▄▀▄▀▄   ❝Diálogos❞  ▄▀▄▀▄ 
Olá, amigos leitores/escritores. Vamos dialogar na ❝Diálogos❞? A entrevista hoje é excepcional, devido a meus contratempos. Entrevistei o escritor carioca António Corvo, o mais experiente com o ramo, entre os entrevistados, que conheci por intermédio do poeta e publicitário +Jean Carlo Barusso. António é doutor em Literatura Comparada Medieval e tem graduação em Comunicação Social, é escritor profissional de prosa e poesia. Com um realismo niilista e de opiniões contundentes, sua entrevista me chamou tanto a atenção que resolvi publicá-la sem cortes ou edições.

Introito

Nasci há menos de um século, mas já se vão mais de trinta invernos. Conto os invernos porque é a estação de que mais gosto e em que nasci. Moro literariamente na Ilha do Corvo, em Açores, a menor ilha habitada do mundo. Se não for, gosto de imagina que seja, simpatizo com ela. Não tem mais de quatrocentos habitantes, é isolada, pacata... Homens não são como ilhas, mas podem viver nelas e, assim, passam a sê-lo também. Por uma total implicância do destino, nasci e moro onde não quero, não gosto e não tenho a menor afinidade. Se fosse de outra forma, talvez não fosse escritor. O que hoje em dia nem vejo mais como uma lástima... Sou formado em Comunicação Social, fiz dois períodos de Museologia, depois me formei em Letras onde fui até o Doutorado em Literatura Comparada Medieval. O normal seria errar somente uma vez, fiz questão de fazê-lo três vezes. Penso em fazer psicologia, mas hoje, não sei se me adiantaria de alguma coisa: sou misantropo, cínico filosoficamente falando, niilista e iconoclasta. Que adiantaria saber o que se passa na cabeça das pessoas se não me interessaria em nada o que lhes passa à cabeça? Minha ocupação é ser escritor, o que faz de mim um vira-lata sem ocupação porque não tenho contratos com editoras nem com jornais ou revistas. Lembra do destino citado acima? Pois é. Acho que escrevo bem, o que faço mal é lidar com as pessoas. Ninguém gosta de ouvir verdades. Andar na contramão assusta: porque correr o risco de colidir? No entanto, dou aulas particulares e oficinas de escrita criativa para conseguir o pão de cada dia, muitas vezes amassado pelo diabo. Não tenho projetos. Meu projeto é escrever e publicar. Meu projeto de vida é continuar sobrevivendo como dá no mundo de hoje, que não é mais para mim, não o reconheço como meu. O mundo de hoje é para os jovens, não faço a menor questão de estar incluído nele. Mas, se você quiser um projeto literário, eu tenho um: escrever um grande romance surrealista. Pode ser até baseado na minha vida sem que ninguém saiba, já que minha vida não faz o menor sentido. E eu sequer uso drogas! Hobby... Sou colecionista, gosto de miniaturas e dioramas. Pode ser a necessidade de regular um mundo próprio, de ver nas figuras as minhas personalidades. Não sou esquizofrênico, sofro de Ego Pontifex, psicanálise Szondiana. Lia muita, adorava ler. Depois acho que preenchi minha cota. No bom português, enchi o saco de leitura e de literatura. Sabe o príncipe da Cássia Eller, aquele que virou um chato e vive dando no saco? Pois é, eu ando na mesma contramão, só que na literatura. Não só na literatura, mas isso é para uma outra conversa. Talvez seja por causa dos rumos tomados pela literatura contemporânea, talvez pelo grande teatro editorial brasileiro. Ou, quem sabe, os “ídolos”, para mim, já caíram de suas colunas de marfim há muito tempo. Eu acho que já mencionei: ando na contramão. Etc? Emil Ciorán, Dr. House, Frankenstein, Mallarmé e Síndrome Metabólica. 

Pessoalidade (10 perguntas)
1º) Quando e através de quê a sua pessoa despertou-se para a arte da escrita?

