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Blog Celso Japiassu
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Dia a dia de Copacabana e outros universos
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O Bandolim

A música de um bandolim trouxe a poeira do tempo em que os sons misturavam-se a lembranças abandonadas. Meninos corriam contra o vento, espalhavam seus gritos pela chuva. Os olhos do poeta cego procuravam ouvir e compreender o que pudesse existir de beleza em volta. E de poesia, sim. Entender o que faz uma criança incorporar na alma o fascínio da chuva e o que há de mágico numa ventania.

Mulheres de negro sentavam-se às calçadas e olhavam apenas o passar do mundo. Pouco havia de sons além da música do bandolim que era tocado por um velho de cabeça baixa, pernas cruzadas e ele também perdido nas fímbrias do seu próprio tempo. As nuvens tangidas pelo vento traziam também o coro das tempestades que tornavam a paisagem vazia como a solidão dos mortos.

Nenhum de nós conseguia entender além daquela música mas sabíamos que algo existiria acima de todas as coisas, mesmo dos sons das notas espalhadas pelo espaço do tempo incompreensível. A distância e as emoções despertadas faziam pensar em algo que estava além, muito além do coro das crianças que corriam contra o vento desafiando o som, a beleza de um bandolim sob as nuvens aziagas do final de um dia.
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Noite

Aves mortas penetram no sono da criança. Ela se move entre os pequenos corpos imóveis de penas suaves agitadas pelo vento. Depois há um tigre com estrias vermelhas e olhos de fogo incandescente. A criança olha em torno e volta-se para o arco-íris colorido. Mais uma vez o vento se transforma na tempestade de tons negros, cinza e bordas escarlates.

As cores se transformam também nas sombras que avançam vindas do horizonte e toda a paisagem se move na direção de um lugar que não existe. Somente o pensamento aproxima esta paisagem da vida que vai nascer em algum lugar distante, úmido de chuva, sombrio como a noite das paragens frias.

E mais uma vez renasce o desejo de ver o voo dos pássaros inertes que atapetam o chão com penas movidas pelo vento. Os outros animais aproximam-se lentos, curiosos, amedrontados. Ignoram o significado de tudo, o chão de vidro assume a opacidade dos ventos e a criança, uma vez mais, tenta vencer o assomo de lágrimas intensas e da noite que nunca mais terminará.

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Ilha Vitória

O executivo da multinacional que me acompanhou durante dez dias bebia muito. Todos os expatriados que moravam na Nigéria, naquele tempo, bebiam muito. A paisagem era feia e confusa na imperfeita cidade de Lagos. No dia em que cheguei oito acusados de roubo foram fuzilados na quente manhã de sol, perto do hotel, numa praia da Ilha Vitória, que foi urbanizada no tempo dos ingleses. Vimos os condenados passar conduzidos na carroceria de um caminhão sinistro.

Durante muito tempo não consegui esquecer os rostos negros e tristes, o olhar perdido em algum ponto que não era ali, naquele lugar, a praia aonde foram conduzidos para serem mortos. O mais jovem era quase um menino, o jornal dizia que havia roubado um aparelho de som.

Na tarde do mesmo dia fomos para o aeroporto para embarcar em direção a Kaduna. O voo atrasou como sempre. Marcado para as duas da tarde, decolou às sete da noite. Passamos o tempo no bar miserável, lotado e barulhento. Quando embarcamos estávamos bêbados. Durante a viagem continuamos a beber de uma garrafa que trouxéramos na mala de mão. Alguns muçulmanos estenderam tapetes no corredor do avião e rezaram em direção a Meca. Conversamos sobre muitas coisas, bêbados mas no entanto conscientes. Não conseguimos falar daqueles que haviam sido fuzilados, naquela manhã, na praia da Ilha Vitória.

