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Literatura, viagem, cinema, gastronomia, cultura, pornografia
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VIAGEM

GEÓRGIA: EUROPA OU ÁSIA?

Chegando a Geórgia

Visitar a região do Cáucaso e se deparar com tanta beleza de um país a outro, nos traz a certeza de que é preciso exercitar a memória e, paradoxalmente, desprender muito pouco esforço para deter a beleza de cada uma dessas nações, a exemplo da Armênia, do Azerbaijão e de Catar. No caso, estamos nos referindo, em especial, à Geórgia (Sakartvelo, em georgiano). Com frequência, é ela confundida com o Estado norte-americano Georgia, cuja capital é a glamorosa Atlanta. A “nossa” Geórgia, com sua surpreendente capital Tbilisi, fica um tanto mais distante. Está na Europa Oriental, ou melhor, entre Europa e Ásia. A este respeito, os próprios georgianos brincam com a dúvida que paira dentre os estrangeiros: a Geórgia pertence à Europa ou à Ásia?

Entre risos, eles afirmam que a parte ocidental do país, antigo reino da Cólquida, pertence à Europa. Acrescentam que, segundo a mitologia grega, esse reino foi, em sua essência, a terra de personagens lendárias. O rei Eates possuía o Velocino de ouro, presente dos deuses que garantia riqueza inesgotável ao seu dono, mas Jasão, a bordo do navio Argo, viajou até ali para o roubar o Velo. O antigo reino também é a terra de Medeia, filha do rei e sobrinha de Circe, e, por algum tempo, esposa de Jasão. Depois de tanto imbróglio, os georgianos afirmam que a parte oriental, antigo reino da Ibéria (e bem mais tranquilo), está situada na Ásia.

O país limita-se, a norte e a leste com a Rússia; a sul, Turquia e Armênia; a leste e a sul, Azerbaijão. A oeste, eis o majestoso mar Negro, por sinal, de azul límpido e inesgotável. Com seus 436.402 km² de extensão, situa-se entre Europa, Anatólia e Cáucaso, ligando-se ao oceano Atlântico por meio dos mares Mediterrâneo e Egeu e por pequenos estreitos.

Tbilisi e a rota da seda

A indefinição quanto à grafia em português da capital da Geórgia, da “nossa” Geórgia, leva à variação de, no mínimo, 14 formas adotadas na mídia nos países lusófonos – Tbilisi, Tbilissi, Tiblíssi, Tbilisse, Tebilíssi, Tbilísi, Tbilíssi, Tiblisi, Tiblissi, Tiblísi, Tblisi, Tblísi, Tblissi e Tblíssi – o que chega a ser hilário! Mas, independentemente da opção, o fato é que visita a Tbilisi, parte integrante da antiga rota da seda, em seus 726 km² e população estimada em 1 152 500 habitantes, por si só nos dá nítida ideia da mescla de culturas que caracteriza o país, cujo aroma de especiarias parece impregnado ao ar e às pessoas em competição flagrante com o aroma de seus vinhos. Afinal, dentre suas particularidades, a Geórgia é o primeiro lugar do mundo, há mais de oito mil anos, a produzir a bebida e de forma bem peculiar, o que enlouquece enófilos, enólogos e sommeliers.

Ademais, talvez seja o momento de esclarecer um pouquinho sobre o que chamamos, hoje, com tanta desenvoltura, de rota da seda. Trata-se de expressão que nomeia uma série de caminhos integrados e usados para o comércio da seda. O produto é transportado em caravanas e embarcações oceânicas que conectam comercialmente o Extremo Oriente ao continente europeu, desde o oitavo milênio a.C. Os antigos povos do deserto do Saara, o segundo maior deserto da Terra, aquém tão somente da Antártida, eram donos de animais domésticos vindos da Ásia. Consequentemente, esses povos e seus animais são, à época, essenciais para efetivar as trocas entre os dois continentes até a descoberta do caminho marítimo para a Índia. Naquele momento, a rota da seda conecta a atual Xian, capital da província de Shaanxi, na República Popular da China, à Antioquia (hoje, a moderna Antáquia, na Turquia), na Ásia Menor, e, também a outros destinos. Decerto, a rota da seda de então representa a maior rede comercial do mundo antigo, com influência até na Coreia e no Japão.

Tbilisi e seus encantos

A parte antiga de Tbilisi, a maior cidade do país, traz de volta a beleza dos esquecidos balcões. A primeira impressão é que as casas de madeira, com suas grandes varandas de suporte metálico, construídas há mais de um século, vão despencar sobre as ruelas ladrilhadas e tortuosas. São resquícios da austera arquitetura soviética, um pouco sem graça com blocos de concreto à exaustão. No meio desse cenário, uma rua inteira de casas de banhos públicos de águas sulfurosas, abaixo do nível do chão e com cúpulas arredondadas, são atração imperdível para quem visita Abanotubani, nome do distrito da Cidade Velha. “Reza a lenda” que, quando o rei Vakhtang Gorgasali de Kartli estava caçando nos arredores da capital atual, um de seus falcões caiu em Abanotubani. Daí, ocorre a descoberta das águas termais, onde se banharam famosos, a exemplo do escritor francês Alexandre Dumas.

Funda-se, assim, Tbilisi (= quente) que remonta a mais de 2.400 anos, com o adendo que só não foi a capital da Geórgia durante as invasões persa, árabe e mongol, períodos em que Mtskheta figura como centro político do país.
Pontes cortam o Kura, rio que percorre as montanhas do Cáucaso: nasce na Turquia, segue em direção à Geórgia (à “nossa” Geórgia) e ao Azerbaijão, percorrendo o total de 1,515 km, até desaguar no Mar Cáspio. Aliás, passeio no funicular ou teleférico é imperdível. Favorece visão panorâmica de Tbilisi. Traz à tona o choque que causa à primeira vista a construção da Ponte da Paz (The Bridge of Peace), que data de 2008, após a guerra contra a Rússia, totalmente em vidro e aço, e o próprio Museu de Arte Contemporânea, além da residência presidencial, réplica em miniatura do Parlamento alemão, que parecem desafiar a sisudez da arquitetura antiga!

Praças grandiosas em sua simplicidade, como a que mantém fontes de águas dançantes, também encantam, além da Moedani Tavisupleba (Praça da Liberdade), com imponente estátua de São Jorge ao centro. Dizem que o jovem Jorge, natural da Capadócia (Turquia), lutou como capitão do exército romano, o que justifica o apodo a ele atribuído: “Santo Guerreiro.” Além de padroeiro da Geórgia, também protege Portugal, Inglaterra e Lituânia. E mais, acredita-se que a denominação – Geórgia – deriva do grego γεωργ- (geōrg), ou seja, do nome do padroeiro ou, talvez, do termo γεωργία (gueōrguía), que significa cultivar.

Em se tratando de santos e / ou religião, destaque para numerosos locais sagrados, entre catedrais, mesquitas e sinagogas, o que prova a bendita tolerância religiosa que caracteriza a capital e o país como um todo. Citam-se: Sioni Cathedral Church, construção do longínquo século VI; Mtatsminda Pantheon; Anchiskhati Basílica; Kashveti Church; Jumah Mosque; Metekhi Cathedral; Tbilisi Great Synagogue; Sameba Cathedral; e Chapel of Saint David. Entre os museus, menção ao Open Air Museum, à National Gallery e ao Georgian National Museum.

Dentre os parques naturais, destacam-se o Jinvali Water Reservoir, os arredores do Lisi Lake, o National Botanical Garden e o Mount Mtatsminda. Como Tbilisi está rodeada por montanhas, no alto de uma delas, além de outra estátua de São Jorge, lá está, adiante, a Mãe Geórgia (Kartlis Deda), símbolo também muito querido pelos georgianos: na mão direita, segura uma espada contra os inimigos; na esquerda, uma garrafa de vinho para os amigos.

É ainda na parte antiga de Tbilisi, que estão suvenires os mais distintos para os gostos os mais distintos. É comum encontrar, ao lado de belos tapetes, que não perdem em beleza dos exemplares persas, os cloisonnés, objetos de decoração resultantes de trabalho antigo e tradicional em esmalte. A técnica consiste em acoplar tirinhas finas de metal coladas sobre uma superfície para formar um desenho composto por pequenos compartimentos preenchidos com pasta de esmalte vitrificado. Beleza pura!

A parte mais nova da cidade, com restaurantes e casas noturnas, atrai público garantido para belos shows e danças típicas caucasianas. Como não poderia deixar de ser, mantêm um certo quê de “para o turista ver.” E daí? O turista vê, não se queixa, aprecia, fotografa, explode em selfies e não se esquece...

Tbilisi e arredores: mais Geórgia

A Geórgia, a “nossa” Geórgia, fica quase que inteiramente aos pés da Cordilheira do Cáucaso, que abriga florestas (40% de seu território) e, como antevisto, uma cadeia de montanhas majestosas, que também chega ao sul da Rússia e a territórios do Azerbaijão, Armênia, Irã e Turquia. Neste sentido, além dos muros da capital, as regiões montanhosas conhecidas como “O grande Cáucaso” expõem ao longo do percurso, a célebre estrada militar da Geórgia, cujo nome homenageia, mais uma vez, a São Jorge. O ponto culminante é o Monte Chkara, com cerca de 5 200 metros de altitude. Rememorando que, por muito tempo, a Geórgia representou uma das precárias formas de conexão entre Europa e continente asiático, esse caminho favorece visita ao complexo de fortificações de Ananuri, de onde se vislumbra de olhos cerrados ou bem abertos paisagens com picos coalhados de neve na cordilheira do Cáucaso. Mais adiante, ao norte do país, eis Kazbegi, povoado que abriga a Igreja da Santa Trindade, datada do século XIV, de onde é possível avistar o Monte do mesmo nome.

Além de conhecida por suas prodigiosas fontes de água mineral, Geórgia, a “nossa” Geórgia, também nos dá como verdadeira oferenda a beleza de um “pulinho” à citada Mtskheta, habitada desde o segundo milênio a.C. Como visto, foi por muito tempo a capital do país. Hoje, tombada como Patrimônio Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), consiste em museu vivo com fantásticos exemplos de arquitetura medieval religiosa de infinita beleza.

