praça Tianmen, em Pequim (China) e por sua beleza, é citada, sempre, como verdadeiro cartão postal do país. Abriga a Mesquita Shah (Mesquita do Imam), o Palácio de Ali Qapou e a Mesquita Sheikh Lotf Allah, além de permitir aos mais consumidores “fazerem a festa” no Grande Bazar de Isfahan, embora o mais famoso do país esteja em Shiraz, o Bazar de Vakil, que se assemelha à loucura do Grande Bazar de Istambul, Turquia, apesar de bem menor.

Quanto aos famosos tapetes persas, artesanais ou industrializados, estão por toda parte, em tamanhos, desenhos e matérias-primas variadas, mas sua fabricação concentra-se, sobretudo, em Qom, Kashan e Nain. Qom ou a “cidade dos aiatolás” mantém poderoso centro de estudos religiosos, o que a posiciona como a mais conservadora de todo o Irã, onde as mulheres aderem em massa ao shadow ou xador, manto predominantemente negro, que se usa sobre o restante da roupa. Kashan, por sua vez, destaca-se tanto pela tecelagem dos tapetes, quanto pela produção de tecidos, cerâmica e azulejos. E mais, abriga os Jardins de Fin e uma das mais famosas mesquitas iranianas, a Agha Borzog Mosque, século XVIII. Além de espaço para orações, comporta um complexo para estudos islâmicos. Por fim, Nain, “a cidade de barro e dos tapetes”, data do período pré-islâmico, o que lhe assegura mais de 2.500 anos de história, com monumentos de muita importância. Destaque para a Mesquita Jame, uma das mais antigas do país, século VII, logo após a invasão árabe.

Em relação aos tapetes, eles merecem um capítulo à parte. Sua tecelagem figura como uma das manifestações mais características da cultura e arte persas. Há contraste surpreendente. De início, as humildes tribos nômades persas recorrem a eles para fugir do inverno rigoroso. Tempos depois, são utilizados como forma de expressar em cores o que rodeia seu povo. Plantas, animais, flores, paisagens e figuras humanas, sobretudo, dos antigos reis constituem fonte de inspiração. Desde o século XVI, os tapetes persas são vistos como peças luxuosas, alcançando preços estratosféricos a depender de sua complexa classificação. Visita ao “Museu do Tapete”, na capital Teerã, nos permite visão dessa arte secular.

Se os tapetes são símbolo da cultura e da riqueza do Irã, há outros indícios, a exemplo dos muitos outros museus que se encontram por toda parte. O mais extasiante, com certeza, é o Museu das Joias, situado no subsolo do Banco Central do Irã, em Teerã, sob forte esquema de segurança, o que impede o uso de qualquer equipamento. A escuridão das salas realça o brilho das peças protegidas por paredes de vidro. Lá está o maior diamante rosa do mundo ao lado de um incrível globo dos continentes, século XIX, em ouro maciço de 34 quilos recoberto por 51 mil brilhantes. E o que dizer da coroa da última rainha do Irã, Farah Diba, terceira mulher do Xá Mohammad Reza Pahlavi, deposto quando da Revolução Islâmica, após 38 anos no poder? Nada mais nada menos do que 34 rubis, 36 esmeraldas e 1.469 diamantes!

Em se tratando de segurança, o Irã é uma nação tranquila, onde podemos caminhar sem temor. A violência urbana é ínfima. A segurança é máxima, sobretudo, nas proximidades das preciosas mesquitas espalhadas país afora. Mesmo o Irã sendo oficialmente uma República Presidencialista, com o presidente Hassan Rohani (no poder, desde 3 de agosto de 2013) e Parlamento eleitos, na prática, é dominado pela figura dos aiatolás, titulares máximos na hierarquia religiosa entre os muçulmanos. São sempre escolhidos por outro aiatolá, que lhes reconhece como merecedor do título, o que demanda, além de conhecimentos aprofundados acerca da doutrina islâmica xiita, descendência direta do profeta Maomé. Assim, o atual Aiatolá Ali Khamenei controla o sistema judiciário, as forças de segurança e a legislação, com o intuito de garantir que o sharia, conjunto de leis islâmicas fundamentadas no Alcorão e responsáveis por ditar as regras de comportamento dos muçulmanos seja rigorosamente seguido. A imagem de Ali Khamenei está espalhada em cartazes pelas cidades, ao lado de fotos de soldados mortos na sangrenta Guerra Irã x Iraque, com duração de oito anos, 1980-1988.

Contrastando com o analfabetismo generalizado dentre as tribos nômades, que ainda reúnem no Irã cerca de mais de um milhão de iranianos, os quais percorrem montanhas e planícies do país, pastoreando ovelhas e cabras, o índice de alfabetização do país é de 85%. Afinal, a educação é obrigatória para todas as crianças entre seis e 10 anos de idade e os aiatolás investem bastante em todos os níveis de ensino, inclusive o superior, de tal forma que o país conta com mais de 100 universidades. Tal como na educação, em que persistem escolas / universidades públicas e privadas, na saúde, também, há os dois sistemas. Quanto à mobilidade urbana, ônibus públicos coloridos, onde homens e mulheres sentam-se em espaços distintos, concorrem com os táxis. Os pontos dispersos nas cidades maiores, como Teerã, são barulhentos e confusos, devido ao não uso do taxímetro, o que exige paciência na hora da negociação e impossibilita ao estrangeiro lançar mão dos táxis coletivos, os chamados savaris, até porque a geração mais antiga não tem domínio de línguas ocidentais. Preservam o idioma oficial, persa, sendo possível encontrar, pela diversidade étnica do país, grupos que falem turco, curdo e árabe, o que significa que o idioma não atua como elemento facilitador.

Retomando os savaris, há quem acredite que representem, sobretudo, para os mais jovens, uma forma de manter sua vida amorosa longe dos olhos dos pais ou de burlar a proibição rigorosa do contato físico mais próximo entre homens e mulheres, embora ainda acomodem-se com certa distância. Soa hilário encontrar um site que traz matéria intitulada: “Táxis compartilhados dão o tom da revolução sexual no Irã.” Talvez representem passos para transformações paulatinas nos hábitos culturais, entre os quais a antiga preservação da castidade dos jovens até a consumação do casamento e a submissão total da mulher, que começa a se impor, até porque a poligamia, ainda hoje existente, rareia mais e mais. Porém, dificilmente, preconceitos tão arraigados serão banidos. Por mais esdrúxulo que pareça, até hoje, as mulheres são proibidas de cantar em público e a ausência da música popular dá um tom nefasto às cidades! Indo além, há violenta condenação ao homossexualismo, ao bissexualismo, à travestilidade e à transexualidade traduzida na negação de sua existência. Em oposição, a realidade dos transgêneros e da intersexualidade é aceita e amparada pelo governo! Bom começo!

Ainda em relação à capital Teerã, esta se impõe como metrópole moderna. Seus pontos turísticos são muitos e sempre grandiosos, incluindo palácios, museus e praças. Chama atenção o Golestan Palace, onde o último Xá costumava oferecer festas luxuosas; os palácios do Jardim Sa’ad Abad, um deles construído pela famosa Farah Diba; e a Torre Azādi ou Torre da Liberdade, símbolo da cidade, construída em 1971, quando das comemorações dos 2.500 anos do Império Persa. Além dos museus antes citados, ênfase para o Museu Arqueológico e, em suas proximidades, o pequeno, mas não menos maravilhoso, Museu da Cerâmica e do Vidro, conhecido como Abguineh Museum.