Escrever foi o ponto culminante de uma vida inteira voltada para a expressão do sentimento através da arte. Dizem que a vocação é de berço, e vai se manifestando aos poucos. Se for assim, sou um exemplo claro dessa teoria. Percorri muitas estradas: o desenho, a pintura, o teatro, a televisão e o rádio. Era necessário expor, falar, traduzir, mostrar. Mas a escrita começou a falar mais forte, e o que era atuação, virou dramaturgia. O que era desenho e pintura, se transformou em enredo. E, quando vi, minha graduação em comunicação social tornou-se meu primeiro insight, minha primeira impressão de que, sim, a trajetória era a da arte, mas pela escrita, pela palavra. Depois, quando vi, já estava cursando Letras e as poesias latina e medieval me conquistaram de vez para os versos e, verdade seja dita, Grande Sertão: Veredas me arrebatou para a literatura fantástica em prosa.

Mas, se eu pudesse precisar um momento em que algo dentro de mim nasceu para a arte da escrita, diria que foi ainda em Comunicação Social, Faculdades Integradas Helio Alonso, na disciplina Comunicação e Expressão, de cuja professora esqueço o nome. O exame final dessa matéria era uma êcfrase de um quadro de Andrea Mantegna, “O Calvário”. Na época não sabíamos o que era uma êcfrase, apesar de ser esse o exercício. Tirei 10 no trabalho, mas ele não sobreviveu ao tempo, como Mantegna.

2º) Dentro das categorias e estilos clássicos do jornalismo, da filosofia ou da literatura, você acha que se identifica mais com qual? Enquanto escritor(a), como você se define ou se apresenta aos leitores? Qual é seu objetivo com a escrita?

Não acredito em nenhum estilo, não os considero puros. Nem mesmo as chamadas escolas literárias conseguem suprir essa demanda ideológica do que seja um “estilo”. Há, naturalmente, conjuntos de traços que se distinguem, mas dificilmente a mente humana consegue esse isolamento e essa pureza estilística. Tudo é releitura, mas a essência está lá. Talvez, falando de filosofia, no fundo tudo se resuma à “poiesis” grega, e a sua construção se diferencia através dos tempos. Mas, ainda que seja para fins didáticos, vamos considerar os estilos. Me apresento como escritor e me enquadraria como poeta. Tenho um romance em prosa, no “estilo” medieval, mas é mais uma metaficção que simula uma literatura medieval. Mas, bem, deixemos um pouco de mistério sobre o livro também, que se chama O Romance do Horto: ou de como D. Tadeu Laras Menestrel ajudou D. Alberto Raposo Monge a encontrar o autor do Orto do Esposo, bem como seu manuscrito original perdido e a identidade da Irmã que lho encomendara. Para uma metaficção medieval, um subtítulo bem ao gosto dos medievais. Se sou romancista? Sou mais poeta. Os dois. Modernista? Pós-modernista? Às vezes faço rima, às vezes os versos são livres.. Sou mesmo é escritor, o que ditam as musas é o que vai ao papel.
Meu objetivo com a escrita... Tantos já responderam, ou tentaram... É meio instintivo, meio inevitável, como respirar. Por que respiramos? Para não morrermos, sim, mas escolhemos respirar?

3º) Em que/quem se inspira? Quem são seus autores-referências preferidos?

Definitivamente a literatura clássica e medieval me inspiraram tanto na prosa quanto na poesia. Essa é a minha base. Depois, Guimarães Rosa, Edgar Allan Poe, Rubião, Augusto dos Anjos, Rimbaud, Veríssimo, Cruz e Souza, Clarice... É difícil citar. Acredito que o que a literatura clássica, a latina principalmente, despertou em mim acabou buscando, em tempos modernos, ecos daquela fase. Com a literatura medieval também deu-se a mesma coisa: despertou em mim uma tendência (mas não um estilo) que procurei seguir e que, mais tarde, somando à filosofia existencialista e niilista, fez de mim o autor que sou. De forma que foi muito mais o sentido inverso: meus autores-referência foram encontrados pelo meu “estilo” (talvez não seja mesmo possível fugir daquilo em que não se acredita...).

De onde vem a inspiração? Não sei, ela vem. Gosto do gótico, do sombrio, mas não do macabro. Gosto daquelas tintas de Álvares de Azevedo e do tempero barroco de luz e sombras. Gosto de caminhar na beira do precipício, no limiar do que é e do que não é real. Talvez minha inspiração seja a realidade que enxergo no mundo. Mas o que poderia dizer com uma certeza maior – mas ainda assim incerteza – é que a inspiração me assalta sem aviso e, quando é assim, é melhor fazer o que ela quer.