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Mudanças

A viagem de 11 horas atravessando o Atlântico a deixou inquieta, de mau humor, no desespero da prisão de uma caixa sem conforto. Miou seu protesto durante todo o voo até a chegada num aeroporto movimentado, ameaçador. Submeteu-se com paciência ao exame minucioso das autoridades e aguardou curiosa a apresentação dos certificados que atestavam a sua saúde. Para quem havia saído do clima do Rio em pleno calor de janeiro, não pareceu estranhar o frio intenso da cidade desconhecida.

Ocupou a nova casa, bem menor que a anterior, e percorreu cada canto enquanto a pequena cadela, silenciosa durante toda a viagem, a acompanhava com os olhos. Nos poucos dias de sol das primeiras semanas, procurava os raios filtrados pelas nuvens para fugir do frio do Norte de Portugal. Em breve, ambas sentiram-se à vontade, adaptadas a um país diferente.

Acostumou-se ao canto dos novos pássaros e às árvores que não eram mais as palmeiras que lhe fizeram companhia desde quando era um filhote ingênuo. Tornou-se amiga de uma oliveira plantada no pequeno jardim e passou a perseguir os insetos estranhos que habitam a nova paisagem. Ainda não lhe foi possível caçar uma das gaivotas do Rio Douro mas também não desistiu. Algum dia vai conseguir, pois a vida é assim - desafiante, trazendo consigo a permanente surpresa das emoções até então desconhecidas e que lhe dão significado e sentido.

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Aniversário

Quando nos conhecemos éramos muito jovens e cada um de nós pai de duas filhas. Egressos do jornalismo, trabalhávamos na mesma agência de publicidade, pois para quem era muito jovem, tinha família e precisava de dinheiro, a publicidade pagava melhor. Numa prolongada noite em um bar de Belo Horizonte selamos nossa amizade. Descobrimos que havíamos lido os mesmos livros, ouvido as mesmas músicas, gostávamos dos mesmos filmes e tínhamos a mesma visão do mundo.

Foi um encontro que durou mais de cinquenta anos. Perpassamos ideias, tivemos vitórias e fracassos, vivemos num país em que muitos amigos morreram na prisão sob tortura, algumas vezes nos separamos e tornamos a nos encontrar. Continuávamos a conversa interrompida. Ele, cristão. Eu, não tinha Deus como referência porque não recebi a graça da fé. Mas ambos acreditávamos na luta pela justiça social, na paz e no destino superior do homem.

Sua morte me fez pensar na passagem do tempo, no tempo cujo significado é a vida presente. O futuro é sempre o lugar em que estamos e o passado é feito de momentos mortos. Do passado restarão apenas a intensidade de alguns instantes vividos, o amor pela vida e uma antiga e boa amizade. Hoje, dia 15, era seu aniversário.
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Anna

Sua alegria deixava no entanto transparecer a tristeza que seus gestos largos, o riso aberto e a forma franca de falar não conseguiam esconder. Talvez nesses momentos ela se achasse mesmo feliz, pois assim representava, incapaz de uma palavra que pudesse desmentir aquela euforia diante dos acontecimentos da vida.

Assim ela era. Ou como os outros a viam. É mesmo difícil perceber quando há uma sombra no fundo do olhar enquanto a boca e o riso procuram acompanhar gestos largos mas aflitos. Sua voz era sempre alta, às vezes parecia expressar timidez, em outras transmitia o ligeiro tremor que perpassa as almas em desespero.

A maior lembrança da sua presença não me vem da felicidade em que todos acreditavam mas sim da melancolia, da desesperança que seus olhos transmitiam discretamente, sufocando o riso. Num dia muito claro, de muito sol sobre as praias do Rio de Janeiro, quando ela se matou, todos os que a conheciam se disseram chocados, surpreendidos pelo inesperado. Mas seu olhar sempre anunciara aquilo.
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Os mortos

Convivemos com nossos mortos. Lembrá-los é uma maneira de mantê-los vivos na nossa vida. A memória deles nos ajuda a evitar a despedida que sabemos eterna. Enquanto envelhecemos aumenta a quantidade dos amigos e dos mais próximos, amantes e conhecidos que partiram antes de nós. Teu pai morreu, teu avô também, em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte, nos lembra Drummond em seu poema de passagem de ano.