Do ponto de vista de inovações tecnológicas, no Irã, não faltam computadores e smartphones. Liberada em hotéis “estrelados”, na nação como um todo, a internet está sujeita a uma série de sanções, a exemplo de filtros de conteúdo, domínio sobre os provedores, interceptação de certos serviços e de certos sites, ataques cibernéticos e até prisão de blogueiros ou internautas. Ademais, sem álcool e com muito fumo, Teerã enfrenta problemas de qualquer cidade grande, a exemplo do trânsito caótico, que lembra o das cidades indianas, embora em suas avenidas largas, vacas, porcos e rickshaws não se misturem à infinidade de motos, carros e ônibus.

Por fim, é o momento de reverenciar esta gente, a quem nós, ocidentais, devemos conhecimentos de diferentes naturezas – literatura, matemática, filosofia – consolidados por milênios desde a.C. –, quando da grandiosidade do Império Persa e de sua poderosa intervenção e participação na famosa Rota da Seda! Portanto, vamos embora pra Pasárgada!
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Gastronomia

O insuperável leitão da Mealhada

A cidade que vive dos leitões

Celso Japiassu

Para quem sái do Porto de carro em direção a Lisboa, pela auto-estrada A1, a apenas 17 quilômetros de Coimbra está situada a Mealhada, na região da Bairrada, famosa por seus vinhos encorpados e pelo Leitão à Bairrada, glória e orgulho da gastronomia portuguesa.

É um dos dezenove "Concelhos" do Distrito de Aveiro. Os "concelhos" são o equivalente aos distritos de um Município, no Brasil. Na entrada da cidade, como um portal que identifica a sua principal atividade econômica, está exposta num conjunto de azulejos a imagem de um homem assando um leitão enfiado num espeto, num forno de barro muito usado na região. Azulejos como os que existem até hoje no Brasil, na nossa herança cultural portuguesa guardada nas igrejas coloniais, só que, ao contrário daqueles da Mealhada, os nossos contêm imagens de santos e cenas religiosas.

Numa gastronomia em que reina o leitão assado, a Bairrada é famosa também pela Chanfana (cabrito cozido no vinho tinto), Cabidela de Leitão, Bacalhau a Lagareiro, Negalhos (equivalente à nossa buchada Nordestina), Arroz de Cabidela, Batatas a Murro e Sopa Seca de Leitão. No capítulo das sobremesas, os deliciosos doces típicos: Bolo de Páscoa, Barrigas de Freira, Aletria Doce, Arroz Doce, Bolo de Noz, Bilharecos, Caramujos. Uma festa.

Leitão Assado à Bairrada, nos restaurantes da Mealhada, foi mais uma vez o objetivo da minha viagem pela estrada de Paris até o centro de Portugal, no inverno suave deste ano de 2001, com direito a passar, ainda na França, pela região do Périgord, que é a pátria do "foie gras". Mas este é um outro assunto.

A arte de assar leitões

Um modo próprio de criar e assar transformou o leitão no símbolo da cidade da Mealhada. Desde o século XVIII, quando carros a cavalo faziam o transporte Lisboa-Porto, a pequena aldeia já era um lugar de parada obrigatória onde se serviam leitões e o vinho da Bairrada. Nessa época, o prato já comandava, como até hoje, as festas de casamento, batizados e as comemorações da Igreja.

Toda a área da Mealhada e da floresta do Bussaco, na vizinhança, é práticamente coberta de carvalhos e os porcos, no passado e em grande parte até hoje, são nutridos com as nozes do carvalho, o que dá um sabor muito especial à carne. E um detalhe importante: o pequeno leitão, como diz o próprio nome, alimenta-se apenas do leite materno. Essa é a grande diferença entre o leitão da Mealhada e os leitões do resto do mundo.

O peso do leitão varia de acordo com o desejo de quem vai assá-lo mas a média, nos restaurantes, é de seis quilos, que correspondem a mais ou menos quatro semanas desde o nascimento. Depois de assado, fica com cinco quilos.

Alem da importância do forno de barro, a qualidade do leitão que você vai comer varia de acordo com a experiência do assador, que na Mealhada foi elevada à categoria de arte e de sabedoria. Timóteo, que veio de Guiné-Bissau e escolheu a cidade para viver, trabalha na Churrasqueira Rocha e transformou-se num dos grandes assadores dos restaurantes da Mealhada. Diz que a qualidade dos leitões à Bairrada deve-se ao fato de que eles são assados no mesmo dia em que são abatidos. Se for à geladeira, perde a qualidade. Se congelar, fica imprestável", diz Timóteo, que na alta temporada assa uma média de 80 leitões por dia.


O tempero é simples mas é responsável pelo sabor inconfundível dos leitões nas mesas da Mealhada: num almofariz de bronze ou de mármore pisam-se duas cabeças de alho, um punhado de sal, uma colher de sopa bem cheia de pimenta, um pouco de salsa, 50 a 100 gramas de banha (ou manteiga) e uma folha de louro.

Essas são as quantidades recomendadas para um leitão de seis a oito quilos. Depois de tudo bem pisado junta-se um pouco de azeite. Há quem acrescente também um pouco de vinho branco da Bairrada. O leitão é então enfiado no espeto – antigamente esse espeto era de loureiro – e as patinhas traseiras são amarradas com um arame fino. O tempero é então introduzido na barriga e nas partes vazias.Os cortes são cosidos com fio de sapateiro ou fio de nylon e o leitão está pronto para entrar no forno.


João Paulo dos Santos Castela é um dos funcionários graduados do restaurante Pedro dos Leitões. Fez o Curso de Aptidão Profissional na Escola Profissional Vasconcelos Lebre, da Mealhada, e a sua prova final foi um trabalho sobre a importância do leitão na economia da região. Ele diz que o forno de barro, usado também para fazer broa de milho, é imprescindível. Deve ser muito bem aquecido a lenha (casca de eucalíptos ou de videiras) até ficar muito quente.

O leitão deve assar muito lentamente, durante cerca de duas horas para um leitão de oito a dez quilos. Para que o assado fique uniforme, o leitão vai sendo girado manualmente e aqui reside um dos segredos da competência e da habilidade do assador. Quando fica pronto é servido imediatamente, na companhia do molho que foi se formando enquanto estava no forno.

Ao contrário do que se poderá pensar, o leitão da Mealhada é um prato leve, pràticamente sem gordura. Antigamente, ia para a mesa inteiro, numa travessa de madeira ou de metal. Atualmente é trinchado e divido em travessas, servido na companhia de batata frita, salada de alface, laranja, molho extraido da assadura e do pão feito na região. Além do imprescindível vinho espumante da Bairrada.

Os restaurantes

O mais conhecido e o mais antigo dos restaurantes da Mealhada é o "Pedro dos Leitões". Álvaro Pedro, antes de se instalar em sua própria cidade de nascimento, morou no Brasil, em São Paulo, onde não se deu bem no negócio de restaurantes. Na década de 40, numa casa modesta junto à estrada Porto-Lisboa, começou a tornar famoso o leitão da Bairrada, que antes era circunscrito ao consumo doméstico da própria região. No princípio dos anos 50, com a inauguração da auto-estrada e o aumento do tráfego entre Lisboa e o Porto, o restaurante cresceu e hoje é uma casa ampla que atende a mais de 800 pessoas por dia em cada fim de semana.