Dentre as igrejas de Mtskheta, além da Basílica de Svetitskhoveli (“O Pilar da Vida”) com afrescos de beleza ímpar, é também possível observar a distância, no alto de um penhasco, com vista tanto da cidade quanto dos Rios Kura e Aragua, o Mosteiro de Jvari, obra-prima da Idade Média. Uma pequena igreja foi construída em 545 d.C., a “Pequena Igreja de Jvari.” Adiante, uma igreja maior, a “Grande Igreja de Jvari”, entre os anos 586 d.C. e 605 d.C., emerge, onde, até os dias de hoje, acontecem celebrações, embora o mosteiro tenha se deteriorado ao longo do tempo. Acredita-se que, nesse local abençoado, a evangelista feminina, Santa Nino, fincou sua cruz. Nina (como também é chamada), que significa “Igual aos Apóstolos” e / ou “Iluminadora da Geórgia”, é venerada por ter introduzido o cristianismo no país, do qual é a patrona, sendo também adorada na Armênia. Seu legado vai além da Igreja Ortodoxa Georgiana e da Igreja Apostólica Armênia. Há igrejas e mosteiros ao redor do mundo em sua homenagem, como na Rússia e nos EUA. Aliás, a Geórgia, na região do Cáucaso, destaca-se, ainda, por constar como o segundo país a adotar o cristianismo como religião oficial, aquém tão somente da Armênia.

A Geórgia, a “nossa” Geórgia, possui outras construções consideradas patrimônios da humanidade pela UNESCO: Catedral de Bagrati e Mosteiro de Ghélati, ambos de arquitetura medieval e ambos em Kutaisi, segunda maior cidade do país.

Georgianos: etnias, idioma, densidade geográfica

Os georgianos, sempre afáveis e prestativos, não pertencem a nenhuma das principais etnias da Europa ou da Ásia. Sua gente resulta da mescla de habitantes indígenas com imigrantes que seguem para o sul do Cáucaso na direção de Anatólia, ainda na Antiguidade. Em pleno século XXI, os georgianos constituem a maioria (84%) da população do país, que soma o total aproximado de 3 729 500 habitantes em sua área total de 69.700 km², um pouco maior que meu Estado natal, Paraíba, 56.585 km², o que resulta em densidade geográfica de 65,1 habitantes / km². Dentre outros grupos étnicos, estão, russos, armênios, abecásios, azeris e ossetas, ao lado de ucranianos, turcos, chineses e gregos.

A bem da verdade, a Geórgia, nação muito jovem, com independência conquistada em 9 de abril de 1991 (mas reconhecida tão somente um dia antes da dissolução da então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, em 26 de dezembro de 1991), no decorrer de sua história, tem sido habitada por imigrantes de diferentes pátrias, em distribuição pouco equitativa e de difícil avaliação – cada fonte traz informações bastante diversificadas. De qualquer forma, lembramos que a Geórgia foi vencida pelo chamado Exército Vermelho e incorporada à URSS, em 25 de fevereiro de 1921, o que corresponde a muitos anos de sujeição a Moscou.

Aqui, é interessante narrar situação que perdura desde a dissolução da URSS, momento em que eclodem conflitos separatistas nas regiões autônomas da Abecásia (extremo noroeste do país) e Ossétia do Sul, centro-norte. Muitos ossetas partem para a Ossétia do Norte, na Rússia, enquanto mais de 150.000 georgianos deixam a Abecásia após o fim dos combates em 1993. Enquanto a Rússia reconhece oficialmente a independência das duas repúblicas, elas continuam sendo tratadas, em esfera internacional, salvo seis ou sete países, como territórios da República da Geórgia, inclusive pela Organização das Nações Unidas, União Europeia e EUA. A manutenção desta situação gera permanentes conflitos internos: duas regiões pertencem “no papel” à Geórgia, mas continuam controladas pelos russos. Como decorrência, impossível entrar nas duas cidades pela Geórgia, e, sim, apenas via Rússia.

Quanto à língua da Geórgia, da “nossa” Geórgia, nem se enquadra como indo-europeia (ou seja, línguas eslavas, germânicas, latinas, etc.) nem como turcomana nem como semítica. Mantém seu próprio alfabeto, completamente distinto de qualquer outro, com 33 letras: 28 consoantes e cinco vogais. Em compensação, é a língua com maior penetração dentre os chamados idiomas kartvelianos, de difícil acesso e compreensão para nós, povo brasileiro. Tais idiomas pertencem a uma família de línguas faladas tão somente na Geórgia, com algumas ramificações de falantes na Turquia, no Irã e na Rússia. Depois, graças à influência soviética e à imigração de russos para a região, a segunda língua com maior incidência é o russo e o inglês é falado, com frequência, pelo povo geórgico.

E vamos lá! Afinal, a economia da Geórgia gira em torno do turismo no Mar Negro! É conferir e se surpreender com a diversidade dessa gente! É conferir para acreditar que lugares não presentes no roteiro usual de turistas brasileiros podem extasiar e extasiam, reiterando o pensador português Fernando Pessoa, quando diz: “A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos.”

GEÓRGIA EM SÍNTESE

SÍMBOLOS NACIONAIS
Bandeira
Brasão de armas
Hino nacional თავისუფლება (Liberdade)
Lema A força está na união
Fronteiras Norte e leste = Rússia
Leste e sul = Azerbaijão
Oeste = Mar Negro
Sul = Turquia e Armênia
Religião principal Cristianismo Ortodoxo
Idioma oficial Georgiano
Gentílico Georgiano ou geórgico
Moeda Lari (GEL)
Capital e cidade mais populosa Tbilisi
Outras cidades Kutaisi, Batumi, Rustavi e Zugdidi
Sistema político República semipresidencialista
Expectativa de vida Homens: 71,62 anos; mulheres: 80,17 anos
Produtos de exportação Frutas cítricas, chá, uvas, manganês, cobre, vinho, metais, maquinaria, produtos têxteis e químicos
Mar Negro
Clima Subtropical úmido: quente e úmido no verão; frio e úmido, inverno
Área total 69.700 km²
População (ano 2015) 3 729 500 habitantes
Densidade geográfica 65,1 habitantes / km²

_http://www.100resilientcities.org_
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CINCO POEMAS DE CARLOS ALBERTO JALES


Manhãs de abril

(Em lembrança de Emily Dickinson)

Nessas pálidas manhãs de abril,
um vento antigo se apresenta.

Vem de longe,
ou habita um estranho mundo?

Traz a voz estrangulada dos náufragos,
o recado das solidões,
ou prefere esquecer a profundeza dos abismos?

Nessas pálidas manhãs de abril,
um vento antigo se apresenta e carrega com toda pureza
o fogo dos extintos vulcões


A monotonia verde-azul

A monotonia verde-azul
é a vitória do mar

As gaivotas peregrinas voltando á noite
é a vitória do mar

Os veleiros dissidentes embriagados de sal
é a vitória do mar

A tempestade que traz à praia o último náufrago
é a vitória do mar

O vento que conduz a chuva e espanta a calmaria
é a vitória do mar

No mar habitam as vitórias

No homem habitam as derrotas,
esquálidas damas esgarçadas.


Um dia

Um dia meu corpo será silêncio.
Absurdamente silêncio.

Não adianta o repicar dos sinos,
o canto álacre das crianças,
a música suave dos violinos.

Meu corpo será silêncio.
E ao divisar o outro lado do rio,
saberá afinal a resposta do teorema

Discurso

(Quem nos deu a palavra e seu poder?)
Luiz Busatto

A limpidez da palavra
A culminância das montanhas
O tormento da espera
O mistério das promessas
A subserviência dos rios
A vitalidade dos fracos
A vigília dos olhos
A fragilidade dos alcantis
A coragem dos ausentes
A viuvez das emoções
O quixotismo dos vencidos
A lucidez da loucura
E acima de tudo,
Pairando sobre o tempo,
O poeta e sua solidão


Não brigues com o tempo, poeta

Não brigues com o tempo,
poeta.

O tempo é implacável como
o sol

Imprevisível como os ventos,
traidor como os amantes

O tempo se alimenta de espera,
se nutre dos delírios

Se cumpre como a morte
de um condenado.

Não brigues com o tempo,
poeta.

Prefiras caminhar ao seu lado,
fingindo que é seu amigo,
mas preparado para o golpe fatal.

Não brigues com o tempo,
poeta.
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Manchester à Beira Mar e O que está por vir

O vai e vem da vida

Léa Maria Aarão Reis*


Dois filmes simples e despretensiosos – o que é raro, em nossos tempos de agora, de vaidades, afetação e muito barulho por nada – chamam a atenção e apaziguam nossa inquietude em meio a um punhado de produções medíocres candidatas ao Oscar de Hollywood, e em cartaz nesta temporada do cinema.

O americano Manchester à beira mar (Manchester on the beach) e o francês O que está por vir (L’avenir), embora produtos de duas culturas diversas e quase opostas, são filmes com muito em comum. Igualmente perturbam pela sua singeleza e pela naturalidade – não indiferença! – com que retratam a vida que, de repente, pode e quase sempre passa uma rasteira em todos nós, cada um e cada uma ao seu tempo.

O primeiro é dirigido por Kenneth Lonergan, 54 anos, diretor, dramaturgo e roteirista reconhecido (autor do roteiro de Gangues de Nova Iorque, de Scorsese) e se desenrola na pequena cidade pesqueira de Massachussets, nos Estados Unidos. A direção estava destinada ao ator Matt Damon que desistiu da empreitada e entregou-a a Lonergan. O astro se manteve como o produtor principal.

Manchester estreou no Sundance Festival de 2016, discretamente, mas logo chamou atenção. Foi fazendo, à sua maneira, uma carreira de bilheteria significativa e, hoje, está indicado para seis categorias do Oscar: melhor filme, diretor, ator, roteiro e dois coadjuvantes: o excelente ator Lucas Hedges, quase ainda um menino, e a extraordinária atriz Michelle Williams que em apenas duas sequências nos deixa de coração partido.

Ao lado deles, como eixo principal, o ator Casey Affleck (seu nome completo é Caleb Casey McGuire Affleck-Boldt) vive o protagonista numa dessas excepcionais composições inesquecíveis – delicada e difícil. Casey, irmão caçula do badalado Ben Affleck, estudou por alguns anos filosofia, astrologia e física na Universidade de Columbia. Tem consistência intelectual, nota-se no seu trabalho.

O que está por vir é o outro biscoito fino da temporada cinematográfica. Filme dirigido por uma parisiense com pedigree familiar artístico, a jovem Mia Hansen-Love, de 35 anos, é mulher do conhecido cineasta Olivier Assayas e irmã de um músico respeitado nos círculos sofisticados da capital francesa. Já foi atriz e dirigiu dois bons filmes: O pai de minhas filhas e Um amor de juventude. Com L’avenir ganhou o Urso de Prata de Melhor Diretora na Berlinale, ano passado.

