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Celso Japiassu
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O primo tranquilo

Silencioso e calmo, um disfarçado sorriso nos lábios e o olhar tímido porem sincero, era meu primo e poucos anos depois seria médico. Enquanto nós, os outros, dedicávamos o tempo na noite e dela nos embriagávamos, ele permanecia fechado no quarto da pensão de Recife e estudava. Ria seu riso tímido quando ouvia as histórias da nossa boemia irresponsável. E se recusava a participar da vida que vivíamos.

A cidade era tranquila, naquele tempo. O Capibaribe percorria seu caminho até o mar e dividia em duas a paisagem que achávamos a mais bela do mundo. Nas suas margens, pela madrugada silenciosa, passeávamos nossa inquietação e dizíamos poemas que traduziam os segredos da noite em que mergulhávamos.

Quando terminou o curso mudou-se para sua cidade no interior, foi um bom médico, silencioso e sábio. Tive dele poucas notícias e nunca consegui entender a angústia que o levou ao suicídio. Em sua forma calma de viver, escondeu o conflito interior que acabou por mata-lo. Há um mistério nos suicidas que os sobreviventes nunca haverão de compreender.
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Visita

Uma brisa suave lembrava o sopro de coisas mortas em repouso, como lembrança da vida que ali tinha existido antigamente. De tão leve, era incapaz de levantar a poeira finíssima que quase cobria os móveis e os objetos de uma casa que um dia fora banhada de ventania. Depois, na calma que viera, nada se movia, apenas o pó suspenso pelo ar das frestas obscuras.

Nessas paragens quietas, insetos lembravam gotas d’água, viam-se nuvens construindo um céu de chumbo e a pouca luz montava a moldura de retratos improváveis. A sombra esmaecia restos sem brilho, breve claridade fria como o vento de um país gelado.

Lá, nessas paragens estranhas, uma criança crescia e olhava em sua volta, procurava enxergar além desse horizonte de chumbo e descansava a cabeça numa pedra escurecida. Como se fosse apenas um reflexo, uma réstia dessa luz perdida que se pode encontrar em paredes desenhadas pelo tempo.
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Perplexo

Provém do latim ‘perplexus’, formado com o prefixo reforçativo ‘per-‘ e o particípio passivo do verbo ‘plectere’, que significava tecer, enredar, dar muitas voltas, torcer. Chegou a nossa língua através do francês antigo ‘perplex’.
Diz-se que este termo é uma alusão metafórica ao fato de que a perplexidade é uma espécie de nó intelectual, como aquele sentido sugerido por ‘plectere’.
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Dylan


Retornando de um encontro com Dylan,

não percebi a chuva nem o vento que batiam

em todas as formas da cidade cinza.


Recordei suas palavras sobre a gênese das pirâmides,

as elucubrações sobre seu próprio corpo

e a sina dos que se drogam e se embriagam.


Mais tarde, trabalhando num computador,

mergulhei sobre a gênese das palavras,

o pensamento envolto em bruma, indecifrado.


Estamos num trajeto onde a chuva

obscurece o rumo e o vento é um chicote

a nos trazer de volta os elementos.


Recuso imaginar que tais caminhos

são caminhos sem retorno e sem saída.

Procuro em meu redor e mais além:


Velhas estradas, becos e atalhos

esquecidos e nunca imaginados

trazendo consigo assombrações.


Medos antigos tantas vezes visitados,

tantas vezes também compreendidos,

só compreendidos, nunca decifrados.


Estivemos tanta vezes juntos, eu e Dylan,

tantas vezes bêbados, incapazes,

tantas vezes assim emudecidos.


Pois mudos nos fizemos: era duro

falar sobre as coisas insensatas

tão próximas de nós constituídas.


Tantas vezes nos fizemos loucos

apenas para ver onde chegavam

a loucura, sua marca e fantasia.


O que vimos e fizemos, os cegos

nos diziam com seus cantos

que era impossível de compreender.


Eram cantos fanhosos, irritantes,

sobre fatos que os videntes

jamais teriam visto acontecer.


Nesta saga para nós tão suja,

tão confusa em nossas mentes,

tão cheia de percalços rudes.


Nesta saga de infâmia e de pobreza,

de miséria, engano e ódio,

de doença e de morte procurada.


Foi nesta saga que encontramos

o que nunca haveríamos de entender

sob manto de forma pressentida.


Neste enigma tão claro, silente

e calmo, sem filosofia, ausente

de qualquer sentido assimilado.


Desconhecemos tudo e tanta coisa

existe em petição de se saber

se vale a pena, simplesmente, ver.



Dylan mostrou-me algumas casas

de ópio. O silencio e o fumo

desenhavam suas formas na parede.


Ali nos assentamos e choramos

o pranto calmo dos desiludidos

em meio a fumaça, incenso, nostalgia.



Não percebemos a chuva que batia

nas paredes da cidade cinza.

Eu e Dylan, ambos tontos, em agonia.


E nos embriagamos. Bêbados nos vimos

tão próximos da dor e dela alimentando

os cães e os passarinhos.



Nunca imaginamos, nós, embriagados,

a alma imunda e dolorida,

que tanto nos iludiríamos.


Estivemos cuspindo todo o tempo

nas águas sujas de um rio

em que iríamos mergulhar.


Com tanta espera, enfim, nos dedicamos

a tecer o rumo das estrelas

e imaginar a direção dos ventos.

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Jardins

Comecei a contar os jardins do Porto: Serralves, Parque da Cidade, Palácio de Cristal, Jardim das Virtudes, Jardim Botânico, Parque de São Roque, Quinta do Covelo, Jardim de São Lázaro (o mais antigo). Desisti porque são inúmeros. Sem contar os jardins secretos e as praças públicas.

Na contramão das selvas de asfalto que existem ao redor do mundo e sufocam as cidades, o Porto fez opção contrária. Assim como o Portugal de hoje desafia as políticas de austeridade impostas pela União Europeia e vai muito bem, assim o Porto desafiou as imposições da arquitetura das megalópoles. E fez de si mesma uma cidade humana, coberta de flores e espaços verdejantes que a fazem linda, contemporânea, um belo lugar para se viver.
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Jardins
Comecei a contar os jardins do Porto: Serralves, Parque da
Cidade, Palácio de Cristal, Jardim das Virtudes, Jardim Botânico, Parque de São
Roque, Quinta do Covelo, Jardim de São Lázaro (o mais antigo). Desisti porque
são inúmeros. Sem contar os jardins secr...
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Gaivota
O grasnar intenso da gaivota atravessa as cores de uma
aurora vermelha acentuada de pincéis dourados. As águas do velho rio têm a cor
de chumbo emoldurando o tempo dos edifícios nas duas margens que se defrontam.
São duas cidades, uma de frente para a outra...
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Gaivota
O grasnar intenso da gaivota atravessa as cores de uma aurora vermelha acentuada de pincéis dourados. As águas do velho rio têm a cor de chumbo emoldurando o tempo dos edifícios nas duas margens que se defrontam. São duas cidades, uma de frente para a outra...
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Gaivota
O grasnar intenso da gaivota atravessa as cores de uma aurora vermelha acentuada de pincéis dourados. As águas do velho rio têm a cor de chumbo emoldurando o tempo dos edifícios nas duas margens que se defrontam. São duas cidades, uma de frente para a outra...
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