4º) Ser escrevente é ser plural. Mas bem se sabe que em cada autor subsiste um tema dominante, recorrente em sua produção. Que tema prevalece na sua?

Em minha obra poética flerto constantemente com a morte, com a loucura, com a irrealidade, com a noite, com o medo e, muitas vezes, com o sublime dessa temática. Na prosa, procuro dar vida ao impossível, ao fantástico, ao extraordinário. São temas afins e que se cruzam, e é do que sou feito, pelo menos como autor.

5º) Pode nos narrar como começa e termina seu processo de redação? De qual forma ele lhe ocorre?

Posso, mas talvez ele desaponte um pouco o leitor. Eu “vejo” um verso pronto, às vezes, uma estrofe. Não me pergunte de onde ele vem, ele simplesmente aparece. Se há algum gatilho que detone essa visão, não me é consciente. O verso vem, o tema surge, como um fantasma. Como veem, até a inspiração está ligada à temática. Mas não vem tudo, vem um pouco. De posse desses poucos versos, passo à tarefa do escritor propriamente dita: desenvolver o tema, encontrar as palavras, as rimas ou não, trabalhar o que foi sentido. Aos meus alunos e em minhas oficinas eu sempre digo que há dois momentos da escrita. O primeiro é aquele em que temos a ideia, a inspiração, a emoção e derramamos tudo isso no papel, às vezes, de qualquer jeito. Depois vem esse momento que já descrevi, o momento da lapidação, do ofício do escritor como tal, que é escrever, escolher, cortar, mudar, inverter, criar, mas tudo em cima daquela matéria prima dada sabe Deus por quem.

6º) Qual é o seu maior e vital componente motivador?

É desconhecido para mim. Não sei o que me motiva. Talvez uma satisfação muito solitária e silenciosa. É como aplacar uma ânsia, uma necessidade. “Vital” talvez seja exatamente a palavra. Não sei o que aconteceria se não desse vazão ao impulso de escrever. Pode ser por autoconhecimento e, se for assim, talvez chegue o dia em que não seja mais necessário saber nada sobre mim, a ilusão de que sei o suficiente talvez me baste. De qualquer forma é algo que não conheço, que não controlo e que, a bem da verdade, é melhor que seja assim.

7º) Já aconteceu algum fato inusitado, engraçado, curioso, sinistro na sua caminhada de autor(a)? Pode nos contar?

Estive na Bienal do Livro do Rio de Janeiro em 2013. Aluguei um stand próprio e divulguei O Romance do Horto e Lepidopterophobia e vendi quase todos os romances e todos os de poesia. É muito difícil, ainda mais numa bienal, as pessoas visitarem o corredor dos escritores independentes. Afinal, estamos literalmente numa feira de moda e todo mundo quer ver a alta costura. Então criei uma estratégia para ser notado: levei meu bico de pena e minha pena (de ave mesmo), um potinho de tinta e papel, e ia criando poesias à tinta de pena durante o evento. Como já não existem escritores de bico de pena literalmente, isso chamou muito a atenção, principalmente de jovens e crianças que nunca tinham visto aquilo senão em filmes. Muita gente escreveu com a pena, muitos grupos de escolas, foi fantástico! Uma experiência inesquecível. Conheci muita gente, escrevi muita poesia e acho que muita gente ficou feliz naqueles dias tendo essa experiência. Disse que foi uma estratégia, mas não foi nada artificial, eu realmente escrevo com bico de pena e gosto muito! Tenho três penas e vários calibres de bicos, então, apesar de ser uma estratégia para ser visto, um diferencial, foi algo genuíno. Acho que isso passa para o público, essa sinceridade. Esse ano, apesar de ter mais três livros de poesias prontos para serem publicados, não estarei na Bienal. É caro e decidi que não vou mais publicar em sistema de demanda, onde tenho que pagar. Como escritor, acredito que já tenha passado dessa fase e é preciso investir e insistir no próximo patamar: a publicação integral por uma editora.