Se no primeiro filme um acontecimento terrível rompe a estabilidade da vida de Lee Chandler e o que vemos, depois, é um homem encharcado de uma culpa irreversível, porém chamado, pelo acaso, a uma nova vida, à ação e à responsabilidade de cuidar, mesmo apático, do sobrinho adolescente que é órfão repentino (e aí entra o trabalho encantador de Lucas Hedges), na segunda fita o fim inesperado do casamento de 25 anos da bem sucedida professora de filosofia, Nathalie, uma mulher de meia-idade (Isabelle Hupert), e o fim que se aproxima da sua mãe doente (único sinal da sua angústia e descontrole emocional) são os detonadores das mudanças formidáveis que virão.
Huppert está hoje para os franceses como Meryl Streep para os americanos. É um ícone intocável. Que me perdoe a legião de seus fãs ardorosos. Vejo as duas como atrizes tarimbadas, porém de um papel único, abusando, cada uma, de seus cacoetes. Fazendo a sua Nathalie, às vezes me convence, em outras ocasiões, não.
Mas o importante observar é que o acaso, as súbitas rupturas violentas, a visão racional da existência humana, a morte em vida e a culpa original são as grandes linhas com as quais trabalham, de modo discreto, Hansen-Love e Lonergan nas duas narrativas que poderiam ser banais e melodramáticas – e, pelo contrário, não são porque seu meio tom confere um naturalismo exemplar.
Ambos falam das supostas bases que sustentam a ilusão da permanência. Os dois falam dos abalos que tiram o chão de debaixo dos nossos pés e sobre como seguimos adiante, do modo menos doloroso.
A professora Nathalie define o seu papel: ‘’Ensinar meus alunos a pensar por conta própria.” Não se engaja nem se comove com os protestos de ruas dos garotos (já viveu o mesmo, no passado, quando era jovem) e sua companhia são Rousseau e os grandes clássicos. “Zizek, um pouco superficial?” ela pergunta, provocativa, folheando os volumes da estante do aluno dileto.
Chandler por sua vez, em lancinante reencontro, na rua, com a ex-mulher que o convida a tentar outra vez a relação apesar da tragédia passada, recusa, com simplicidade, e se rende: “Eu não consigo superar.”

“A sensação,” anotou o escritor e crítico de filmes José Geraldo Couto sobre O que está por vir é a de que (...) “cada cena dando a impressão de começar já no meio e terminar antes do fim, reforça essa sensação de algo inconcluso, deixado aberto à interpretação.”

“Tudo é narrado com um certo distanciamento, quase nonchalance,” escreve ele. “Como se a câmera estivesse ali por acaso, ou como se os personagens estivessem pensando em outra coisa. No entanto, nada é gratuito ou desleixado, há uma grande precisão no que é mostrado e no que é omitido, mas não se trata da precisão rígida do cinema clássico, que conduz nosso olhar de modo tirânico, mas de uma espécie de precisão suave.”

Em Manchester, a atmosfera é semelhante embora menos sutil - não fosse um filme americano. Mas a precisão é a mesma.

Não há fechos convencionais nem finais felizes ou sombrios, nestes dois belos filmes. Apenas o movimento do vai e vem da vida - a sua irredutibilidade, como defendia Sartre.

*Jornalista. Autora de Novos Velhos (Ed. Record) e co-autora, com o médico João Curvo, de Nada Muito (Ed. Rocco)
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17/02/2017
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Armênia: simples assim


Maria das Graças Targino

Armênia, oficialmente República da Armênia, é um desses recantos perdidos no continente asiático, cercado de nações de maioria islâmica, e com fortes vínculos sociopolíticos e culturais com a Europa. Sem costa marítima, situa-se em região montanhosa na Eurásia, entre o mar Negro e o mar Cáspio, no sul do Cáucaso, alcançando, no verão, 36°C, enquanto, no inverno, a temperatura oscila entre 5º e 10°C.

Ir até lá, invariavelmente, desperta a pergunta reincidente: “o que há por lá? O que há de interessante?” Questão revestida, quase sempre, de crítica sub-reptícia. Contudo, contrariamos frontalmente o escritor maranhense Luiz Costa Lima, quando diz: “sem sair [...] de casa passeia-se pelo mundo (televisão) ou carrega-se a casa nos passeios pelo mundo (as viagens).” Armênia, em sua singularidade, não nos permite carregar nas costas nem casa nem tampouco ideias preconcebidas. É uma nação ímpar. Em 26 de dezembro de 1991, com a fragmentação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (1956-1989), a menor república da extinta URSS, dentre as 15 totais, reconquista sua independência com área de 29 743 km² e população estimada em 3 009 800 habitantes, o que corresponde à densidade geográfica de 101,2 hab. / km², com a ressalva de que sua dimensão territorial em seus primórdios era 13 vezes maior do que a atual, antes que invasores tomassem suas terras, pouco a pouco. Assim, em cada km², há uma história para lá de interessante. Suas lutas, sua economia, seus traços culturais, enfim, tudo é bastante significativo.

A capital do país abriga a maior parte de seus cidadãos, ou seja, mais de um milhão de pessoas. Estamos falando de Yerevan (ou Erevan ou Erevã), onde estivemos, situada às margens do rio Hrazdan. Data de, aproximadamente, 700 a. C., o que assegura sua posição de uma das mais antigas capitais ao redor do mundo. Seguem Guiumri, Armavir, Vanadzor, Artaxata e Hrazdam, capitais das províncias de maior importância econômica e populacional, uma vez que o país engloba 11 subdivisões. Dentre elas, 10 são chamadas marzer (fronteira; limite). Yerevan mantém status de hamaynq, por sua condição de capital, cujo Poder Executivo está a cargo de um prefeito, designado pelo Presidente. As outras marzer estão sob encargo de um governador. Ao todo, a República da Armênia possui 953 vilarejos, 48 cidades e 932 comunidades: 871 rurais e apenas 61, urbanas.

Lutas, genocídio e diáspora

Em Yerevan, estão os mais representativos símbolos, que contam a história do sofrido povo armênio. Isto porque, nos últimos séculos, a Armênia é invadida por mongóis, soviéticos e otomanos, com a ressalva de que se atribui à Turquia – herdeira do Império Otomano – uma mancha que parece incrustada no dia a dia das pessoas. Trata-se do Genocídio Armênio ou Holocausto Armênio ou Massacre Armênio ou Medz Yeghern (Grande Crime), ano 1915, plena Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

Visitar o Museu-Instituto de Genocídio Armênio, designado poeticamente de Fortaleza das Pequenas Andorinhas, requer coragem do visitante. Embora os turcos aleguem que eles e armênios morreram em combate, a história não deixa dúvidas. Eis um extermínio comandado pelo governo otomano contra os armênios, à época, minoria na esfera de seu território histórico, localizado onde, hoje, está a Turquia. O dia 24 de abril de 2015 é a data oficial do início da matança, quando as autoridades inimigas prendem e executam intelectuais e líderes comunitários armênios em Constantinopla. Os registros fotográficos revelam crueldade horripilante e não deixam dúvidas sobre os impactos do genocídio dentre a população armênia, que não olvida o mais de um milhão de vítimas, de todas as idades, deixando um punhado de órfãos sem eira nem beira.

Os historiadores registram que o Grande Crime ocorre em duas fases. Primeiro, o assassinato de homens sadios e / ou o recrutamento para trabalho forçado. Depois, a morte ou deportação de idosos, mulheres, crianças e enfermos para o deserto sírio privados de água e de comida, além de sujeitos, sem dó nem piedade, a estupros e massacres coletivos. Etnias nativas ou cristãos, como assírios e gregos otomanos, também são vítimas do horror de então.

O sofrimento em massa do povo armênio justifica a diáspora dessa gente ao redor do mundo como decorrência direta do genocídio de 1915, deixando para trás a beleza do famoso Monte Ararat, maciço vulcânico extinto no leste da Turquia. Para os mais crédulos, a arca da figura bíblica Noé está por lá, embora, a bem da verdade e por extrema ironia, o Ararat pertença, de fato, à Turquia. Ararat (de difícil visualização em dias de pouco sol) está em toda parte do país – designação de vinhedos, lojas, fábricas de conhaque, hotéis, etc. – deixando de lado a montanha mais alta da Armênia, o Monte Aragats.

Face à diáspora, comunidades armênias parecem estar em toda parte, com ênfase para França, Irã, Estados Unidos da América, Rússia e Brasil (São Paulo), a tal ponto que “reza a lenda” de que há mais armênios fora do que dentro do país, com um adendo pleno de esperança: os que vivem no exterior e são bem sucedidos, sistematicamente, enviam ajuda aos seus irmãos! Nunca os esqueceram! Poucos sabem, mas a inesquecível Lady Dy; o reconhecido tenista norte-americano Andre Agassi; um dos campeões da Fórmula 1, Alain Prost; o guru mundial da tecnologia, Steve Jobs; e muitos outros têm raízes armênias. Alguns deles com atuação significativa em prol de seus ancestrais, como o cantor francês Charles Aznavour, embaixador da Armênia na Suíça e crítico feroz do genocídio, que dizimou toda a família de sua mãe. No Brasil, o destaque é a atriz global Aracy Balabanian.

Economia e oscilação

Além do montante enviado do exterior por sua gente, avaliado em 30% do capital circulante, a economia da Armênia sobrevive como nação eminentemente agrícola – é só rever o número de comunidades rurais. Entretanto, como os outros Estados ex-URSS, o país ainda mantém dependência ostensiva diante da Rússia, cujos investimentos decrescem a olho nu. Sua indústria mineira (cobre, prata, urânio, zinco, ouro e chumbo) sobrevive, embora significativa proporção da energia seja produzida graças ao combustível russo, inclusive gás natural e combustível nuclear. A eletricidade garante a energia residencial, que é hidroelétrica, por conta da abundância d’água do país – há, em torno de 10 mil fontes d’água ocupando 4,71% do território armênio. Depois, vêm o álcool, ênfase para o conhaque, produto exportado para Rússia e Irã por ser classificado como um dos melhores do mundo; a indústria têxtil e de tabaco; a exportação de frutas e frutos, como damasco (este, quase um símbolo nacional, a tal ponto que se chega a dizer que provém da Armênia), uva e tomate; tubérculos, como a batata; frangos e cordeiros vivos.

Nada, porém, parece suficiente para estancar o fechamento de indústrias. Há mais razões que sinalizam a queda da moeda oficial (o dram) e a fragilidade da economia. Os efeitos do remoto Terremoto de Spitak ou Gyumri, 1988, ainda estão presentes, com o rastro de 25 mil pessoas mortas e mais de meio milhão de feridos. A Armênia mantém fronteiras ao norte com a Geórgia; a leste com o Azerbaijão; ao sul com o Irã; a oeste com a Turquia. No entanto, Azerbaijão e Turquia mantêm fronteiras fechadas à Armênia, deflagrando bloqueio econômico catastrófico, até porque as rodovias via Geórgia e Irã são precárias.