Entre dezenas de pequenos e médios restaurantes, são 12 os principais na gastronomia da Mealhada: além do Pedro dos Leitões, a Meta dos Leitões, o luxuoso Quinta dos Três Pinheiros, Hilário, Belarmino, o Restaurante Típico da Bairrada, Rei dos Leitões, Simões dos Leitões, Floresta, Pic-Nic dos Leitões, Oásis e Churrasqueira Rocha.
Próximos uns dos outros, recebem por dia centenas de viajantes que não resistem à parada ou então, como é o meu caso, que atravessam as estradas da França, da Espanha e do Norte de Portugal em busca do saboroso e único leitãozinho da Mealhada.

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29/10/2017
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CHICAGO: A CIDADE DE MIL NOMES
Maria das Graças Targino

ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA E SONHO AMERICANO

Ao contrário de muitos brasileiros, nem mesmo quando adolescente, alimentamos a chance de viver o sonho americano, expressão cunhada pelo historiador e escritor estadunidense, James Truslow Adams, em 1931, para designar uma existência com oportunidades igualitárias para todos a partir de suas próprias conquistas. Nunca acreditamos muito nisto. À medida em que conseguimos desvendar os Estados Unidos da América, a distância ou em períodos de visita, mais, ou menos prolongados, a turismo ou a estudo, confirmamos nossa desconfiança. Nem só de maravilhas vive o povo norte-americano. Além das históricas e sérias questões raciais que se alastram ao longo do tempo e cujas cinzas reacendem, agora, no Governo desastrado de Donald Trump, justiça, igualdade social, liberdade e democracia plena, como em outras nações, incluindo a nossa, persistem como ideal a ser arduamente perseguido.

Não obstante tais ressalvas, impossível não se render ao que os EUA têm de melhor. No caso, ao encanto especial de Chicago, principal cidade do Estado de Illinois, cuja capital é Springfield. A cidade constitui o terceiro maior centro urbano do país, aquém tão somente de Nova York e Los Angeles. Ademais, simboliza com perfeição a multirracialidade da população norte-americana. Ao tempo em que os brancos ocupam o primeiro lugar, os afro-americanos vêm em seguida, a tal ponto que a região sul da cidade abriga a segunda maior concentração urbana de negros do país, após tão somente o bairro Harlem, Nova York, cenário de muitos filmes e romances. Logo após, estão os hispânicos ou latinos, além de número considerável de europeus, a exemplo dos poloneses, cuja maior colônia fora de seu país está em Chicago. Há, também, muitos e muitos asiáticos, como chineses, indianos, filipinos, coreanos, paquistaneses, vietnamitas e outros que se radicalizaram no país.

CHICAGO OU CITY WINDY OU...

Dentre as grandes cidades norte-americanas, Chicago chama atenção pelo elevado número de apelidos. O mais famoso é windy city ou a cidade dos ventos. A explicação é óbvia: os ventos são contínuos, e, quase sempre, fortes. Mas há os que dizem que a expressão windy, dentre os residentes, assume o significado de falador / falastrão, em alusão aos políticos locais que conversam demais e agem de menos... Mas há outros codinomes: Chi-town, menção aos muitos chineses que vivem por aí; second city (duas possibilidades: o fato de manter a segunda maior área metropolitana do país por quase todo o século XX atrás apenas de Los Angeles; sua reconstrução após o “Grande incêndio de Chicago”); “a mais americana das grandes cidades”, por ser um caldeirão racial e cultural, como descrito; city by the lake, adotado desde 1890, face à extensão e à beleza estonteante, desde sempre, do lago Michigan. Eis um dos cinco grandes lagos da América do Norte e o maior de água doce dos EUA, além de constar como o quinto do mundo. À beira de suas águas, à extremidade sudoeste do lago Michigan, Chicago resplandece e desafia o rio homônimo, aliás, o único do mundo que flui para trás, ou seja, seu fluxo foi revertido para aproveitamento das águas do lago, hoje em dia, à disposição da população. Quer dizer, por mais estranho que pareça a nós, brasileiros, podemos beber água de torneira em Chicago, com segurança e tranquilidade.

Mas não para por aqui. Há muitos outros nicknames com justificativas variadas, excêntricas ou não. Alguns derivam do universo cultural, como: city of big shoulders (cidade de grandes ombros), citação do poeta Carl Sandburg no poema “Chicago”; my kind of town (meu tipo de cidade preferida), trechinho de canção homônima de Jimmy Van Heusen, popularizada por Frank Sinatra; the city beautiful (a bela cidade), em referência ao movimento desencadeado pela Exposição Colombiana Mundial, ano 1893. Chi-beria, título de peça teatral sobre a Sibéria, consta como alcunha bastante comum entre 2014 e 2015, quando da chamada North American Cold Wave, evento climático de extremo frio ocorrido em parte do Canadá e dos EUA, à época.

Há apelidos advindos de ações cívicas ou políticas, a exemplo de the city that works, lema propagado pelo então prefeito Richard J. Daley para descrever Chicago como centro metropolitano que não dorme. Great commercial tree (grande árvore comercial), uma das tantas expressões atribuídas à Chicago, reproduz parte do hino do Estado de Illinois, enquanto heart of America tem a ver com o fato de, além de se impor como um dos maiores centros de transporte do país, Chicago está localizada bem no coração dos EUA, uma vez que Illinois está na região centro-oeste da nação.

Em oposição, há apodos críticos e que denunciam a insegurança da grande cidade. É o caso de Chiraq ou Chi-Raq, título de filme de Spike Lee, ano 2015 = Chicago + Iraque, com o intuito de confrontar a elevada criminalidade de certas zonas de Chicago com as mortes registradas na Guerra do Iraque. Bem antes, em 1830, Chicago ganha o apodo de city in a garden, quando o Governo de então adota o lema latino, que persiste até hoje – urbs in horto – ou “a cidade num jardim”, confirmando-se como profecia, uma vez que, em pleno século XXI, Chicago é pródiga em imensos parques, com destaque para o Lincoln Park. Além de seus gramados sem fim e suas belas esculturas, como o gigantesco South Pond Pavilion, em formato de colmeia, o local comporta, em seus 5km² de área, o Chicago History Museum, o Peggy Notebaert Nature Museum, o Lincoln Park Conservatory e o Lincoln Park Zoo, um dos últimos zoológicos grátis do mundo, que enche os olhos dos visitantes de alegria e de espanto por sua conservação e pelo zelo como os animais são tratados.

GRANDE INCÊNDIO E RECUPERAÇÃO

Mesmo antes de desembarcar em Chicago, o viajante, de uma forma ou de outra, toma ciência do incêndio que destruiu a cidade. No verão de 1871, no auge de uma fase de ventos secos e extremamente violentos, e, portanto, propícios à propagação de incêndios, a cidade, que se desenvolvera consideravelmente durante a Guerra Civil Americana, entre 1861 e 1865, graças à expansão e à modernização do sistema ferroviário e da tecnologia, além do avanço do comércio de trigo, sofreu o chamado “Grande incêndio de Chicago”. Iniciou na zona sul e se alastrou em toda a cidade, com o registro de 300 mortos e cerca de 90 mil desabrigados, além de danos estimados em 200 milhões de dólares. O local onde tudo começou tem gerado muitas lendas. Dizem que foi num estábulo, o que justifica a presença, aqui e ali, de alguma escultura de vaca no centro e nos subúrbios.