8º) Como e quando lhe surgiu a iniciativa de criar seu espaço virtual? Nos fale um pouco da sua relação com seus seguidores/leitores e da rotatividade de conteúdos lá dentro.

Tive a ideia de criar meu blog e minha fanpage quando percebi que amigos são péssimos leitores. Com raras exceções, todos eles estarão muito dispostos a comprar e a ler seus textos, mas, com o tempo, comprova-se que essa paixão por literatura, e pela sua literatura, nada mais é do que amizade. Com exceções, que fique bem claro. Sendo assim, vi que precisava expandir. Era preciso ir, como diz a música, onde o povo está. E o povo hoje está nas redes sociais. A partir daí foi um trabalho exaustivo de tornar-me visível. Entrei em vários grupos literários e de poesia e, em cada um deles, sempre que surgia um novo poema, eu a publicava. As curtidas foram espontâneas, quem gostava, gostava de verdade, afinal, nem me conheciam. E isso me deu certa visibilidade. Hoje tenho poucos seguidores (acho que uns 100) e 3500 curtidas. É muito pouco em comparação com tantos outros escritores, publicados ou não, nas redes sociais. Mas eu acredito que, além do talento – e, sim, ele pode vencer – há também toda um questão de popularidade na rede. Não tenho a política no sangue, não sou aquela pessoa festiva, com um milhão de amigos, e minha poesia não é feliz, não é clara, não é límpida, de forma que considero muito os poucos retornos que tenho, porque são de leitores que realmente estão sintonizados com a minha obra. Que eu jamais me torne modinha, estarei morto como autor nesse dia.

Publico sempre que posso. Atualmente tenho publicado pouco, é muito cansativo, acho que são uns 200 grupos, a internet é lenta... E, sinceramente, redes sociais me cansam. Por mais que eu a use para trabalho e divulgação, há muito “ruído” que somos obrigados a ver, e eu simplesmente não tenho mais paciência para a opinião alheia sobre todo tipo de assunto. Não me interessa em nada o que os outros pensam. E, normalmente, pensam com violência. É impressionante com as pessoas são violentas por trás dos teclados com as coisas mais banais. Facebook, apesar de útil, não é um bom ambiente, não gosto. E é por isso que eu jamais terei um milhão de likes e, honestamente, nem quero, não a esse preço. E nem sei também hoje, com muita clareza, se é tão necessário assim ser lido.  É bom, claro, ser lido, e é bom, sim, receber boas críticas. Mas a literatura, para mim, já se tornou tão íntima, tão pessoal... já sou parte daquele processo artístico dolorido, em que um pintor, por exemplo, dá quase sua vida por um quadro, se extenua, se debate e não está depois  muito preocupado com que fim terá aquela obra. Se vendê-la, claro, ótimo! Mas o que era necessário, urgente e preciso já fora feito: a criação, o expurgo, a arte.

Me identifico muito mais com a arte nos tempos em que não havia redes sociais, de criação de gostos e mentalidades perigosos e questionáveis. Mesmo assim, procuro atender a todos os leitores que me pedem uma orientação num texto, uma opinião, uma leitura quando tenho tempo. E paciência. Não com eles, mas com a rede. Estou mais para William Forrester do que para Eu Me Chamo Antônio.

9º) Por que o g+? Onde você está nas outras redes sociais?

Estou no facebook (facebook.com/ailhadocorvo efacebook.com/antonio.corvo.escritor e no blogger ailhadocorvo.blogspot.com O g+ surgiu meio por acaso, eu nem mesmo o uso. Algumas pessoas me adicionaram a seus círculos, mas eu praticamente não o frequento. Estou participando desse seu projeto por indicação de um leitor meu no facebook, e também escritor. Se não fosse por isso, talvez não tomasse conhecimento do “Diálogos”. Como eu disse, não gosto de redes sociais, me penitencio à uma única por questão de sobrevivência literária e, mesmo assim, já é um conceito com o qual não concordo mais tanto assim.

10º) Atualmente, quais são seus maiores desafios, obstáculos, dificuldades para a carreira? O que lhe desanima? Onde pretende chegar?