Diante desse panorama pouco animador, algumas notícias trazem alívio. O PIB [Produto Interno Bruto] vem crescendo, com o total de US$ 17,086 mil milhões e renda per capita de US$ 5,178. Há mais. Em 2007, a Transparência Internacional, organização não governamental, instituída em 1993, com sede em Berlim, e cuja meta central é o combate à corrupção, lista o país na 99a posição dentre 179 avaliados. No mesmo ano, no Índice de Liberdade Econômica da norte-americana Heritage Foundation, com sede em Washington, DC, que avalia o nível de liberdade econômica de 186 nações dispersas em diferentes continentes, a Armênia aparece no 32o posto, com índice próximo a nações do continente europeu, como Itália e Portugal. A Armênia também alcança o 80º melhor IDH [Índice de Desenvolvimento Humano] pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, o mais elevado dentre as repúblicas transcaucasianas (Armênia, Azerbaijão e Geórgia), lembrando que a Armênia é designada carinhosamente de “Pérola do Cáucaso.”

Traços culturais armênios que encantam

Idioma

Confessamos “de cara limpa” nosso encantamento pelo idioma armênio, por sua riqueza de detalhes e, por que não, por sua excentricidade e desafios sem fim. Em definitivo: não parece com qualquer outra língua. Exemplificando: como o quadro que resume o alfabeto expõe, há muitas letras sem equivalência em português.

Atribui-se ao monge Mesrob Machdodz a invenção de seu alfabeto, com apenas 36 caracteres, entre ano 404 e / ou 406 D.C. A língua armênia pertence ao ramo indo-europeu, embora com muitas peculiaridades, o que assegura sua “independência”. Por exemplo, é rica em consoantes, com muitas sibilantes e a acentuação incide sempre na última sílaba. Há o armênio oriental, próprio da Armênia, e o ocidental, amplamente falado pelos nativos e descendentes espalhados pelo mundo. As diferenças recaem prioritariamente na pronúncia. Então, para assegurar a comunicação entre os armênios e os demais povos, além do idioma nativo, os alunos aprendem, na escola, o russo e o inglês ou francês.

Igreja Apostólica Armênia

A Igreja Armênia resulta do esforço de dois dos 12 apóstolos de Jesus Cristo: São Judas Tadeu e São Bartolomeu. Estes pregam o cristianismo por ali entre os anos 40 e 60 d.C. Como decorrência, a Armênia consta como o primeiro país a adotar, oficialmente, o cristianismo, em 301, o que justifica a adesão quase total da população (95%) à Igreja Apostólica Armênia, não Ortodoxa, não Católica. Sua adesão ao monofisismo, doutrina teológica segundo a qual Cristo mantém uma só natureza – divina e humana –, ou seja, não separa Deus do homem, a mantém afastada de demais segmentos cristãos, embora, paradoxalmente, sustente há 30 anos convivência pacífica com a Igreja Católica, sem deixar de lado seus ritos particulares. Por exemplo, alguns atos litúrgicos são celebrados conjuntamente, como batizado e crisma; há permissão para os padres casarem, mas quem o faz não ascende a postos hierárquicos superiores, como arcebispo ou bispo ou Patriarca Supremo (vitalício) que corresponde ao Papa da Igreja Católica.

De qualquer forma, é imperdível visita à Igreja de Etchmiadzin, onde está a sede dos Katholikos ou “Vaticano” armênio! Imperdível também visita à Catedral de São Gregório, que guarda relíquias preciosas do padroeiro do país! A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) inscreveu tanto a Igreja quanto a Catedral como Patrimônio Mundial da Humanidade. Além de São Gregório “O Iluminador”, considerado como o primeiro católico de todos os armênios, o outro padroeiro dos armênios é o apóstolo Bartolomeu. Retomando o Holocausto Armênio, acrescemos que os registros históricos dão conta de que a maior canonização realizada por uma igreja cristã acontece exatamente após 100 anos do massacre, em 2015, quando a Igreja Apostólica Armênia canoniza um milhão e meio de vítimas do genocídio.

Culinária

Devido à história e à localização geográfica do país – proximidade com Pérsia e Arábia – a culinária armênia é quase uma mescla da cozinha mediterrânea e caucasiana, com influência da Europa Oriental e do Oriente Médio. Além do pão sírio, não faltam quibe, coalhada, kafta (espécie de almôndegas, comum nos países originários da queda do Império Otomano), e, em especial, recheios, purês e coberturas que acompanham carnes, peixes e legumes. Encanta a tradição milenar da produção coletiva de grupos de mulheres do lavash, pão típico do interior da Armênia, assado em buraco no chão. Kefir também tem vez. É um produto obtido pela fermentação do leite por microrganismos benéficos. Assemelha-se na aparência ao nosso iogurte, mas mantém maior valor nutricional e terapêutico.

Esportes

Como em nações vizinhas, à semelhança do Azerbaijão, o xadrez faz parte do cotidiano do armênio, independentemente da faixa etária, sendo disciplina da grade escolar do ensino médio público e privado, o qual é obrigatório entre seis e 18 anos, o que resulta em baixo analfabetismo, em torno de 0,4%. O xadrez está por toda parte. Afora ele, destacam-se luta livre, halterofilismo, judô, futebol e boxe, além de desportos próprios de regiões montanhosas, como esqui e alpinismo.

Sem litoral, os esportes aquáticos são restritos aos lagos. No caso, sobretudo, ao lago Servan, o maior da Armênia e da região do Cáucaso, além de ser um dos mais altos do mundo, localizado na parte central da Armênia, província de Gegharkunik, que percorremos rumo à capital. Aliás, o percurso de ônibus entre a fronteira de Tbilisi, capital da Geórgia, e à chegada à capital armênia, resulta em experiência fantástica. Conhecer o Mosteiro de Haghpat, complexo monástico medieval pertencente à Igreja Apostólica Armênia e situado em cidade homônima, é se deparar com verdadeira obra-prima da arquitetura religiosa da Idade Média, tombada como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, ano 1996. Ainda no percurso, é o momento de conhecer a “Suíça da Armênia”, apodo de Dilijan, coalhada de florestas dentro do Parque Nacional e situada na província de Tavush, que ostenta a mais tradicional arquitetura do país.

O que há por lá?

Retomando a questão – o que há por lá? – além do descrito até então, especificamente na capital Yerevan, há muito mais. O Parque da Vitória com a estátua “Mãe Armênia” é tocante. O Instituto Mashtots de Manuscritos Antigos ou, simplesmente, Matenadaran, com acervo de 18 mil manuscritos antiguíssimos de origem armênia, grega, hebraica, persa, romana e síria, exerce a função vital de museu e de instituto de pesquisa. A chamada Cascates de Yerevan, 1980, é um espetáculo à parte. Uma escadaria gigante conduz ao interior do edifício com galerias de arte e terraços. Esculturas grandiosas, fontes e jardins maravilhosos, restaurantes, cafés com mesinhas nas calçadas se estendem ao redor do complexo arquitetônico e dão um toque mágico ao lugar!

Adiante, a Praça da República, onde estão os principais edifícios do governo e uma fonte atrativa. À noite, apresenta belo espetáculo de luzes e música em meio a águas irrequietas. Ainda tratando de sonoridade, os espetáculos intermitentes de música medieval armênia atraem turistas e nativos em busca de tranquilidade. É o que se passa no Mosteiro de Geghard, escavado na rocha e, segundo dizem, com fonte milagrosa. Por enquanto, a certeza é uma só: a acústica é inegavelmente perfeita! Não é preciso ser armênio, cristão ou adepto de qualquer religião para se comover!

Assim, embora não seja recomendável usar a expressão – para finalizar – até porque a Armênia é uma caixinha de surpresa, as ruínas do templo de Zvartnots (patrimônio da UNESCO), século VII, não podem ser esquecidas em seu roteiro! Eis uma catedral circular em ruínas, a mais ou menos km a oeste de Yerevan, limite de Echmiatsin, província de Armavir. Sua história guarda lacunas que você pode preencher! Assim é Armênia! Permite voos de sonho e de imaginação!
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Snowden, de Oliver Stone

Nem herói nem traidor : apenas um rapaz indignado

Léa Maria Aarão Reis*

O premiado diretor americano Oliver Stone foi taxativo quando se referiu à espionagem do governo americano, através da NSA (National Security Agency), contra a presidente Dilma Rousseff e a Petrobrás, durante os últimos anos. Curto e direto, o diretor americano disse: “Dilma era um problema para eles. Estava sendo vigiada. Era um alvo de vigilância.” E arrematou: “Não encontraram nada contra ela e colocaram no governo, no seu lugar, gente que não foi eleita: existe outra definição para ‘golpe de estado’; e apoiado pelos Estados Unidos?”

Estas e outras observações sobre como se passam as coisas no mundo real, informações cada vez mais sonegadas aos cidadãos de todas as partes do mundo, foram detonadas por Stone não apenas nas entrevistas concedidas, semana passada, quando veio ao Brasil para lançar e divulgar Snowden. Elas estão também nesse excelente filme de sua autoria; direção e roteiro dividido com Kieran Fitzgerald. Para bloquear vazamentos ou roubo de informações, o roteiro foi escrito em apenas um computador sem acesso à internet durante o tempo de duração do trabalho.

O longa-metragem de Stone, meio documentário meio ficção, é uma cinebiografia construída com extrema habilidade e foi inspirado em dois livros. "Snowden Files", do jornalista do The Guardian, Luke Harding e "Time of Octopus", do advogado russo de Snowden, Anatol Kucherema.

”No Brasil, o título do filme ficou brega,” diz o diretor. “Snowden: traidor ou herói. Coisas da Disney, a distribuidora,” ele ironiza. Coisas da Disney: chama o filme para o grande público deste modo banal e enfatiza o quase thriller que ele é. E trata de adoçar o conteúdo da impressionante história do jovem Edward Snowden, um garoto da Carolina do Norte, de 29 anos de idade quando os fatos se passaram, três anos atrás.

Na tela ele é vivido pelo ator Joseph Gordon-Levitt cujo salário ganho no filme foi doado para grupos que pesquisam o uso da tecnologia digital como aliada da democracia. É uma preciosa interpretação do analista de excepcional inteligência que começou na CIA, e depois trabalhou na NSA.