A reconstrução de Chicago representa um marco para a cidade e seus cidadãos, que se orgulham da rapidez com que tudo aconteceu. Engenheiros e arquitetos de diferentes nacionalidades devolveram a vida à cidade, e pouco tempo depois, mais ou menos em 1890, ela já ocupa o segundo posto no ranking das cidades mais promissoras dos EUA, abrangendo, naquele momento, um milhão de pessoas. Hoje, seus 606,34km² abrigam 2 695 598 habitantes, o que corresponde a 4 572 23 habitantes / km². A maior concentração está na região metropolitana, com 9,5 milhões, total que equivale a 65% da população do Estado.

CHICAGO: HISTÓRIAS, LENDAS E FANTASIAS

Além da vaquinha incendiária, os chicagoenses alimentam belas histórias, lendas e fantasias. Cultivam, por exemplo, a memória de um dos mais famosos gângsteres mundiais e estadunidenses, Al Capone, ícone do crime organizado do início do século XX, com suas famosas cicatrizes no rosto, que justificam o apelido de Scarface. É o rosto desse homem cercado de magia e mistério que está em bugigangas de toda natureza nas famosas lojas de souvenires. Ainda em relação à denominação da cidade, há indagações e controvérsias em torno de sua etimologia. Dizem que há séculos passados, aproximadamente 3.000 anos a.C., bem antes da chegada dos primeiros europeus ao Novo Mundo, os habitantes da região, os chamados potawatomis, viviam perto do atual rio Chicago. Não tardaram a batizá-lo em sua língua nativa de Checagou (cebola ou alho silvestre), expandindo tal denominação para a vila que se formou ao redor.
Mesmo nos dias de hoje, fantasias rondam a realidade. Fatos simples, como uma quantidade exagerada de esculturas representando cães policiais nas calçadas do centro da cidade, contemplam respostas recheadas de enigmas. Sem saber como explicar, os nativos dão respostas embaralhadas e sem nexo. Descobrimos na internet, durante curso de aperfeiçoamento em língua inglesa: trata-se de iniciativa da polícia local por meio da Chicago Police Memorial Foundation. Esta recorre à imagem dos cães para lembrar os profissionais mortos em serviço e ajudar aos familiares com recursos recolhidos graças à iniciativa.


CHICAGO: UM UNIVERSO A DESCOBRIR

Para desbravar os pontos mais importantes (nem sempre de apelo turístico), é preciso algum tempo. A gente se perde entre os encantos de Chicago. Sua mais importante universidade, The Chicago University, até 2017, recebeu 85 prêmios Nobel e está no quarto lugar dentre as instituições de ensino do mundo com mais vencedores do Nobel. E o que dizer das mil e uma praças, 552 parques, jardins, museus, institutos de arte, teatros, sem contar as esculturas para lá de grandiosas e valiosas que, em cada esquina, tornam-se parte integrante da cidade? Em diferentes materiais e formatos, as esculturas – marca de Chicago – parecem enviar mensagens silenciosas aos transeuntes contemplativos. O jazz faz a festa em locais luxuosos ou mais acessíveis, mas há talentosos artistas de rua à espera de oportunidades. Aliás, eles mesclam-se com os homeless (pedintes), em número surpreendente, quem sabe, também à espera, mas, desta vez, do que restou do sonho americano. Os clubes de blues, ênfase para o Buddy Guy’s Legends, são para lá de encantadores. Transportam-nos a sonhos vividos e aos que estão encobertos em nosso universo de perspectivas e expectativas.

Ademais, há uma infinidade de opções de lazer totalmente grátis e de excelente qualidade, sobretudo nos meses de verão. O Millenium Park, por exemplo, situado no Grant Park, possui área de exatos 99 000m² e está aberto ao público por 24 horas. Oferece festivais de jazz e de blues, concertos, danças clássicas e populares, filmes de diferentes gêneros. Passear por seus recantos, incluindo jardins, ênfase para o Lurie Garden, e escadarias requer preparo de atleta ou, no mínimo, alma de poeta. Seu ponto mais divertido é o Cloud Gate, polêmica escultura do artista plástico indiano-britânico, Anish Kapoor. Construída entre 2004 e 2006, por seu formato, ganhou o apelido de The bean (O feijão). De beleza misteriosa, reflete os prédios próximos, a paisagem e as pessoas sob os mais improváveis ângulos, face às 170 placas de aço inoxidável, totalmente imperceptíveis por fora. A Crown fountain também faz parte do conjunto do Park. Eis uma fonte utilizada, nos dias de calor, para as pessoas se refrescarem com seus elevados jorros d’água, que se refletem no chão. Possui duas torres imensas de luz que expõem rostos de moradores ou outros norte-americanos, anônimos ou famosos, caso do primeiro presidente negro dos EUA, Barack Obama, legítimo chicagoense.

Para selecionar o que ver, é muito bom usar os excelentes transportes públicos, sob qualquer ótica, incluindo a acessibilidade, sejam eles ônibus, metrôs e trens, em vez dos ônibus turísticos. Esqueçam as aparentes vantagens dos tours Hop on hop; Double deck; ou o Trolley tour, a não ser que estejam a passeio em Chicago somente por dois ou três dias. Caso contrário, o ideal é caminhar pelas ruas. É adotar o sistema de bicicletas azuis, cujo aluguel é bastante razoável e a experiência, inesquecível! É descobrir a cidade com vagar por suas avenidas largas. É ir conversando com a gente da cidade, arrastando o inglês, gesticulando, usando mímicas ou seja lá o que for. Como disse um guia turístico no famoso passeio a barco (Chicago riverwalk), no caso, voltado à arquitetura da cidade, é vital sair do centro da cidade e conhecer os subúrbios, em especial, os que estão na zona norte e leste. Há de tudo e de excelente qualidade. Há segurança. Há poesia. Há vida. Porém, como qualquer grande metrópole, Chicago possui redutos de risco, sul e oeste, o que faz um ou outro crer que é ela mais violenta do que São Paulo capital. Pouco provável!
Por outro lado, esqueçam as compras. Para desespero dos consumidores contumazes, Illinois, ao lado do Estado de Nova York, é um dos mais caros – a taxa em qualquer transação chega a quase 10%, enquanto em Boston (capital de Massachusetts) e Orlando e Miami (cidades da Flórida), o tributo varia entre 6 e 7%. Em vez de ir aos caros e distantes outlets, há pontos imperdíveis. Difícil arrolar um a um. Prossiga pela região denominada The Loop. Este nome (laço / laçada) deriva do fato de que é onde as linhas do trem encontram-se e dão uma volta em trajeto praticamente retangular e se mantêm ao alto. The Loop é o centro histórico, administrativo e financeiro de Chicago, delimitado pelo rio Chicago e pelo lago Michigan, e onde aconteceram muitas das “travessuras” de Al Capone, como o filme “Os intocáveis” retrata.