A dor da lembrança e dos instantes perdidos estará sempre conosco enquanto vamos a ficar cada vez mais sozinhos. A solidão da vida presente na lembrança dos nossos mortos. Eles vão nos acompanhar para sempre. De repente um rosto, uma gesto, uma palavra vai nos trazer a imagem de alguém que um dia nos acompanhou num breve espaço da nossa existência.

Aprendemos a lidar com a morte pela dificuldade de entender o amor e seu desejo de ser eterno enquanto sabemos pouco, muito pouco sobre a vida. Nada esperamos de paragens desconhecidas, de seus traços e da ausência que transporta consigo apenas a dor e seus contornos indefinidos.
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Trevas

As trevas são habitação do medo, às vezes se constroem no íntimo dos homens e obscurecem a visão das coisas do mundo. Existem porque são antípodas da luz, de paisagens primaveris, do odor da chuva sobre um campo ressecado, inútil. No vasto azul escondem-se nuvens macias, brancas, onde não existem temor ou ameaças sombrias.

Existem, sim, paragens desconhecidas onde talvez naveguem sentimentos, crenças na luminosidade da vida ao lado de enleios, relvas umedecidas por finos orvalhos noturnos. São estas as visões que desassombraram os videntes que fugiram do inferno em busca da poesia.

A noite mais uma vez se aproxima das cores do crepúsculo, as águas do rio cor de chumbo passam com pressa rumo ao mar onde irão confundir-se com tonalidades menos escuras. Não haverá que temer nem trevas nem as sombras invasoras do poente. Vagarosamente, o silêncio começa a dar sentido às coisas inúteis que são, elas sim, a imitação exata dos segredos que cercam tudo, até a vida, ela mesma.

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Um nome

Quase não falo. Trago presos
o peso das palavras e a mudez
diante do que é transitório.

A vida vale pelos precipícios,
pela morte, por seus labirintos,
pelos seus formatos perecíveis.

Dor é a dor dos oprimidos
e não a dor dos corações partidos
e não a dor do soco do inimigo.

É mais a dor do fundo das feridas,
a cicatriz das almas humilhadas,
o olhar para trás dos fugitivos.

O silêncio em que se debruçam
as marcas da nossa fome
e o seu desejo calado.

As suas assombrações,
o seu delírio, a febre
enlouquecida das sezões.

Tudo junto na memória
das coisas construídas
à margem do pensamento.

E sei que esta melodia,
estes sons desencontrados,
repetem o mesmo tema:

homem, lembra o teu nome,
não esqueças o teu nome
não te esqueças do teu nome.

Pois a lembrança se parte
quebrando-se nas muralhas
de ódio e de esquecimento.

Escreve-se no teu rosto,
na palma de tuas mãos,
por toda a tua lembrança.

Por que não se nasce sem nome?
Não se morre sem ter nome?
É esta a vida do homem.

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As brancas

Doka, velho boêmio, aconselhava a tomar cuidado com as brancas. Referia-se a gin, vodka, tequila, todas as aguardentes que à distância pareçam água. Elas são perigosas, dizia, porque a embriaguês que provocam muitas vezes se confunde com a loucura.

Doka foi dono de um bar que sofreu a intervenção da família, pois era também o seu maior cliente e estava falindo a casa. Posto fora do balcão, foi obrigado a pagar pelo que bebia.

Quando se inscreveu nos AA, dizia que sua força de vontade prevalecera. Era capaz de sentir desprezo por qualquer bebida, só o cheiro de cachaça o perturbava, a ponto de sonhar todas as noites com um cálice cheio dela, transparente e branca. O cheiro que sentia lhe penetrava e o fazia perder o sono.


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