O filme relembra como Snowden comprometeu o seu futuro pessoal ao denunciar os crimes que o governo americano vem cometendo ao vigiar cidadãos de todas as partes (dois bilhões de emails por dia e 1,5 bilhão de mensagens rastreadas em celulares), violando sua privacidade, grampeando cidades inteiras - Tóquio foi grampeada na sua totalidade pela NSA para se, algum dia, os japoneses deixarem de ser aliados; é o que mostra o filme -, e usando informações obtidas ilegalmente para destruir grandes empresas que contrariam seus interesses econômicos e geopolíticos. Caso da Petrobrás e da PDVSA, a Petróleos de Venezuela SA, sem falar na derrubada de governos inconvenientes; como no caso da Presidente Dilma Rousseff.

A narrativa se passa em três níveis: no primeiro, o célebre encontro (dramatizado) de Snowden com o grupo da conhecida documentarista Laura Poitras e dos dois jornalistas do The Guardian (Glenn Greenwald e Ewen MacAskill), num apartamento do hotel Mira, de Hong Kong; este permeia a todo o relato. No segundo, os lances da sua vida pessoal antes de entrar para a CIA, os primeiros anos de trabalho e vários episódios que o levam a tomar a decisão capital, naquele dia 8 de junho de 2013. No terceiro plano, a pontuação de flashes com imagens documentais. Nos três, Stone navega com desenvoltura, não descamba para a xaropada embora esteja sempre atento ao cinema popular. Sua segurança na linguagem cinematográfica é a marca principal da obra do diretor premiado duas vezes com o Oscar porNascido em quatro de Julho e por Platoon. Sua montagem é sempre admirável.

Quando entrevistado, no Rio de Janeiro e em São Paulo, Stone foi ao ponto: “Tenho certeza que Washington contribuiu para o golpe no Brasil fornecendo informações que a NSA coletou. Os EUA estão trabalhando em todos os lugares do mundo para atingir seus objetivos: Ucrânia, Ásia, Europa. E tudo tem a ver com o que o Snowden fala: controle total, nova ordem mundial. Mas lutar pelo seu ideal e ir à guerra por ele é uma coisa; mudar regimes é outra; é algo muito perigoso.’’

No filme, há informações, algumas novas, outras importantes a serem relembradas embora a história de Snowden seja conhecida do planeta. Uma delas: A NSA estava (ou ainda está?) rastreando cada celular no mundo para vigiar não só corporações, mas o cidadão comum: eu e você.

Outra: Laura Poitras foi detida 37 vezes em diversos aeroportos, todos eles grampeados, por conta dos documentários que já dirigiu. Dentre eles, Oath, sobre Guantánamo e o conhecido My country, my country, com a invasão do Iraque.

Mais uma: a hipocrisia de Barack Obama em seus discursos, na época do mega escândalo, se referindo às informações que ‘não podem ser retidas; têm que ser públicas.’ E o diálogo inquietante em que o instrutor de Snowden na CIA, Jeremy Corbyn, adverte: a maioria dos americanos, as pesquisas atestam, não quer liberdade; quer segurança.
Enfim: o filme faz grande sucesso onde é exibido. Dimitri Peskov, o assessor de imprensa do Kremlin, recomendou-o publicamente. Os mais importantes festivais europeus convidaram Stone e há dois meses o filme estreou no Festival de Toronto, de grande prestígio na América do Norte.

Alemães e franceses, onde, segundo o cineasta, Snowden é respeitado e admirado, entraram com o dinheiro para a produção que foi filmada em Munique. As majors do cinema americano não entraram com dinheiro. “Hollywood é covarde,” resumiu Stone, sempre sem papas na língua.

Já o whistleblower (lanceur d’alerte ou lançador de alerta) que mostrou como todos nós somos vigiados, apenas um homem indignado, segue a sua vida de mito contemporâneo, na Rússia.


*Laura Poitras é documentarista americana, de Chicago, autora de Citizenfour, Oscar de melhor documentário de 2015. Resenha do filme em Carta Maior, datada do mesmo ano.
http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Cultura/Snowden-o-idadao-quatro-contra-o-Grande-Irmao/39/33508#



**Jornalista
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CANCÚN: MITOS E VERDADES

Maria das Graças Targino



EIS UM POUCO DE CANCÚN

Cancún (ou Cancun) faz parte do imaginário de qualquer pessoa que ame desvendar novos horizontes. Ao que se sabe, os maias habitaram durante vários séculos regiões circunvizinhas, localizadas no Estado mexicano de Quintana Roo. Em que pese a imprecisão dos registros históricos, acredita-se que a Península de Yucatán do citado Estado, onde Cancún está situada ao noroeste, especificamente no município de Benito Juárez, foi descoberta por um espanhol, o navegador Francisco Hernández de Córdoba, ano 1517, século XVI.

Anos se passaram. Até então, Cancún era praticamente uma ilha deserta que expunha desavergonhadamente a beleza sem igual do azul do mar do Caribe. Porém, a história dá uma cambalhota fenomenal – para o bem ou para o mal, a depender do olhar de quem o julga. Ao final dos anos 60 / começo dos anos 70 do século passado, o Governo do México institui um fundo de fomento para turismo direcionado àquela região, onde reinavam absolutos alguns produtores de coco. Obras de infraestrutura têm início, com investimento maciço na construção de estradas e de uma área destinada à construção de hotéis por, aproximadamente, 20 km, dando origem ao que se conhece, hoje, como zona hoteleira, que abriga resorts e hotéis das maiores redes do mundo. Além da mão de obra da construção civil, os serviços de apoio e das redes de hotel, restaurantes e casas noturnas atraem, desde então, sobretudo, o trabalhador mexicano, embora venha gente de outras nações pobres.

Como decorrência, a data oficial de fundação de Cancún é 20 de abril de 1970. Do minguado número de habitantes dessa década – fala-se em menos de 10 nativos – hoje, Cancún conta com, aproximadamente, 630 mil habitantes fixos. Eis, então, o éden do século XXI. Numa atmosfera de tranquilidade e segurança, que permite ao turista (domínio ostensivo dos norte-americanos, talvez pela proximidade física) andar a pé ou de ônibus públicos a qualquer hora, Cancún atrai milhões de interessados não apenas no encanto do mar – são cerca de 22 km de praias de areia fina e branca e que se espalham entre lagoas de água salgada Nichupté e o mar do Caribe de límpida água azul-turquesa. A curiosidade vai além. Alcança os cassinos, o encantamento dos arredores, o conforto ostensivo dos hotéis, a intensa vida noturna, os parques, a perfeição da flora e da fauna, o artesanato ancestral, e sua rica cultura com lendas e histórias que fazem a vida da cidade, salpicadas sempre pela influência maia.
Aliás, são os maias os responsáveis pela designação do local, antes chamado de Ekab = terra negra. Em seu dialeto, Cancún significa “ninho de serpentes”. Esta é a versão mais comum. A segunda e menos aceita significa “lugar da serpente dourada", em alusão ao seu estranho formato de um número sete mal desenhado. Segundo se diz, às primeiras horas da manhã, lembra um ofídio dourado, graças ao forte reflexo do sol.

O clima genuinamente tropical, com prevalência de 27 graus e 240 dias de sol pleno e absoluto, também é um atrativo a mais. Basta deixar de lado a temporada dos temíveis furacões que vai de junho a outubro ou esquecer do que se fala sobre o furacão Wilma. Em 2005, causou danos às praias da zona hoteleira com erosão de significativa parte da cobertura de areias brancas. A imediata recuperação por parte do Governo, à época, suscitou protestos, face ao deslocamento de 1,3 bilhões de galões de areia vindos de outros lugares da península.

TRÊS MITOS SOBRE CANCÚN

1 CANCÚN É MÉXICO

Verdade que Cancún está em território mexicano. Mas é o exemplo vívido de que os limites geográficos não são determinantes para refletir a realidade de um país em sua totalidade. Decididamente, no sentido estrito do termo, Cancún não é México. Cancún não resume o México. Nas ruas, nos parques, nas belas ruínas que cercam a cidade, por toda parte, lá estão os invasores – turistas de todos os continentes, incluindo um número exorbitante de brasileiros. Do outro lado, por trás dos balcões de todo tipo; nas portarias dos diferentes estabelecimentos; nos transportes públicos; nos passeios turísticos, na condição de trabalhadores, lá estão eles – mexicanos de diferentes lugares, e, decerto, cancunenses.

Quem visitou a capital Cidade do México, DF ou outros estados mexicanos, entende bem o que desejamos reafirmar: Cancún não é a “cara do México”. Cancún é a “cara da estratificação social” que marca com fogo a realidade de países em desenvolvimento. A prova mais evidente, e porque não dizer, chocante, é que a maioria das praias é privativa dos hotéis! Verdade que o México como um todo é um país de cultura ímpar, mas coalhado de sérios problemas sociais e econômicos, como o nosso Brasil, o que o distancia da Cancún-paradisíaca. É só lembrar que Cancún é uma adolescente em oposição ao México, sábio ancião, que carrega consigo uma bela história impregnada pela riqueza asteca. Se não dá para comparar Cancún x México não dá para negar a audácia do empreendimento do Governo mexicano em instalar a cidade paradisíaca, hoje, responsável por mais de um terço do turismo da nação. Para ideia mais precisa, seu aeroporto é o segundo mais movimentado do México, aquém somente do da capital, mantendo a maior parte do tráfego internacional dos aeroportos da América Latina.

2 CANCÚN É SÓ CALMARIA

Verdade que desde muito tempo, Cancún vem atraindo casais em lua de mel e / ou aqueles que celebram suas bodas em terras cancunenses, em busca de aconchego e fantasia. Dizem que Cancún e Riviera Maya juntos somam cerca de 46 mil casamentos, a cada ano. No entanto, ao lado da aparente calmaria, a vida noturna é loucura total. Há de tudo e para todos os gostos. Além de muitos restaurantes, há bares em profusão, muitos dos quais localizados nos próprios hotéis, os quais mantêm, com certa frequência, o sistema all inclusive. Por um valor preestabelecido, o hóspede usufrui tudo o que o hotel oferece, incluindo refeições a qualquer hora, e, como não poderia deixar de ser, áreas de lazer, as ditas (ou malditas) praias privativas, spas, campos de golfe, sessões de massagem, jogos, etc.