Atenção: todos os museus e institutos de arte estão abertos à visitação um dia da semana gratuitamente ou a valores reduzidos. O Art Institute of Chicago é indescritível. Imenso, abriga salas e mais salas com mais de 300 mil peças que reconstroem cinco mil anos da história da humanidade através de obras de arte. Possui a maior coleção de pinturas impressionistas fora do Museu Louvre (Paris) e inclui um encantador recanto de miniaturas. Priorizando a atualidade, o Museum of Contemporary Art Chicago (MCA) expõe trabalhos de grandes nomes modernos, a exemplo do norte-americano Alexander Calder, escultor e pintor bastante eclético: notabilizou-se por seus móbiles, lindas figuras de arame e esculturas de grande porte. Por sua vez, o belga René [François Ghislain] Magritte consagrou-se como adepto do surrealismo. Há muitos outros. Na mesma linha, a Chicago Architecture Foundation disponibiliza os pontos arquitetônicos de Chicago. O Chicago Cultural Center, além de seu deslumbrante estilo arquitetônico originado na Escola de Belas Artes de Paris, combinando influências gregas e romanas com ideias renascentistas, tal como o Millenium Park, oferece centenas de eventos, e tudo aberto ao público, gratuitamente. É uma festa permanente!

Às margens do lago Michigan e do Grant Park, o complexo cultural Museum Campus integra o Field Museum of Natural History, o John Graves Shedd Aquarium e o Adler Planetarium. O Field Museum é imperdível. É o lar do maior fóssil completo de tiranossauro rex encontrado no mundo, com 65 milhões de anos, apesar de muito bem preservado. Mede 12,8 metros do focinho à cauda e quatro metros da cabeça até os quadris. É conhecido como Sue, homenagem à paleontóloga Sue Hendrickson que o descobriu, em 1990. O Shedd Aquarium, com mais de 32.000 espécies, dá destaque à riqueza amazônica, aos animais caribenhos, polares etc., além de abrigar um peixe de origem australiana com, no mínimo, 85 anos. O Adler Planetarium, dedicado à astronomia e à astrofísica, também encanta aos miúdos e graúdos.

Um dos locais mais animados da cidade é o Navy Pier, também à beira do lago. Trata-se de um antigo terminal de carga. Hoje, abriga teatro, cinema, restaurantes, lojinhas e até parque de diversões, onde não falta a preciosa roda-gigante. Aliás, dizem que o artefato que encanta multidões nas mais distintas nações, teve sua origem em Chicago, no longínquo ano de 1893. A beleza feiticeira do Navy Pier parece sussurrar ao ouvido do turista convidando-o a passear nas deliciosas águas de azul intenso do lago em barcos de diferentes portes. E é inimaginável vislumbrar: toda a longa faixa de areia que circunda a lagoa, no verão, torna-se uma implacável placa de gelo no inverno, embora todos digam que a beleza do cenário permanece intacta, apesar dos ventos uivantes e das temperaturas para lá de negativas! Aliás, a cidade vai de um extremo ao outro: no inverno, as temperaturas giram em torno de -20°C; no verão, o calor vai além de 30°C, o que vale dizer que as melhores estações para viver Chicago ou viver em Chicago são outono (setembro e outubro) e primavera, abril, maio e junho.

Indo além, para quem se interessa em entrever a cidade do alto, além do citado The Loop, há duas opções mais procuradas: a Willis Tower ou Skydeck Chicago e o John Hancock Observatory ou, como é conhecido, o 360 Chicago. Neste último, do 94º andar, onde se chega por meio de elevadores que levam, em média, 39 segundos, através de gigantescas janelas de vidro, é possível enxergar a cidade em sua totalidade e para os mais crédulos, visualizam-se, também, os Estados vizinhos de Indiana, Michigan e Wisconsin. E mais, a intensa publicidade promete aos visitantes uma experiência única, o Tilt. Trata-se de um “brinquedo” que desloca as pessoas sobre uma parede de vidro rumo a Chicago, numa vã (graças a Deus) tentativa de se jogar na paisagem protegido por um anteparo de vidro. Na realidade, o Tilt causa mais temor quando lemos sobre ele do que quando vivemos a experiência! Nenhum medo!
Por tudo isto, não é à toa que, apesar de suas taxas quase proibitivas, Chicago aparece como a terceira cidade mais visitada dos EUA, com, aproximadamente, 40 milhões de turistas, que se perdem e se acham em seu 15km de praias de lago. Nos primeiros lugares estão Nova York e Las Vegas, Estado de Nevada. Resta um sentimento de segurança! Policiamento ostensivo por toda parte! Troco de um centavo devolvido na horinha! Muitos espetáculos culturais ao acesso de todos! Boas bibliotecas e museus! Transporte público invejável! Cachorro-quente ou, quem sabe, uma fatia da deep-dish pizza, tudo ao estilo Chicago! Por fim, a alegria de termos assistido a um novo espetáculo do Cirque de Soleil, desta vez, “Luzia”, e pela primeira e, talvez, a última, deslumbramo-nos com o show estrondoso de Lady Gaga, “Joanne world tour”! Belo presente: Chicago com seus mil nomes e suas múltiplas surpresas!

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VIAGEM

GEÓRGIA: EUROPA OU ÁSIA?

Chegando a Geórgia

Visitar a região do Cáucaso e se deparar com tanta beleza de um país a outro, nos traz a certeza de que é preciso exercitar a memória e, paradoxalmente, desprender muito pouco esforço para deter a beleza de cada uma dessas nações, a exemplo da Armênia, do Azerbaijão e de Catar. No caso, estamos nos referindo, em especial, à Geórgia (Sakartvelo, em georgiano). Com frequência, é ela confundida com o Estado norte-americano Georgia, cuja capital é a glamorosa Atlanta. A “nossa” Geórgia, com sua surpreendente capital Tbilisi, fica um tanto mais distante. Está na Europa Oriental, ou melhor, entre Europa e Ásia. A este respeito, os próprios georgianos brincam com a dúvida que paira dentre os estrangeiros: a Geórgia pertence à Europa ou à Ásia?

Entre risos, eles afirmam que a parte ocidental do país, antigo reino da Cólquida, pertence à Europa. Acrescentam que, segundo a mitologia grega, esse reino foi, em sua essência, a terra de personagens lendárias. O rei Eates possuía o Velocino de ouro, presente dos deuses que garantia riqueza inesgotável ao seu dono, mas Jasão, a bordo do navio Argo, viajou até ali para o roubar o Velo. O antigo reino também é a terra de Medeia, filha do rei e sobrinha de Circe, e, por algum tempo, esposa de Jasão. Depois de tanto imbróglio, os georgianos afirmam que a parte oriental, antigo reino da Ibéria (e bem mais tranquilo), está situada na Ásia.

O país limita-se, a norte e a leste com a Rússia; a sul, Turquia e Armênia; a leste e a sul, Azerbaijão. A oeste, eis o majestoso mar Negro, por sinal, de azul límpido e inesgotável. Com seus 436.402 km² de extensão, situa-se entre Europa, Anatólia e Cáucaso, ligando-se ao oceano Atlântico por meio dos mares Mediterrâneo e Egeu e por pequenos estreitos.