Acho que a maior dificuldade é o descaso que as editoras têm com a poesia. Não se publica poesia, já ouvi muito  isso de várias editoras. Para as editoras que trabalham sob demanda e que cobram do autor a publicação dos seus trabalhos parcial ou integralmente, a história é outra. Mas ninguém quer bancar sua própria publicação para sempre. Considero que esse seja um degrau necessário, uma experiência pela qual todo escritor iniciante deve passar. Depois acredito que o caminho, por mais difícil que seja, deva ser o da publicação por editoras grandes, ou até pequenas, mas que invistam na produção e, principalmente, na distribuição do livro. Sabemos que há caminhos pelos quais só alguns podem passar, mas isso são outros quinhentos...

Isso me desanima um pouco. Não faço tanta questão da fama propriamente dita. Literatura no Brasil é algo extremamente complicado. A equação entre o que é vendável e o que não é, o que é divulgado e o que não é, a relação com formadores de opinião, tendências de mercado, temas que estão em moda... Mas fazia questão de ser publicado, sim. O Romance do Horto, publicado pela Annablume Literária e Lepidopterophobia, pela Multifoco, apesar de publicados não tiveram a divulgação devida, devido à equação de que falei, e também a da crise econômica em geral. Fala-se muito, há tempos, de uma crise editorial. Me parece bastante conveniente. Não se poupa dinheiro para publicar “best sellers" e qualquer coisa que estiver na moda. Veja por exemplo o atual caso dos livros para colorir para adultos. As livrarias estão com pilhas desse tipo de livro espalhadas por suas estantes. Crise? Será que são porque são livros em preto e branco? Bem, a literatura também é, excetuando-se os livros ilustrados. Particularmente creio que qualquer coisa – com conteúdo e qualidade, naturalmente, apesar de... – pode dar retorno a uma editora se houver a devida publicação. O mercado literário no Brasil sofre de tendências equivocadas. Mesmo os bons livros que ainda se publicam de autores nacionais, ainda que recebam meias páginas em cadernos literários de jornais de grande circulação e sejam citados em programas de entrevista têm vida curta. Acabam entrando para um mundinho próprio, é sensação entre outros escritores. A FliP e a Bienal no Livro são exemplos claros de que o Brasil lê o que está na vitrine. Mesmo que ainda se publique o que não irá para a vitrine. Mas não sei, nesse caso, qual é o fiel da balança que torna publicável ou não uma obra.

Pretendo apenas ser publicado e, se possível, lido. Não quero cânone, tenho horror até mesmo à palavra. Já passei da fase de venerar a fama, não é isso, é pela arte, entende? Recebo em minha página depoimentos, alguns até emocionados, do impacto que minhas poesias têm sobre os leitores. Não todos, mas muitos. Muita gente me pergunta pelos livros, se já estão em livrarias. Já fui solicitado em várias cidades do Brasil e recentemente até em Angola. Já tive poemas lidos por rádios portuguesas, na cidade de Faro, enfim, acredito que tenha alguma qualidade. Muito mais pelo retorno que recebo do que por minha própria autocrítica. Para mim, seria ótimo ver a minha literatura fazendo parte da vida das pessoas, independente de prêmios literários. Mas as editoras brasileiras ainda sofrem de modismos, relacionamentos, contatos... Eu poderia citar poetas publicados por editoras que, declaradamente, em seus sites, dizem não publicar poesia. São até bons trabalhos e muito bons poetas, mas, se as editoras não publicam esse tipo de literatura, o que está acontecendo? O que aconteceu com a arte desde que desenhamos o contorno de nossas mãos em Lascaux: há pinturas rupestres mais ”pictóricas” que outras...

Paráfrase (5 perguntas)

Obs: Fiquei um pouco receoso com essa parte da entrevista. Como eu disse antes, já não entendo os “grandes nomes” como tal, muito menos o que foi dito ou escrito por eles como grandes parâmetros. Não me refiro, claro, à qualidade literária. O próprio Machado de Assis, que acho insuportável, é, indubitavelmente, um excelente escritor. Mesmo assim, acho que o clichê já está gasto. Tenho uma diarista que trabalha na casa da minha mãe que já disse coisas muito mais interessantes e inteligentes, com a maior das simplicidades, do que muitos desses renomados, e duvido muito que alguma editora um dia a publicasse. A não ser, é claro, se ela fosse popularíssima numa rede social, que é uma grande pasta azeda de costumes pasteurizados. Tenho medo de renomados, tenho mesmo asco do cânone. Quem faz o cânone? E não é só na literatura. A arte canônica é perversa, ou perversos são aqueles que resolveram canonizar alguma coisa. Mas, enfim, vamos ver o que se pode fazer com todos esses grandes nomes da literatura...