Além das potencialidades dos hotéis, há uma imensidão de casas noturnas. O Hard Rock das décadas de 60 e 70, que seduzia jovens de diferentes nacionalidades, se faz presente em estabelecimentos próprios ou em outras paragens. Trata-se de estilo musical com raízes no chamado rock de garagem, cujo traço característico é ser bem mais pesado do que o rock convencional. Destaque também para a casa CoCo Bongo, onde o turista dança até o amanhecer. Há muitas outras. Difícil selecionar ou indicar. E há, ainda, como previsível, os mariachis, designação dos praticantes e, também, do próprio gênero musical, que se espalhou entre lavradores e nativos, unindo ritmos e harmonia vindos da Europa, mas, sobretudo, dos astecas. Estes perambulam pelas calçadas à busca de algum trocado, mas, prestem atenção, com ou sem aquele imenso chapelão – este é só para turista ver, comprar e largar adiante!

Para programas mais familiares que comportam qualquer faixa etária, lá está o Captain Hook Pirate Ship (Navio dos piratas), com seu espetáculo de gosto discutível, mas atraente, sem contar que oportuniza aquele passeiozinho clássico de turista deslumbrado – subir à Torre Escénica, que favorece visão ampla da cidade.

Circo remete invariavelmente à infância, à alegria e a nenhuma dor. Circo na cidade, promessa de domingo festivo. Não é à toa que a companhia Cirque du Soleil, fundada em 1984, em Quebec, Canadá, há 25 anos por Guy Laliberté (dizem, ex-artista de rua), dispensa publicidade. Seus ingressos se esgotam quase de imediato. Hoje, é mais do que um circo. É verdadeira indústria de entretenimento, com infinidade de produtos, que incluem de chaveiros e imãs a sofisticadas joias e máscaras. No caso, em Cancún, lá está ele com “moradia permanente” e muito charme, reunindo famílias inteiras em revoadas barulhentas e inquietas.

Para os mais aventureiros, há a possibilidade de mergulhos em Cancún e arredores, ênfase para a denominada Grande Barreira de Corais Maya, que constitui o segundo maior recife de coral do mundo, perdendo somente para a Austrália.

3 CANCÚN SE RESUME À ZONA HOTELEIRA

Mito fácil de derrubar. Visitar Cancún é se deliciar com os arredores. Além de sítios arqueológicos de tirar o fôlego, ruínas maias podem ser encontradas até mesmo na zona hoteleira, como o sítio arqueológico de El Rey, o maior da zona de hotéis, e bem próximo do conhecido Hilton Cancun Beach & Golf Resort. De fato, há muito a descrever! Por enquanto, além de Chichén Itzá, Xcaret e Isla mujeres, fica a sugestão para visitar a Playa del Carmen e muito mais, incluindo os parques Xel-Há e Xplor, sempre lembrando que há muito a fazer...

Chichén Itzá – Chichén Itzá ou Xichen (em maia, pessoas que vivem na beira da água), é o sítio arqueológico mais preservado da Península de Yucatán, distante do centro de Cancún mais ou menos 200 km. Fundado por volta dos anos 435 a 455 a.C., em seu ápice, século XIII, foi centro político e econômico da civilização maia, reunindo mais de 35 mil habitantes. Declarado, em 1988, Patrimônio Mundial da UNESCO [Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura], alcançou o ápice turístico, após ser eleito, em Lisboa – Portugal, ano 2007, como uma das Novas Sete Maravilhas do Mundo, não obstante a campanha New Seven Wonders não ter o reconhecimento oficial da UNESCO. Isto pouco importa, diante do deslumbramento de sua arquitetura. Dentre outras estruturas, destacam-se a Pirâmide de Kukulkán; o Templo de Chac Mool; a Praça das Mil Colunas e o Campo de Jogos dos Prisioneiros. É um panorama que causa euforia e, ao mesmo tempo, certa paz e uma vontade imensa de percorrer com certa vagareza seus 15 km² de terreno pouco íngreme em meio a pequenas fontes e rios que aliviam o calor...

Xcaret – Difícil descrever a quantidade e a diversidade de atrações desse parque enorme, 76 km do centro de Cancún! O problema é selecionar o que fazer ao longo de um dia inteiro, que parece muito, muito curto! Imperdível o passeio em rios subterrâneos! Além de variados e bons restaurantes, o que dizer da selva tropical; do belo aquário de arrecifes de coral; dos shows intermitentes, inclusive espetáculos equestres; do povoado maia; das belas praias; das tartarugas marinhas; do aviário; da beleza dos flamingos em seu rosa estonteante; do mariposário? As capelas de São Francisco de Assis e a de Guadalupe atraem devotos. Para os mais curiosos, há visita ao Cemitério Mexicano Puente al Paraiso. Os museus constituem um capítulo à parte. Neles, a figura da legendária pintora mexicana Frida Kahlo ocupa lugar de destaque. Vítima de acidente e presa a um colete de gesso por toda a vida, utiliza sua permanente dor advinda também de outras enfermidades para desafiar a sociedade da época. Constantes autorretratos e procedimentos médicos são retratados sem respeito a regras ou perspectivas. Vai adiante. Revolucionária, usa adereços e vestimentas indígenas, propaga objetos de devoção a santos populares e ostenta vida pessoal para lá de tumultuada, quando mescla casamento convencional com romances paralelos tanto com homens famosos quanto com mulheres.

Isla mujeres – a meia hora de barco de Cancún (7 a 10 km de distância), fica uma pequena e tranquila ilha, conhecida pelo nome sedutor de Isla mujeres, que constitui, também, um dos oito municípios do Estado de Quintana Roo. Sua designação é atribuída aos espanhóis. Quando eles lá chegaram, a ilha era consagrada à deusa lunar dos maias, o que justificava muitas figuras-deusa espalhadas pela ilha. Não havia outro nome a ser dado: Isla mujeres! Praias privadas se alternam com praias públicas na parte sul da ilha. É o lugar ideal para espreguiçadeiras, toalhas ou sofisticadas estendidas para aproveitar a lentidão das horas e a beleza do lugar. Nadar com baleias ou tubarões-baleias, além de golfinhos, sempre sob a supervisão de profissionais, é uma opção para lá de atraente. O Parque Natural de Arrecifes Garrafon também está por lá.

TRÊS VERDADES SOBRE CANCÚN (Estão “na cara”!)

BELEZA PARA DAR E VENDER!
CUSTO DE VIDA PARA LÁ DE ELEVADO! Paisagens, golfinhos, parques magníficos, mexicanos sorridentes, mar cor de mar, céu cor de céu, golfinhos, visão de casais enamorados, tudo enfim, em dólar e tudo inflacionado às alturas!
O INGLÊS É O IDIOMA MAIS FALADO DA ILHA, embora, oficialmente, seja o espanhol. E mais, alguns dizem que o esperanto se fala por lá! É ouvir para crer!
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Aquarius

A energia para continuar a lutar

Léa Maria Aarão Reis*

Quando um evento gera imensa expectativa antes de se concretizar, é frequente a decepção quando ele acontece. O objeto da espera invade a imaginação dos que aguardam e inflaciona, na fantasia, a versão do acontecimento. Perde-se a dimensão do real. A data da partida, o dia da chegada, a noite da grande festa, do encontro decisivo. Da estreia de um filme muito badalado.
Não é o caso de Aquarius, cujo autor, de 48 anos, é um dos mais competentes cineastas brasileiros da sua geração, o pernambucano Kléber Mendonça Filho, de Recife, de formação jornalística. Aquarius não desaponta. Pelo contrário. Eletriza milhares de espectadores e é consagrado, durante e no final das sessões dos cinemas onde é exibido, como ocorreu no último fim de semana.
Depois de quatro meses aguardando para estrear no Brasil, desde o histórico fora-temer da sua equipe, nas escadarias do Festival de Cinema de Cannes, em maio passado, o filme protagonizado por Sonia Braga atinge uma marca rara de bilheteria - duzentos mil espectadores nos seus dez primeiros dias; sessões lotadas, calorosos aplausos e gritos de protesto das plateias contra o mordomo e o golpe de estado.
Aquarius se firma além da sua dimensão estritamente cinematográfica, que é admirável, e se torna um filme/ícone. É o totem da resistência permanente dos brasileiros contra o esbulho dos meliantes usurpadores do governo e da energia da qual precisamos para botá-los para fora.
Neste começo de carreira a sua trajetória é notável embora acabe de ter sido golpeado pelo governo através de uma comissão, sem representatividade e sem ética (um dos membros é daquela crítica mal cheirosa do não-vi-e-não-gostei de certos filmes), que tradicionalmente aponta as produções brasileiras a serem escolhidos por Hollywood como candidatas ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
Apesar do revanchismo político com gosto de vingança infantil, Aquarius já pode prescindir da benção de um Oscar. Ganhou prêmios nos festivais de Amsterdã, no Transatlantyk, da Polônia, em Lima, no Peru e em Sidney, na Austrália. Fez furor na Europa e esta semana está sendo mostrado no Festival de Cinema de Toronto – isto, por enquanto.
Já está vendido para o Netflix internacional, comprado para exibição em cinemas de 60 países e é praticamente unânime a crítica que recebe dos mais influentes jornais ocidentais. Um grande filme.
Portanto, não conceder ao Brasil a honra de apresentar Aquarius como candidato ao Oscar, é como não convocar Neymar para a seleção de futebol porque ele seria contra o golpe, diz-se nas redes sociais. Mais um escândalo internacional do governo temer. Mais um tiro no pé.
Os produtores do filme formam um time da pesada. Além dos franceses Michel Merkt e Emilie Lascaux, Saïd ben Saïd está no grupo. É o respeitado produtor franco-tunisiano que costuma captar recursos para filmes de Polansky, Brian de Palma e Barber Schroeder. Os brasileiros Walter Salles e Carlos Diegues são co-produtores.
A espinha dorsal do roteiro de autoria de Mendonça traz um admirável e fascinante retrato de mulher forte e potente - idosa? madura? velha? meia-idade? -, a Clara de Sonia Braga, de 66 anos. Clara é o símbolo da mulher da geração libertária dos meados dos anos 60, corajosas mulheres da contracultura que romperam os padrões patriarcais vigentes até então. Clara é da leva de geração que se seguiu, nos anos 70/80.
Viúva, mãe de três jovens adultos, tem netos e é jornalista aposentada. Desde a juventude vive no apartamento do primeiro andar do Aquarius (na realidade, o edifício Oceania) defronte do mar, na praia da Boa Viagem, no Recife, onde criou os filhos e viveu boa parte de sua vida.
Interessados em construir uma torre, um prédio/pombal moderno, naquele espaço, os responsáveis pela empresa Bonfim já adquiriram todos os apartamentos do prédio, menos o de Clara. Por mais que tenha deixado claro que não pretende vendê-lo – o seu ninho afetivo -, ela sofre um assédio cada vez mais agressivo para mudar, por parte de um coronel transmutado (hoje) em empresário, e seus filho coxa que estudou nos Estados Unidos (netos dos entulhos da ditadura civil-militar de 64) e voltam “com os olhos cheios de sangue” (como diz o personagem) para começar a trabalhar aqui.
Com habilidade, o tom da narrativa pouco a pouco vai transformando o universo plácido da protagonista numa história de quase-suspense onde o pano de fundo permanece a questão urbana e social desumana: a gentrificação de bairros e quarteirões das grandes cidades brasileiras entregues à sanha de grupos da indústria imobiliária e da construção civil.
Em Boa Viagem, por exemplo, em determinado momento, Clara mostra ao filho e à jovem nora a língua negra de esgoto, na areia, que divide a avenida da praia das edificações onde mora a classe média e alta separada dos casebres da favela. Insinua-se que a favela, é óbvio, com o tempo será engolida. “Num país em que para tudo há um jeitinho, as cidades acabam sendo uma grande confusão,” diz o diretor.
Para ele “o filme é de resistência e é um pouco um filme de sobrevivência.” Mas “trata-se de um filme sobre a energia necessária para existir. Às vezes cansa, mas há que encontrar mais energia para continuar a lutar.“
Na perspectiva cinematográfica, Aquarius me empolga por três principais razões: é cinema de substantivos fortes com pouca adjetivação. Como nos filmes de mestres, uma imagem nele vale por toda uma sequência, o que dá vontade de assisti-lo novamente. Por isto, Mendonça é saudado, com razão, como um diretor com domínio absoluto do cinema.
O trabalho poderoso de Sonia Braga é um capítulo á parte ao qual se deve voltar. E me fascina porque é impregnado da sensualidade de Recife e do Nordeste, no sentido mais largo, como é O Som ao redor (2013) outro belo filme do cineasta. A sensualidade trazida pela própria sedução e pela sexualidade intacta, apesar do câncer de mama e da idade, da vigorosa Clara cujo nome é um dos inúmeros símbolos, signos e chaves que permeiam a narrativa clara e serena tocada com a trilha musical deliciosa.
Na sua sensualidade Aquarius tem o doce perfume dos cajus que o lendário escritor Rubem Braga sempre pedia aos amigos - “uma caixinha” - para trazerem para ele, na sua cobertura em Ipanema.
Discriminar Aquarius é passar mais um recibo da grossura e da burrice do governo golpista. É reforçar o que escreveu o crítico do jornal The Guardian Peter Bradshaw – será ele um petralha?:
"Essa rica e misteriosa história brasileira é sobre desintegração social. Metáfora do Brasil com temas sobre nepotismo, corrupção e cinismo.”
Vamos mudar esta imagem. Fora, temer.