Tbilisi e a rota da seda

A indefinição quanto à grafia em português da capital da Geórgia, da “nossa” Geórgia, leva à variação de, no mínimo, 14 formas adotadas na mídia nos países lusófonos – Tbilisi, Tbilissi, Tiblíssi, Tbilisse, Tebilíssi, Tbilísi, Tbilíssi, Tiblisi, Tiblissi, Tiblísi, Tblisi, Tblísi, Tblissi e Tblíssi – o que chega a ser hilário! Mas, independentemente da opção, o fato é que visita a Tbilisi, parte integrante da antiga rota da seda, em seus 726 km² e população estimada em 1 152 500 habitantes, por si só nos dá nítida ideia da mescla de culturas que caracteriza o país, cujo aroma de especiarias parece impregnado ao ar e às pessoas em competição flagrante com o aroma de seus vinhos. Afinal, dentre suas particularidades, a Geórgia é o primeiro lugar do mundo, há mais de oito mil anos, a produzir a bebida e de forma bem peculiar, o que enlouquece enófilos, enólogos e sommeliers.

Ademais, talvez seja o momento de esclarecer um pouquinho sobre o que chamamos, hoje, com tanta desenvoltura, de rota da seda. Trata-se de expressão que nomeia uma série de caminhos integrados e usados para o comércio da seda. O produto é transportado em caravanas e embarcações oceânicas que conectam comercialmente o Extremo Oriente ao continente europeu, desde o oitavo milênio a.C. Os antigos povos do deserto do Saara, o segundo maior deserto da Terra, aquém tão somente da Antártida, eram donos de animais domésticos vindos da Ásia. Consequentemente, esses povos e seus animais são, à época, essenciais para efetivar as trocas entre os dois continentes até a descoberta do caminho marítimo para a Índia. Naquele momento, a rota da seda conecta a atual Xian, capital da província de Shaanxi, na República Popular da China, à Antioquia (hoje, a moderna Antáquia, na Turquia), na Ásia Menor, e, também a outros destinos. Decerto, a rota da seda de então representa a maior rede comercial do mundo antigo, com influência até na Coreia e no Japão.

Tbilisi e seus encantos

A parte antiga de Tbilisi, a maior cidade do país, traz de volta a beleza dos esquecidos balcões. A primeira impressão é que as casas de madeira, com suas grandes varandas de suporte metálico, construídas há mais de um século, vão despencar sobre as ruelas ladrilhadas e tortuosas. São resquícios da austera arquitetura soviética, um pouco sem graça com blocos de concreto à exaustão. No meio desse cenário, uma rua inteira de casas de banhos públicos de águas sulfurosas, abaixo do nível do chão e com cúpulas arredondadas, são atração imperdível para quem visita Abanotubani, nome do distrito da Cidade Velha. “Reza a lenda” que, quando o rei Vakhtang Gorgasali de Kartli estava caçando nos arredores da capital atual, um de seus falcões caiu em Abanotubani. Daí, ocorre a descoberta das águas termais, onde se banharam famosos, a exemplo do escritor francês Alexandre Dumas.

Funda-se, assim, Tbilisi (= quente) que remonta a mais de 2.400 anos, com o adendo que só não foi a capital da Geórgia durante as invasões persa, árabe e mongol, períodos em que Mtskheta figura como centro político do país.
Pontes cortam o Kura, rio que percorre as montanhas do Cáucaso: nasce na Turquia, segue em direção à Geórgia (à “nossa” Geórgia) e ao Azerbaijão, percorrendo o total de 1,515 km, até desaguar no Mar Cáspio. Aliás, passeio no funicular ou teleférico é imperdível. Favorece visão panorâmica de Tbilisi. Traz à tona o choque que causa à primeira vista a construção da Ponte da Paz (The Bridge of Peace), que data de 2008, após a guerra contra a Rússia, totalmente em vidro e aço, e o próprio Museu de Arte Contemporânea, além da residência presidencial, réplica em miniatura do Parlamento alemão, que parecem desafiar a sisudez da arquitetura antiga!

Praças grandiosas em sua simplicidade, como a que mantém fontes de águas dançantes, também encantam, além da Moedani Tavisupleba (Praça da Liberdade), com imponente estátua de São Jorge ao centro. Dizem que o jovem Jorge, natural da Capadócia (Turquia), lutou como capitão do exército romano, o que justifica o apodo a ele atribuído: “Santo Guerreiro.” Além de padroeiro da Geórgia, também protege Portugal, Inglaterra e Lituânia. E mais, acredita-se que a denominação – Geórgia – deriva do grego γεωργ- (geōrg), ou seja, do nome do padroeiro ou, talvez, do termo γεωργία (gueōrguía), que significa cultivar.

Em se tratando de santos e / ou religião, destaque para numerosos locais sagrados, entre catedrais, mesquitas e sinagogas, o que prova a bendita tolerância religiosa que caracteriza a capital e o país como um todo. Citam-se: Sioni Cathedral Church, construção do longínquo século VI; Mtatsminda Pantheon; Anchiskhati Basílica; Kashveti Church; Jumah Mosque; Metekhi Cathedral; Tbilisi Great Synagogue; Sameba Cathedral; e Chapel of Saint David. Entre os museus, menção ao Open Air Museum, à National Gallery e ao Georgian National Museum.

Dentre os parques naturais, destacam-se o Jinvali Water Reservoir, os arredores do Lisi Lake, o National Botanical Garden e o Mount Mtatsminda. Como Tbilisi está rodeada por montanhas, no alto de uma delas, além de outra estátua de São Jorge, lá está, adiante, a Mãe Geórgia (Kartlis Deda), símbolo também muito querido pelos georgianos: na mão direita, segura uma espada contra os inimigos; na esquerda, uma garrafa de vinho para os amigos.

É ainda na parte antiga de Tbilisi, que estão suvenires os mais distintos para os gostos os mais distintos. É comum encontrar, ao lado de belos tapetes, que não perdem em beleza dos exemplares persas, os cloisonnés, objetos de decoração resultantes de trabalho antigo e tradicional em esmalte. A técnica consiste em acoplar tirinhas finas de metal coladas sobre uma superfície para formar um desenho composto por pequenos compartimentos preenchidos com pasta de esmalte vitrificado. Beleza pura!

A parte mais nova da cidade, com restaurantes e casas noturnas, atrai público garantido para belos shows e danças típicas caucasianas. Como não poderia deixar de ser, mantêm um certo quê de “para o turista ver.” E daí? O turista vê, não se queixa, aprecia, fotografa, explode em selfies e não se esquece...

Tbilisi e arredores: mais Geórgia

A Geórgia, a “nossa” Geórgia, fica quase que inteiramente aos pés da Cordilheira do Cáucaso, que abriga florestas (40% de seu território) e, como antevisto, uma cadeia de montanhas majestosas, que também chega ao sul da Rússia e a territórios do Azerbaijão, Armênia, Irã e Turquia. Neste sentido, além dos muros da capital, as regiões montanhosas conhecidas como “O grande Cáucaso” expõem ao longo do percurso, a célebre estrada militar da Geórgia, cujo nome homenageia, mais uma vez, a São Jorge. O ponto culminante é o Monte Chkara, com cerca de 5 200 metros de altitude. Rememorando que, por muito tempo, a Geórgia representou uma das precárias formas de conexão entre Europa e continente asiático, esse caminho favorece visita ao complexo de fortificações de Ananuri, de onde se vislumbra de olhos cerrados ou bem abertos paisagens com picos coalhados de neve na cordilheira do Cáucaso. Mais adiante, ao norte do país, eis Kazbegi, povoado que abriga a Igreja da Santa Trindade, datada do século XIV, de onde é possível avistar o Monte do mesmo nome.

