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André Dias
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Da vida nua à potência destituinte: o projeto ‘Homo sacer’ de Giorgio Agamben» tinyurl.com/pt2ymv8
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Há por acaso alguma alma caridosa em Lisboa que tenha esta coisa à mão de semear?

Um dia restará em mim apenas o bloco mais denso – a indomável violência – que me impede o pudor e resiste desde sempre ao apagamento (e apenas os ramos ásperos da árvore despida que vive em frente me dão uma certa esperança; aspiro porventura à sua digna solidão, eu que acredito na noite, vista de uma janela), escrevi eu outrora... Entretanto, noite passada, o descuido dos obreiros abateu a árvore que estava frondosa quando deixou, assim, de viver em frente. Pode dizer-se que nem o tempo mudo para lá de uma vida humana nem a força germinadora sobrevivem ao seu mero encolher de ombros.

Ainda não ia a meio da viagem de comboio, já tinha gasto todas as palavras a escrever e me penitenciava pela estúpida arrogância de ter saído à rua sem as de outrem enfiadas no bolso. Que remédio senão pousar os olhos na paisagem meio apodrecida, meio abandonada, dos descampados suburbanos verdadeira cor do país, flora esbatida tomada de ervas daninhas e restos de cimento amontoados, que bem mereciam o seu poeta redentor. Não pergunto o porquê de tanta feiura. Tanto pó, poeira, humidade a sombrear os muros, paredes mal erguidas, desenvoltos grafitis, tudo traços desesperados da passagem impostora do tempo, da sedimentação muda das experiências, do emparedamento das vidas.

A distribuição dos horários, apercebo-me pouco a pouco pela sua inscrição na minha pele preguiçosa mal habituada sequer a distinguir o dia da noite, é poderosa indutora de estados de alma. Submeto-me agora à sua constância, ao império destes mecanismos reguladores arbitrários: ao sábado, um imenso torpor, um ofegar como se de retardar o último suspiro se tratasse, o cansaço de um corpo acabado de retirar do lodo profundo e cujo sono nem de reparador serve; sábado pela noitinha, reunião desagradável dos picos da exaustão e da melancolia; aos domingos pela hora de almoço emerge aquela metafísica exigente e impaciente, sexual também, já ansiosa com a procissão dos trabalhos a começar; resto da semana com o andamento de um trabalho apesar de tudo doce, provavelmente inútil e interminável, que me serve de quimera e cega os dias; até de novo essa sexta-feira de pânico madrugador, entre paisagens escurecidas atravessadas pelo nevoeiro da viagem de autocarro, mais que justo castigo para quem se arroga levantar a voz em público, a professorar. Esta rotina desesperante certamente só agora tão bem se me dá a ver porque coincide com o ciclo social maioritário. A pergunta que faço é então porque não se deram ainda revoluções assentes nesta pútrida coincidência? Imagem da fraca força dos estados de alma.

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