*Jornalista
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O Botão de Pérola: A memória necessária e o silêncio dos midiotas

Pode ser lido também em Carta Maior


Léa Maria Aarão Reis*

Quatro anos atrás, numa entrevista a Carta Maior, o documentarista chileno Patricio Guzmán, um dos mais brilhantes cineastas vivos em atividade, falava sobre temas que ganham vida no Brasil de hoje.

Guzmán enfatizava a importância e a necessidade da memória “como instrumento político de identidade de um país e de seus indivíduos.” Comentou o papel vital ocupado pelo filme documentário na história de uma nação: “Um país sem documentário é como uma família sem álbum de fotografias.” E lancetou a chaga da comunicação de massa no nosso continente: ”A televisão nasceu como o meio mais importante e pedagógico do século XX, e foi convertido em um terrorismo áudio-visual espantoso; a nossa televisão latino-americana é imoral e insuportável.”

Na travessia dramática vivida atualmente pelo Brasil, com uma parcela expressiva da população, os midiotas, vivendo a “cultura de sofá”, como diz Guzmán, - “gente que está sentada no divã, assistindo a televisão” -, não só a palavra poética do documentarista, mas também o seu cinema leva à reflexão, convida à ação, e, no caso das imagens dos filmes, deslumbram pela extraordinária beleza. A beleza triste e trágica, importante de ser mostrada e relembrada, da América Latina.

El botón de nácar, Urso de Prata de Melhor Roteiro do Festival de Cinema de Berlim do ano passado, é o doc mais recente do diretor chileno que vive em Paris. Acaba de estrear em um único (!) cinema do Rio de Janeiro. É o duplo, o contraponto do memorável A Nostalgia da Luz, (2010) lançado aqui em 2015, e prolongamento da célebre trilogia de seus filmes políticos. A Batalha do Chile, (1974/1979) considerado pela critica francesa um dos dez mais importantes docs políticos já realizados, O Caso Pinochet (2001) e Salvador Allende, de 2004.

No seu trabalho, Guzmán procura revolver a memória coletiva e individual. “Os países sem memória são anêmicos, conformistas e não se movem. A minha obra é permeada pela tensão entre memória e esquecimento,” ele diz.

Esta tensão está viva e mais aguda no Brasil de hoje. De um lado, ela é revelada na memória dos que continuam lutando pelo restabelecimento da democracia plena e a denúncia formal de fatos ocultos durante a ditadura civil-militar há mais de trinta anos. São os mesmos, mais velhos, e os descendentes, que procuram, agora, resistir ao golpe de estado em curso, a reprise maquilada de 64.

Do outro lado se encontram os que emudecem refestelados no silêncio cômodo e preferem esquecer o passado mal resolvido, e que por não ser purgado insiste em assombrar e retornar.

A Nostalgia é a saga da memória, das pacientes escavações de mulheres chilenas em busca de pequenos, mínimos vestígios dos parentes assassinados pela fúria de Pinochet e asseclas. Seus corpos foram jogados na poeira do deserto do Atacama, norte do país, um dos locais mais secos do planeta. Neste O botão de pérola (tradução equivocada do título original - El botón de nácar, ou seja, O botão de madrepérola) Guzmán se desloca para o sul, para as águas que banham a Patagônia e levanta um véu de silêncio que caiu, durante mais de século, sobre o massacre dos índios kawéskar, um dos quatro grupos de indígenas da região. E, mais recente, faz um paralelo sobre o destino dos cadáveres de dissidentes do regime de Pinochet jogados de helicópteros e de aviões no fundo do Pacífico.

“O meu objetivo é procurar que se devolvam os corpos,“ disse Guzmán, em uma bela entrevista que deu, na Alemanha, durante o Festival de Berlim, ano passado. ”Para que os mortos terminem de morrer e os vivos sigam com vida.”

Na primeira parte da sua narrativa, ele apresenta os indígenas das terras geladas onde os Andes mergulham no mar e se transformam em arquipélago de mil ilhotas, esses “nômades da água” cuja chegada por lá precedeu em milênios o colonizador que os dizimou.

No prefácio do filme no qual é o próprio narrador, o diretor relata: “Eles viajavam pela água. Viviam submetidos à água e em comunhão com o cosmos.”

Na segunda metade do doc, faz um paralelo com os dissidentes que eram drogados ou já tinham sido mortos antes de serem atirados dos helicópteros no mar, os corpos amarrados a pesadas barras de trilhos de ferro.

O botão de madrepérola é o fio condutor de Guzmán. Visitando o museu de Punta Arenas ele conheceu a macabra história do botão com o qual os colonizadores seduziram um jovem indígena batizado depois como Jemmy Button, para fazer a experiência de levá-lo para a corte espanhola, transformá-lo em cavalheiro europeu e devolvê-lo depois ao seu lugar de origem; ao qual, é claro, nunca mais se adaptou.

E no museu Villa Grimaldi, em Santiago, prisão tristemente célebre como local de tortura na época, conheceu a história de um segundo botão de madrepérola. “Vi um daqueles trilhos aos quais os torturadores fascistas amarravam suas vítimas antes de afogá-las, com um botão colado sobre seus corpos. Imediatamente fiz a ligação com o outro botão e o filme se construiu a partir dessa relação.”

Um dos aspectos que mais chamaram a nossa atenção, na voz de Guzmán narrando o filme, foi esta observação: “Os chilenos eram um povo silencioso”. Referia-se aos tempos de Allende, que rompeu mais de um século de silêncio sobre o extermínio dos indígenas da Patagônia devolvendo-lhes as terras usurpadas. Apenas 19 dos kaweskar sobreviveram e vivem nelas até hoje.

E, com a ditadura, o silêncio sobre os corpos de dissidentes esquartejados, degolados ou estuprados, queimados com ácidos e drogados, e afogados no mar.

Guzmán é protagonista no processo de restabelecer a memória do seu povo que se encontra na poeira e no cascalho do deserto do norte e nas águas profundas do oceano, no sul.

No Brasil de agora, como escreveu, há dias, o jornalista e escritor Felipe Pena sobre a doença do silêncio e do esquecimento, “os golpistas contam com a espiral do silêncio causada pelo medo da solidão social. Ele se propaga em espiral. A ameaça de exclusão alimenta a espiral do silêncio. Ela é o vetor totalitário que perpassa a construção de um falso consenso e constrói a ponte para o passado. Ela é o terror das vozes dissonantes. Ela é o atraso.”

Revolvendo a memória chilena, e mais: a memória geral latino-americana, remexendo no pó da terra e no fundo das águas, o poeta Patricio Guzmán alerta para o perigo que corremos com o esquecimento, o silêncio e com a omissão, o seu fruto covarde.

Seu filme é imperdível e traz este recado dirigido também para nós, nestas próximas semanas decisivas.


*Jornalista
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Premio Festival de Cinema de Cannes/2015
 
A LEI DO MERCADO:
NÃO PENSE. TRABALHE!
 
Léa Maria Aarão Reis

‘’Trabalhar é apenas um detalhe na vida do indivíduo,’’ diz o diretor de Recursos Humanos da empresa, durante a reunião com os funcionários do supermercado. Ele omite que o trabalho, no pós-capitalismo, na sociedade de massas selvagem e competitiva e no regime neoliberal, funciona como máquina de triturar seres humanos. Mói a carne e a mente dos indivíduos. O problema é que fora dela, cada vez mais, parece não haver sobrevivência - ou salvação – com a ameaça permanente de ser posto à margem do sistema.

A reunião dos funcionários com o chefe de RH que procura tranquilizá-los a respeito do suicídio recente de uma colega no local do trabalho está no excelente filme de Stephane Brizé, La Loi du Marché (2015), motivo de polêmicas na França onde estreou logo após o Festival de Cannes do ano passado e deu ao protagonista, Vincent Lindon - uma das estrelas atuais do cinema francês-, a Palma de Ouro de Melhor Ator.
 
Aqui, lançado mês passado meio em segredo, este quase documentário, rigoroso no seu realismo quase de microscópio, como querem alguns críticos, ganhou o título traduzido do inglês: O valor de um homem.