1º) "Escrever é a própria essência, é contá-la toda, o bem e o mal. Tal faço eu, à medida que me vai lembrando e convindo à construção ou reconstrução de mim mesmo"? (Machado de Assis)

Não sei, nunca pensei nisso. Parece uma frase pronta, daquelas que a gente usa pra contracapa de livro junto com aquela foto com a mão no queixo, expressão séria e olhar para o nada. Não sei o que é escrever, não sei se conta a própria essência, o bem o mal... Me parece uma ideia meio arrogante, megalômana... Construção ou reconstrução de mim mesmo? Eu achava que esse tipo de frase era um chavão de pós-graduação de Letras e que, na falta do que dizer, pretendia dizer alguma coisa, continuando sem dizer nada. Acho que a definição de escrever é dada por cada um que escreve, é particular, essencialmente particular. Eu poderia falar academicamente sobre a questão da incompletude autoral se completar com a leitura e a (res)significação daquela leitura pelo leitor. Mas aí plagiar o clichê. Se escrever, para Machado, era o que ele afirmou ser, que seja. Para outros, não faço ideia.

2º) "O teatro, que nada pode para corrigir os costumes, muito pode para mudá-los"? (Jean-Jacques Rousseau)

Aqui o bom selvagem ou se enganou se acreditava no que disse ou gostava de uma frase de efeito que nada muda sequer corrige. Se o teatro não pode corrigir costumes, como pode mudá-los? Pode ser desinteligência minha, mas não sei até que ponto corrigir está longe de mudar... Ah, ele estava sendo irônico, claro! Aí sim, como bom irônico e debochado que sou, concordo com ele. Não sou autoridade para falar de teatro, apesar de ter estudado o teatro antigo e o medieval para saber que ele não forma costumes, mas os reproduz. Reproduz e traz à tona o que é só tácito em nossas culturas. Ou seja, o teatro é um soco na boca do estômago. E nem assim a gente se toca... Não acho que o teatro mude nada. Se mudasse, não seríamos os mesmos desde Aristófanes. Ah, sim, esqueci-me, era ironia de Rousseau.

3º) "Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas, é de poesia que estão falando”? (Manoel de Barros)

Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas é sinal de que algo vai muito mal com a natureza ou a droga, lícita ou ilícita, é muito boa! A frase não podia ser de outro escritor que não o poeta da natureza, dos riachos, das formigas, da fazenda, Seu Manoel de Barros, por que, aliás, nutro certa simpatia. Certa. Penso que, se há poesia em diálogos entre animais e minerais, quem a identifica e sobre ela escreve é o autor. A poesia não é, ela está, e pode estar até em beija-flores indagando pedregulhos sobre o clima se alguém assim o vir, nada contra. E Manoel via isso muito bem. Agora, se o conteúdo da conversa é poético? Se o autor assim quiser, será, sem dúvida.
 
4º) "O que pode um poeta sem o sofrimento? O poeta precisa de sofrimento tanto quanto de sua máquina de escrever”? (Charles Bukowski)

Essa é a visão particular de Bukowsky. Quem conhece sua biografia ou sua vida – dá quase no mesmo – sabe que, para ele, ou era o sofrimento ou não era nada. Para ele, sim, o poeta precisa ser um desgraçado vagabundo e viver na merda existencial tanto quanto precisa de sua máquina de escrever, ou de seu notebook. Havendo isso, o poeta pode muito! Não conheço poesia feliz ou dessofrida. Pode não ser um sofrimento intenso, de sarjeta, como era o de Bukowsky, mas, no mínimo, alguma melancolia, alguma saudade, mesmo branda e sublime, há de existir. Por mais bela que seja, a poesia tem algo de “eu queria que fosse assim” nela. Acho. Não conheço toda a poesia mundial. Sei que há elegias, poesias eróticas, de devoção, de amor, sonetos... O sofrimento, em qualquer nível ou dose (dose é uma palavra que Bukowsky preferiria), está presente, basta procurar. Ele é mais fácil de achar do que o diálogo entre rãs e água ou entre a completude maniqueísta reclamada por Machado. De Bukowsky não tenho tanto receio, talvez porque seja um poeta maldito, como se diz. Não gosto do estilo, apesar de ser um estilo honesto, forte, genuíno e que incomoda. Respeito isso. Bukowsky é o nome de um bar / boite aqui no Rio de Janeiro. Disso sim tenho receio, dessas homenagens póstumas a quem, em vida, não teve o menor respeito como escritor. A modinha pós-morte é sempre mais fácil. Difícil mesmo é publicar o repulsivo.