Além de conhecida por suas prodigiosas fontes de água mineral, Geórgia, a “nossa” Geórgia, também nos dá como verdadeira oferenda a beleza de um “pulinho” à citada Mtskheta, habitada desde o segundo milênio a.C. Como visto, foi por muito tempo a capital do país. Hoje, tombada como Patrimônio Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), consiste em museu vivo com fantásticos exemplos de arquitetura medieval religiosa de infinita beleza.

Dentre as igrejas de Mtskheta, além da Basílica de Svetitskhoveli (“O Pilar da Vida”) com afrescos de beleza ímpar, é também possível observar a distância, no alto de um penhasco, com vista tanto da cidade quanto dos Rios Kura e Aragua, o Mosteiro de Jvari, obra-prima da Idade Média. Uma pequena igreja foi construída em 545 d.C., a “Pequena Igreja de Jvari.” Adiante, uma igreja maior, a “Grande Igreja de Jvari”, entre os anos 586 d.C. e 605 d.C., emerge, onde, até os dias de hoje, acontecem celebrações, embora o mosteiro tenha se deteriorado ao longo do tempo. Acredita-se que, nesse local abençoado, a evangelista feminina, Santa Nino, fincou sua cruz. Nina (como também é chamada), que significa “Igual aos Apóstolos” e / ou “Iluminadora da Geórgia”, é venerada por ter introduzido o cristianismo no país, do qual é a patrona, sendo também adorada na Armênia. Seu legado vai além da Igreja Ortodoxa Georgiana e da Igreja Apostólica Armênia. Há igrejas e mosteiros ao redor do mundo em sua homenagem, como na Rússia e nos EUA. Aliás, a Geórgia, na região do Cáucaso, destaca-se, ainda, por constar como o segundo país a adotar o cristianismo como religião oficial, aquém tão somente da Armênia.

A Geórgia, a “nossa” Geórgia, possui outras construções consideradas patrimônios da humanidade pela UNESCO: Catedral de Bagrati e Mosteiro de Ghélati, ambos de arquitetura medieval e ambos em Kutaisi, segunda maior cidade do país.

Georgianos: etnias, idioma, densidade geográfica

Os georgianos, sempre afáveis e prestativos, não pertencem a nenhuma das principais etnias da Europa ou da Ásia. Sua gente resulta da mescla de habitantes indígenas com imigrantes que seguem para o sul do Cáucaso na direção de Anatólia, ainda na Antiguidade. Em pleno século XXI, os georgianos constituem a maioria (84%) da população do país, que soma o total aproximado de 3 729 500 habitantes em sua área total de 69.700 km², um pouco maior que meu Estado natal, Paraíba, 56.585 km², o que resulta em densidade geográfica de 65,1 habitantes / km². Dentre outros grupos étnicos, estão, russos, armênios, abecásios, azeris e ossetas, ao lado de ucranianos, turcos, chineses e gregos.

A bem da verdade, a Geórgia, nação muito jovem, com independência conquistada em 9 de abril de 1991 (mas reconhecida tão somente um dia antes da dissolução da então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, em 26 de dezembro de 1991), no decorrer de sua história, tem sido habitada por imigrantes de diferentes pátrias, em distribuição pouco equitativa e de difícil avaliação – cada fonte traz informações bastante diversificadas. De qualquer forma, lembramos que a Geórgia foi vencida pelo chamado Exército Vermelho e incorporada à URSS, em 25 de fevereiro de 1921, o que corresponde a muitos anos de sujeição a Moscou.

Aqui, é interessante narrar situação que perdura desde a dissolução da URSS, momento em que eclodem conflitos separatistas nas regiões autônomas da Abecásia (extremo noroeste do país) e Ossétia do Sul, centro-norte. Muitos ossetas partem para a Ossétia do Norte, na Rússia, enquanto mais de 150.000 georgianos deixam a Abecásia após o fim dos combates em 1993. Enquanto a Rússia reconhece oficialmente a independência das duas repúblicas, elas continuam sendo tratadas, em esfera internacional, salvo seis ou sete países, como territórios da República da Geórgia, inclusive pela Organização das Nações Unidas, União Europeia e EUA. A manutenção desta situação gera permanentes conflitos internos: duas regiões pertencem “no papel” à Geórgia, mas continuam controladas pelos russos. Como decorrência, impossível entrar nas duas cidades pela Geórgia, e, sim, apenas via Rússia.

Quanto à língua da Geórgia, da “nossa” Geórgia, nem se enquadra como indo-europeia (ou seja, línguas eslavas, germânicas, latinas, etc.) nem como turcomana nem como semítica. Mantém seu próprio alfabeto, completamente distinto de qualquer outro, com 33 letras: 28 consoantes e cinco vogais. Em compensação, é a língua com maior penetração dentre os chamados idiomas kartvelianos, de difícil acesso e compreensão para nós, povo brasileiro. Tais idiomas pertencem a uma família de línguas faladas tão somente na Geórgia, com algumas ramificações de falantes na Turquia, no Irã e na Rússia. Depois, graças à influência soviética e à imigração de russos para a região, a segunda língua com maior incidência é o russo e o inglês é falado, com frequência, pelo povo geórgico.

E vamos lá! Afinal, a economia da Geórgia gira em torno do turismo no Mar Negro! É conferir e se surpreender com a diversidade dessa gente! É conferir para acreditar que lugares não presentes no roteiro usual de turistas brasileiros podem extasiar e extasiam, reiterando o pensador português Fernando Pessoa, quando diz: “A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos.”

GEÓRGIA EM SÍNTESE

SÍMBOLOS NACIONAIS
Bandeira
Brasão de armas
Hino nacional თავისუფლება (Liberdade)
Lema A força está na união
Fronteiras Norte e leste = Rússia
Leste e sul = Azerbaijão
Oeste = Mar Negro
Sul = Turquia e Armênia
Religião principal Cristianismo Ortodoxo
Idioma oficial Georgiano
Gentílico Georgiano ou geórgico
Moeda Lari (GEL)
Capital e cidade mais populosa Tbilisi
Outras cidades Kutaisi, Batumi, Rustavi e Zugdidi
Sistema político República semipresidencialista
Expectativa de vida Homens: 71,62 anos; mulheres: 80,17 anos
Produtos de exportação Frutas cítricas, chá, uvas, manganês, cobre, vinho, metais, maquinaria, produtos têxteis e químicos
Mar Negro
Clima Subtropical úmido: quente e úmido no verão; frio e úmido, inverno
Área total 69.700 km²
População (ano 2015) 3 729 500 habitantes
Densidade geográfica 65,1 habitantes / km²

_http://www.100resilientcities.org_
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CINCO POEMAS DE CARLOS ALBERTO JALES


Manhãs de abril

(Em lembrança de Emily Dickinson)

Nessas pálidas manhãs de abril,
um vento antigo se apresenta.

Vem de longe,
ou habita um estranho mundo?

Traz a voz estrangulada dos náufragos,
o recado das solidões,
ou prefere esquecer a profundeza dos abismos?

Nessas pálidas manhãs de abril,
um vento antigo se apresenta e carrega com toda pureza
o fogo dos extintos vulcões


A monotonia verde-azul

A monotonia verde-azul
é a vitória do mar

As gaivotas peregrinas voltando á noite
é a vitória do mar

Os veleiros dissidentes embriagados de sal
é a vitória do mar

A tempestade que traz à praia o último náufrago
é a vitória do mar

O vento que conduz a chuva e espanta a calmaria
é a vitória do mar

No mar habitam as vitórias

No homem habitam as derrotas,
esquálidas damas esgarçadas.