O personagem do protagonista Thierry é exemplar e engrossa o caldo do drama da recessão econômica em países com índices de desemprego crescentes – como ocorre no Brasil. Thierry tem 52 anos, ainda é moço para se aposentar e já é velho para reingressar no mercado e ser aceito de modo a poder prosseguir a carreira onde é competente e tem experiência.

Ele acaba de ser demitido numa operação de ‘flexibilidade’ dos custos da empresa. É um operário qualificado, um técnico, e pertence à sólida classe média dos trabalhadores europeus especializados. Casado, é pai de um adolescente com necessidades especiais. Paga as parcelas da casa própria, tem um carro velho que volta e meia o deixa na mão, na rua, e um trailer num camping, a sua casa de veraneio na beira do mar. Vive, com a família, com dignidade e modesto conforto.

Na primeira metade do filme, Thierry discute com colegas sindicalistas. É um diálogo inicial que segue a tendência de outras produções recentes, de crítica às distorções crescentes do  neo-capitalismo, o chamado ‘cinema de crise’ – como As Neves do Kilimanjaro, de Robert Guédiguian, e Dois Dias, Uma Noite, dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne.

Em conversa com companheiros desempregados, ele resiste à ideia de acompanhá-los levando adiante uma batalha judicial coletiva contra os antigos patrões. As necessidades de sobrevivência da sua família são urgentes. Na conversa, se insinua a ruptura institucional e afetiva dos laços de classe.

Para Brizé, no seu filme humanista, (ele não é um economista), a resistência possível está centrada no indivíduo.
Thierry conversa com o banco onde é correntista para conhecer detalhes de um eventual empréstimo; é entrevistado em diversas empresas e procura novo emprego num mercado de trabalho estagnado como é o da França, atualmente acossado por uma nova lei trabalhista que promete ser mais restrita.

Na segunda parte, a lei do mercado se funde à lei moral. Thierry vende o trailer, é contratado, com salário menor que o anterior, como supervisor de segurança num supermercado. Por força da nova atividade é obrigado a participar de sessões humilhantes que pretendem desmascarar pequenos ladrões de ocasião da grande loja – um velho, um malandro de rua, uma funcionária caixa do mercado, que rouba cartões de descontos.

Todos os clientes são monitorados por câmeras ocultas vigiadas dia e noite pela segurança do supermercado como  se fossem jogadores num cassino. E, este é o aspecto repugnante: como ladrões potenciais.

O jornal de esquerda The Guardian pôs lenha na fogueira das polêmicas que se seguiram à exibição de La loi du marché observando que ele ‘’pretende considerar as transgressões como crimes sem vítima, sendo totalmente aceitável roubar no emprego; é condescendente para com os clientes e empregados que roubam.” Lembra outro cineasta, o inglês Ken Loach, veterano e mestre de filmes críticos ao capitalismo que também lançou seu mais recente trabalho sobre os reflexos desumanos da crise econômica na Inglaterra, ano passado, em Cannes: I, Daniel Blake. *

Na verdade, o que Brizé mostra é a força acachapante de um sistema que pune as mínimas transgressões com a humilhação indiscriminada infligida aos mais frágeis.

Faz um retrato lancinante, porém sereno, de Thierry, um autêntico blue collar, legítimo e nobre  representante da classe operária. Desempregado, a sua preocupação básica é colocar comida na mesa da família e continuar mantendo a educação especial do filho. Para tal, ele aceita e se submete a uma ocupação abaixo de suas possibilidades profissionais.

Sem apelar para o drama, são tocantes as sequências do seu lazer, com a mulher, aprendendo a dançar na academia, e, em casa, com ela e  filho, os três dançando na pequena sala de jantar depois de enrolar o tapete.  Alusão à sua resistência para não embrutecer.

O próximo filme de Brizé a ser lançado ainda este ano é Une Vie, adaptação de Guy de Maupassant. Assim como em A lei do mercado ele mostra como a vida pode ser brutal sob a égide do capitalismo das corporações. Neste O valor de um homem  o diretor reflete e faz o espectador segui-lo indagando qual o preço que um indivíduo está disposto a pagar para manter intato o  orgulho de ser ele mesmo.

Quanto custa o seu amor próprio sob a lei do mercado e da moral.
O filme do francês nos obriga lembrar a exortação do presidente provisório e interino do Brasil, em uma das suas mais lamentáveis falas, cerca de dois meses atrás, logo após o assalto ao Palácio do Planalto: não pense; trabalhe, foi sua espantosa recomendação ao trabalhador brasileiro.

Nas ruas, os Thierry daqui respondem lutando contra o assalto e o golpe.

 
*Ainda não lançado no Brasil.
 
 
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Liberal por circunstância

Clemente Rosas

Nos idos de 1930, minha família era constituída, essencialmente, de partidários ou simpatizantes da Aliança Liberal. Avô paterno, secretário de finanças do presidente João Pessoa.  Avô materno, intermediário na tentativa de aliciamento, para a causa, do irmão marechal (que se limitou a manifestar simpatias, mas sem engajamento).  No entanto, pelo lado de minha avó materna contavam-se uns poucos “perrepistas”.  Assim eram chamados os adeptos do Partido Republicano Paulista – PRP, do presidente da república Washington Luiz (nada a ver com o Partido de Representação Popular – PRP, dos integralistas, criado por Plínio Salgado, anos depois).  Meu tio-avô Samuel era um deles.

O assassinato do presidente da Paraíba (era esse mesmo o título), no Recife, provocou uma comoção incrível na cidade que hoje leva o seu nome.  O carisma do impulsivo líder era tal que a bandeira do Estado passou a ter as cores do luto e do seu sangue, além da suposta e enigmática legenda de rebeldia contra as imposições do Governo Federal.  E até um hino hagiológico – ainda bem que hoje esquecido – foi composto, falando na esperança da pátria em sua “ressurreição”...  Seu corpo, à espera do embarque para o Rio de Janeiro, onde morava sua família, foi velado na catedral metropolitana, dia e noite, por multidões inconsoláveis, enquanto ardiam, pela cidade, algumas casas de perrepistas.

A medida do fanatismo dos carpidores do morto pode ser avaliada pelo episódio protagonizado por meu tio Nelson e seu companheiro de vida boêmia, João Y Plá.  Liberais, porém com senso crítico, atiçado naquele momento pela euforia alcoólica, puseram-se à entrada da igreja.  E João Y Plá gritava:

- “Péu!”

E aqueles que ainda tinham a cabeça coberta tiravam automaticamente os chapéus.
Novo comando gaiato:

- “Êlho!”

E todos caíam de joelhos...

Pois bem.  Num ambiente como esse, meu tio-avô Samuel entendeu de circular pela cidade, à procura de algum improvável correligionário, com quem desabafar frustrações e inconformidades.  E acabou num bar, sentado próximo a um afrodescendente, lídimo representante dos liberais mais exaltados.

Suprema imprudência!  No calor da conversa, estimulado por alguns drinques, passou a desqualificar os adeptos de João Pessoa, como desocupados e desordeiros.  E culminou com um repto ao seu interlocutor:

- E você, o que é que faz da vida?

O negrão respirou fundo, compenetrou-se e respondeu:

- Faço muita coisa.  De dia, visito o cadáver de João Pessoa.  De noite, mato perrepista!

Puxando a peixeira, riscou a mesa com a ponta dela, e arrematou:
- E o senhor?  É “perré” ou é “liberá”?

Meu tio-avô sobreviveu para contar, em casa, essa história, razão por que podemos deduzir que a Aliança Liberal conquistou, naquela noite, mais um adepto, ainda que circunstancial e temporário.

Correligionários de ocasião

Vinte anos depois, um dos filhos do meu “herói macunaímico” neste causo, de mesmo nome, viveu experiência comparável, da qual se safou, talvez, com maior galhardia.  O Samuca, bebedor de longo curso, de cachaça divertida e bem conversada, era esperto o suficiente para tal.  Dois pequenos episódios preliminares ilustram esses dois atributos.

O primeiro: em uma de suas libações, aproximou-se de certa orquestra, de passagem por João Pessoa, e com viagem já marcada para o Norte.  Para não perder, de pronto, a alegre convivência, num tempo em que não havia sequer ligação telefônica entre os Estados, embarcou com os músicos para Belém do Pará.  A família só foi saber dias depois.

O segundo é mais circunstanciado.  Despachante aduaneiro competente, foi procurado certa vez por professor que regressava da Europa, de navio, após longa temporada de estudos, trazendo vasta biblioteca, que precisava ser desembaraçada.  Cuidou de tudo, até mesmo transportando a carga de livros do professor na carroceria de sua camioneta, e, ao ser perguntado sobre os honorários, respondeu:
- Sou um admirador da ciência e da cultura.  O senhor não me deve nada.

Espantado, o professor insistiu:

- Deixe-me, então, oferecer-lhe, pelo menos, um dos meus livros.
Escolheu, rabiscou o oferecimento e fez a entrega do livro escolhido:
“Cura-te pela Psicanálise”.

Comentário de Samuca:

- Quem sabe ele não ficou pensando que eu era doido?

Voltando à nossa história, em 1950, a disputa política pelo governo da Paraíba foi das mais inflamadas.  Pela UDN, Argemiro de Figueiredo, vindo da aristocracia rural e com reduto em Campina Grande. Pelo PSD, José Américo de Almeida, ex-secretário do governo de João Pessoa, candidato das camadas médias da sociedade e preferido pela maioria esmagadora dos pessoenses.  Era o tempo dos grandes comícios, que, quando próximos um do outro, geravam conflitos entre eleitores exaltados.

Foi nesse ambiente da capital paraibana, em bar cheio de “americistas”, que Samuca, já bem “calibrado”, apareceu na porta e bravateou:

- Quem for “argemirista” aqui apareça!

Sentado em uma mesa, chapéu na cabeça, paletó jaquetão abotoado, mal disfarçando os volumes dos dois lados do corpo – o revólver e a peixeira – estava um tipo característico.  Corpulento, rosto quadrado e acobreado de sertanejo, levantou-se lentamente.  Dirigiu-se até o suposto desafiante, cruzou os braços sobre o largo peito, e falou:

- Cidadão, eu sou filho natural de Campina Grande, estou aqui de passagem, e sou eleitor do Doutor Argemiro.  O que é que vosmecê quer comigo?

Samuca só teve alguns segundos de vacilação.  E deu prova de sua esperteza:

- Meus parabéns, meu correligionário!  E vamos à luta!

Tempos depois, em momento de inflexão em sua vida, Samuca abandonou completamente a bebida, e viveu ainda muitos anos, como grande palestrante nos círculos de alcoólicos anônimos.
 
 
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