5º) "A literatura é essencialmente solidão. Escreve-se em solidão, lê-se em solidão e, apesar de tudo, o ato de leitura permite uma comunicação entre dois seres humanos"? (Paul Auster)

Não conheço nada de Auster e não vou ao Google procurar alguma coisa sobre ele. Mas, de fato, a literatura é solitária, pelo menos entendo-a eu assim. Se permite uma comunicação entre dois seres humanos? Aí já ficou profundo demais, já beliscou o academicismo literário... Eu acredito mais numa identificação entre leitor e obra, não entre leitor e autor. Se é que os dois seres humanos de quem Auster fala são o autor e o leitor. Se a identificação é uma comunicação... Quais são os contornos que definem, aproximam ou separam o autor ou o leitor do ser humano? Acredito da solidão. A coisa toda em torno da comunicação entre dois seres humanos deixo para a filosofia e para a teoria da literatura perderem tempo.

Uma Deixa
Escolhas são difíceis, que o diga Sofia. Sou tão bom nisso quanto sou em sumério pré-dinástico. Talvez ainda seja melhor em sumério pré-dinástico... Deixo então uma poesia recente, do meu livro Nautilus. Depois, deixo um trecho muito pequeno do meu romance, O Romance do Horto. Se couberem as duas deixas, muito bem. Senão retribuo o fardo da escolha para o entrevistador.

“Pode ser o seu cabelo que me cobre
Ou pode ser a noite que me dorme
Essa escuridão...

Pode ser o beijo que me ama
Ou pode ser o sono que me cama
Esse torpor...

Pode ser vigília embriagada
Ou pode ser o sonho à madrugada
Essa visão...

Pode não ser o seu espectro
O vulto que me espia de perto

Mas bem que podia ser...”


(...)
Espere um pouco. Você não devia sequer estar aqui! Quando Édipo solucionara o seu enigma pela primeira vez, você se lançou no precipício e morreu. Mais ou menos isso, menestrel, respondeu a esfinge, e continuou. Veja, Sófocles, ao fazer-me cair no abismo, esqueceu-se de um fato óbvio: eu tenho asas! Agora, pergunto-te: se tu tivesses asas e te jogasses em algum precipício, não as baterias instintivamente? Bem, acho que sim, pensou D. Tadeu. Pois aí está! Achas mesmo que eu, tendo asas, me deixaria cair de um precipício? Os boatos foram exagerados. Joguei-me, é verdade, mas utilizei-me do que o próprio Sófocles me deu: asas! Ele estava de mãos atadas! Além disso, D. Tadeu, era tudo teatro! Puro drama! Que dizer?, sou uma boa atriz. D. Tadeu teve que dar-lhe razão, fazia todo o sentido: como um animal alado poderia morrer saltando de um precipício? Ficaram os dois em silêncio por algum tempo, até que D. Tadeu, não resistindo, perguntou-lhe: quem escova os seus cabelos? Quê? Quem escova seus cabelos? Suas patas são muito grandes e desajeitadas para segurarem uma escova ou um espelho, além disso, elas não lhe chegam às costas. Às vezes peço para me ajudarem, de preferência às moças. Pois, disse D. Tadeu meio desajeitado, afinal, nunca se despedira de uma esfinge, estou indo para Alcobaça, se me quiser fazer companhia... Não é necessário, de fato, faria muito gosto, sinto que já não há mais lugar neste mundo para velhos mitos como eu...
(...)
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