Um dia

Um dia meu corpo será silêncio.
Absurdamente silêncio.

Não adianta o repicar dos sinos,
o canto álacre das crianças,
a música suave dos violinos.

Meu corpo será silêncio.
E ao divisar o outro lado do rio,
saberá afinal a resposta do teorema

Discurso

(Quem nos deu a palavra e seu poder?)
Luiz Busatto

A limpidez da palavra
A culminância das montanhas
O tormento da espera
O mistério das promessas
A subserviência dos rios
A vitalidade dos fracos
A vigília dos olhos
A fragilidade dos alcantis
A coragem dos ausentes
A viuvez das emoções
O quixotismo dos vencidos
A lucidez da loucura
E acima de tudo,
Pairando sobre o tempo,
O poeta e sua solidão


Não brigues com o tempo, poeta

Não brigues com o tempo,
poeta.

O tempo é implacável como
o sol

Imprevisível como os ventos,
traidor como os amantes

O tempo se alimenta de espera,
se nutre dos delírios

Se cumpre como a morte
de um condenado.

Não brigues com o tempo,
poeta.

Prefiras caminhar ao seu lado,
fingindo que é seu amigo,
mas preparado para o golpe fatal.

Não brigues com o tempo,
poeta.
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Manchester à Beira Mar e O que está por vir

O vai e vem da vida

Léa Maria Aarão Reis*


Dois filmes simples e despretensiosos – o que é raro, em nossos tempos de agora, de vaidades, afetação e muito barulho por nada – chamam a atenção e apaziguam nossa inquietude em meio a um punhado de produções medíocres candidatas ao Oscar de Hollywood, e em cartaz nesta temporada do cinema.

O americano Manchester à beira mar (Manchester on the beach) e o francês O que está por vir (L’avenir), embora produtos de duas culturas diversas e quase opostas, são filmes com muito em comum. Igualmente perturbam pela sua singeleza e pela naturalidade – não indiferença! – com que retratam a vida que, de repente, pode e quase sempre passa uma rasteira em todos nós, cada um e cada uma ao seu tempo.

O primeiro é dirigido por Kenneth Lonergan, 54 anos, diretor, dramaturgo e roteirista reconhecido (autor do roteiro de Gangues de Nova Iorque, de Scorsese) e se desenrola na pequena cidade pesqueira de Massachussets, nos Estados Unidos. A direção estava destinada ao ator Matt Damon que desistiu da empreitada e entregou-a a Lonergan. O astro se manteve como o produtor principal.

Manchester estreou no Sundance Festival de 2016, discretamente, mas logo chamou atenção. Foi fazendo, à sua maneira, uma carreira de bilheteria significativa e, hoje, está indicado para seis categorias do Oscar: melhor filme, diretor, ator, roteiro e dois coadjuvantes: o excelente ator Lucas Hedges, quase ainda um menino, e a extraordinária atriz Michelle Williams que em apenas duas sequências nos deixa de coração partido.

Ao lado deles, como eixo principal, o ator Casey Affleck (seu nome completo é Caleb Casey McGuire Affleck-Boldt) vive o protagonista numa dessas excepcionais composições inesquecíveis – delicada e difícil. Casey, irmão caçula do badalado Ben Affleck, estudou por alguns anos filosofia, astrologia e física na Universidade de Columbia. Tem consistência intelectual, nota-se no seu trabalho.

O que está por vir é o outro biscoito fino da temporada cinematográfica. Filme dirigido por uma parisiense com pedigree familiar artístico, a jovem Mia Hansen-Love, de 35 anos, é mulher do conhecido cineasta Olivier Assayas e irmã de um músico respeitado nos círculos sofisticados da capital francesa. Já foi atriz e dirigiu dois bons filmes: O pai de minhas filhas e Um amor de juventude. Com L’avenir ganhou o Urso de Prata de Melhor Diretora na Berlinale, ano passado.

Se no primeiro filme um acontecimento terrível rompe a estabilidade da vida de Lee Chandler e o que vemos, depois, é um homem encharcado de uma culpa irreversível, porém chamado, pelo acaso, a uma nova vida, à ação e à responsabilidade de cuidar, mesmo apático, do sobrinho adolescente que é órfão repentino (e aí entra o trabalho encantador de Lucas Hedges), na segunda fita o fim inesperado do casamento de 25 anos da bem sucedida professora de filosofia, Nathalie, uma mulher de meia-idade (Isabelle Hupert), e o fim que se aproxima da sua mãe doente (único sinal da sua angústia e descontrole emocional) são os detonadores das mudanças formidáveis que virão.
Huppert está hoje para os franceses como Meryl Streep para os americanos. É um ícone intocável. Que me perdoe a legião de seus fãs ardorosos. Vejo as duas como atrizes tarimbadas, porém de um papel único, abusando, cada uma, de seus cacoetes. Fazendo a sua Nathalie, às vezes me convence, em outras ocasiões, não.
Mas o importante observar é que o acaso, as súbitas rupturas violentas, a visão racional da existência humana, a morte em vida e a culpa original são as grandes linhas com as quais trabalham, de modo discreto, Hansen-Love e Lonergan nas duas narrativas que poderiam ser banais e melodramáticas – e, pelo contrário, não são porque seu meio tom confere um naturalismo exemplar.
Ambos falam das supostas bases que sustentam a ilusão da permanência. Os dois falam dos abalos que tiram o chão de debaixo dos nossos pés e sobre como seguimos adiante, do modo menos doloroso.
A professora Nathalie define o seu papel: ‘’Ensinar meus alunos a pensar por conta própria.” Não se engaja nem se comove com os protestos de ruas dos garotos (já viveu o mesmo, no passado, quando era jovem) e sua companhia são Rousseau e os grandes clássicos. “Zizek, um pouco superficial?” ela pergunta, provocativa, folheando os volumes da estante do aluno dileto.
Chandler por sua vez, em lancinante reencontro, na rua, com a ex-mulher que o convida a tentar outra vez a relação apesar da tragédia passada, recusa, com simplicidade, e se rende: “Eu não consigo superar.”

“A sensação,” anotou o escritor e crítico de filmes José Geraldo Couto sobre O que está por vir é a de que (...) “cada cena dando a impressão de começar já no meio e terminar antes do fim, reforça essa sensação de algo inconcluso, deixado aberto à interpretação.”

“Tudo é narrado com um certo distanciamento, quase nonchalance,” escreve ele. “Como se a câmera estivesse ali por acaso, ou como se os personagens estivessem pensando em outra coisa. No entanto, nada é gratuito ou desleixado, há uma grande precisão no que é mostrado e no que é omitido, mas não se trata da precisão rígida do cinema clássico, que conduz nosso olhar de modo tirânico, mas de uma espécie de precisão suave.”

Em Manchester, a atmosfera é semelhante embora menos sutil - não fosse um filme americano. Mas a precisão é a mesma.

Não há fechos convencionais nem finais felizes ou sombrios, nestes dois belos filmes. Apenas o movimento do vai e vem da vida - a sua irredutibilidade, como defendia Sartre.

*Jornalista. Autora de Novos Velhos (Ed. Record) e co-autora, com o médico João Curvo, de Nada Muito (Ed. Rocco)
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17/02/2017
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